EUA apontam dedo acusador para a China. Finalmente!

21 de novembro de 2011 § 2 Comentários

Matéria assinada por Robert Kuttner para o Huffington Post de hoje põe, finalmente, o dedo na ferida onde se origina toda a crise em que se debate o Ocidente, como tantas vezes tem sido lembrado aqui no Vespeiro.

O autor avalia o relatório anual da Comissão de Avaliação de Segurança e Relações Econômicas China-Estados Unidos do Congresso americano, uma comissão bi-partidária de 12 membros, seis de cada partido, que faz “um dos poucos diagnósticos do problema nacional em que (pelo menos os membros) republicanos e democratas (desta comissão) concordam totalmente“.

Embora a administração Obama não esteja fazendo nada de sério para enfrentar a crescente ameaça que a China representa para os fundamentos da economia americana, essa ameaça foi, pela primeira vez, descrita sem meias palavras num documento oficial do governo que deveria ser leitura obrigatória para todos os cidadãos americanos“.

São estas as principais conclusões do relatório:

  • a China é um estado mercantilista e autoritário que está determinado a se apropriar não apenas dos empregos mas também da mais avançada tecnologia norte-americana pelo uso dos expedientes de suprimir direitos dos trabalhadores e promover acordos com empresas dos Estados Unidos que incluem chamarizes para o lucro fácil (salários reduzidos e subsídios do Estado) e imposições ilegais (a obrigação de se compor com sócios locais e transferir-lhes tecnologias para fazer negócios dentro da China), acrescentados da obrigação de produzir principalmente para reexportar para o mercado norte-americano e não para vender dentro da China;
  • a maioria das empresas americanas se compraz em fazer esses acordos o que as transforma em aliadas do lobby chinês dentro dos Estados Unidos. Enquanto o governo faz queixas tímidas com relação à desvalorização artificial da moeda chinesa, as corporações que exportam trabalho para a China adoram essa situação porque ela aumenta seus lucros no território nacional com produtos reexportados de lá;
  • a Câmara Americana de Comércio que combate as políticas industriais domésticas faz um lobby pesado contra qualquer pressão mais forte de Washington contra a ação mercantilista de Pequim; a administração Obama ensaia tímidos gestos militares (junto aos países no raio de influência geográfica da China) e assina tratados de livre comércio com países menores, mas não ousa contestar as barganhas entre as grandes corporações americanas e a China nem as práticas ilegais daquele país;
  • o déficit nas trocas entre a China e os Estados Unidos continua a aumentar especialmente nos setores de alta tecnologia. A China vendeu aos Estados Unidos US$ 81 bilhões em produtos de alta tecnologia nos 12 meses encerrados em agosto e comprou apenas US$ 13,4 . O déficit comercial total com a China chegou ao numero recorde de US$ 273 bilhões, mais da metade do déficit comercial total dos Estados Unidos. Em meados de 2011 o superávit comercial total da China, que chega a US$ 3.2 trilhões já tinha crescido US$ 800 bilhões em um único ano;
  • embora o governo chinês tivesse concordado em suprimir a exigência explícita de transferência de tecnologia por toda companhia estrangeira querendo operar em seu território, continua recorrendo a diversos expedientes para mantê-la de fato;
  • além disso, ela segue desrespeitando os direitos de propriedade para manter a sua própria “política de inovação”;
  • todos esses expedientes violam frontalmente as regras da organização Mundial do Comércio;
  • a China está se tornando uma ameaça crescente para a segurança nacional não só por se tornar um player cada vez mais importante na cadeia de suprimentos de diversos itens que deixaram de ser fabricados nos Estados Unidos como também pela sua crescente agressividade e sofisticação na chamada guerra cibernética;
  • o governo dos Estados Unidos, governos estrangeiros, fornecedores de equipamentos de defesa, entidades comerciais e várias organizações não governamentais têm reportado tentativas de invasão de seus bancos de dados a partir da China; a China, por sua vez, define como parte de sua estratégia explorar a vulnerabilidade dos sistemas de comunicação em que se apoia o sistema nacional de defesa;
  • apesar do comportamento ameaçador do governo da Coreia do Norte o Partido Comunista Chinês age como se tivesse concluído que é melhor sustentar aquele regime do que trabalhar pela sua remoção; ela também age abertamente para impedir as medidas internacionais de controle da fabricação de armas de destruição em massa pelo Irã;
  • o regime chinês continua sendo uma ditadura de partido único brutalmente repressiva; apesar da crescente produtividade ela deprime o consumo interno de modo a poder continuar pagando salários muito baixos para fortalecer a sua máquina de produção e subornar a indústria norte-americana para que favoreça internamente os seus interesses;
  • apesar da sub valorização forçada da moeda chinesa estar amplamente comprovada e documentada, o secretário Geithner, do Tesouro, tem se recusado a classificar a China oficialmente como uma manipuladora da moeda, o que implicaria em sanções legais obrigatórias por parte dos Estados Unidos;
  • enquanto o Ocidente oscila na beira de uma segunda onda de recessão, a China, graças a tudo isso, continua incólume, e quando os líderes europeus bateram na sua porta de chapéu na mão, foram avisados claramente de que qualquer ajuda da China só virá em troca da classificação do país como uma “economia de mercado”;
  • este é o 10mo ano em que a China faz parte da Organização Mundial de Comércio como “membro provisório”;
  • embora a indústria nacional se queixe ocasionalmente de roubo de propriedade intelectual pelos chineses, a maior parte de nossas grandes corporações está satisfeita com os acordos individuais que lhes garantem uma mão de obra dócil e barata e amplos subsídios do tesouro chinês. E isto está custando algo entre 600 mil e 2.400 mil empregos aos norte-americanos.

Conclusão: conforme previsto por Lênin, os capitalistas estão fabricando a corda com que estão sendo lentamente estrangulados. E já passou da hora dos que pagam esse mico – os trabalhadores e as classes médias do Ocidente – se darem conta disso, pararem de chutar as canelas uns dos outros em meio ao pânico que essa situação provoca, e se voltarem contra o verdadeiro inimigo que está lá do outro lado do mundo e contra os “traíras” nacionais que venderam suas almas a ele.

E tudo isso sem esquecer que o trabalhador/consumidor que compra o produto “baratinho” made in China nos Estados Unidos e pelo mundo afora está dando de troco o seu próprio emprego. É ele quem torna tudo isso possível.

 

O roto, o rasgado e nós, pobres de nós

8 de agosto de 2011 § 1 comentário

Não é que Obama e o Congresso americano estejam com essa bola toda mas na disputa de credibilidade que abriu com eles a Standard & Poor’s perde longe.

Em artigo para o NY Times de hoje o prêmio Nobel, Paul Krugman, que nessa crise toda também não tem primado por não fazer concessões aos argumentos passionais, lembra as razões pelas quais não se deve levar a sério nem a S& P nem suas congêneres Moody’s e Fitch:

  • elas têm enorme responsabilidade pela crise de 2007/8, mãe desta crise da dívida americana, porque mantiveram a classificação “AAA, que agora negam ao Tesouro dos EUA, para os derivativos lastreados em hipotecas que detonaram com a economia do mundo e, quando a coisa estourou, continuaram dando desculpas esfarrapadas para não admitir o erro que cometeram;
  • na imediata sequência, também mantiveram a avaliação “A” para o Lehman Brothers, o banco que, quando foi à bancarrota (carregando aquele “A” para o fundo), precipitou a débacle financeira mundial e, depois desse vexame, continuaram mantendo o “A” e dando desculpas esfarrapadas para se explicar;
  • antes de anunciar a desclassificação dos Estados Unidos a S&P mandou o texto em que justificava o que ia fazer para o Tesouro conferir e este lhes apontou um erro banal de cálculo que fazia uma diferença de US$ 2 trilhões; embora a atual crise gire em torno de cortar (ou arrecadar) US$ 2 trilhões a mais do que o Congresso já concordou em fazer, a S&P reagiu como sempre: deu desculpas esfarrapadas para o seu erro e manteve a conclusão que inclui esse erro;
  • ainda que tivesse acertado nas contas, o fato dos Estados Unidos serem o único país do mundo que podem emitir a moeda em que sua divida está denominada implica que nunca se chegará ao ponto de ser obrigado a um calote, que é o que as agências de risco consideram quando fazem suas análises técnicas;
  • desta vez a própria S&P afirma que não estava fazendo uma análise técnica mas sim expressando “a sua duvida de que os dois partidos políticos em choque no Congresso possam chegar a uma decisão técnica que garanta a sustentabilidade das finanças dos EUA”.

É o roto falando do rasgado.

É claro que a desclassificação, mesmo vindo da S&P, não ajuda a melhorar a credibilidade da economia americana ou dos políticos que andam instrumentalizando a crise para ganhar votos mais do que para tentar, sinceramente, ajudar a resolvê-la. Talvez a reação dos investidores que essa desclassificação ajudou a exacerbar contribua para que os políticos façam o trabalho que falta com um pouco mais de juízo.

Mas o fato da S&P ter deixado de lado o seu terreiro técnico para aderir à balburdia política justamente na hora em que tudo que mais faz falta ao mundo, como ela própria chega a mencionar antes de abrir mão dessas três coisas é calma, responsabilidade e bom senso é a pá de cal que faltava para enterrar essas agências de classificação de risco que não têm feito outra coisa senão agrava-lo.

Tanto melhor.

Já passou da hora de se pensar em reformular o precaríssimo sistema de alarme da economia mundial.

No mais, se o mundo chegar a recuperar a calma antes que morra de seu próprio nervosismo, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes:

  • as contas dos Estados Unidos vão ter de passar por um ajuste que virá, ou na forma de inflação (para o mundo todo, que aliás, já corre bem solta), se tudo que eles fizerem for emitir mais e mais dólares para pagar as contas; ou na forma de juros mais altos para financiar o endividamento; ou na forma de aumentos de impostos para pagar parte dos gastos;
  • na verdade deverá acontecer uma mistura dessas três coisas e a dose é o que os políticos estão discutindo sem chegar a um acordo porque estão mais interessados em marcar posição junto aos mais prejudicados por cada uma dessas opções do que em resolver o problema;
  • seja qual for a decisão, não haverá calote em momento algum; no máximo cada vez mais inflação;
  • o dólar também não deixara de ser a moeda de referência do mundo porque isso é uma escolha de um mundo sem escolha e não uma imposição dos Estados Unidos;
  • apesar da torcida de uns tantos e dá má fé de muitos outros, os Estados Unidos continuam sendo o único país do mundo onde, para mexer com o dinheiro do povo o presidente da republica tem de passar pelo suadouro que o Obama está passando, enquanto todos os demais fazem gato e sapato do povo e do dinheiro dele sem dar satisfação a ninguém;
  • por mais que a economia americana encolha e a da China cresça, ninguém depositará os seus ovos de ouro na cesta da moeda que representa um sistema em que 100 ou 200 velhotes sentados num falso congresso que obedece cegamente a outra meia dúzia de velhotes que são os que realmente mandam, fazem o que bem entendem em seu país, distribuem lucros e prejuízos segundo critérios que não é possível definir ou prever e, quando a coisa não dá certo, mandam o exército massacrar o seu próprio povo.

A questão real, como já se disse muitas vezes aqui no Vespeiro, é saber até quando a democracia resistirá em seu próprio berço se a irresponsabilidade dos políticos que fazem qualquer papel por um voto a mais for tão longe que acabe por torna-la sinônimo de empobrecimento.

E se alguém pensa que isso só vai acontecer no dia de São Nunca é melhor olhar para as imagens de Londres em chamas ha três dias e pensar mais uma vez.

A liberdade que se cuide!

4 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Pânico de novo nas bolsas de valores do mundo.

Os jornais e os “analistas” de costume dizem que ele se refere à “redução das expectativas com relação à recuperação americana diante do acordo que prevê o corte de despesas como contrapartida à elevação do teto de endividamento do governo”.

Antes fosse só isso!

Desde o início do lamentável espetáculo que Washington manteve no ar em rede planetária por quase dois meses – e mesmo antes dele – já se sabia que, qualquer que fosse o acordo final, haveria um corte de alguns trilhões de dólares nas despesas embutido nele.

O que se está assistindo nas bolsas do mundo é um “fuja que o piloto sumiu”.

Se as agências de classificação de risco não rebaixaram a nota dos Estados Unidos porque não houve, tecnicamente, um calote, o que o mundo está dizendo agora é que ele, mundo, rebaixou, sim, a nota da capacidade das democracias de lidar com crises.

O próprio Obama antecipou essa conclusão quando, no meio daquele tiroteio, disse que os Estados Unidos estavam correndo o risco de ter seu crédito rebaixado “porque o sistema financeiro não tinha um sistema político AAA em que se apoiar”.

E de fato o que o duelo de Washington mostrou, com a inestimável contribuição do ator coadjuvante Europa, é que o sistema de pesos e contrapesos das democracias de fato impede a tomada de decisões com a necessária rapidez; que a tendência antes da conquista do segundo mandato presidencial é que os partidos se submetam aos seus respectivos radicais e se façam de surdos para o centro e para os moderados; que a ausência de poder de voto da juventude acaba fazendo com que a conta seja atirada sobre as costas dela porque o que interessa é saber quem fica com o poder político amanhã e não a solução das crises com vistas à construção de um futuro melhor.

E também, que tudo isso se tornou muito mais visível e pernicioso depois que as ditaduras aderiram ao capitalismo e passaram a tocar países inteiros como se fossem empresas com a mesma liberdade para distribuir custos e benefícios pela sociedade afora e “demitir (até da vida, se necessário) insatisfeitos” que nos países capitalistas democráticos só os grandes executivos têm no universo restrito das suas empresas.

O jogo se inverteu. De condição essencial para ambos as democracias surgem agora como o principal obstáculo para o desenvolvimento e a afluência material. E as ditaduras, o contrário: de caminho certo para o atraso e a pobreza, agora aparecem como o atalho mais rápido para o enriquecimento.

E como o órgão mais sensível do ser humano sempre foi o bolso, a liberdade que se cuide!


A crise das democracias

2 de agosto de 2011 § 3 Comentários

Hedonismo é uma teoria ou doutrina filosófico-moral que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana. (…) designa uma atitude de vida voltada para a busca egoísta de prazeres materiais (Wikipedia).

Olho para a Europa conflagrada, entregando os anéis na undécima hora para não entregar os dedos; olho para os Estados Unidos batendo bôca na beira do abismo para decidir no ultimo minuto dar menos de meio passo atraz e hedonismo é a idéia que me vem à mente.

Estamos falando da geração dos que nunca foram contrariados.

É proibido proibir? ” Já faz muito tempo que deixamos isso para traz. Hoje é proibido discordar; é proibido contrariar; é proibido não aderir.

A expressão síntese da cultura dessa geração é o Google, a fórmula matemática que garante que você terá cada vez mais de você mesmo. O moto-contínuo da autoreferência. A máquina de realimentação instantânea de qualquer vontade manifestada e até das que nem subiram ainda para o nível da consciência.

Pedir é coisa do passado. Trata-se, agora, de antecipar o que você virá a querer; de saciá-lo antes que você venha a sentir vontade de comer.

Para além das suas outras utilidades; para além do seu papel de facilitador do conhecimento – um conhecimento que, de qualquer maneira, requer esforço e que, como sempre, muito poucos realmente querem adquirir – é essa característica de espelho de Narciso; de aliado incondicional do ego que “entrega” sem nunca fazer perguntas o que quer que se lhe encomende que faz do Google o “bezerro de ouro” do Terceiro Milênio (leia este artigo sobre o livro de Eli Pariser, “The Filter Bubble: What the Internet is Hiding From You”).

Os governos das democracias; os governos do mundo rico vêm ha décadas imitando o Google. Realimentando qualquer capricho de vontade manifestada pela maioria que vota; esticando equações clamorosamente insustentáveis; adiando sacrifícios; fugindo das decisões.

Comprando o mandato de hoje com o caos de amanhã.

Estão cavando mais e mais o fosso entre a maioria idosa dos eleitores de hoje, agarrada com unhas e dentes aos “direitos” sem contrapartida de deveres em que foram cevados a vida inteira, e a juventude que ainda não vota, a quem caberá pagar essa conta amanhã.

Não é só a Previdência; o “estado de bem estar social”. A dívida que vão legar para a próxima geração acumula-se em todos os setores. A água de beber, os oceanos, a paisagem, o espaço físico; nem a ameaça à continuação da vida no planeta faz recuar um passo os que têm vivido nessa voragem do “querômeu aqui e agora” cuja representação política vem sendo treinada pavlovianamente, voto a voto, a antecipar suas vontades.

O que há de comum entre as crises americana e européia é que ambas são o resultado de duas ou tres décadas de meias medidas para evitar pequenas recessões à custa de injeções cada vez maiores de anestésicos financeiros. A cada volta nessa ciranda da negação da realidade o efeito desse tipo de estímulo – por mais que se aumente a dose – é menor e o custo de voltar atras fica maior.

Debelar crises implica necessariamente a idéia de “sacrifício”, heresia que se tornou inapelavelmente mortal na equação eleitoral de uma geração para quem a dor é só uma derrota momentânea da tecnologia e que nunca precisou olhar para adiante da proxima curva porque até mesmo a guerra é, na sua experiênca de vida, um fenomeno delimitado, com efeitos absolutamente controláveis e que atinge somente “os outros”.

Para estes cuja biografia sugere que o prazer é o unico sentido da vida, a mera “contrariedade” é uma violação inaceitável, o que transforma a idéia de “liderança” para enfrentar a adversidade, que requer dos políticos que digam aos eleitores não apenas o que eles gostariam mas sobretudo o que eles precisam ouvir, numa perversão da democracia.

Não é de surpreender que após anos a fio sob esse tipo de filtragem, só tenham sobrado em pé esses políticos de hoje, com horror a decisões.

O fenomeno da internacionalização da força de trabalho e da globalização da produção e dos mercados veio, entretanto, agravar com um componente concreto a crescente disfuncionalidade psicológica que as democracias ricas já manifestavam para lidar com crises.

Na Europa, governos nacionais têm de lidar com problemas continentais que não podem ser superados apenas com remendos monetários; requerem reformas praticamente culturais nos países da periferia do euro onde a corrupção e o atraso institucional (como no Brasil) estão na base dos colapsos financeiros.

Nos Estados Unidos a polarização ideologica responde à crescente exasperação dos eleitores com a incapacidade do governo de lidar com uma crise estrutural de cunho planetário, que não terá solução real enquanto houver, num mundo em que tudo se copia impunemente, “chineses” oprimidos por ditaduras ferozes, sejam de que nacionalidade forem, dispostos a produzir em troca de migalhas o mesmo que os trabalhadores nacionais só aceitam fazer por salários dignos.

Mas este é um “pormenor” que os políticos que debatem a crise no Congresso (e mesmo os jornalistas) nem sequer mencionam porque a luta pelo poder gira exclusivamente em torno da atribuição de “culpas”, no âmbito doméstico, pelas penas que os desempregados e os assalariados estão pagando.

Pode-se torcer para que, desta vez, a tecnologia faça ser diferente. Mas, historicamente, processos como estes não chegam ao ponto de reversão antes que a dor da destruição que eles provocam se torne insuportavel.

A democracia e o movimento de redistribuição planetária da renda

7 de julho de 2011 § Deixe um comentário

Desde o inicio da crise financeira internacional venho chamando a atenção, aqui no Vespeiro, para a ameaça que os seus desdobramentos colocam para a sobrevivência da democracia.

Essa crise reflete o aprofundamento do primeiro grande movimento planetário de redistribuição da renda ao mesmo tempo em que marca a definitiva perda de controle dos Estados Nacionais sobre as economias nacionais para bem dos países que, como China e Brasil, estavam abaixo da média internacional de salários e para mal dos países que, como os Estados Unidos e os europeus, estavam muito acima dela.

A exasperação que se cria com a concentração da renda e a queda continua da qualidade de vida dos assalariados nos países centrais em função de fatores que estão além do alcance dos governos e dos políticos nacionais está levando a uma perigosa polarização ideológica e ao rápido desgaste da associação que até ha poucos anos era vista como necessária entre democracia e progresso material. Inversamente, a ascensão das economias e dos salários nos países periféricos apesar dos desmandos de seus governantes e políticos infla a bola de tiranos e autocratas populistas.

Na semana passada o New York Times publicou uma pesquisa da Northeastern University – “The Jobless and Wageless Recovery From the Great Recession of 2007-2009,” – dando uma nova medida da nova realidade nos Estados Unidos.

“Desde que a recuperação econômica começou, em junho de 2009 depois de 18 meses de recessão, as grandes corporações se apropriaram de 88% do crescimento da renda nacional registrada no período enquanto a massa salarial cresceu um pouquinho mais de 1%”.

Os números concretos são mais eloquentes que as estatísticas.

“…entre o segundo trimestre de 2009, quando a retomada teve início, e o quarto trimestre de 2010, a renda nacional cresceu US$ 528 bilhões com US$ 464 bilhões inflando os lucros antes dos impostos das empresas enquanto apenas US$ 7 bilhões foram acrescentados à massa salarial, descontada a inflação…muito menos do que ocorreu nas ultimas quatro retomadas de recessões vividas pelo país nas ultimas três décadas (…) Na recuperação da recessão de 2000-2001, 15% do crescimento se transformou em salários e 53% em lucros das empresas. Na que começou em 1991, a história foi bem diferente: 50% do ganho foi transformado em salários enquanto os lucros das empresas caíram 1%”.

Ou seja, como sói acontecer nos momentos de perdas chora mais quem pode menos, do que resulta uma forte concentração da renda agravada pela consolidação, forçada pela competição chinesa, dos diversos setores da economia em monopólios (ou quase) que exportam seus empregos para as regiões mais pobres do mundo, aumentando seus lucros e suas vendas fora dos países sede onde o desemprego e a proletarização da força de trabalho tendem a se agravar.

O Economist desta semana traz um artigo de Steven Greenhouse, escrevendo dos Estados Unidos, que completa esse quadro e aponta para os mesmos inevitáveis desdobramentos políticos para os quais venho chamando a atenção dos leitores do Vespeiro.

Segue a tradução dos trechos mais interessantes:

Gideon Rachman levantou um bom ponto em seu artigo do ultimo dia 5 no Financial Times quando disse que as presentes crises político-econômicas dos Estados Unidos e da Europa são basicamente os dois lados de uma mesma crise. Em Washington discute-se a ampliação do limite para o endividamento publico; em Bruxelas todos contemplam impotentes o abismo do excesso de endividamento público. Mas o problema básico é o mesmo. Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia estão com as finanças publicas fora de controle e têm sistemas políticos disfuncionais demais para resolver o problema”.

“…dos dois lados do Atlântico a crise econômica está polarizando a política, o que torna muito mais difícil encontrar soluções racionais. Os movimentos populistas estão em alta – seja o Tea Party nos EUA, o Partido de Libertação Holandesa ou o movimento dos Verdadeiros Finlandeses, na Europa…”

 “…Europa e Estados Unidos sempre se apontaram mutuamente como polos opostos no tratamento das questões econômicas, o que fez com que demorasse para cair a ficha da similaridade das suas situações, que hoje são muito maiores que as diferenças: dividas crescentes, economias fracas, estados de bem estar social cada vez mais caros e irreformáveis, medo do futuro e impasse político são os pontos comuns aos dois”.

“…(pode-se por em duvida as generalizações envolvendo países europeus muito diferentes entre si) mas a questão dos humores políticos, da alta ansiedade predominante e da conexão disso tudo com a crescente radicalização do discurso é indiscutivelmente verdadeira”.

“…a China vai ser a maior economia do mundo em 10 ou 15 anos. E se alguém ainda não se deu conta disso, lembro que a China é um país comunista. A cada ano que a China continuar crescendo a tese de que é necessário ser democrático para crescer e se desenvolver vai enfraquecer mais um pouco”.

“Na verdade o que tem acontecido na Europa e nos Estados Unidos até o momento sugere a hipótese contrária: a de que ter governos democráticos pode se tornar, na moderna conjuntura, o principal empecilho para uma gestão econômica competente. Os sistemas de incentivos criados pela competição política democrática nas sociedades midiáticas em plena era da internet podem, na verdade, estar empurrando os países para a autodestruição fiscal”.

“Nós estamos mergulhando numa progressiva falência intelectual puxada pela polarização política e por um divisionismo vicioso que deságua num populismo delirantemente irresponsável que supera tudo com que poderia sonhar algum agente subversivo do Partido Comunista Chinês”.

(…)

Na semana passada Clive Crook escreveu um artigo, também no Financial Times, sugerindo que os Estados Unidos criassem estabilizadores fiscais de disparo automático para tirar a questão dos estímulos com dinheiro publico em momentos de recessão das mãos do Congresso. Segundo ele, quanto menos decisões políticas ficassem nas mãos daquela “instituição falida”, melhor”.

“Eu até concordo com o argumento. Mas ele embute algo de muito preocupante quanto ao lugar que resta para uma vida democrática neste particular momento da História. Se chegamos ao ponto de concluir que é melhor tirar o mais possível as decisões políticas das mãos dos representantes eleitos, é melhor começarmos rápido a tratar dos problemas que estão tornando o sistema representativo inviável”.

“A democracia é um imperativo moral, antes que uma necessidade econômica, é verdade. Mas se as democracias não conseguirem entregar uma governança responsável, seja em matéria econômica ou em outras mais gerais, então a governança será cada vez menos democrática e a questão moral fará cada vez menos diferença”.

“E esta é uma questão em relação à qual a Europa e os Estados Unidos, onde a democracia tem suas raízes mais profundas, deveriam se colocar do mesmo lado”.

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