Vender preservação é um alto negócio
4 de abril de 2011 § 2 Comentários

Na semana passada os jornais mencionaram uma discussão que estaria começando a correr nos meios ambientais do governo para ceder a exploração (turística) de nossos parques e áreas preservadas pela iniciativa privada.
Seria um passo decisivo para mudar o quadro dramático de absoluto analfabetismo ambiental que assola o Brasil.
Entre os muitos aleijões que a escravidão prolongada produziu neste país, o analfabetismo ambiental conta entre as piores.
O mato, para o colonizador português de beira de praia, sempre foi apenas e tão somente o limite do canavial além do qual só havia “bugres, feras e miasmas”. Eles nunca puseram os pés nele nem para caçar o de comer quando isso era absolutamente necessário. Sempre tiveram o escravo, índio ou negro, para fazer isso por eles, ou para, preferencialmente, empurrar a ferro e fogo o mato para mais longe.
Quando, finalmente, entramos pelo interior adentro, já o fizemos com motosserras, tratores de esteira e “correntões”. Destruímos nossas floresta sem nunca termos tido sequer de entrar nelas.
Isso criou uma distorção que é única no mundo, especialmente nestes tempos em que, com a exceção deste glorioso país com verde na bandeira, todo o mundo valoriza cada vez mais conviver de fato com a natureza selvagem.

A indústria do turismo outdoors é uma das grandes forças econômicas do planeta. E paga-se tanto mais caro quanto mais puro e básico ele puder ser. Finalmente juntou-se a conservação com a necessidade de conservar, uma valorizando a outra. Mas aqui, para a esmagadora maioria de uma população de urbanoides que dificilmente viram mais mamíferos vivos que um cachorro ou um rato de esgoto, isso ainda é “programa de índio”.
Os programas de TV que miram esse segmento, dito “da aventura”, expressão que remete diretamente para as noções de risco e inospitalidade, ainda chamam eucaliptais e campos plantados de braquiária de “áreas verdes” a serem “curtidas” e até “amadas” (porque hoje “gostamos”, do que quer que seja, à americana).
E a primeira providencia dos nossos “ambientalistas” ao criar um parque nacional ou uma área de preservação é proibir a entrada do publico nela, para que não haja o mais remoto perigo de virmos a ter, um dia, algo que se pareça com uma educação ambiental de fato, que nada mais é do que viver uma boa parte da vida nesses ambientes – em geral a melhor porque é lá que se vai para fugir do trabalho e ter prazer. As pessoas lutam por lugares de que se sentem donas. E se sentem donas dos lugares que fazem parte das suas melhores memórias de vida.
Mas entre nós, educação ambiental não é uma prática. É uma ideologia. Uma cagação de regras que raramente fazem sentido. E, no mato pra valer, só se entra clandestinamente, para destruí-lo. Até os cientistas têm sua condição de estudar o que é preciso estudar na natureza para poder conviver razoavelmente com ela restringida de forma absurda quando não ridícula pelos ambientalistas mais radicais.

Na África, com apoio da Cites que é o órgão da ONU para espécies ameaçadas, diversos países reservam as terras lindeiras com reservas e parques nacionais exclusivamente para fazendas de caça ou outras formas de exploração de esportes de natureza, porque isso aumenta a extensão da área preservada, cria uma guarda realmente interessada em coibir abusos (para proteger investimentos e interesses econômicos concretos) sem custo para os cofres públicos e bem menos subornável que as dos governos.
Isso interessa aos investidores pela razão simples de que o parque, lá atrás, repõe caça nas fazendas lá na frente, e caça é a única coisa que vale (muito) mais que soja. A coisa funciona sozinha, em função de mutuo interesse, portanto. É só deixar que aconteça.
Mas nossos “ambientalistas” decretaram que a atividade que define a nossa espécie e garantiu que o homo sapiens chegasse até os dias de hoje é “imoral”. Temos de ensinar nossas crianças que os dentes caninos estão na nossa boca por acaso e os frangos e bifes que comemos todos os dias são fabricados, já com a conveniente embalagem de plástico, nos fundos dos supermercados, sem sangue nem custo ambiental algum, e que a equação da sustentabilidade não se refere nem à superpopulação humana nem ao que temos de derrubar e suprimir para abrir espaço para fabricar o que comemos e o que vestimos, mas sim aos malvados dos americanos e seu “modo perverso de produção”.
Tudo bem! Concedo! Religião não se discute!

Mas vamos, pelo menos, adaptar as ideias civilizadas que deram certo. Que tal incentivar os gringos – e também os ricos brasileiros, porque não! – a comprar bem mais barato terras no entorno dos restos do nosso cerrado, da mata atlântica, nas beiradas da Amazônia, em volta dos nossos “invioláveis” parques nacionais, na beira dos nossos rios só para esses “esportes de aventura”, nem que seja esses do critério politicamente correto (dependendo do horário) das nossas redes de TV?
Ha meses que o Brasil discute apaixonadamente a proibição da venda de terras a estrangeiros, como se eles pudessem carregar o que comprarem debaixo do braço para fora daqui.
Para ser franco, nunca entendi porque estrangeiros investirem para produzir soja ou outra commodity agrícola aqui teria efeitos mais perversos que estrangeiros investirem para produzir automóveis ou televisores aqui.
Criados os empregos, pagos os impostos, passados todos os trâmites legais para exportar essa produção, o que, de fato estaríamos perdendo? Se queremos impedir que a China fabrique proteína animal lá com a proteína vegetal plantada aqui para exportar mais valor agregado, a questão a ser atacada não é o “custo Brasil” sobre a mão de obra (desqualificada), a infraestrutura (sucateada) e os impostos (excessivos para sustentar gastos obcenos de uma casta política privilegiada) que tiram a condição de competir da indústria nacional?

Pra exportar mais valor agregado é preciso domar o PT e o resto dos políticos e não os chineses.
Aos chineses nós devíamos é propor que comprem três alqueires de terras para conservação a cada alqueire de terra para agricultura, por exemplo.
Se ha uma fonte de dinheiro sem custo virtualmente inesgotável, hoje, é essa: todo bilionário do mundo, toda grande empresa do mundo quer enfiar seus bilhões, antes de mais nada, em preservação ambiental. Estão comprando áreas para preservar ou até para devolver à natureza em toda a parte e só não fazem isso aqui porque o governo não deixa.
Se apenas lhes oferecêssemos a oportunidade de comprar para preservar áreas do nosso quase extinto cerrado, nas bordas do que resta da mata atlântica ou em terras amazônicas nesta véspera daquela região ser eletrificada, o que vai multiplicar de forma devastadora a velocidade da devastação, nossos filhos poderiam dormir um pouco mais tranquilos.
Insisto: ha maneiras melhores de gastar neurônios com o binômio terras x estrangeiros do que escolher que tipo de dinheiro pode ou não explorar aquelas que já estão entregues à sanha da agricultura. Muito mais importante – para o Brasil e para o resto do mundo – é convocar os donos de todo dinheiro ocioso ou culpado do mundo (e se incluirmos este já não escapa quase nenhum) a vir comprar uma chance de subir para o purgatório evitando que o que ainda não foi engolido pela fronteira agrícola venha a sê-lo logo ali adiante.

Em defesa do latifúndio ecológico
4 de fevereiro de 2011 § 2 Comentários
O vale do Yandegaia, Patagônia chilena
Os jornais andam publicando notinhas dando conta da intenção do ministro Wagner Rossi, da Agricultura, de alterar aquela lei idiota passada no ano passado proibindo estrangeiros de comprar terras no Brasil.
Sempre achei que tinha dente de cachorro grande nessa história, que rolou não mais que de repente quando grupos internacionais se movimentavam para tomar posição na corrida pelos bio-combustíveis e pelas commodities brasileiras, bem na hora em que um gigante privado local dava os últimos pontinhos para fechar o seu esquema hegemônico.
Passar uma rasteira nos concorrentes estrangeiros foi sopa no mel naqueles tempos em que gritar “Fora gringo!” era coisa de repercussão garantida e imediata no Itamaraty “bolivariano” de Celso Amorin/Marco Aurélio Garcia.
É verdade que mesmo neste Brasil mais sério da Dilma não existe nada mais improvável que passar da proibição total para programas de conservação do meio ambiente com a participação de capitais internacionais como eu quero propor que se faça também aqui neste longínquo grotão do mundo isolado da modernidade pela barreira da língua onde os dinosauros do ecoideologismo e as velhas viuvas do mundo com fronteiras que ainda se entrincheiram em órgãos públicos, redaçōes e ONGs cevadas com dinheiro do governo reagem em ordem unida se, e somente se, o objetivo final for apedrejar “O Império”.

Mas como ha muito tempo deliberei ignorar todas as provas em contrário que tenho colhido da experiência concreta e me aferrar com unhas e dentes até o fim ao otimismo e à fé na razão sem a qual a prática do jornalismo não faz sentido, vou insistir:
Não ha nada mais absurdo que agir (e legislar) como se fosse possível a um gringo que investisse em terras por aqui arrancar o seu terreno do nosso mapa ou mesmo as benfeitorias nele plantadas e leva-los pra casa debaixo do braço.
A balela do “roubo de biodiversidade” e de segredos dos nossos matos então é mais ridícula ainda. Primeiro porque sem bilhões de dólares em cima e décadas seguidas de pesquisa, experimentação e aplicação intensiva de altíssima tecnologia, nada no mato deixa de ser o que é no estado natural: apenas e tão somente comida para formiga. Segundo porque achar que proibindo gringo de comprar terra vai se impedir que ele contrate índios ou quem mais seja pra catar folhas por aí e mandar-lhe, até pelo correio, promessas de bons princípios ativos é história da carochinha em que nem debiloide embarca com fé.
Douglas Tompkins
Dinheiro gasto em preservação – isto é, para manter uma área intacta como a Natureza a fez – é, portanto, o dinheiro mais desinteressado e mais facilmente nacionalizável do mundo. Não ha rigorosamente nenhum risco de prejuízo que não se possa recuperar integral e imediatamente com uma simples assinatura da autoridade competente.
Muito bem.
O ministério da Agricultura de Dilma, ao que se informa, não baba nem perde a capacidade de raciocinar à simples menção da palavra “estrangeiro”, como ainda acontece em certos arraiais do petismo. “Restrinjam-se as compras dos grandes fundos por traz dos quais estão até governos como o da China. Restrinjam-se as compras dos grandes traders de commodities que querem verticalizar seus esquemas porque uma e outra restrição fazem, sim, sentido. Mas libere-se o investimento privado que vá virar produção, melhoria tecnológica e emprego, venha de onde vier o dinheiro”, é o que diz o novo ministro.
Já é alguma coisa…
Mas se é justificável que o dinheiro estrangeiro venha fazer nossas terras produzirem, não é muito mais justificável ainda, no país que tem dado mostras de que não consegue garantir sozinho a conservação de suas florestas, os alvéolos do pulmão do mundo, não só permitir como, mais que isso, incentivar por todos os meios e modos as compras por capitais internacionais de áreas ainda integras para preservação ou mesmo de áreas degradadas ou já exploradas pela agricultura para devolvê-las à Natureza? Não seria prudente fazê-lo enquanto é tempo, sobretudo neste momento em que o governo prepara a eletrificação da Amazônia, coisa que vai multiplicar vertiginosamente a velocidade e a extensão da devastação?
Parque Pumalin
Andei por 10 dias neste inicio de ano pelos confins da Patagônia chilena, nas cercanias do Canal de Beagle, que está quase exatamente do mesmo jeito que Darwin o viu em 1832.
Na primeira baia chilena na margem Norte do canal, pouco além da fronteira com a Argentina, onde ancoramos por um dia e uma noite, fizemos um extenso passeio a cavalo pela propriedade de um dos muitos bilionários estrangeiros que se dedicam a gastar o que têm de sobra para preservar ou devolver áreas como aquela ao seu estado natural. Trata-se de Douglas Tompkins, dono das marcas americanas de roupas para a prática de esportes de natureza The North Face e Espirit que comprou os 40 mil hectares da bacia do rio Yandegaia, um dos que nascem nas milenares geleiras da Cordilheira Darwin, uma das pontas dos Andes que mergulham na encruzilhada do Atlântico com o Pacífico lá perto do Polo Sul. É uma área que tinha pertencido a um traficante de drogas que precisou de dinheiro para pagar advogados, foi comprada por um grupo de conservacionistas chilenos e depois por Tompkins, que entregou sua gestão à ex-ministra do meio ambiente do Chile. Hoje está aberta ao publico. O trabalho que corre lá neste momento é o de arrancar todas as cercas e construções deixadas pelos antigos proprietários, deter as queimadas para abertura de pastagens e controlar a população de cavalos selvagens descendentes de ancestrais abandonados por fazendeiros derrotados pela aspereza da natureza local, que tomou de assalto o habitat dos pumas, dos guanacos e de outros espécimes endêmicos .

Mais ao Norte, cortando, literalmente, o estreito território chileno ao meio, Tompkins tem outra propriedade de 300 mil hectares de florestas pluviais temperadas intactas que vai da fronteira argentina até o Pacífico e que ele transformou no Parque Pumalin, recentemente declarado Patrimônio da Humanidade, apesar da gritaria dos nacionalistas chilenos que, como muitos que conhecemos por aqui, preferem ver aquilo depredado por conterrâneos que preservado por um estrangeiro.
Joseph Lewis, dono do Hard Rock Café e do Planet Hollywood, Ted Turner, ex-CNN, apaixonado pela pesca de truta com fly, Ward Lay, da Pepsi. Co, e até Sebastien Piñera, o bilionário que se tornou presidente do Chile, estão entre os muitos ricaços internacionais que compraram grandes áreas na Patagônia chilena ou argentina, uma das regiões mais preservadas do planeta, para mantê-las para sempre livres das pressões que vêm empurrando inexoravelmente santuários semelhantes para o extrativismo criminoso, a agricultura intensiva ou a especulação imobiliária pelo mundo afora.
Dinheiro contra dinheiro. A receita que, para o bem ou para o mal, resolve muito mais que conversa fiada. E o que pode ser mais coerente que investir em conservação ambiental sem consideraçōes retrógradas sobre fronteiras nacionais, dinheiro que hoje se ganha comprando e vendendo globalmente sem consideraçōes retrógradas sob fronteiras nacionais?
Douglas Tompkins, um pioneiro da causa ambiental na Patagônia, tem a seu favor um retrospecto que torna indiscutível o seu espírito altruísta e o aprofundamento da sua visão ecológica. É odiado pelos nacionalistas xiitas do Chile como de qualquer modo nunca deixaria de ser. Mas é respeitado e tido como um amigo do país por todo chileno que raciocina e é permeável ao testemunho dos fatos.
Árvores de 3.500 anos em Pumalin
Agora um numero crescente de bilionários segue os seus passos. Sejam quais forem as intenções que os movem – ainda que se trate só de vaidade ou qualquer outra forma secreta de cobiça – uma coisa é certa: eles nunca poderão mover suas propriedades de onde estão nem impedir os governos nacionais aos quais respondem de dar-lhes outra destinação no futuro, se assim decidirem.
Se a intenção é a de preservar, cabe aos governos nacionais condicionar o direito ao latifúndio ecológico a esse propósito e incentivar ao máximo a disposição dos ricos do mundo de financiar a manutenção dessas reservas.
Já os “ecoideologistas” profissionais que continuam preferindo a depredação “soberana” à conservação a cargo de cidadãos do mundo, mesmo diante da crescente ameaça para a sobrevivência da espécie humana, estão apenas dando mais uma prova de que, na sua escala de prioridades, conservar a natureza e manter florestas em pé está onde sempre esteve: nos últimos lugares.
Para charter no barco da foto em Beagle e Patagônia chilena veja Mar Sem Fim
Porque as reuniões do clima são uma farsa
13 de dezembro de 2010 § 1 comentário

Em Cancun, assim como nas 15 reuniões anteriores convocadas pela ONU para discutir o que, em ultima análise, é apenas um efeito da superpopulação, a palavra superpopulação sequer foi mencionada.
No começo da noite de sexta-feira, 10/12, publiquei um artigo sobre a inevitabilidade do fracasso das reuniões sobre aquecimento global promovidas pela ONU, a corrupção que alimenta essa industria nascida da instrumentalização ideológica do problema ambiental e a conivente ausência de senso critico da grande imprensa na cobertura que dá a esse tema.
No sábado, diante das manchetes de todos os jornais do pais festejando um “acordo de ultima hora” alcançado em Cancun, ainda que já convencido, pelas primeiras notícias, de que ele continuava válido quanto à essência do que tinha escrito, tirei o artigo do ar para reavaliá-lo quanto à forma, diante das novidades.
Depurado o noticiário do fim de semana, confirmei que não ha razão nenhuma para modificá-lo, muito ao contrario.
O acordo festejado pelos delegados dos 193 países participantes é, antes de mais nada, um acordo para salvar a sua própria função e garantir os próximos encontros que estavam seriamente ameaçados pelo fato de que, ha três edições da conferencia da ONU sobre clima, não se aprova rigorosamente nenhuma medida referente ao assunto que ela se propõe tratar. E nos anos anteriores aos últimos três todos os raros acordos alcançados foram apenas pró-forma. Nenhum dos países signatários estava obrigado por eles a fazer nada de prático.

Um dos objetivos da reunião de Cancun era aprovar acordos que gerassem “obrigações legais” para os signatários. Apesar de todo o estardalhaço que faz em torno desse tema, a imprensa tradicional omite sistematicamente o fato de que, dos 193 países representados na reunião, conta-se nos dedos de uma mão, se tantos, aquele cujos governos estão de fato obrigados a seguir suas próprias leis nacionais. Que dirá as internacionais. O Brasil, sob Lula mais que nunca, é um exemplo disso. E, ainda assim, comparados aos demais, somos dos que mais lembramos aquilo que de fato é um Estado de Direito.
Esse é um ponto de crucial importância para a configuração da farsa que se encena em torno do tema ambiental porque um acordo “legally binding” obrigaria os Estados Unidos, um dos poucos governos representados em Cancun obrigados a se submeter às leis do seu próprio pais, a tomar providencias reais para reduzir emissões. Nas conferencias do clima da ONU porta-vozes de ditadores ou de governos autoritários que não esperam cumprir o que propõem “puxam” as propostas de cortes de emissões a níveis impraticáveis para quem se dispusesse de fato a implementá-las para provocar sua rejeição e depois acusar esses países de conspiração para destruir o planeta.

Os dois acordos aprovados na ultima hora em Cancun tratam da outra força por traz desse movimento que é o enorme volume de dinheiro que irriga a corrupção em torno desse tema, da qual a comunidade científica é uma das principais protagonistas e beneficiárias.
Ficou definida, para a próxima reunião, o início da discussão sobre a implementação de um multibilionário “fundo verde” para “ajudar países em desenvolvimento a prevenir mudanças climáticas e/ou se proteger delas”, e outro fundo para subsidiar países que se dispuserem a proteger suas florestas. Como sempre, não se tratou do principal que é estabelecer de onde virá esse dinheiro, discussão que consumirá mais alguns anos de reuniões pelo mundo afora.
Ou seja, o que houve foi um acordo sobre a necessidade de haver um acordo para definir quem pagará pelas reduções de emissões, a mesmíssima questão que esteve em pauta nas 15 edições anteriores desse fórum.

O fato de todos os grandes jornais do mundo terem dedicado manchetes bombásticas para tão pouco (o Estadão trocou uma denuncia inédita que comprova a participação do presidente da Republica num dos mais escandalosos esquemas de corrupção em funcionamento no país por esse tanto pouco na sua hierarquia de destaques na primeira página) comprova o outro ponto que denuncio em meu artigo: a conivente predisposição da quase unanimidade dos jornalistas da “grande mídia” de desligar seu senso crítico toda vez que se trata desse tema.
A ultima e maior prova da má fé e da irresponsabilidade com que se empurra essa discussão para o impasse permanente está no fato de, em Cancun, assim como nas 15 reuniões anteriores convocadas para discutir o que, em ultima análise, é apenas um efeito da superpopulação humana que realmente ameaça a continuação da vida na Terra e requer providencias urgentes, sequer se mencionou a palavra superpopulação.

Se nestes 16 anos a ONU tivesse tratado da causa e não do efeito do problema e gasto em educação para um planejamento familiar que leve em conta a sustentabilidade da vida na Terra um centésimo do que se tem gasto para medir o imensurável e atribuir culpas pelos efeitos de menor significação dessa ameaça tão real quanto grave à saude do planeta, muito provavelmente já estaríamos colhendo resultados concretos.
São essas as razões pelas quais decidi manter o artigo abaixo deste como estava e voltar a publicá-lo, apesar do delay em relação ao acordo de ultima hora alcançado pelos participantes da 16a conferencia da ONU sobre o clima para garantir a continuação dessa enganação na 17a.

A crise no rio Iriri
25 de outubro de 2009 § 2 Comentários
Imagine a seguinte situação.
Você mora no Pacaembu, ou no Flamengo ou em qualquer outro grande bairro de qualquer grande cidade brasileira. Existe em algum ponto do bairro um imóvel abandonado disputado por diferentes grupos de sem-teto. Preocupado com sua vida, mergulhado no seu trabalho, concentrado em garantir o futuro dos seus filhos, você não tem nenhuma idéia de que isto está acontecendo. Mas a briga lá entre os marginais disputando algo que não é de nenhum deles está esquentando. E então, uma freira estrangeira, que toma o partido de um dos grupos que disputam o imóvel, acaba sendo assassinada pelo grupo contrário.
Nada, enfim, que não aconteça de fato quase todos os dias em alguma grande cidade brasileira.
Mas em vez da corriqueira ação policial para caçar o assassino e da ação judicial para decidir quem tem a posse do imóvel, o presidente da Republica em pessoa, sem mais aquela, decreta que o bairro inteiro está desapropriado e todos os seus moradores terão, do dia para a noite, de arrumar outro lugar para morar.
Pois é isso que está acontecendo no rio Iriri, com o agravante de que, ao contrário do que acontece nos bairros de grandes cidades, os moradores das margens daquele rio, ali instalados há várias gerações, tiram o seu sustento das suas águas e das matas do seu entorno. Não têm nenhuma reserva de alimentos ou, muito menos, de dinheiro. Vivem do que pescam, do que colhem em pequenas roças de subsistência e do que caçam na mata, de um dia para o outro.
Não têm eletricidade nem geladeira; não contam com transporte publico nem com qualquer coisa que se pareça com assistência social. Não sendo nem índios, nem “quilombolas”, nem tendo qualquer título ou traço racial que os torne elegíveis por ONGs ou os defina como pertencentes a um dos grupos de brasileiros definidos como “especiais” pela nossa legislação mais recente, são absoluta e rigorosamente ignorados pelo Estado, que dispõe dos seus destinos como se eles não existissem.
Nos últimos anos, a vida estava melhorando no Iriri. A castanha do Pará, resgatada das populações isoladas a preço vil pelos atravessadores, é a ultima ponte a conectá-los com o mundo civilizado onde nada se faz sem dinheiro depois que os produtos da caça foram proibidos e que o fim do subsídio à borracha tornou a seringa anti econômica (ouça, abaixo, o relato de um castanheiro em A vida dura do coletor de castanha).
Mas o turismo chegou para salvar a situação.
A Pousada do Iriri, que recebe brasileiros e, sobretuto, europeus e americanos interessados na pesca esportiva, na observação de pássaros ou, simplesmente, em ver um lugar que continua como Deus o fez, operou o milagre de resgatar os antigos castanheiros da miséria sem obrigá-los a abandonar o seu estilo de vida. Eles conhecem aquele rio e aquelas matas como você conhece a sua casa. Desde que a Pousada chegou, em vez de migalhas em troca do trabalho extenuante de coleta de castanha, recebem, como guias e “piloteiros”, salários fixos e gorjetas em dólares.
Mas a alegria durou pouco.
Mataram uma freira na “Terra do Meio” (o Iriri corre por milhares de quilômetros no sentido Sul-Norte cortando ao meio a “Terra do Meio”, o território delimitado pelos cursos paralelos dos rios Tapajós e Xingu, do qual ele é tributário), e agora, vá você saber porque, toda a população ribeirinha tem de pagar por isso.
Desde 2006, o Iriri se transformou no verdadeiro rio da dúvida.
O que fazer?
Para onde ir?
A Pousada vai fechar?
Como sustentar as crianças, que pela primeira vez, estão freqüentando escolas em Altamira?
O governo vai pagar pela desapropriação?
Vai arranjar outro lugar para morarmos em que possamos viver de pescar e caçar que é o que sabemos fazer?
Quando?
Onde encontrará espaço desocupado com essas características?
Não se fala mais das fruteiras que estão atraindo caça, da onça que anda rondando o barraco de Zé Boi, dos poções onde está dando peixe, de como conter os pescadores profissionais que descem, em balsas, de Altamira, das castanheiras mais produtivas…
Agora, só há um tema nas conversas ao pé do fogo das noites do Iriri: a duvida.
Pelos barrancos mais altos do rio, já são diversas as casas abandonadas – o barro amarelo claro socado, a grossa cobertura cor de palha feita de grandes folhas de babaçu. Fica todo o equipamento de coleta e processamento de castanha. Levar pra que? Levar como? As roças tomadas pelo mato.
O povo do Iriri não tem quem fale por ele…
E pra onde está indo essa gente?
A vida virou uma aventura. E do pior tipo: aquela que lhe é imposta (veja, abaixo, como Juca quase morreu tentando mudar de vida em Aventura na Guiana Francesa).
Com o avanço inexorável da ocupação econômica do território nacional, áreas como a do Iriri só podem ter um entre dois destinos: o desmatamento e a incorporação à economia agrícola ou a conservação para fins turísticos. Com terras pobres que, no passado, foram fundos de oceanos, destiná-las à agricultura é uma falsa solução. É sob esse pretexto que madeireiros mancomunados com os políticos locais se locupletam colhendo o que não plantaram. Não há maneira de esconder uma atividade visível até do espaço sideral, cujo produto são toras gigantescas que têm de atravessar vastos territórios e sair por portos marítimos.
O que explica o desmatamento desenfreado da Amazônia é mesmo a corrupção. Portanto, não ha solução pelo caminho das proibições que nunca são cumpridas. O Brasil está de prova…
Mas a pressão econômica é o fato incontornável que tem de ser considerado antes de todos os outros, se quisermos uma solução real. E aí é que a política ambiental brasileira naufraga. Presa a preconceitos ideológicos do século passado impostos por ambientalistas que dominam a formulação das políticas governamentais, ela rejeita soluções econômicas e insiste em propostas baseadas em devaneios “morais”, em posturas autoritárias, e na fé na repressão que, historicamente, não tem feito de prático mais que a felicidade dos corruptos.
E, no entanto, a Amazônia toda está a menos de US$ 500 dolares de distancia de vôo dos Estados Unidos. O valor de reservas virgens se multiplica a cada minuto num mundo onde isto é cada vez mais raro. O produto sustentável, por excelência, das áreas preservadas, são a caça, a pesca e os frutos. E a prova disso é a presença do homem, que sempre viveu deles, na Terra.
Hoje, o único produto da terra que vale mais que a soja é a perdiz. Mas nossos ambientalistas não perdem tempo com considerações realistas nem com cálculos “imorais” de “capitalistas cínicos”. Proíbem, em nome de mal costurados argumentos “morais”, a caça que sustentou seus antepassados e trouxe a humanidade até aqui, embora tolerem a pesca. Autorizam, no entanto, o “manejo sustentável” de florestas para a coleta de madeira, embora saibam melhor que ninguém que isso é uma mentira. Antes de mais nada porque, por critério nenhum, pode-se chamar de “sustentável” o corte de arvores de mil anos. E eles sabem que ainda que se conseguisse fazer que o corte seja mesmo seletivo, o que nunca acontece, serão as milenares as árvores mais cobiçadas pelos madeireiros e pelas serrarias. Nossos ambientalistas aprovam esse tipo de predação cujo rastro um milênio inteiro não apagará, mas não permitem a coleta de fauna, que produz “safras” todos os anos, tanto mais abundantes quanto melhor for a condição de conservação da floresta.
E mais, não querem o homem amazônico integrado. Querem-no – índio ou coletor – congelado no tempo e no espaço…
Somos o único país do mundo a ancorar nossa política ambiental numa coleção de contradições tão gritantes. E os resultados, como não poderia deixar de ser, são os que colhemos todos os anos, ha 509 anos, e escandalizam o mundo.
Mesmo assim, recusamo-nos a aceitar a lição dos fatos.
Não seria possível sustentar todos os 20 milhões de habitantes da Amazônia Legal apenas com programas de turismo ecológico e de caça e pesca esportiva. Mas certamente seria possível sustentar com isso toda a parcela dessa população que ainda vive dos rios e da floresta, praticando exatamente uma coleta ponderada de caça, de pesca e de frutos da floresta conservada. Seria possível preservar com ela tudo que ainda é necessário preservar, na Amazônia: ambientes e modos de vida dependentes da conservação da saúde da floresta. Um esquema como este, baseado na expectativa de lucros com a conservação ambiental, substituiria a “fiscalização” de agentes mal remunerados de governos corruptos de hoje pela fiscalização de investidores em hotelaria e logística para a coleta de caça e pesca cuja remuneração dependeria do bom estado de conservação da floresta. Se ultrapassassem os limites do sustentável, poriam a perder o seu investimento.
O tamanho das industrias de caça e pesca esportiva no mundo hoje são prova mais que suficiente do sucesso dessa receita em todo o planeta.
Tudo que é necessário para fazer esse esquema funcionar no Brasil é que nossos ambientalistas admitam o que o resto do mundo – de Cuba à China, passando por tudo que está no meio – já admite e pratica.
Aventura na Guiana Francesa
A vida dura do coletor de castanha
De como Juca escapou das garras de uma onça
25 de outubro de 2009 § Deixe um comentário
Prometi histórias interessantes da Amazônia e voltei com mais uma crise.
Me desculpo. O Brasil é isso…
Mas a historia prometida está aí.
Juca, filho de Zé Boi, é um ribeirinho do Médio Iriri, na altura da confluência com o Igarapé da Bala. Nasceu onde mora até hoje, com a mulher e cinco filhos, que agora dividem o tempo entre o Iriri e Altamira. Ele fica no rio.
O pai nunca saiu de lá. Continua só na castanha e na caça de subsistência. Juca é da terceira geração desses cearenses que foram para a Amazônia. Seu avô foi o primeiro da família a se instalar lá. Tirava borracha, caçava peles de gatos e de porcos…
Ha dois anos, Juca quase se mete numa enrrascada.
Toque no link e ouça:






Você precisa fazer login para comentar.