Agora sobraram só os matemáticos
5 de outubro de 2011 § 1 comentário
Adeus poesia. Adeus revolução. Viva o dinheiro!
31 de março de 2011 § 1 comentário

Na sua linha tradicional de total intolerância para com qualquer forma de sucesso na web que não seja o seu próprio, (ou ela tenta compra-los, ou trata de mata-los sob uma avalanche de bilhões em concorrência desleal) a pantagruélica Google está tentando um novo ataque contra o Facebook, no momento a razão maior do seu obsessivo ciúme.
No ano passado a Google enterrou algumas centenas de milhões de dólares na tentativa de montar uma rede parecida com o Facebook, chamada Buzz.
Não colou.
Agora esta tentando dar a volta ao muro, em vez de saltá-lo, acoplando à sua ferramenta de busca um equivalente da famosa tecla “curtir”, responsável não só por bilhões de hits na rede do Facebook mas, também, por difundir viralmente tudo que seus usuários publicam de mais interessante, o que cimenta comunidades de usuários com gostos semelhantes e multiplica enormemente a movimentação da rede.
A Google está anunciando a disponibilização da tecla “+1” junto à sua ferramenta de busca que permitirá aos usuários “curtirem” certas páginas trazidas pelo algoritmo googleiano nas buscas por eles empreendidas. Essa avaliação personalizada (em lugar da estritamente matemática) será automaticamente transmitida à lista de “amigos” desses usuários do Google que, quando fizerem suas buscas, receberão essas páginas no topo da lista de respostas, independentemente da colocação que lhes teria sido dada pelo algoritmo puro e simples.

Essas comunidades de amigos” que o Google espera formar não são exatamente voluntarias, como as que se formam no Facebook, mas resultado do cruzamento de todas as informações sobre o uso que cada pessoa faz dos diversos produtos Google como Google Chat, Youtube, busca, serviços de e-mails, etc, e da rede em geral (sites alheios inclusive, como de hábito). Ou seja, algo na velha tradição Google de meter o nariz onde não é chamado sem perder tempo em perguntar onde o usuário gostaria ou não que ela metesse esse nariz…
A Google espera, com o tempo, compor bancos de dados com informações suficientes para dar a cada comunidade de usuários que, por uma razão ou por outra, mantiveram contato um com o outro pela rede afora, resultados personalizados nas suas operações de buscas, jogando na frente da fila tudo que foi “curtido” por estes seus “amigos” desejados ou indesejados.
A briga entre os gigantes da web é de foice no escuro.
Ninguém se satisfaz com bilhões, ainda que sejam centenas de bilhões. E todos querem invadir a seara uns dos outros, acreditando que, de um jeito ou de outro alguém acabará por fazê-lo. Fica cada vez mais distante aquele discurso “libertário” dos tempos da fundação da Google e cada vez mais explicito o da vontade de tudo açambarcar, se possível sozinho.

A Amazon, que viu o seu filão de venda de CDs minguar depois que estouraram as vendas faixa a faixa de musica na web com as invenções de Steve Jobs, anunciou hoje o lançamento de um novo sistema de venda de musica. A novidade é que ao contrário dos existentes na concorrência, quem comprar na Amazon , que hoje vende de space shuttles a alfinetes, não terá de baixar a musica para o seu gadget – celular, tablet ou computador – nem repassar o que comprar de um aparelho para o outro para ter as suas discotecas e playlists em todas as suas máquinas. As musicas e discotecas compradas na Amazon ficarão armazenadas na “nuvem” e poderão ser acessadas de qualquer lugar do mundo. Os primeiros 20 gigas são grátis. A partir daí, paga-se um fee por mês. O problema da Amazon, assim como o da Google, é que nenhuma das duas negociou previamente o seu sistema de vendas com as gravadoras, como fez Steve Jobs, que ainda detém 69% do mercado de venda de musica online.
O Facebook também não esta satisfeito em ser o campeão das redes sociais. Já tem o seu sistema de venda de musica e está entrando agora no de aluguel de filmes, território para o qual a Google também correu recentemente, todos atrás do pioneirismo de Jobs. Embora a oferta de títulos seja ainda muito pequena, Facebook está negociando com os grandes estúdios para amplia-la rapidamente. Sua vantagem é o sistema de indicação de “amigo” para “amigo” que a Google está agora tentando copiar.
Ou seja, Google, Apple, Facebook, Amazon e, atrás delas, alguns azarões que ainda não estão completamente fora do páreo (gente de “apenas” dezenas e não de centenas de bilhões de dólares) , convergem todos para vender conteúdo editorial, sonoro e de cinema online, usando estratégias de associação com os produtores em troca de proteção contra pirataria, como a de Jobs; de indicação de produtos entre amigos, como a de Zuckerberg; de busca como a de Brin e Page. Não demora nada todos eles correrão com receitas convergentes também para o varejo generalizado, como fez Bezos.

A próxima etapa da corrida do varejo online, aliás, promete ser a de internet banking, outro desses filões sem limites do qual o Japão é o paradigma. A ideia geral é fazer com que o celular ou o gadget eletrônico único do futuro muito próximo substitua todas as formas de dinheiro ou quase dinheiro usadas hoje, tais como cartões de crédito e outras mais antigas. Então, tudo se comprará, tudo se lerá, tudo se ouvirá, tudo se assistirá e tudo se pagará apertando botõezinhos da mesma máquina.
Do lado de cá do mundo, a Google é quem corre na frente, entre os gigantes, nesse setor. Está em negociações avançadas com Citigroup e Mastercard.
E como a questão regulatória ainda é uma interrogação em aberto para muitas dessas atividades, outro ponto em que todos se parecem é na corrida pela contratação, a peso de ouro, de altos funcionários de governo bons de lobby. O Facebook, por exemplo, está contratando Robert Gibbs, ex-secretário de imprensa da Casa Branca. Al Gore é do conselho do Google, e a lista vai por aí, recheada de um numero cada vez maior de nomes estrelados dos altos escalões de Wall Street ou do governo federal, que são quem ainda manda no mundo.
Pelo que, recorda-se aos sonhadores e aos “ideólogos da web” que, superada a primeira infância dos estudantes inventores em suas proverbiais garagens; experimentado o primeiro “mel”, é a velha natureza humana de sempre que se impõe. A Google nasceu com um discurso “libertário” (que desde o primeiro dia lhe deu muito lucro, diga-se de passagem, porque era com ele que justificavam ignorar direitos autorais e faturar sobre obras alheias). Seus donos, até hoje, gostam de ser chamados “Os Fundadores” ( de uma “nova ordem”) buscando um eco dos Founding Fathers da democracia americana…
Mas tudo isso foi ha 10 anos que, na era das redes, equivalem a 10 séculos. Hoje só voam mísseis cruise pelos céus do cyber espaço .
Poesia é para os poetas; revoluções são para os revolucionários. As grandes corporações querem mesmo é dinheiro, que é o outro nome do Poder.

Google ataca. É o fim da Apple?
21 de fevereiro de 2011 § Deixe um comentário
Steve Jobs: fora de combate, de novo
Aproveitando-se da péssima repercussão entre os produtores de conteúdo do novo modelo de cobrança anunciado pela Apple na terça-feira passada (15/2), o CEO da Google, Eric Schmidt, anunciou, no dia seguinte, uma plataforma concorrente de venda em regime de dumping de conteúdos digitalizados e, neste fim de semana, no Mobile World Congress em Barcelona, um novo e revolucionário sistema de games que podem vir a ser o golpe de misericórdia na fantástica usina de gadgets e centro de criação de novos modelos de distribuição e consumo de musica, produtos editoriais, filmes e aplicativos para computador de Steve Jobs.
A Apple é totalmente dependente do gênio inovador e da elegância do design de Jobs, um espírito solitário e obsessivamente centralizador, que está mais uma vez fora de combate, derrubado pelo câncer que já lhe impôs um transplante de fígado e agora compromete o seu pâncreas.
Larry Page e Sergei Brim: tudo menos poesia
E se existe alguma coisa que o “admirável mundo novo” importou intacto do velho, foi a ganância dos poderosos e a ausência de poesia na competição entre as grandes corporações que eles montam para galgar as escadarias do poder: no momento crítico vivido pelo adversário a Google atacará por todos os flancos e com todas as armas que tem, aliada com dezenas de fabricantes de hardware e de software.
Foi Steve Jobs quem abriu o flanco. Comprou antipatias poderosas ao impor seu novo modelo de cobrança no momento em que as casas editoriais do mundo todo, estranguladas pela pirataria, viram uma tábua de salvação no seu iPad e se preparavam para “fechar” seus conteúdos ainda abertos na internet e passar a cobrar assinaturas. Como o caminho para os produtores de livros, jornais e revistas tem sido desenvolver aplicativos oferecidos gratuitamente no iPhone e no iPad que dão acesso aos seus produtos, Jobs decidiu virar a mesa.
Sucessos de Barcelona: LG Optimus 3D, grava vídeos em 3D que vão direto para o Youtube (Android)
De agora em diante, aplicativos que dão acesso a esses conteúdos não poderão ser distribuídos de graça em suas App’s stores e qualquer assinatura feita através deles pagará 30% para a Apple que, ainda por cima, continuará explorando os direitos sobre esses cadastros de assinantes. As editoras de jornais, livros e revistas têm a alternativa de vender o aplicativo que dá acesso ao seu produto em seu próprio site e ficar com 100% do que cobrarem pelas assinaturas. Mas se quiserem se oferecer também nas plataformas globais já estabelecidas de Steve Jobs, terão de dar ao assinante as mesmas condições ofertadas na sua própria banca e aceitar um corte de 30% no faturamento.
As condições são draconianas, portanto.
Tendo sido o inventor do novo modelo, Steve Jobs ainda conta com uma boa dianteira. Domina 66% do mercado de venda de musica online, via iTunes , o precursor desse novo filão que ele ainda explora praticamente sozinho. Atrás do iTunes veio o iPhone que, com velocidade fulminante, se transformou na maior plataforma universal de venda de aplicativos, e o iPad, que pretendia se transformar na maior banca de jornais e revistas do mundo e disputar com o Kindle, da Amazon, o título de maior livraria do planeta.
Sucessos de Barcelona: Samsung Galaxy S II, smartphone com duas webcams; voce vê quem fala ou vê o que ele vê (Android)
Mas este mundo em que pouco se cria e tudo (muito rapidamente) se copia, com a Google à frente, está nos seus calcanhares.
O novo sistema One Pass, baseado na nova geração da plataforma Android, que anima os celulares de todos os fabricantes do mundo que aderiram à Google para ocupar o mercado antes dominado pelo iPhone, mira a jugular da Apple: cobrará apenas 10% e deverá incluir, em breve, um aplicativo para venda de música que o tornará completo, uma vez que já é capaz de entregar filmes e texto. Além disso, a Google, ao contrário do que sempre fez até aqui, entregará todas as informações sobre os assinantes aos donos dos conteúdos vendidos. Esse novo sistema poderá rodar em celulares, tablets e computadores, indiferentemente, de todo e qualquer fabricante do planeta que quiser “motorizar” seus gadgets com ele. E eles são muitos e poderosos.
Sucessos de Barcelona: Sony Xperia Play; o “telefone Playstation”, nas lojas em abril (Android)
(No ultimo trimestre de 2010, foram vendidos 33,3 milhões de celulares com o sistema Android contra 31 milhões “motorizados” com o sistema Symbian, 16,2 milhões de iPhones, 14,6 milhões de Blackberrys (sistema RIM) e 3,1 milhões com o sistema da Microsoft).
Para matar a Apple, portanto, a Google abre mão do padrão de entregar “de graça” os conteúdos alheios, que ela sempre defendeu como sendo de fundamento “ideológico” e “libertário” aos que a acusavam de roubo de conteúdo. Não mais que de repente passa a reconhecer o direito de autoria e concede a quem produz musica ou matéria vender pelo seu sistema por módicos 10%…
Ha um consenso de que os 30% de Steve Jobs são demais. Mas isso pouco interessa à Google porque se a Apple tira, hoje, a maior parte do seu faturamento das comissōes sobre vendas de conteúdos de terceiros, a companhia de Serguei Brim e Larry Page vive de vender informações sobre os usuários da sua ferramenta de busca e dos sites de agregação de conteúdos alheios que monta, além de publicidade customizada em sites de terceiros. Não precisa da nova fonte de faturamento. E se for o caso, tem muuuuito dinheiro para perder…
Sucessos de Barcelona: Umeox Apollo, sem aplicações novas mas tocado a energia solar (Android)
Entretanto, perder dinheiro não é o que ela pretende fazer, a não ser pelo tempo necessário para ganhar muito mais logo adiante. A Google é odiada pelos produtores de conteúdos de informação que ela direta ou indiretamente pirateia. Mas vem trabalhando ha tempos os produtores de entretenimento e de hardware que tinham medo de se tornar reféns de Steve Jobs tendo se associado a alguns dos mais fortes entre eles (Sony, Intel, Best Buy e outros) em projetos de intenções matadoras. A Sony (gravadora) e a Rapsody anunciaram quase junto com o comunicado de Eric Schmidt movimentos de boicote contra o novo sistema de cobrança de Jobs. Na frente regulatória também não ha trégua e investigações por abuso de poder de mercado contra a Apple estão sendo tentadas junto às autoridades de concorrência europeias e americanas.
Com sua nova política de cobrança sobre os aplicativos, Jobs desastradamente também pisou no calo dos produtores de informação que o tinham como um aliado potencial. Como resultado, alguns grandes editores de jornais e revistas europeus (Axel Springer, na Alemanha, DMGT, na Inglaterra, Prisa, na Espanha) abriram a fila e anunciaram sua adesão ao sistema One Pass.
Sucessos de Barcelona: Sony Ericsson Live View, sincroniza com qualquer fone com Android; e-mails textos, aplicativos, etc.
A potencial pá de cal, entretanto, foi esboçada neste fim de semana em Barcelona, no Mobile World Congress do qual participaram 60 mil profissionais do setor de 200 países do mundo.
O evento foi inteiramente dominado pela Google que ocupou dois andares da exposição para apresentar a nova geração do sistema Android e, junto com seus sócios do mundo todo, os novos gadgets que ele vai animar.
O foco da exposição foi a integração dos telefones inteligentes, tablets e computadores às novas e revolucionárias capacitações para games que o novo sistema da Google vai proporcionar.
O setor de games é reconhecido como o grande laboratório de inovação das tecnologias de informática. Os aparelhos “motorizados” pelo Android terão, já a partir de abril próximo, a mesma capacidade de processamento e definição de games hoje oferecidas pelas melhores plataformas dedicadas exclusivamente aos jogos de computador como o Playstation 3 da Sony ou o Xbox 360, o que os levará muito além da capacidade hoje apresentada pelo iPhone e pelo iPad. O principal animador de jogos associado à Apple, a Gameloft, passou para o lado do Google e está lançando jogos em 3D para telefones e tablets no sistema do novo sócio.
Sucessos de Barcelona: HP WebOS; video-calls, 32 gigas e tudo que tem de ter (Android)
Mas isso é só o começo. O grande parceiro da Google no setor é a NVIDIA, que apresentou sua nova tecnologia de processamento Tegra 2, que acelerará a capacidade de telefones, tablets e computadores em 10 vezes, processará imagens, em qualquer deles, em HD de 1080 linhas e terá consumo ultra-baixo de energia capaz de oferecer 16 horas de filmes em HD ou 140 horas de música com uma unica carga.
A grande revolução, entretanto, é que o sistema promete “para o final do outono”: a possibilidade de jogos em plataformas múltiplas, em que os participantes poderão formar times para disputar uns com os outros a partir de qualquer lugar do mundo com conexão de internet. Imagine-se as possibilidades de uso de uma ferramenta com essa capacidade no mundo corporativo.
“Para 2014, o Tegra 2 evoluirá para um sistema 75 vezes mais rápido que o novo e oferecerá assinaturas para jogos em streaming video e conexão sem fio com qualquer aparelho de HDTV, sem necessidade de nenhum programa ou hardware adicional. Cada vez mais os consumidores usarão um único aparelho para tudo, incluindo games, multimídia, entretenimento e navegação na rede. E o Android está perfeitamente posicionado para esse momento”, diz Schmidt.
Com Steve Jobs com a saúde gravemente abalada o futuro da Apple não parece brilhante. Tim Cook, o segundo em comando, já tem falado, até com o endosso tácito de Jobs, em entrar no território da Google abrindo suas plataformas e programas para todo fabricante que quiser usá-los e aderindo a um sistema de desenvolvimento colaborativo. Resta saber se haverá tempo para uma mudança desse tipo.
Sucessos de Barcelona: Samsung Galaxy 10.1; Android 3.0, CPU dual-core, duas webcams, 32 gigas… (Android)
Beatles: Apple se rende à Apple
18 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

Matéria da Reuters publicada hoje (aqui) sobre a entrada dos Beatles no catálogo do iTunes depois de sete anos de resistência da um retratinho da industria da musica.
A pirataria praticamente matou a venda de CDs dos Beatles nestes últimos anos. Mas ainda que as musicas deles continuem circulando em sites de troca de arquivos musicais, isso não significa que o ingresso no catalogo do iTunes vai ser irrelevante.
Todos os músicos do mundo são pirateados. Mas o ultimo álbum do Eminen, “Recovery”, ainda vendeu “por dentro” 2,9 milhões de copias, 728 mil das quais (25%) via iTunes.
Como Eminen, as musicas dos Beatles não serão vendidas uma a uma. Só se pode comprar os discos inteiros por US$ 12,99 a peça, mais caros que os de outros grupos que são vendidos a US$ 9,99. Espera-se que depois das musicas, as duas Apples entrem em acordo sobre a venda de outros materiais relativos aos Beatles (filmes, etc.) online.
A noticia anima as agravadoras.
As vendas de musica online andavam derrapando ultimamente nos Estados Unidos. Até a primeira semana de novembro as vendas de álbuns inteiros tinham crescido 12%, bem menos que os 17,5% que tinham crescido no mesmo período do ano passado. E as vendas faixa por faixa tiveram redução de 0,4%, depois de terem crescido 10,2% no ano anterior
Os Beatles marcam a rendição da Apple Records à Apple Computer Inc., de Steve Jobs, que consolida a sua posição de líder absoluto da venda de musica online. Primeiro o nome (houve uma longa briga nos tribunais por causa dele); agora as musicas. Atrás dos Beatles devem vir todos os outros autores do passado e do presente que ainda resistem às vendas online como James Taylor, Billy Preston, Badfinger, Bob Seger , AC/DC, Def Leppard, e outros.

Jobs e Google: duas visões antagônicas da web
27 de agosto de 2010 § Deixe um comentário

Steve Jobs deve anunciar na quarta-feira, 1 de setembro, o seu esquema de web-TV, na sequência do lançamento da Google TV na semana passada (dia 19).
Bem ao estilo de cada um, o esquema da Apple TV é uma parceria com produtores de conteúdo para vender seus produtos muito barato na rede – o já mítico US$ 0,99 por unidade de Jobs que deu certo na musica e acabou com as grandes gravadoras – enquanto o da Google TV é uma parceria com gigantes do hardware e do software para permitir o funcionamento de mecanismos de busca nos conteúdos alheios e variadas operações interativas pela TV afora.
O CEO da Google, Eric Smith, acompanhado de representantes da Intel, da Adobe, da Sony, da Logitech, da Dish Network e da Best Buy, seus sócios no empreendimento, apresentou a novidade na semana passada em São Francisco dizendo que seu projeto “requer todo um ecossistema de sócios” e “só se tornou tecnicamente viável com o advento da computação na nuvem” (isto é, com o internauta recorrendo a vários softwares e bancos de dados diferentes que não precisam ser instalados diretamente em seu computador; podem ser acessados remotamente).
Com a Google TV o usuário poderá, em resumo, alternar entre a televisão e a internet, ter acesso aos seus sites preferidos por meio do televisor e neles fazer todas as operações que está acostumado a fazer no computador. “Com toda a internet na sua sala, a TV torna-se mais do que uma TV – pode ser um visualizador de fotos, um console de games, um leitor de músicas e muito mais”, diz o site da Google.
A Sony vai fabricar uma linha de televisores e Blu-ray players com o sistema operacional Android e o navegador de internet Chrome, da Google, animados pelo chip Atom, da Intel. A Logitech vai lançar um decodificador com teclado integrado e um controle remoto. A Dish Network vai integrar o sistema ao satélite permitindo buscas extensivas em toda a programação das TVs. E a Best Buy terá prioridade na venda dos novos equipamentos.
A expectativa é que a novidade chegue ao mercado em 2011. E a Intel afirma que, desde já, as vendas do seu chip para fabricantes de TV dispararam e que “a TV Inteligente é a maior revolução no setor desde o advento da TV a cores”.

O esquema da Google aparentemente baseia-se na sua tradicional linha de ação de re-empacotar os conteúdos alheios sem pedir licença, aproveitando-se do vazio regulatório de um ambiente em constante mudança para criar fatos consumados. Com suas ferramentas invasivas apropria-se de virtualmente todos os conteúdos em circulação na rede e os redistribui “de graça”, o que lhe rende um volume de trafego insuperável. E este tráfego, sim, a Google, “proprietariamente”, monetiza.
Ela própria, entretanto, dá sinais de estar consciente de que não poderá continuar trabalhando assim para sempre. Com o que está amealhando com essas ações de caráter predatório trata, um tanto erraticamente mas sempre em escala mégalo, de fincar os pés em todo tipo de negócio que se mostra promissor na web, ultimamente usando mais o talão de cheques que capacidade própria de inovação. No momento prepara uma guerra contra o Facebook, que disputa com ela a hegemonia da veiculação de publicidade na rede, e outra contra o Skipe, que explora telefonia IP. Por via das duvidas, vai comprando o que pode de conteúdo não perecível como direitos autorais (o que é uma confissão de dolo), bibliotecas, coleções de filmes e imagens e bancos de dados em geral pelo mundo afora. Investe pesado, também, naquele que vai se definindo como um de seus nichos de especialização, os mapas interativos que, quando estiverem acoplados à reprodução fotográfica de todas as ruas e lojas do mundo – operação ora em curso apesar dos inúmeros problemas jurídicos que tem provocado – pode lhe proporcionar uma vantagem praticamente irreplicável no comércio virtual. (Veja no filme publicado aqui como isso vai funcionar).
Já a estratégia de Steve Jobs é se aliar aos produtores de conteúdo oferecendo-lhes plataformas globais de venda dos seus produtos relativamente protegidas contra a pirataria, cobrando um fee por cada venda feita. Engenheiro e designer de indiscutível capacidade de sedução, Jobs desenvolve sozinho seu hardware e seu software, no mais absoluto segredo. Seu objetivo, ao “fechar” seus sistemas, é dar a quem usa suas plataformas de vendas o máximo de proteção contra a pirataria e, assim, tornar sustentável a produção de conteúdos de qualidade em esquemas profissionais “high-end”.

Seja quanto for que possa durar a proteção que ele oferece, o fato é que foi essa característica que fez dele o primeiro grande operador a conseguir montar, ao lado do seu negócio de desenho e fabricação de hardware e sistemas de operação, uma plataforma de negócios altamente rentavel sustentada pela venda de conteúdos online, seja na música, onde tudo começou, seja na venda de aplicativos, no iPhone, seja na de produtos editoriais, no iPad.
No que diz respeito ao modo de abordar a rede, portanto, Steve Jobs apresenta-se cada vez mais explicitamente como um antípoda da Google, que vive basicamente de dar a seus clientes ferramentas para “pular a roleta” e consumir sem pagar o que terceiros colocam na web.
Sua nova operação de TV parece ser um passo decisivo nessa direção.
Embora nada ainda esteja confirmado oficialmente, o que seria anunciado na próxima quarta-feira, 1 de setembro, é uma associação formal da Apple TV com a Disney e a sua rede ABC de televisão e com a Fox/News Corporation, de Rupert Murdoch, para vender seus conteúdos “on demand” a US$ 0,99 o programa, sejam eles filmes ou produções especiais para TV. A Apple tentou incluir também a CBS e a Time-Warner/Turner no acordo mas elas ainda estão resistindo porque têm investimentos pesados na TV a cabo que deverá ser a principal vitima da novidade se os novos sistemas de web-TV vingarem.
Jobs usará o mesmo sistema operacional que anima o iPhone e o iPad e, alem dos conteúdos de TV de terceiros que ele faz questão de remunerar, oferecerá ao publico games para a “telona” e aplicativos para customizar sua programação escritos por quem quiser usar sua plataforma para vende-los, como já faz com esses dois equipamentos.
Parece claro que o anuncio um tanto apressado de Jobs “corre atras do prejuízo” que lhe possa advir da iniciativa da Google com os pesos pesadíssimos aos quais se uniu. Ha cerca de três anos Jobs lançou uma “caixa” complementar aos seus computadores que interliga todos os computadores e aparelhos de TV em uso numa residência, dando-lhes alguma condição de interatividade. Mas não é um sistema tão integrado e acabado como promete ser o da Google e seus novos sócios. Ele nunca chegou a funcionar de modo totalmente satisfatório.

Ferramentas capazes de “catar” programas nas TVs a cabo ou abertas e baixá-los pela internet para que o consumidor possa assisti-los quando quiser já existem ha alguns anos. Os dois mais conhecidos e difundidos são o Netflix e o Hulu, este ultimo pertencente à uma sociedade da rede NBC, da Universal, com a Fox/News Corporation e a Disney. Ele surgiu como uma manobra de defesa dessas empresas que acharam melhor entrar elas próprias no novo sistema (comprando uma ferramenta que já estava operando no mercado) mesmo sem terem antes um modelo de negócio bem definido do que deixar o caminho livre para terceiros piratearem seus conteúdos.
Já o modelo de negócios do Netflix, que só opera nos Estados Unidos, inclui uma assinatura de US$ 9 por mês (contra US$ 100 a 150 dos provedores de TV a cabo), para dar ao consumidor a opção de escolher cada programa e baixa-lo para assistir quando quiser em lugar de ter de comprar o pacote inteiro oferecido pelos provedores de cabo e ser obrigado a se submeter aos seus horários de exibição. A Netflix também vende DVDs por e-mail, o que foi suficiente para por a Blockbuster de joelhos. Mas é só.
Os novos sistemas que agora se anuncia prometem entregar, alem dessa capacidade de escolha e compra seletiva de programação, interatividade completa com os sistemas de TV existentes.
Com a entrada da Google e da Apple na disputa pela TV online os analistas acreditam que os provedores de TV a cabo como conhecemos hoje tendem a desaparecer. Hollywood, que vinha sendo fortemente sangrada pela pirataria, saudou como positivas as notícias vindas da Apple que acenam com uma nova e promissora plataforma de venda dos seus produtos. Também devem ser menos atingidos os produtos em que o ineditismo e/ou a instantaneidade – como nos shows, nos eventos esportivos e no jornalismo – integram a cadeia de valor.
Seja qual for o vencedor, está cada vez mais claro que Steve Jobs e a dupla de criadores do Google representam duas filosofias antagônicas de modelos de negócio na internet e que o resultado do duelo entre eles vai ajudar a definir o futuro da rede como ambiente de negócios.



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