Paulo Barros é gênio da raça

23 de fevereiro de 2012 § 1 Comment

Se arte é capacidade de síntese com emoção e grandiosidade, Paulo Barros, o carnavalesco da Unidos da Tijuca com suas alegorias vivas, é um gênio da raça.

Se o contratarem para encenar a abertura e o encerramento da Copa do Mundo é possível que ele nos salve do vexame anunciado.

Romário melhor que a encomenda

25 de janeiro de 2012 § 3 Comments

Nunca simpatizei muito com o Romário.

Eu estava errado. O cara é melhor do que eu pensava.

Veja a entrevista que ele deu ao repórter Cosme Rímoli, da TV Record.

Você foi recebido com preconceito em Brasília?

Olha, vou ser claro para quem ler entender como as coisas são. Há o burro, aquele que não entende o que acontece ao redor. E há o ignorante, que não teve tempo de aprender. Não houve preconceito comigo porque não sou nem uma coisa nem outra.

Mesmo tendo a rotina de um grande jogador que fui, nunca deixei de me informar, estudar. Vim de uma família muito humilde. Nasci na favela. Meu pai, que está no céu, e minha mãe ralaram para me dar além de comida, educação. Consciência das coisas…

Não só joguei futebol. Frequentei dois anos de faculdade de Educação Física. E dois de moda. Sim, moda. Sempre gostei de roupa, de me vestir bem. Queria entender como as roupas eram feitas.

Mas isso é o de menos. O que importa é que esta sede de conhecimento me deu preparo para ser uma pessoa consciente… Preparada para a vida.

E insisto em uma tese em Brasília, com os outros deputados. O Brasil só vai deixar de ser um país tão atrasado quando a educação for valorizada. O professor é uma das classes que menos ganha e é a mais importante. O Brasil cria gerações de pessoas ignorantes porque não valoriza a Educação. E seus professores.

Não há interesse de que a população brasileira deixe de ser ignorante. Há quem se beneficie disso. As pessoas que comandam o País precisam passar a enxergar isso. A Saúde é importante? Lógico que é. Mas a Educação de um povo é muito mais.

Essa ignorância ajuda a corrupção? Por exemplo, que legado deixou o Pan do Rio?

Você não tenha dúvidas que a ignorância é parceira da corrupção.

Os gastos previstos para o Pan do Rio eram de, no máximo, R$ 400 milhões. Foram gastos R$ 3,5 bilhões.

Vou dar um testemunho que nunca dei. Comprei alguns apartamentos na Vila Panamericana do Rio como investimento. A melhor coisa que fiz foi vender esses apartamentos rapidamente.

Sabe por quê?

A Vila do Pan foi construída em cima de um pântano. Está afundando. O Velódromo caríssimo está abandonado. Assim como o Complexo Aquático Maria Lenk… É um escândalo! Uma vergonha! Todos fingem não enxergar.

Alguém ganhou muito dinheiro com o Panamericano do Rio.

A ignorância da população é que deixa essa gente safada sossegada. Sabe que ninguém vai cobrar nada das autoridades. A população não sabe da força que tem.

Por isso defendo os professores. Não temos base cultural nem para entender o que acontece ao nosso lado. E muito menos para perceber a força que temos.

Para que gente poderosa vai querer a população consciente? O Pan do Rio custou quatro vezes mais do que este do México. Não deixou legado algum e ninguém abre a boca para reclamar.

Se o Pan foi assim, a Copa do Mundo no Brasil será uma festa para os corruptos… 

Vou te dar um dado assustador. A presidente Dilma havia afirmado quando assumiu que a Copa custaria R$ 42 bilhões. Já está em R$ 72 bilhões. E ninguém sabe onde os gastos vão parar. Ningúem.

Com exceção de São Paulo, Rio, Minas, Rio Grande do Sul e olhe lá…Pernambuco… Todas as outras sete arenas não terão o uso constante. E não havia nem a necessidade de serem construídas.

Eu vi onze das doze… Estive em onze sedes da Copa e posso afirmar sem medo. Tem muita coisa errada. E de propósito para beneficiar poucas pessoas.

Por que o Brasil teve de fazer 12 sedes e não oito como sempre acontecia nos outros países?

Basta pensar. Quem se beneficia com tantas arenas construídas que servirão apenas para três jogos da Copa?

É revoltante! Não há a mínima coerência na organização da Copa no Brasil.

São Paulo acaba de ser confirmado como a sede da abertura da Copa. Você concorda?

Como posso concordar? Colocaram lá três tijolinhos em Itaquera e pronto… E a sede da abertura é lá. Quem pode garantir que o estádio ficará pronto a tempo?

Não é por ser São Paulo, mas eu não concordaria com essa situação em lugar nenhum do País. Quando as pessoas poderosas querem é assim que funcionam as coisas no Brasil.

No Maracanã também vão gastar uma fortuna, mais de um bilhão. E ninguém tem certeza dos gastos. Nem terá. Prometem, falam, garantem mas não há transparência.

Minha luta é para que as obras não fiquem atrasadas de propósito. E depois aceleradas com gastos que ninguém controla.

O que você acha de um estádio de mais de R$ 1 bilhão construído com recursos públicos? E entregue para um clube particular?

Você está falando do estádio do Corinthians, não é?

Não vou concordar nunca.

Os incentivos públicos para um estádio particular são imorais. Seja de que clube for. De que cidade for. Não há meio de uma população consciente aceitar. Não deveria haver conversa de politico que convencesse a todos a aceitar.

Por isso repito que falta compreensão à população do que está acontecendo no Brasil para a Copa.

A Fifa vai fazer o que quer com o Brasil?

Infelizmente, tudo indica que sim. Vai lucrar de R$ 3 a R$ 4 bilhões e não vai colocar um tostão no Brasil.

É revoltante.

Deveria dar apenas 10% para ajudar na Educação. Iria fazer um bem absurdo ao Brasil.

Mas cadê coragem de cobrar alguma coisa da Fifa? Ela vai colocar o preço mais baixo dos ingressos da Copa a R$ 240,00. Só porque estamos brigando pela manutenção da meia entrada.

É uma palhaçada!

As classes C, D e E não vão ver a Copa no estádio. O Mundial é para a elite. Não é para o brasileiro comum assistir.

Ricardo Teixeira tem condições de comandar o processo do Mundial de 2014? 

Não tem de saúde. Eu falei há mais de quatro meses que ele não suportaria a pressão.

Ser presidente da CBF e do Comitê Organizador Local é demais para qualquer um. Ainda mais com a idade que ele tem.

Não deu outra! Caiu no hospital. E ainda diz que vai levar esse processo até o final.

Eu acho um absurdo.

Muito além da saúde de Ricardo Teixeira. Você acha que pelas várias denúncias, investigações da Polícia Federal… Ele tem condições morais de comandar a organização Copa no Brasil?

Não. O Ricardo Teixeira não tem condições morais de organizar a Copa. Não até provar que é inocente. Que não tem cabimento nenhuma das denúncias. Até lá, não tem condições morais de estar no comando de todo o processo. Muito menos do futebol brasileiro…

A África apresentou há alguns meses atrás o resultado final da Copa do Mundo: deu prejuízo e grande. Agora é a vez do Brasil.

Fifa, CBF, políticos e os empreiteiros vão ganhar muito dinheiro. E o povo? Nada como sempre!

Apenas terá a obrigação de contribuir para pagar a conta.

Quem teve a idéia de promover, o evento em nosso país, alguém sabe? O Brasil é uma farsa, como sempre irá jogar a sujeira para debaixo do tapete.

 Entrevista enviada por Gustavo dos Reis Filho

A meia entrada e o “jus prima noctis”

17 de dezembro de 2011 § Leave a comment

A volta das bebidas alcoólicas aos estádios, que ameaça a segurança dos torcedores?

Ok. O Brasil cede este tanto pouco na sua “soberania legislativa” porque um valor mais alto se alevanta…

Acabar com a meia entrada que sustenta o feudo vitalício e hereditário de um dos barões da governabilidade?

Nem pensar!

Então ao menos mudar a lista dos beneficiários! Para que seja possível calcular o custo, tranferí-lo para alguém; fechar o business plan da Copa?

Hmmm…Va lá…

Dos aeroportos que não decolam aos estádios multibilionários presenteados a torcidas com poder de voto, passando pela antecipação das férias e até pela ocupação das favelas que Brizola entregou ao tráfico na parcela do Rio de Janeiro a ser frequentada por estrangeiros em 2014, essa história da meia-entrada é das mais definidoras da qualidade da “democracia à brasileira”.

No que diz respeito aos valores envolvidos, que ao longo dos próximos 100 anos tentaremos descobrir quais terão sido, é menos que uma merreca.

Mas, como sempre, deus está é nos detalhes.

O brasileiro é grandioso por natureza. Aqui ninguém pensa em mixaria.

É preciso arranjar uma têta pro PC do B que anda ruim de voto, coitado?

Vá lá!  Tome o monopólio da venda de uma carteirinha dessas que qualquer camelô pode mandar fazer por uns trocados valendo metade do preço de qualquer ingresso vendido no país, do forró de Arapiraca ao show dos Rolling Stones; do Arranca Tôco Futebol Clube ao Santos x Barça; do Desafio da Várzea do Estado do Acre à Copa do Mundo de Futebol.

É melhor que uma autorização pra imprimir dinheiro, né mesmo!

E assim, como sempre com o rabo alheio, salva-se a revolução proletária e o “partido histórico” cuja indispensável contribuição à construção da Nação brasileira foi ter declarado o desejo de te-la feito, um dia.

Hoje não precisa mais. É um partido político com direito a um impostozinho especial para chamar de seu. Não quer mais que nada mude.

Mas quem fica com a conta? De que tamanho ela é? Como calcular, a cada show, a cada evento, quantas meias-entradas haverá para cada entrada inteira? Quanto cobrar  a mais de quem não recebe o mimo para pagar o mimo a quem as excelências magnanimamente o atribuíram e mais o cachê que os jogadores e os artistas insistem em cobrar inteiro?

Sai pra lá! Essas minucias aborrecidas não têm espaço em Brasília onde todo mundo tem mais o que discursar. São problema desses imbecis que insistem em viver de empreender e trabalhar neste altivo rincão anti-americano da América…

Não havendo conta precisa possível, faz-se como sempre: erra-se por cima para que não dê erro.

Afinal de contas, já dizia o Jânio no seu cinismo chulo, “os c… são sempre os mesmos…”. E os nossos já estão acostumados. Não sentem mais os abusos…

Mas como explicar isso ao comprador de ingressos estrangeiro?

Até para a Fifa, que na arte de manipular lama é páreo para Brasília, o desafio não foi pequeno.

Meter a mão no bolso alheio? Claro! Vamos nessa… Mas é preciso ao menos saber quanto tomar, e de quem, porque os “babacas” lá de fora ainda não estão tão bem treinados quanto os “malandros” aqui do Brasil, e insistem em chiar quando são mordidos.

Daí toda a discussão indignada que se viu em torno da meia entrada em seu contexto “social-soberano-patriótico” ao qual – eis aí a suprema arte lusitana! – os próprios trouxas, especialmente os seus representantes na imprensa, são os primeiros a se agarrar.

Empurra de cá, empurra de lá, e chegou-se ao menos a um número fixo, depois de incluir os índios entre os contemplados que o evento é internacional e eles fazem mais sucesso lá fora do que “em casa”.

E a ordem voltou a reinar. O inalienável jus prima noctis do PC do B sobre os nossos lombos no que diz respeito a ingressos e espetáculos ficou intocado, o que garante tratamento isonômico para o justo quinhão de nós a que têm “direitos adquiridos” cada um dos demais barões da governabilidade, e o resto que se aperte e se acomode porque a conta fechou.

A censura de que ninguém fala

26 de outubro de 2011 § Leave a comment

Tenho repetido que a democracia é um subproduto da educação e que não existe exemplo histórico de instalação de uma de verdade que não tenha sido precedida de uma revolução educacional.

Mas não confundo as coisas. A premissa não é disseminar uma educação sofisticada para as multidões, coisa que nunca foi obtida por sociedade nenhuma. Basta o que é necessário para a superação da Babel. Isto é, dar a todos a capacidade de ler e entender um texto e compreender os princípios mais elementares das ciências exatas.

Aquilo que, nas sociedades educadas, espera-se que as pessoas aprendam na escola primária, enfim.

Não foi muito mais que isso que a primeira grande revolução educacional do Ocidente, que foi o Movimento Protestante, conseguiu na Inglaterra (e na Alemanha) entre os séculos 17 e 18 quando, pela primeira vez na História, sociedades humanas inteiras superaram o analfabetismo e a democracia que conhecemos – quase todos nós só de ouvir falar – pôde lançar suas raízes no solo.

Para que se instale a mera possibilidade da democracia que é a arte de convencer para formar consensos (mesmo que seja a respeito do dissenso), é preciso, no mínimo, que todos os interessados sejam capazes de falar e entender a mesma língua, ao menos no que tange aos conceitos básicos.

No Brasil de 2011, entretanto, somente alguma coisa em torno de 15 ou, sendo muito otimista,  20% da população adulta é capaz de ler e compreender um texto de mediana complexidade. O resto compõe a massa dos analfabetos ou dos “analfabetos funcionais” que principalmente as nossas escolas públicas fabricam anualmente aos milhões, e que tem nas mídias eletrônicas a sua única fonte de formação, informação e entretenimento.

Existe um abismo intransponível entre esses dois brasis que, praticamente, não conseguem se comunicar um com o outro.

Mas a minoria ilustrada tende a esquecer isso e a avaliar pelo seu próprio padrão a reação da Nação inteira ao descalabro político em que vivemos atolados, o que resulta na perplexidade e no desânimo para com a “apatia do brasileiro” diante da roubalheira geral que hoje tantos manifestam.

Acontece que não existe este “o brasileiro”. Existem diversos “brasileiros”. E a esmagadora maioria deles está totalmente fora do alcance dos veículos que realmente fiscalizam o poder público e estimulam o raciocínio crítico que são essencialmente os suportes da leitura. Formam-se e informam-se exclusivamente nos veículos eletrônicos.

E esta é uma realidade muito melhor percebida pelos políticos, cada vez mais arregimentados da massa dos “analfabetos funcionais”, do que pela elite letrada que não se dá conta de que a sua visão da realidade simplesmente não pode ser compartilhada pelos demais nascidos e formados exclusivamente pelas redes de rádio e televisão que, não por acaso, são controladas, Brasil afora, pelos clãs políticos que ha décadas dominam o Congresso Nacional.

Parcelas da população de São Paulo, Rio de Janeiro e mais alguma coisa do Sul e do Sudeste têm acesso a uma imprensa mais ou menos independente, critica e formadora de cidadania. Com avanços e retrocessos, até nas TVs abertas dessas regiões pratica-se um jornalismo crescentemente crítico e independente.

Mas o resto do país segue sujeito apenas e tão somente aos monopólios regionais de rádio e TV pertencentes a políticos, meras maquinas de desinformação e manipulação a serviço dos grupos no poder.

É para barrar a entrada nos chamados “grotões” dessa imprensa eletrônica incipientemente independente, aliás, que o Brasil tem vivido sob a mais férrea censura aos meios eletrônicos de que existe registro fora de regimes assumidamente totalitários.

E está tão acostumado com isso, posto que nunca viveu plenamente a experiência contrária, que nem se dá conta do que se passa.

A elite letrada não leva em conta esse dado decisivo nos julgamentos que faz do resto dos brasileiros. Mas não só nesse momento.

Nem mesmo nas reuniões específicas sobre liberdade de imprensa e expressão, como a reunião anual da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) que aconteceu na semana passada na Guatemala, os nossos mais sinceros defensores das liberdades democráticas se lembram de fazer qualquer menção que seja à absoluta proibição de veicular qualquer matéria jornalística envolvendo políticos e partidos políticos no rádio e na televisão brasileiras nos meses que antecedem eleições.

O mundo toma o Brasil por uma democracia desconhece que, aqui, os próprios eleitores são obrigados a pagar pelo empacotamento e pela veiculação das mentiras arquitetadas pelos mais caros marketeiros profissionais do mercado que os políticos lhes empurram goela abaixo em doses maciças no horário nobre e em rede nacional ao longo de todo o ano que antecede os anos eleitorais, o que vale dizer por quase dois anos inteiros, ou em toda e qualquer ocasião que sentir que isso possa ser útil ou necessário.

O fogo cerrado do PC do B no “horário gratuito” da televisão aberto dois ou três dias depois que as falcatruas do partido com as “suas” ONGs de fachada vieram à luz é um exemplo prático.

Ha semanas que elas vêm sendo marteladas antes, durante e depois de todos os programas jornalísticos do rádio e das TVs brasileiras na cabeça dos ouvintes.

Nelas aparece a figura jovial e sorridente de Netinho, o cantor de pagode que faz pelo PC do B aquilo que Tiririca faz pelo partido do duas vezes e meia bilionário deputado “Valdemort” Costa Neto que, poucas semanas atrás, estrelava, no Turismo, o papel hoje desempenhado por Orlando Silva nos Esportes no capítulo “O Ministério do Mês” da interminável série “A Faxina da Dilma“.

Coteje a figura tenebrosamente truculenta do espancador de mulheres e de repórteres que a memória de quem ainda se dá o luxo de conservá-la deve ter guardada em algum canto com o bom moço com um discurso que paira entre a mágoa e o ultraje com aquilo que “forças ocultas” estão querendo fazer com “o nosso partido que, nos últimos 90 anos, não faz outra coisa senão lutar desinteressada e altruisticamente pelo bem dos trabalhadores mais pobres do Brasil”…

Quem dos milhões de brasileiros de todos os cantos deste quase continente, vendo essa doce criatura saída da prancheta de algum dos nossos tarimbados especialistas em vender até areia no deserto, se lembrará do personagem real?

Quantos terão a mais leve suspeita de que os ex-presidentes da UNE que se substituem nos mais altos cargos do partido e nos ministérios com que o PT os presenteia chegam a essas posições porque controlam o monopólio da venda de carteirinhas de estudante que dá direito a quem a compra de pagar metade do que vale pelo trabalho dos profissionais da cultura e do esporte?

Sim, o Jornal Nacional e outros telejornais, cada um com suas palavras, cada um com suas imagens, dedicará três ou quatro minutos da edição do dia a descrever a mixórdia das relações desses senhores e seus partidos com ONGs de fachada montadas para desviar dinheiro para comprar votos.

Mas antes, durante e depois de cada inserção dessas, o telespectador nascido e treinado no “padrão Globo de qualidade” verá uma dúzia de vezes a cena montada com todos os mais caros recursos da tecnologia da imagem e da moderna ciência do vender, vazada sempre nas mesmas palavras claras e assertivas afirmadas sem nenhuma sombra de contraditório, dos acusados acusando quem acabou de acusá-los naquelas peças cheias de verbos no condicional, intercaladas com a defesa do “outro lado” e pontilhada pelos defeitos de acabamento obrigatórios do jornalismo feito a quente.

Isso aqui no Sul Maravilha.

E em Salvador, Bahia, onde se elege o ministro acusado, como estarão as TVs e rádios pertencentes aos políticos locais noticiando esses acontecimentos? E no Maranhão onde todas as rádios e TVs pertencem ao “aliado” Sarney? Nas Alagoas dos Collor? No Pará dos Barbalho? Pelo Brasil afora onde todos os políticos, com pouquíssimas exceções, são sócios do governo e donos de redes de rádio e televisão?

O que importa a realidade se o dinheiro pode comprar a embalagem que se quiser para recobri-la e a nossa legislação eleitoral imporá a de fora e não o produto real que está lá dentro da caixa para ser exposto com exclusividade aos eleitores nos meses que antecederão as próximas eleições?

Não, o povo brasileiro não é “apático” à rapinagem que sofre. A maior parte deles sabe apenas vagamente que ela ocorre, mas não tem meios de distinguir com clareza quem é o ladrão e quem é a vítima, tanto mais quanto mais se aproximar o dia de uma eleição ou mais distante ele viver dos poucos centros brasileiros  onde é a publicidade e não os governos que sustenta a imprensa.

A própria imprensa independente faz menos do que poderia fazer para tornar tudo isso mais claro, especialmente para denunciar o modo como o governo manipula e censura a mídia eletrônica para força-la a servir ao seu jogo.

Cada enxadada uma minhoca

21 de outubro de 2011 § 1 Comment

Na infância da corrupção no Brasil havia sempre dois lados na roubalheira: uma empresa ou entidade pública e uma empresa ou pessoa física privada. O dinheiro tinha de sair de dentro do Estado para ser roubado e o ladrão público e o ladrão privado tinham de dividir o produto do roubo.

Agora na maturidade, exibindo toda a plenitude do renovado vigor que a “Era Lula” instilou nessas práticas, o parceiro privado tornou-se desnecessário.

Os empresários de que o governo não pode abrir mão foram oficialmente adquiridos via BNDES. Tornaram-se sócios oficiais da “viúva” e o PT, que quando quer sabe controlar as coisas melhor que ninguém, põe os seus fiscais sentados dentro dos conselhos das empresas deles e exige que se comportem dentro das melhores práticas de governança corporativa em relação ao seu dinheiro.

Mas para o varejo da roubalheira, a novidade é que o ladrão público verticalizou totalmente a atividade, dispensando o antigo parceiro privado.

Feita a partilha do país depois de cada eleição e atribuído o devido território privativo de exploração a cada partido que contribuiu para a tomada do todo, cada um está livre para criar, interna corporis, as suas próprias empresas e ONGs a quem repassará o dinheiro que sai dos seus orçamentos endereçado “para o benefício do povo” para voltar, integral e limpinho, para o bolso de quem o liberou.

A proliferação em metástese de ONGs em torno dos 38 ministérios criados pelo “nosso líder” para assistir ao seu povo em todas as necessidades, sub-necessidades e outras dobras menores das atividades e carências em que se envolve é apenas e tão somente a resposta do “mercado” à oferta previamente criada pelo senhor presidente, no melhor estilo de indução do desenvolvimento pelo Estado que ele sempre pregou.

“Aqui estão os bilhões. Criar uma ONG é o caminho para enfiá-los no bolso”.

Pronto!

Seriam essas as “organizações populares” e “movimentos sociais” que deveriam aprovar por aclamação as políticas do PT em assembléias convocadas pelo PT, em substituição ao velho modelo da democracia representativa com o Congresso Nacional e todo resto daquela parafernália obsoleta, conforme prescrevia o Plano Nacional de Direitos Humanos que o PT em peso assinou na virada de 2009 para 2010?

Tudo leva a crer que sim.

Para ONGs e “movimentos sociais”, depois que o dinheiro entra não ha nenhuma fiscalização sobre seu uso e nem legislação que o exija. Exatamente como nos sindicatos.

Já a velha estrutura por onde costumava transitar o dinheiro do povo antes do PT – Congresso, governo federal, governos estaduais, governos municipais – sofre controles por todos os lados que, ainda que funcionem cada vez mais precariamente, são, junto com a imprensa, os que criam os incômodos que, a cada mês, têm obrigado o partido a fuzilar cerimonialmente algum “companheiro” flagrado com a mão na massa, ainda que sempre com as balas de festim do mero “afastamento” em direção a uma aposentadoria dourada.

Já no que diz respeito a eleições, o PT nasceu e se criou no sistema de aclamação em petit comité que sempre vigorou nos nossos sindicatos pelegos no qual não existe nenhuma obrigação de representatividade aferível, e onde os dissidentes mais incômodos costumam receber o tratamento dispensado a Celso Daniel e tantos outros.

.

Já as eleições que nossa Constituição sacramenta e o mundo democrático exige, fazem questão de que todos votem, e os que não votarem expliquem o que os impediu de fazê-lo, o que põe as coisas fora do tipo de controle sobre os imprevistos a que o partido está acostumado internamente.

Enfim, não chegamos ainda ao ponto de substituir o Congresso pelas ONGs e “movimentos sociais“, como prescreve o PNDH mas, a se permitir que elas continuem enriquecendo na velocidade em que vão nunca se sabe neste país onde nada se institucionaliza, tudo se compra.

Eis porque essa coisa de escândalos de corrupção nos ministérios petistas é só uma questão de cutucar. Qualquer dos 38 em que imprensa se dispuser a meter o nariz não dará erro.

Cada enxadada trará a sua minhoca depois que Lula determinou qual é a regra do jogo.

Eu continuo acreditando que era sincera a repulsa de Dilma por essas práticas e que ela gostaria de poder se livrar delas.

Mas não ha meios de se fazer isso com rapidez ou excesso de rigor sob pena de por o governo inteiro na rua (já que corrupção por aqui não dá cadeia mesmo) e provocar uma rebelião aberta contra a qual a presidente não teria um único aliado dentro das forças políticas organizadas.

Como lembrei hoje mesmo a uma leitora que comentou o fim de Kadafi, a coisa mais fácil do mundo é abrir as portas do inferno. E a mais difícil é catar um por um os demônios soltos, empurra-los de volta para as profundezas e trancar a porta de novo

O Brasil terá de passar por um lento e desgastante processo de reeducação para retornar de onde Lula o atirou.


Where Am I?

You are currently browsing entries tagged with Copa do Mundo at VESPEIRO.