Um gole de ânimo para “vira-latas”

21 de setembro de 2022 § 2 Comentários

Abolição, Republica, império da lei, tudo aqui, quando chega a tanto, é “quase”. Criados e cevados na censura, filhos da contra-reforma, criança abusada pelo pai desde os idos de 1808 e antes, o Brasil não sente de onde vem o que lhe pesa porque nunca viveu outra vida; porque nunca viveu plenamente as conquistas do Iluminismo.

Em compensação, ninguém está mais malhado do que nós. Nós somos os “sherpas” do mundo. Subimos o Everest todos os dias com toda a carga de milênios de opressão nas costas sem nos darmos conta da força que temos.

Qualquer desafiado para as lutas da sobrevivência nos países que correm livres, leves e soltos à nossa frente que enfrentasse 10 dias da loucura, da insegurança e da imprevisibilidade do cotidiano que nos enfiam pela garganta os monocratas e os “presidentes mais honestos do mundo” da vez dava em revolução ou em suicídio em massa.

Nós somos uns Pelés! Uns Isaquias Queirozes!

A sorte do Brasil é nunca ter havido aqui nem um pingo de democracia. Se tivesse havido, se esse fracasso todo fosse nosso, não tinha cura. Como não é, é só tirarmos “eles” das nossas costas que o Brasil explode e dá poeira nesse “primeiro mundo” todo. 

Uma hora dessas ainda vai acontecer…

Porque não sempre?

27 de agosto de 2016 § 15 Comentários

a14

Artigo pra O Estado de S. Paulo de 27/8/2016

O sucesso das Olimpiadas, o espetáculo dos melhores do mundo desempenhando-se no melhor da vida, é sempre garantido. O produto é irresistível. Embalado no mais feérico dos cenários urbanos da Terra então não tinha erro. Mesmo que nada mais funcionasse funcionaria. Mas não foi só a paisagem. Com tudo o mais constante – os mesmos homens públicos, a mesma quantidade de dinheiro, até menos, as mesmas instituições – desta vez tudo funcionou, e muito bem.

O que foi que fez a diferença?

Ouso afirmar que foi a qualidade da cobrança.

Quando trata do desastre nacional para o público doméstico a imprensa brasileira incorpora não só a linguagem como também as premissas postas pelas partes interessadas no lado “sistêmico” da nossa desgraça. Ao aceitar como irredutíveis e “normais” todos os privilégios de que se apropriou a casta dos políticos e dos funcionários do Estado pesando aqueles 46% do PIB que nos esmagam (36% de impostos + 10% de déficit), tudo que resta aos jornalistas para discutir com os “especialistas” e “cientistas políticos” que aceitam esse mesmo limite é a momentosa questão de “como resolver o problema do Brasil” excluída a alternativa de resolver o problema do Brasil que é precisamente o peso desses privilégios e a metástese da corrupção que necessariamente decorre da aceitação pacífica deles como um meio de vida legítimo sempre ao alcance da mão de todo “concurseiro” ou simples puxa-saco que se dispuser a se bandear do oceano dos explorados para a nau dos exploradores.

As Tentações de Cristo foram menores…

O que aconteceu com a Olimpiada foi um estranho jogo dialético. Sob os ecos da intervenção do “xerife” americano que lancetou o furunculo da Fifa, da Lava-Jato que pela primeira vez abalou a incolumidade da cleptocracia brasileira e da culpa por ter aplaudido o logro do lulismo, a imprensa estrangeira comprou o mau humor da nacional para com a realização dos jogos no meio da nossa maior crise economica e de identidade. E o fez com tanto empenho e azedume que acabou por ferir-nos os brios a ponto daquela “azaração” toda transformar-se na mais recorrente pauta pré-olímpica da imprensa nacional.

Ao passar a cobrir a cobertura da imprensa estrangeira, porém, a nacional inadvertidamente importou junto a superação dos limites que ela própria se impõe ao tratar do drama do Brasil e – das condições da infraestrutura de saneamento, de segurança e de transporte publico para baixo – foi sendo empurrada para um escaneamento fino do Rio de Janeiro que, hipnotizada pelas pernadas e pedaladas dos contendores da luta pelo controle do “Sistema”, ha muito tempo ela se desacostumou de fazer.

Por aqui não se vai nunca à origem última de todas as nossas mazelas porque os jornalistas, especialmente os que convivem em circuito fechado demais com a “côrte” em Brasília, estão tão próximos dela que deixaram de enxerga-la como a aberração que é. O olhar estrangeiro escandalizado com aquilo que concretamente o povo carioca recebe para usar em pleno 3º Milênio resultou em que o Rio de Janeiro fosse revisado de cabo a rabo e cobradas como nunca antes as suas autoridades por tudo que se esconde por baixo dos efeitos visíveis da apropriação do serviço público pela corporação dos seus supostos “servidores”: o Rio como um todo teria de funcionar para que a Olimpíada funcionasse.

E fez-se então a luz, como sói fazer-se sempre que a imprensa faz o seu papel de atrair todos os olhares para onde os problemas realmente estão: da prefeitura carioca à Presidência da Republica não restou a nenhum dos que passaram a ser cobrados sem meias palavaras, nas menores minucias, com a mais desenfreada urgência senão responder com ações enérgicas a tempo e à hora, sob pena de opróbio planetário e perda para sempre da condição de prosseguir na carreira política.

É um santo remédio, e sem substituto conhecido, esse tipo de pressão!

Passado o momento mágico, porém, aquele ímpeto já começa a arrefecer e os debates estéreis sobre como tornar a nossa democracia “efetiva” sem tocar na teta dos impostos dos sindicatos, dos partidos políticos e dos “movimentos sociais” que a falsifica; como “acabar com a impunidade” sem revogar a desigualdade perante a lei que a Constituição consagra; como melhorar a qualidade da educação e do serviço público mantida a indemissibilidade geral e o atrelamento da progressão do salário à chantagem e não ao desempenho, voltam a dominar as telinhas nos intervalos da tragicomédia do impeachment.

É perder um tempo que já não temos. Não ha como consertar o Brasil sem ir à raiz da nossa doença; sem conectar aos representados o fio terra da nossa democracia “representativa”; sem substituir o comércio de privilégios por ferramentas transparentes de educação para a democracia e desinfecção continuada do ambiente do poder como o recall num contexto de voto distrital. Não ha solução mágica, mas esta nos põe de volta numa trajetória ascendente e permite reconstruir, na velocidade que se mostrar possível, esse nosso país em frangalhos.

A Olimpíada provou que, de cima do trilhão e meio de reais que se arrecada por ano em impostos, não nos falta dinheiro nem nos falta “know how” para fazer melhor que os melhores do mundo. Falta, sim, a reverência aos brasileiros que nossos políticos dão aos estrangeiros e, sobretudo, para obriga-los a ela, o foco no essencial e o empenho na cobrança que a imprensa mostrou ao cobrir o Brasil para os estrangeiros mas não mostra quando cobre o Brasil para os brasileiros.

Não é para se ufanar o fato desse Rio de Janeiro da Olimpíada e desse Brasil que funciona só durarem o tempo de uma festa, dessa transitoriedade ser assumida pelos autores do feito e – pior que tudo! – dessa excepcionalidade ser pacificamente aceita pela imprensa que devia falar pelos eleitores. Ser vira-lata, senhoras e senhores, é ter medo de parecer vira-lata … e ficar só nisso.

a3

Aprendendo com o Paraguai

3 de julho de 2012 § Deixe um comentário

São sempre educativas as reviravoltas políticas desta “nuestra América“.

As reações ao impeachment de Fernando Lugo no Paraguai, por exemplo, serviram para recolocar os pingos nos “is” para todos quantos vinham se deixando confundir pelo embaçamento geral dos conceitos que caracterizam os tempos em que vivemos.

O Brasil de dona Dilma, que vive falando na superação do nosso “complexo de vira-latas” com o dedo na cara dos grandes do mundo, mantem-se caninamente preso a ele quando o que está em causa é a ancestralidade nas práticas antidemocráticas.

É ela que rege a peculiar hierarquia do kirshner-bolivarianismo-petista.

Senão como explicar porque, junto com a fina flor dos caçadores de jornalistas da América Latina, a presidente da “6a economia do mundo” foi tão rápida em entrar em forma sob a ordem unida do coronel Chavez, o morubixaba que não admite contestação lá da aldeia venezuelana, para condenar “o golpe suave com verniz de legalidade contra a democracia” que viram na decisão soberana do Senado do Paraguai?

Seguindo todas as exigências legais os paraguaios decidiram mandar de volta para casa o presidente que conseguiu, finalmente, o massacre que andava procurando ao rasgar a lei e fomentar a guerra aberta entre agricultores (especialmente os “brasiguaios” fugidos do pampa de Dilma, de Tarso Genro e de João Pedro Stédile) e invasores de terras insuflados e patrocinados pelo governo deposto.

Lugo agiu na questão agrária, exatamente, aliás, como fizeram cada um dos presidentes vizinhos que correram em seu socorro em seus próprios países. A amarga retaliação via Mercosul, ela própria uma violência jurídica flagrante, responde à impotência de todos de conseguir, no nível dos tratados internacionais regidos por tribunais idem, o que conseguem facilmente em casa que é fazer da lei um instrumento de suas conveniências.

Não há, tecnicamente, como desqualificar a legalidade da decisão do Senado paraguaio. Assim, trataram de forçar a barra na sua agremiaçãozinha particular, mesmo sob o risco de verem-se contestados mais adiante.

O efeito prático, de qualquer maneira, é nenhum.

Despido de todo sentido econômico já faz um bom tempo o Mercosul, que exige de seus sócios respeito às normas democráticas, depois desta admissão no tapetão do maior de todos eles, fica reduzido a uma espécie de Clube dos Cafajestes da subcultura política sul-americana, mais uma vez em temporada de florescimento.

A “união aduaneira” que justificou sua criação está esfacelada nas imagens irretorquíveis das filas de caminhões e dos pátios abarrotados de automóveis de exportação ha meses acumulados nas vizinhanças da “Ponte da Amizade” entre Brasil e Argentina (sempre as inversões semânticas!), impedidos de circular nas economias “hermanas” entre as quais rigorosamente mais nada é livremente trocado graças aos préstimos de dona Christina Kirchner, outra figura sinistra que, malgrado sua insignificância por qualquer tipo de credencial que não seja a de legitima herdeira do peronismo, merece as reverências do PT que se compraz em aplaudir não só os atentados que ela pratica contra as liberdades democráticas quanto, frequentemente, até os desaforos com que ela diariamente nos brinda.

Já Federico Franco, o vice que sobe à Presidência do Paraguai, é reconhecido por todos – especialmente pelos brasileiros perseguidos em seu país – como um amigo de quem trabalha que não contemporiza com os profissionais do esbulho.

Daí se ter renovado contra ele a Tríplice Aliança mercosuliana que, entre dentes, jura de morte aquele que se interpôs no caminho desta América kirchner-bolivariano-petista onde não ha brasileiros, nem venezuelanos, nem argentinos: ha milionários cooptados, miseráveis assistidos e caciques onipotentes para quem tudo é permitido, de um lado, e “burguesias lacaias do império” do outro.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com complexo de vira-lata em VESPEIRO.

%d blogueiros gostam disto: