Pelo imposto da dignidade
1 de outubro de 2012 § 1 comentário
O motim que explodiu na semana passada na unidade de Taiyuan, província de Shanxi, China, da Foxconn, com 40 feridos, foi o enésimo episódio de violência do trabalho registrado sob essa marca que se vai transformando no símbolo mundial do capitalismo selvagem, mas que cresceu e apareceu no cenário das gigantes da manufatura da China especializando-se em trabalhar para a Apple, representante máxima do último refinamento do capitalismo democrático.
A Apple e a Foxconn são, por assim dizer, o ponto onde a cobra morde o próprio rabo, a mostrar que a civilização é mesmo só uma fina camada de verniz e a dar uma nova leitura ao velho ditado de que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“.
Comentei quinta-feira passada a entrevista à Veja do poeta Ferreira Gullar em que ele dizia que, sendo um reflexo dos instintos humanos que empurram para a desigualdade e a injustiça mas, ao mesmo tempo, a forma mais eficaz de produzir riqueza, único remédio capaz de corrigir essas injustiças da natureza, o capitalismo é uma necessidade, “uma fatalidade” que precisa ser controlada, sendo função do Estado impedir que ele seja reduzido a uma mera expressão da lei do mais forte e leve a exploração do homem pelo homem a níveis extremos.
Somente essa fábrica da Foxconn, grupo que emprega mais de um milhão de pessoas, tem 79 mil funcionários, mais ou menos o equivalente a toda a força de trabalho que move a General Motors, um dos últimos “gigantes” (coitados!) remanescentes da era pré-globalização e um dos maiores empregadores que restam nos Estados Unidos.
Este motim, que se segue a episódios que chegaram a extremos como o de suicídios em massa ha dois anos, começou com uma briga entre dois funcionários bêbados que foram atacados com tanta “ferocidade” pelos “seguranças” da fábrica que provocaram uma rebelião geral que requereu a interseção de 5 mil policiais para amainar os ânimos.
A fábrica de Shanxi trabalha tão somente para a Apple, onde se materializam os sonhos futuristas do genial Steve Jobs, símbolo do ápice da sofisticação do capitalismo democrático mas que … jamais teria chegado onde chegou se não explorasse da maneira mais vil e desonesta possível – e antes dos seus concorrentes – a oportunidade de fugir às leis de proteção ao trabalho dos Estados Unidos e pisar na garganta de seus operários aberta pela globalização do mercado de trabalho proporcionada em parte pela informática por ele desenvolvida, exportando a montagem dos computadores que desenhava para a China Comunista onde vale tudo.
A Foxconn é uma estrutura que fica a meio caminho entre uma fábrica e uma prisão. Boa parte dos funcionários vive em cubículos dentro da própria fábrica cumprindo turnos de até 12 horas sob a fiscalização estrita de brutamontes armados.
Como foram trazidos do interior da China, sem um tostão, tornam-se totalmente dependentes desse empregador, quase escravos submetidos a “castigos físicos“, turnos dobrados e etc.
Essa condição vai piorando desde o momento em que se inaugura a produção. Como essas empresas são montadas apenas para servir a Apple, uma vez completado o investimento começam as renegociações draconianas, ano a ano, entre os chineses e a empresa americana que se torna a compradora única de tudo que eles produzem.
Como sempre, entre fechar e seguir vivendo como der, a corda da “redução de custos” e dos “ganhos de produtividade” estoura do lado mais fraco: salários e direitos são esmagados, turnos são aumentados, a qualidade dos materiais, especialmente os que envolvem segurança e limpeza das fábricas, alojamento e alimentação dos operários e outros que não aparecem imediatamente em seu produto final, é espremida…
Vai por aí. Não tem mágica.
Um dia, quando se cansarem de chutar-se uns aos outros em nome de esotéricos conceitos de “esquerda” e “direita“, e métodos “monetaristas” ou “keynesianos” de lidar com o empobrecimento geral que a exportação dos empregos, o aviltamento planetário dos salários e o mau humor geral que disso resulta, os americanos talvez atentem para o verdadeiro foco do problema que eles foram os primeiros a identificar e encaminhar ha quase 240 anos.
Qual seja: não sendo os homens santos, é preciso que sejam controlados para que não se devorem uns aos outros, cabendo ao Estado esse papel. Se o estado se associar ao capital (como está fazendo em marcha acelerada no Brasil do PT e até, em certa medida, nos próprios Estados Unidos), resultam daí as chinas e as foxconn da vida. E, nesta nova realidade globalizada onde “nenhum homem é uma ilha“, havendo um “chinês” disposto a trabalhar como quase escravo, a quem os steve jobs possam recorrer para ganhar um pouco mais, todos nós estaremos fadados a virar quase escravos também.
De modo que a solução para a crise dos Estados Unidos e da Europa não está nos livros de Keynes ou dos monetaristas, nem muito menos em ter uma atitude “liberal” ou “republicana” e em esgrimir brilharecos retóricos em torno dessas nulidades pela imprensa, mas sim em dar um jeito de taxar os produtos que se consome segundo o grau de liberdade e dignidade do trabalho embutidos neles.
Porque sendo o homem a fera que é, regida pela economia (“quem come mais vive mais“), se a liberdade e a dignidade do trabalho continuarem não valendo nada e sendo apenas “custo” estão irremediavelmente fadadas a desaparecer da face da Terra.
A Apple paga penitência
14 de fevereiro de 2012 § 2 Comentários
Com a onda de protestos que começou a rolar depois das reportagens do NYTimes a Apple decidiu entregar à Fair Labor Association (FLA), uma organização não governamental especializada, a tarefa de fazer auditorias em toda a cadeia de fabricas e montadoras chinesas que ela utiliza para produzir seus computadores, tablets e telefones inteligentes.
Para que não fiquem dúvidas sobre suas intenções, autorizou, pela primeira vez, a divulgação dos nomes de todos os fabricantes e fornecedores que, daqui por diante, serão objeto de auditorias e relatórios individuais recorrentes.
A reportagem do NYTimes mostrou como a Apple usava a desculpa da necessidade de segredo industrial para promover falsas auditorias nos seus contratados e esconder as condições sub-humanas de trabalho que ela conscientemente explorava na China.
Depois que as matérias foram publicadas uma série de ações de protesto foram desencadeadas na internet exigindo que a companhia tomasse providências. Entre as dezenas de abaixo assinados propostos, um que reuniu mais de 200 mil assinaturas sugeria que a Apple chamasse a FLA para supervisionar seus empregados e empregadores chineses.
Tim Cook, atual CEO mas que ainda sob as ordens de Steve Jobs montou a estrutura de produção da Apple na China, emitiu um comunicado dizendo que “a auditoria em curso não tem precedente na indústria eletrônica, tanto pela sua extensão quanto pela profundidade da investigação” e agradecendo a FLA “por ter aceito identificar cada fábrica investigada“.
Essa última frase é só uma tentativa canhestra de empurrar para os auditores do passado culpas que eram da Apple que finalmente decide agir depois que seus pecados asiáticos consolidaram sua posição à frente dos concorrentes.
Antes tarde do que nunca.
Há esperanças, portanto. Aí fora ainda reage-se ao excesso de ganância e responde-se à indignação da opinião pública mesmo quando o ganancioso enriquece e pode desfilar o “sucesso” conquistado em função de seus crimes, coisa que no Brasil costuma ser um “argumento” aceito como bastante para empurrar qualquer “malfeito” (isto é, qualquer perfídia de malfeitores) para debaixo do tapete.
Um dia ainda chegaremos lá…
Steve Jobs, o mau patrão, ou, Há capitalismos e capitalismos
30 de janeiro de 2012 § 3 Comentários
O “golpe do gato” consistia no seguinte. O sujeito ia lá para os mais miseráveis grotões do Brasil e oferecia uma boia de salvação. “Precisa-se gente disposta e decidida para trabalhar em frentes de desmatamento na Amazônia. Paga-se bem“.
Eram os anos 70 e as beiradas da Amazônia estavam tão longe do mundo com leis quanto um planeta distante.
O cara ia e logo se dava conta de que para comer, se vestir, tomar um remediozinho, ter qualquer contato com a civilização, dependia da estrutura montada pelo patrão. Só aí começava a aparecer o outro lado da moeda. Na vendinha do patrão, a única lá daquele fim de mundo, tudo custava 10 vezes mais caro. Mas podia ser comprado a prazo…
Moral da história: o sujeito ficava devendo sempre mais do que ganhava e virava escravo.
O golpe arquitetado por Tim Cook para Steve Jobs, o mau patrão, é exatamente semelhante.
Tinha gente que se achava esperta ganhando dinheiro no mole nos Estados Unidos explorando, aqui e ali, condições de trabalho na China que, em casa, os meteria na prisão. Mas isso já se tinha tornado uma commodity. Mortos os concorrentes mais “patrióticos” e “moralistas” que insistiam em não trocar trabalhadores americanos por chineses, todos os que tinham sobrevivido eram igualmente “modernos”.
Assim, simplesmente explorar miseráveis chineses deixou de ser um fator definitivo de sucesso. Era preciso “inovar“.
Jobs tinha o homem certo para o momento certo. E sentiu que esse momento chegara. Lá se foi Tim Cook para a China para descobrir onde estavam as “novas oportunidades de aprimoramento de gestão e ganhos de escala” sobre a miséria chinesa.
A China é um país novo, apenas emergindo do pesadelo maoísta que, debaixo de porrada, levou aquele quarto da humanidade de volta para a Idade Média sob o aplauso entusiasmado de boa parte da inteligentsia ocidental. Tendo regredido ao ponto zero de industrialização, tinha tudo por fazer e nada por reformar.
“É isso“, pensou Tim!
Depois de espremida a laranja até o bagaço dentro dos limites das legislações de trabalho civilizadas, o Ocidente andava, ultimamente, apertando parafusinhos nas cadeia de fornecimento para reduzir estoques e obter pequenas vantagens competitivas. Mas a coisa acabava batendo sempre na dispersão das estruturas existentes e na dificuldade e no custo de reorganizá-las.
Na China não. Onde antes não havia nada não era preciso derrubar para construir ou deslocar para abrir espaços. E, especialmente, não era necessário perder muito tempo fazendo contas. Lá estava o Estado chinês, único dono da economia nacional, e seus ávidos, todo poderosos e sempre seduzíveis funcionários, fiscais de si mesmos, para pagá-las quaisquer que fossem.
Tem mais que um dedinho da Apple, portanto, essa Chengdu, no Sudoeste da China, onde brotou do chão “o maior, mais rápido e mais sofisticado polo de manufaturas do planeta Terra“.
Ali pode-se realizar o sonho de todo contador de tostões: uma série de fabricazinhas absolutamente focadas para cada componente de um produto, umas vizinhas das outras, com centros de montagem espargidos pelo meio, alimentando-se mutuamente com transporte e estoque zero; uma força de trabalho sem nenhum direito constituído, flexível o suficiente para ser jogada pra lá e pra cá, a qualquer hora do dia ou da noite, para atender milimetricamente, para cima ou para baixo, as flutuações da demanda.
E tudo pago a preço vil.
Estava feito o milagre do supply chain!
Uma verdadeira maravilha. E irreplicável fora da China!
Mas o melhor ainda estava por vir. Como a rede de fornecedores, e de fornecedores dos fornecedores, constituía-se para atender a um único cliente – a Apple – este ficava com a faca e o queijo na mão. Com cada fábrica fazendo um pedaço de peça interessante apenas para a fabriqueta vizinha, não se corria o risco, nem de se ver pirateado, nem de ter tal mão de obra disputada por outro.
No way out!
No primeiro ano as coisas corriam conforme o combinado. Mas a cada renovação de contrato, Steve Jobs arrancava mais 10% de seus “parceiros”.
“Não gostou? Ok. Procure outro comprador. Ou feche as portas” (os diálogos são imaginários).
Começava a aparecer o outro lado da moeda…
Espremidos contra a parede, toca cortar custos.
E se foi desenhando o quadro que o New York Times descreveu em minúcias nas reportagens publicadas na semana passada (veja o original aqui):
- montadoras com até um milhão de operários trabalhando seis dias por semana sem sair de dentro da fábrica, dormindo amontoados em quartinhos, quase celas;
- cartazes “à la Aushwitz” dominando os salões de montagem, lembrando àqueles meninos e meninas vindos do interior da China para as garras do “gato”: “Trabalhe duro na tarefa de hoje ou você terá de trabalhar duro para arranjar outro trabalho amanhã“;
- “castigos” para quem chega atrasado à sua bancada variando entre “escrever autocriticas”, copiar centenas de vezes a mesma frase ou fazer flexões deitado no chão da fábrica;
- casos comprovados de “trabalho involuntário” (prisioneiros do regime, talvez?);
- instalações muito mais que precárias, cada vez mais inseguras;
- repetem-se em escala crescente as explosões, com mortos e queimados, de salões de montagem sem ventilação pela acumulação de pó de alumínio (limado do corpo do seu lindo iPad);
- empregados envenenados pela substituição de álcool pelo ultra cancerígeno n-hexano, que evapora três vezes mais rápido, na limpeza das telas dos iPads montados (resultando em mais iPads limpos por pulmão intoxicado);
- salários de fome;
- exploração de menores…
A lista segue em frente.
Sob pressão de ativistas chineses, ONGs dos próprios Estados Unidos e até de organismos do Banco Mundial, a Apple, durante anos, finge que não é com ela. Quando entende que não dá mais para evitar o assunto institui comissões e relatórios anuais de “responsabilidade social” e “normas mínimas de segurança e condições de trabalho”.
Mas, alegando a necessidade de segredo industrial, não revela a lista dos seus fornecedores chineses, sujeitos a tais regras.
Depois da onda de suicídios na Foxconn, cede e “revela” o nome de 156 deles. Reporta punições cosméticas contra alguns, agora que se tornou possível checar o que os relatórios afirmam. Mas os casos de envenenamento e as explosões se multiplicam: os fornecedores desses fornecedores, continuam “secretos”…
“Se você se depara com os mesmos problemas nos relatórios, ano após ano, é porque a companhia os está ignorando em vez de tentar resolvê-los“, diz um funcionário graduado da Apple pedindo anonimato.
Em compensação os números da companhia vão à estratosfera. Steve Jobs brilha. “É tão bom para inventar e desenhar quanto é para gerir“. Eu mesmo caí no logro. A Apple desliza de braçada por sobre o lodo da miséria chinesa, até chegar ao fantástico lucro de US$ 13,06 bilhões de dólares sobre US$ 46,3 bilhões em vendas em um único trimestre anunciados na semana passada.
São esses recordes sucessivos que provocam reuniões sem fim entre os concorrentes e a fila crescente dos “I wannabe Apple” pelo mundo afora: “Então, seus perdedores! Cadê a performance? Não me venham com desculpas românticas. Eu quero é a satisfação dos acionistas“.
É o grito da dupla Jobs/Cook para o lumpen chinês voltando como um eco maldito para o lugar de onde partiu.
E, pelo Ocidente afora, dezenas, centenas de milhões de trabalhadores com direitos vão para a rua da amargura com a substituição da onda “monte seu produto na China ou morra” pelo tsunami “exporte toda a sua cadeia de produção para a China ou morra“.
Eficiência? O milagre do supply chain?
Nada disso. “Quando a esmola é demais até o santo desconfia“. Tem sempre alguém pagando por qualquer “almoço grátis” que se oferece por aí…
“Voltar atrás significaria deter o ritmo da inovação“.
A desculpa de Steve Jobs num seminário onde era acusado de explorar a miséria alheia pouco antes de morrer, é a que resta diante da contundência dos fatos. Uma espécie de curinga para sair de saias justas morais. O mesmo ao qual recorrem, de mr. Kim Dotcom, o megauploader de mercadoria roubada defendido por certa inteligentsia cibernética pelas mesmas razões que seus predecessores defenderam Mao Tsetung, ao Google e todas as criaturas do lado escuro de Silicon Valley sempre que se lhes aponta as vergonhas desnudas.
“E não é isso o capitalismo?“, vem o coro dos que não resistem a uma boa tragédia americana.
Não. Não é isso o capitalismo.
O capitalismo democrático (que antes não precisava ser adjetivado porque não havia outro a não ser este bandalho que conhecemos, que se diz capitalismo mas apenas bandalho é) é, precisamente, o sistema que coloca em campos opostos e nitidamente delimitados o Estado e o capital privado, cabendo ao primeiro fiscalizar o segundo e dizer-lhe, em nome do coletivo, até onde ele está autorizado a crescer, mesmo que jogando inteiramente dentro das regras.
É isto que o define e distingue de tudo o mais.
O capitalismo democrático é aquele que vê o homem como o perigo que ele é e trata de cerceá-lo na sua essência feral, enfim.
É um corolário da democracia, invenção que parte exatamente da mesma visão e tem exatamente o mesmo propósito, e que teve o seu apogeu no século 20 com a criação das legislações antitruste desenhadas para impedir que qualquer homem, qualquer empresa, se tornasse “grande demais para quebrar” ou para se impor ao comum dos mortais, mesmo que exclusivamente em função de competências próprias.
Este da China está muito além deste quase ingênuo capitalismo bandalho nosso velho conhecido. Tem o Estado não apenas como sócio mas como proprietário único do Capital e, consequentemente, todo o resto da sociedade na palma da sua mão.
Nada de conter a fera humana. Nele juntam-se o Capital e o Estado para caçar em matilha. Sobreviva quem puder.
O fato da internet ter permitido que ambições há muito domesticadas por legislações antitruste nacionais hoje escapem delas para ir matar as saudades dos bons velhos tempos da lei da selva alhures, forçando o resto do mundo a se “achinezar”, prova apenas que a tal “inovação” que eles tanto invocam para justificar a sua sede de suor alheio não altera rigorosamente nada o pendor do homem de explorar o homem, que voltará a se manifestar com toda a força da Natureza sempre que a um deles for dada essa prerrogativa.
Feira de Las Vegas ainda no encalço de Steve Jobs
9 de janeiro de 2012 § Deixe um comentário
Abriu segunda-feira o Consumer Eletronic Show de Las Vegas, a maior feira de tecnologia do mundo onde costumam ser lançadas as novidades do ano.
É a primeira edição do evento pós Steve Jobs e embora, como sempre, a Apple seja a única das grandes a não participar, continua sendo ela quem pauta tudo que acontece lá dentro.
Pois por mais que anunciem “mortes” e “nascimentos” de novas eras e tendências, o que todos os grandes que estão lá querem é, em matéria de celulares inteligentes, fazer alguma coisa que tenha pelo menos a metade do sucesso do iPhone; em matéria de tablets, chegar aos pés do iPad; em matéria de computadores, conseguir um eco do hype que ainda cerca os produtos de Cupertino.
A novidade mais aguardada são os lançamentos da Micosoft que, ou colocam a companhia que já foi a dona inconteste do mundo virtual de volta no páreo ou a afastam para sempre.
Ela vem com força total, depois de ter passado anos em humilde silêncio, mergulhada em pesquisa e desenvolvimento para ganhar condições de retomar os trens perdidos da telefonia inteligente e dos tablets.
Essa esperança repousa sobre o novo sistema Windows 8, com versão beta a ser lançada em fevereiro, que promete ser “um novo ecossistema” desenhado para integrar celulares, tablets e televisões num mesmo ambiente operacional completo.
Os críticos especializados que receberam versões experimentais ficaram impressionados com o que viram.
Além disso, o Wall Street Journal publicou matérias recentes noticiando conversações avançadas para uma fusão entre a Microsoft, a Nokia e a Research in Motion (RIM), que faz o BlackBerry. No ano passado a companhia também comprou a Skype (US$ 8,5 bi).
Tem sido unanimemente apontado pelos especialistas, ainda, que o sistema Xbox de games da Microsoft, com sua tecnologia de comando por voz e movimentos do jogador (Kinect) é o mais importante avanço do setor nos últimos anos. Na “sexta-feira negra” de novembro passado, ele vendeu 800 mil unidades.
É um sistema acoplável aos aparelhos de TV que já está conectado a 50 milhões de sets nos Estados Unidos. “Se começar a vender assinaturas e filmes fica, já, tão grande quanto o Netflix“, afirmam analistas do mercado, explicando porque ele fez as ações da Microsoft, paradas nos últimos anos, saltarem.
As telas OLED da Microsoft também são muito mais eficientes à manipulação que as dos produtos Apple, até agora as melhores do mercado, afirma-se.
Tudo isso estará incorporado aos celulares inteligentes Lumia que a Microsoft vai lançar “sob um tsunami de marketing de US$ 200 milhões” para vende-los a US$ 49,99.
Foi anunciada, ainda, uma parceria Microsoft/Facebook para oferecer um sistema de busca melhorado, capaz de trazer menos glut nas respostas do Bing que, segundo os comentaristas, atinge frontalmente o Yahoo.
Enfim, Microsoft é isso: ou vai ou racha.
Na área de tablets, onde a competição é mais feroz a cada dia, destaca-se o Kindle Fire, da Amazon, lançado em novembro, que diz estar vendendo um milhão de unidades por semana. Nada, ainda, que arranhe a preferência pelo iPad que vendeu 35 milhões de unidades em 2011 e espera vender mais 50 milhões em 2012.
Ha uma corrida, também para os Ultrabooks, outra picada aberta por Steve Jobs com o Macbook Air que fica no meio do caminho entre o iPad e os laptops. Todos os grandes fabricantes querem ter ou “motorizar” a sua versão.
Prossegue também, finalmente, a corrida pelo ouro da televisão inteligente. Com toda a revolução dos computadores, a televisão segue incólume como a mais forte e generalizadamente difundida das plataformas de mídia. E isto está fazendo com que os geeks do mundo comecem a desconfiar do porque.
Para mim já é claro ha algum tempo que se trata de uma questão de atitude. A revolução tecnológica fala à imaginação e serve às necessidades do agente ativo (ou interativo como se prefere dizer hoje) enquanto a televisão serve o agente passivo que quer consumir entretenimento puro sem pensar nem agir muito.
Os novos desenvolvimentos começam a considerar essa realidade.
A feira de Las Vegas mostrará novos desenvolvimentos em televisão 3D, uma melhoria na experiência passiva. Já na senda das Smart TVs (interativas), os engenheiros começam a se conformar com a realidade do meio termo, mais compatível com o que a maioria dos telespectadores realmente faz, que é ver TV enquanto segue conversando com os amigos ou perambulando pela rede.
Vem dessa constatação a safra de “companion apps” que serão apresentados em Las Vegas para permitir que os telespectadores continuem fazendo isso sem precisar usar dois aparelhos, ou seja, abrir janelas na sua telona e conversar com seus amigos nas redes através delas.
Ainda na área de TVs, vêm aí novas e poderosas ferramentas de distribuição digital de vídeo que continua sendo um dos negócios que mais crescem no setor.
PS.:
Tom Hanks e o Yahoo acabam de anunciar o lançamento que também será feito na feira de Las Vegas da “web serie” Eletric City, escrita por Hanks.
É um desenho animado com 20 episódios de 3 a 4 minutos cada que incluirá um mapa em 3D onde o espectador poderá interagir e jogar com o filme e com os personagens, um dos quais será “interpretado” e dublado por Tom.
Tudo se passa num futuro “pós-apocaliptico” numa cidade que é tida como um símbolo da paz e da segurança mas que guarda segredos pesados.
O Yahoo tem apostado em “reality series” envolvendo aconselhamento de casais e tietagem de celebridades ao vivo em ambientes da web. Esta parece ser uma tentativa mais ambiciosa nessa mesma linha de levar o espírito da TV para a rede, em vez do contrário.
Nós, Steve Jobs e nossa circunstância
7 de outubro de 2011 § 1 comentário
Nossos heróis têm uma espada na mão ou uma corda no pescoço. É uma sina que compartilhamos com toda a latinidade, da mais sofisticada à mais tosca, porque para todos nós o inferno é a política.
Os heróis norte-americanos têm uma invenção na mão e, quase sempre, uma obra gigantesca e uma montanha de dinheiro a apresentar.
Nós temos os panteões de mártires ou de fazedores de mártires que trocam de lugar uns com os outros com frequência desconcertante dependendo do governo que os festeja em cada etapa de nossas histórias.
Eles têm os panteões dos empreendedores-inventores.
Napoleão, Pedro I, Bolívar, Tiradentes, Mussolini, Guevara…
Henry Ford, Sam Walton, Thomas Edison, Grahan Bell, Andrew Carnegie, Steve Jobs…
Nossos heróis são só nossos. Os deles acabam sendo de toda a humanidade.
Não ha precedente na morte de um empreendedor bilionário provocar uma onda de comoção universal.
Se Ford democratizou o transporte, Edison aparelhou cada casa com uma fonte de energia, Walton deu a todos a condição de se apresentar decentemente vestidos, Bell, a quem quisesse, a capacidade de se comunicar, Jobs deu a todos nós a capacidade de potencializar a força do pensamento e dar alcance ilimitado ao produto do nosso talento.
E fez isso com a simplicidade dos gênios, aliando a tecnologia à arte.
“Ele inventava novos equipamentos como Mozart e Beethoven escreviam música“, cheguei a ler de um fã mais extremado. “E se o melhor do que Beethoven escreveu foi quando já estava surdo, quanto do que Jobs nos legou não foi inventado depois que ele recebeu sua sentença de morte oito anos atrás?”
Mas das dezenas de coisas de e sobre Steve Jobs que li nestes últimos dias, uma em especial fez minha cabeça voar.
O pai biológico do homem que mudou para sempre o mundo como o conhecíamos é Abdul Fatah Jandali, muçulmano nascido em 1931 em Homs, ainda na Síria francesa, que emigrou bem jovem para os Estados Unidos. A história da trágica série de maldosos truques do destino que fez com que ele e Steve nunca chegassem a por os olhos um sobre outro em carne e osso eu relato na postagem na sequência desta.
É uma incrível trama de desencontros que foi preparando minha cabeça para o devaneio “roseano” (de Guimarães Rosa mesmo) a respeito da força do acaso a que acabei por me entregar depois que, ao chegar a uma das entrevistas que deu este ano na vã tentativa de fazer com que seu filho perdido concordasse em conhecê-lo antes de morrer, o velho Abdul, aos 80 anos, mencionou que se pudesse voltar no tempo jamais teria saído da Síria…
Foi o gatilho.
O que poderia ter sido “Steve” Fatah Jandali se tivesse nascido e passado sua vida na Síria? Haveria um Steve Jobs sem Silicon Valley, sem Stanford? Determinado apenas pela genética? Para que lado poderia ser canalizada toda a genialidade que deus lhe deu naquele ambiente oprimido há duas gerações pela brutal ditadura dos Assad?
Nós, cada um de nós, somos ou podemos ser, intrínseca, individual e solitariamente, alguma coisa? E o que seria o mundo hoje se o jovem Abdul tivesse feito o que hoje pensa que gostaria de ter feito?
Foi a lembrança de Jose Ortega y Gasset que me trouxe de volta à Terra: “Eu sou eu e minha circunstância; e se não salvo a ela não salvo a mim“.
Não, Steve Jobs e a sua Apple só seriam possíveis na única democracia que a humanidade criou que elegeu como seu fundamento inegociável o culto incondicional ao mérito. Nada da história que o tornou célebre seria possível senão no único país que substitui o panteão dos mártires pelo panteão dos empreendedores-inventores.
“Go west” foi o grito que simbolizou, no século 19, as esperanças de um novo começo e novas oportunidades numa terra virgem dos obstáculos e limites que tolhiam os súditos da Europa e até mesmo os norte-americanos do Leste.
Steve Jobs, de Cupertino, Califórnia, que plantou a primeira semente da maior empresa do mundo e reinventou a vida moderna numa garagem é o legítimo herdeiro dessa mentalidade.
Quantas tragédias individuais, quanto desperdício se poderia poupar à humanidade se fosse possível enterrar para sempre os sistemas de privilégio e disseminar o império universal do mérito, corolário obrigatório e indissociável do Estado de Direito de que tantos falam mas tão poucos realmente desfrutam!
Mas não é…
“Go west” continua sendo a única alternativa para gente como os Jandali, da Síria, e a esmagadora maioria dos habitantes desta Terra de oprimidos de serem avaliados apenas pelo que se mostrarem capazes de construir.
Mas até quando?
O Economist desta semana faz uma incursão ao lado escuro deste universalmente festejado luar da inovação tecnológica que ninguém ousa apedrejar.
“Designed by Apple in California, Assembled in China, é a frase que está gravada atrás de todos os produtos da fábrica de maravilhas de Steve Jobs.
A liderança econômica global dos Estados Unidos tem beneficiado uma fatia cada vez menor do seu próprio povo na ultima década … A autoestima do empreendedorismo americano hoje é corporificada pela Apple, o Google, o Facebook e a Amazon. De fato são todas companhias fabulosamente inovadoras, embora a gente se pergunte se, cada vez mais, elas não são a exceção e não a regra …
Empreendedorismo e inovação não são a mesma coisa. E ainda que a capacidade de inovação continue muito boa na economia americana, o problema do quão estreitamente os seus frutos são repartidos cresce todos os dias …
Apple, Google, Facebook e Amazon juntas empregam 113 mil pessoas, um terço do que estava na folha de pagamentos da GM em 1980 … o avanço da tecnologia fez, provavelmente, muito mais que o comércio para marginalizar a classe média e ampliar a desigualdade … a globalização beneficiou muito mais os acionistas das empresas e os seus banqueiros do que a massa dos que trabalham nelas …
… mas com todos os defeitos que eles realmente têm, seria injusto culpar os políticos americanos por tudo que está acontecendo: a crescente desigualdade, o declínio dos empregos para a classe média na indústria de manufaturas é um problema que envergonha todos os governos do mundo.
E se os Estados Unidos continuarem se apoiando apenas na sua vantagem tecnológica, é fácil prever que tudo isso vai acabar mal“.
Steve Jobs e suas criações não são apenas uma ilustração viva da malignidade dessa vertente do processo de inovação. Cada nova geração dos seus gadgets, cada nova funcionalidade que eles incorporam, quase cada novo aplicativo que eles assimilam é mais uma indústria que desaparece, é mais uma cadeia inteira de valor que é destruída. A indústria de PCs, a de foto e vídeo, a da música, a de telefones, a de publicação digital, estão entre as muitas que foram revolucionadas por ele. E por traz de cada uma dessas revoluções, terra arrasada.
Steve Jobs e suas criações simbolizam também o instrumental que universalizou as leis da economia antes de universalizar as leis da política que, na sua melhor acepção, é a força que estabelece os limites toleráveis da desigualdade, seja ela fruto do mérito, seja ela consequência da ignorância e da ausência de direitos, que são as armas que “as chinas” do mundo têm usado para arrastar de volta em direção à condição proletária as classes médias dos países mais adiantados.
Ironicamente, só a democracia americana poderia gerar o grau de inovação tecnológica que agora, indiretamente, ameaça destruí-la. A criatura, proverbialmente, se volta contra o criador…
Neste mundo de um só mercado de trabalho e um só mercado de consumo, cada vez mais, também as Nações são as Nações e sua circunstância e, se não salvam a ela, não salvam a si mesmas.
Não há mais ilhas isoladas de direito, de democracia e de bem estar material. Ou os temos todos, ou nãos os teremos nenhuns.































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