A “esquerda honesta” e o “PT que sobrou”

10 de abril de 2014 § 14 Comentários

a5

Ela anda “por baixo” e com a consciência ultra-pesada pela contribuição que deu para a outra chegar ao poder, mas ela existe e será tão essencial quanto todas as outras forças democráticas do país para a estruturação da resistência contra o que vem vindo por aí.

Falo da “esquerda honesta” – os quadros oriundos da antiga esquerda católica e os segmentos da esquerda universitária e da intelectualidade – que, no passado, deram a chancela de qualidade e o aval moral sem os quais o PT jamais teria chegado onde chegou, e que começou a desertar quando, uma vez no poder, o “PT que sobrou” revelou-se como o que é.

Hoje só divide esse grupo a quantidade de coragem moral de cada um em admitir o seu erro, declará-lo e posicionar-se claramente contra o monstro que ajudou a criar ou omitir-se para não ter de dar o braço a torcer. Ninguém mais tem qualquer dúvida razoável quanto à natureza do “PT que sobrou” e sobre para onde ele está levando o Brasil.

a2

Já esse “PT que sobrou” é o que mistura a nata que boia por cima do lodo do peleguismo sindical com os restos da “esquerda armada” que atuou contra a ditadura militar – formando o “nucleo duro” de poder do partido – aos quadros do funcionalismo publico e do staff das estatais que “são de esquerda”, digamos assim, por dever de ofício.

O sindicalismo pelêgo é bandalho e antidemocrático na alma; por formação; essencialmente.

Seus quadros carregam a marca do pecado original. Quem está lá, está lá porque “é” . São os Faustos da periferia que venderam consciente e deliberadamente a alma à versão getulista do mesmo veneno que condenou a Itália fascista ao desastre e a Argentina peronista ao mergulho sem fim na decadência em que ela se afunda ininterruptamente ha quase um século:

Crie um sindicato, não importa se algum trabalhador realmente o tem como seu representante, que o Estado passará a te sustentar. Mas não de graça, naturalmente…”

a12

São eles os mercenários do Sistema de poder que o peleguismo sustenta; os paus-pra-toda-obra que já deram provas do seu valor nas inúmeras “eleições sindicais” disputadas na fraude e na bala porque passaram; os dispostos a tudo para permanecer agarrados à teta abocanhada.

Já a “esquerda armada” nasceu dentro de uma elite da classe média que embarcou no canto de sereia da “moral revolucionária” leninista que fez o mundo mergulhar na onda terrorista dos anos 60, 70 e 80 do ultimo século do milênio passado, quando era “chic” ser radical e “bonito” matar, principalmente inocentes, por uma “causa”.

Misturam-se em suas fileiras os idealistas autênticos que hesitaram sempre em cruzar a linha do crime de sangue e os psicopatas que aproveitaram essa rara “janela de oportunidade” para libertar essa sua segunda natureza e que resistem até hoje em atravessá-la de volta para os aborrecidos campos da paz, gente para quem sempre foi mais importante o inebriante sentimento de onipotência proporcionado pelo ato de matar que o “sentido político” das mortes que infligiram em nome da “causa”. Tão mais importante que nunca hesitaram em assassinar os próprios companheiros que, por razões de “consciência burguesa” hesitaram diante do homicídio ameaçando acabar com a festa dos bebedores de sangue.

Percorra-se a lista dos crimes da “esquerda armada” e saltarão dela, imediatamente, os nomes que se repetem em todas as ações mais bárbaras. Não é mera coincidência…

a9

Depois do Foro de São Paulo a “esquerda revolucionária” trocou oficialmente o fuzil pelos bilhões como arma de conquista do poder. Mas conservou os mesmos objetivos: “matar” adversarios, matar instituições, matar liberdades.

As nuances nas hostes dos “acima da lei” migraram intactas para a nova realidade. Estão, todas as de sempre, representadas dentro do governo petista onde há um ou outro gato pingado que ainda hesita em assassinar as liberdades democráticas mais fundamentais e os que as desprezam e apedrejam diariamente; ainda há quem mantenha algum limite no expediente de “roubar pela causa” e quem já não enxergue mais nenhuma fronteira entre ele e a volúpia de se locupletar, seja porque se corromperam pelo dinheiro mesmo, seja porque se corromperam pela onipotência que o dinheiro proporciona seja, ainda, porque viciaram-se no ato mesmo de tomar o que não é seu e sorver a agonia da vítima assim “justiçada”.

De qualquer maneira, uma coisa é certa. A remissão não começará senão quando o Brasil aqui de fora redefinir seus critérios e recolocar a fronteira no lugar de onde ela nunca deveria ter saido: na linha que separa esquerda e direita democráticas de esquerda e direita antidemocráticas.

a14

Brasil veio de golpe em golpe até 64

7 de abril de 2014 § 5 Comentários

a2

A entrevista de José Serra para o Canal Livre da TV Bandeirantes ontem (assista à integra do programa neste link) tocou numa questão essencial a que se tem prestado muito pouca atenção na análise da história política e do debate ideológico no Brasil, sempre desastrosa e latinissimamente prejudicada pelas paixões a que se entregam os que se dispõem a tenta-la.

Desde a Republica vimos vindo de golpe em golpe repetindo basicamente os mesmos passos a cada volta nesse círculo vicioso. E sempre pela mesma razão fundamental, como procurei demonstrar no artigo Sexo, mentiras e rock & roll publicado ha poucos dias aqui no Vespeiro: a completa inexistência de qualquer know how de engenharia institucional – tecnologia das mais especializadas que não admite transposições fáceis ou intuitivas de outras áreas do conhecimento.

Salvo pelo hiato aberto pelo “governo acidental” de Fernando Henrique Cardoso, essas elites têm mostrado também, desconhecer as balizas mais elementares de gestão macroeconômica indispensáveis para prover um mínimo de estabilidade ao ambiente em que se desenvolvem as economias nacionais.

a1

Na Parte 3 da entrevista à Rede Bandeirantes Serra descreve em minúcias como esses fatores contribuíram para o desfecho de 31 de março de 1964:

  • o programa das famosas “Reformas de Base” do governo João Goulart “era o que a gente (a esquerda da época) queria mas não acreditávamos que elas pudessem de fato ser instaladas”;
  • de qualquer maneira, essas reformas (reforma agrária, voto do analfabeto, desapropriações e etc.) não teriam qualquer efeito no problema premente que a Nação enfrentava sob uma inflação de 90% ao ano (a herança de Juscelino e sua Brasília) sem qualquer mecanismo de proteção;
  • consciente disso Jango, que também não resistia às pressões vindas da máquina pública e concedia aumentos que agravavam o déficit e alimentavam mais ainda o descontrole da inflação, mantinha esse discurso porque era o único que tinha a oferecer e, sabendo-as inócuas, já se preparava havia tempos para deixar o poder para que a bomba não estourasse nas mãos dele;
  • a1
  • Serra não admite que houvesse um golpe em preparação ou, muito menos ainda, condições objetivas para que o país fosse empurrado para uma republica sindicalista ou uma ditadura do proletariado mas admite que a esquerda e o governo “gostavam de pregar sustos, de intimidar” e falavam e agiam como se tudo isso estivesse de fato em preparação enquanto Jango, na falta de qualquer expediente prático que lhe ocorresse por em curso, transformou seu programa de governo “num programa de agitação” para, com o concurso dos sindicatos, forçar o Congresso às suas reformas;
  • a direita levava a esquerda mais à sério do que ela própria, a se acreditar que o pensamento de Serra era representativo do da maioria dos seus correligionários da época: o ambiente internacional dentro do qual tudo isso se dava era o da Guerra Fria onde Estados Unidos e União Soviética “disputavam cada pedaço do mundo” e isso teve dois efeitos: a esquerda, a partir da revolução em Cuba, passou a acreditar, segundo Serra, que “se tinha sido possível fazê-la lá era porque a revolução estava logo ali, na esquina, ao alcance da mão”; a direita pensava exatamente do mesmo jeito e, pelas mesmas razões, acreditava que o país estava prestes a cair na órbita soviética.

a1

Não importa se foi um trama “de enganos” ou uma conjuntura real o fato é que os dois lados viam a mesma coisa, o que atesta a sinceridade das motivações que apontei nas decisões que moveram os conspiradores de 64 no artigo publicado na imprensa ontem.

Não sei quanto são exatas ou representativas da média do pensamento da esquerda da época essas impressões do José Serra de hoje sobre o que via e sentia o José Serra de então, um “grande agitador” com apenas 21 anos de idade.

O certo é que, então como hoje, cabiam coisas demais debaixo desse chapéu genérico “esquerda”, o que também é exatamente verdadeiro para o seu par e antípoda “direita”, como provaram os fatos subsequentes.

O Brasil ainda ha de amadurecer para colocar o muro divisório no lugar certo que é o que separa esquerda e direita democráticas de esquerda e direita antidemocráticas.

Mas até lá essas generalizações seguirão atrapalhando as análises e alimentando novos confrontos.

a1

Mas não vamos perder a sequência do raciocínio.

Antes de mais nada registre-se que a entrevista de Serra ajuda a estabelecer que o problema essencial é o que tratei no artigo já referido: o completo desconhecimento da elite brasileira a respeito do que fazer e como fazer para estruturar a base institucional necessária para se construir uma Nação que a empurra sempre para a generalidade e faz de nós todos, digamos assim, especialistas na negação.

Ao fim de cada experiência em torno desse círculo vicioso, estabelecido sempre mais pelo acaso e pelas circunstâncias do que por planejamento e atos de vontade, passamos, em algum momento, a saber o que não queremos mas nunca sabemos exatamente o que queremos ou, melhor dizendo, não sabemos como construir um equipamento institucional suficientemente aberto para podermos viver sem sabermos exatamente o que queremos e ágil e maleável o suficiente para irmos reagindo aos fatos que se apresentarem.

É isso, afinal de contas, que é uma democracia. Só que os brasileiros não sabem disso.

a1

Junho de 2013 com os incontáveis “nãos” dos cartazes das manifestações e a absoluta ausência de “sins” em torno dos quais se possa construir qualquer consenso e mais esta crescente parcela de eleitores insatisfeitos sem candidato que os represente que as pesquisas registram neste momento, provam que pouco mudou nesse sentido desde os nossos primeiros tropeços republicanos.

A Revolução de 1930, uma vez instalada no poder, pela falta de um receituário institucional que pudesse ser proposto e compreendido por um corte significativo de uma população e uma elite essencialmente deseducadas, começou desde o primeiro minuto a caminhar para a “personificação” do processo, ou seja, para a ditadura.

Como a esquerda, que julgava ter “a História na mão”, é sempre mais voluntarista, 1935, com a “Intentona Comunista”, tão alienada quanto todas as outras tentativas anteriores (1922) e posteriores (“luta armada”), deu o pretexto que faltava para 1937 e a fase “dura” da ditadura getulista.

a1

A Revolução de 32 foi a versão da época do que foi 1964, com a diferença de que uma foi derrotada e a outra foi vitoriosa, assim como 1935 (a Intentona) foi o equivalente, trinta e poucos anos depois, do que foi a “luta armada” para acender a fogueira que começou a queimar a partir de 1968.

Um delírio voluntarista de uma minoria, coma diferença de que a mais recente pegou em armas e abraçou táticas de guerrilha que proporcionaram, na época, que esse tipo de minoria ficasse maior do que realmente era e desse mais trabalho para ser esmagada.

Democracia”, seja como for, nunca foi, nem um valor, nem um objetivo entre os protagonistas de qualquer desses episódios detonadores das nossas repetidas voltas no círculo das ditaduras. Os pedaços da nossa ordem institucional inspirados nela têm sido, quando muito, um recurso para a faclitação da tomada do poder a ser retirado de cena quando chega o momento de passá-lo ao adversário, a não ser para a minoria de sempre que entra em cena para reagir à ameaça de vê-la banida para sempre.

Mas esta, quando eventualmente chegou “”, não teve tempo, capacidade ou até a persistência necessárias para propor e emplacar uma receita viável de democracia e para consolidá-la para que pudesse seguir adiante por suas próprias pernas.

a1

Quando esses embates chegam às vias de fato, conflagrando o país, afloram à superfície os bebedores de sangue de ambos os lados — terroristas e torturadores — sobre os quais tenho uma teoria que pode até sugerir uma resposta sobre o porque de ficarmos tão obsessivamente presos à última Ditadura Militar mais que a qualquer outro desses episódios tão semelhantes entre si de que ainda falaremos aqui em outra ocasião.

Por enquanto ficamos nos elementos da equação que estão aquém da barreira do sangue.

Em todos esses processos, como não pode deixar de acontecer em ambientes não democráticos, só nada de braçada a horda dos cínicos que se aproveitam das tortuosidades e das zonas escuras do sistema para se locupletar.

De tão estável que é essa instabilidade do ambiente institucional; de tão previsível que é a sequência do processo, esse é o único segmento em que tem havido “progresso” real: eles são cada vez mais eficientes no trabalho de promoção da desinstitucionalização da nossa vida política que é o que cria o habitat de que necessitam para crescer e se multiplicar.

a1

Assim, do simples “capitalista de compadrio” a quem o ditador de plantão concede a atribuição de roubar por ele e por seu esquema de poder presente desde o primeiro episódio já evoluímos para um tipo superior de criminoso que é responsável pela “infraestrutura” que trata de perenizar e profissionalizar esse varejo do crime.

São eles os especialistas em “lavar-em-jatos”; os que roubam dos que roubam ou, se quiserem, “os para quem roubam os que roubam” fora do universo mais tradicional da compra de votos pura e simples.

Especializam-se na minucia da regra do jogo e trabalham diuturnamente para torná-la tão cinza e flexível que nenhum processo da vida nacional possa ser previsível e todos fiquem dependentes de uma arbitrariedade que possa ser vendida.

a1

Do jogo econômico privado essa dubiedade foi migrando para dentro do próprio sistema político de modo que hoje o Poder Executivo, que por enquanto é a única peça móvel do conjunto, também precisa comprar desses ultraespecializados vendedores de “governabilidade”, a cada passo, o direito de seguir se movendo.

É contra essa “infraestrutura” que o PT se articula neste momento, mas não para fazer o processo recuar a um ambiente institucionalizado mas sim para suprimir essa instância de intermediação do arbítrio, objetivo para o qual foi um passo decisivo a proibição das contribuições privadas de campanha que passou recentemente no Supremo Tribunal Federal.

Fico lhes devendo duas, portanto: a minha teoria sobre a psicologia do bebedor de sangue dos processos revolucionários e o ostensivo cerco do PT às ferramentas eleitorais que corre por baixo do tiroteio de dossiês com que ele desvia a atenção da imprensa, num tempo em que as ditaduras são obrigadas a se fantasiar de “democracias”.

a1

1964: um testemunho

7 de abril de 2014 § 44 Comentários

a00

Uma versão mais compacta deste relato, publicado em 2 de abril aqui no Vespeiro, está sendo publicada hoje no jornal O Estado de S. Paulo

Pra entender o que aconteceu em 64 é preciso lembrar o que era o mundo naquela época.

Um total de 30 países, parando na metade da Alemanha de hoje, tinham sido engolidos pela Rússia Comunista por força militar. Invasão mesmo, que instalava um ditador que atuava sob ordens diretas de Moscou.

Pelo mundo afora, aliás, todos os líderes dos Partidos Comunistas locais, inclusive o nosso Luís Carlos Prestes, eram obrigados a passar temporadas de aprendizado e doutrinação em Moscou e, admitidamente, agiam sob as ordens da Internacional Comunista que coordenava a ação de todos eles de lá. É famosa, a propósito, a declaração pública do nosso Prestes de que “em caso de guerra entre o Brasil e a Rússia Soviética, lutaria ao lado da Rússia Soviética contra o Brasil“.

Todos os países sob ocupação soviética que tentaram escapar, como a Hungria em 56, a Checoslováquia em 68, a Polônia em 1980 e outros, sofreram novas invasões e massacres.

a1Hungria 56

E tinha mais a China, o Vietnã, o Cambodja, a Coreia do Norte e etc., na Ásia, onde houve verdadeiros genocídios.

Na África era Cuba quem fazia o papel que os russos fizeram na Europa, invadindo países e instalando ditadores no poder.

As ditaduras comunistas eram, todas elas, ditaduras totalitárias que fuzilavam sumariamente quem falasse contra esses ditadores. Não era preciso agir; bastava falar para morrer, ou nem isso.

No Cambodja 1/4 de toda a população, coisa de um milhão e setecentos mil homens, mulheres e crianças, foi executada pelo ditador Pol Pot entre 1975 e 1979, sob os aplausos da esquerda internacional e da brasileira, esta mesma que aplaude até hoje o que está acontecendo na Venezuela ou as violências dos ditadores cubanos que continuam os mesmos daquela época (veja vídeo no fim da matéria).

Os países onde não havia ditaduras como essas viviam sob ataques de grupos terroristas que as apoiavam e assassinavam e mutilavam pessoas a esmo detonando bombas em lugares públicos ou fuzilando gente desarmada nas ruas.

a3Checoslováquia 68

Era no meio do ambiente em que estavam sendo gestados ou praticados todos esses horrores que as correntes mais radicais da esquerda brasileira treinavam guerrilheiros em Cuba desde antes de 1964.

Quando João Goulart subiu ao poder com a renuncia de Jânio Quadros, essa esquerda e o governo passaram a declarar abertamente que era nesse clube que eles queriam nos enfiar.

64 foi um golpe de civis e militares brasileiros que lutaram na 2a Guerra Mundial e derrubaram a ditadura de Getúlio Vargas para impedir que o ex-ministro do Trabalho de Getúlio levasse o país para onde ele estava prometendo leva-lo, apesar de se ter tornado presidente por acaso.

Naquele tempo o presidente e o vice podiam ser de partidos diferentes. E quem tinha sido eleito presidente era o Jânio, cujo partido pregava a linha contrária do de Jango.

Eles tinham tanta certeza de que iam consegui-lo, aliás, que Jango, por cima de inúmeros comícios incitando o povo à ação acabou por desafiar diretamente os militares ao apoiar os sargentos da Marinha de Guerra que tinham se insurgido contra seus superiores dias antes até com uma visita aos rebeldes na companhia de Leonel Brizola, aquele que, anos mais tarde, entregaria os morros cariocas aos traficantes tirando a polícia de lá.

a8

Foi esse desafio que tirou os militares que ainda hesitavam de cima do muro e precipitou o golpe.

Tratava-se portanto, de evitar que o Brasil entrasse num funil do qual não havia volta, e por isso tanta gente boa entrou nessa luta e a maioria esmagadora do povo brasileiro, na época, a apoiou.

E qual era a proposta do primeiro governo militar do marechal Castelo Branco, um homem muito mais fiel aos princípios da democracia que boa parte dos que se sentavam no Congresso Nacional?

Limpar a área do grupo que misturando corrupção com ideologia, aproveitava-se das liberdades democráticas para armar um golpe de dentro do sistema para extingui-las de uma vez por todas, terminar o mandato de Jânio Quadros que deveria ter ido até 1966, e convocar novas eleições para devolver o poder aos civis.

Foi a isso que o país aderiu em massa.

a7

Só que, como diz o filósofo, “a revolução é uma praxis que forja as suas ideias ao longo da ação”, o que é só uma maneira pretensiosa de dizer que o poder, uma vez experimentado, seduz e corrompe tudo.

Por isso elas nunca cumprem o que foi planejado pelos seus idealizadores o que, no caso dos idealizadores da de 64 que eu conhecia de perto, era um fato sabido desde sempre, macacos velhos que somos de outras revoluções traídas, perseguições e exílios.

Tratava-se, naquele caso de um risco calculado entre cair numa ditadura da qual não havia perspectiva de volta e arriscar-se a ficar exposto a outra que poderia ser, como foi, muito mais facilmente removida e que certamente seria, como também foi, muito menos violenta e sanguinária que as ditaduras comunistas da época.

Seja como for a sequência dos fatos, desse momento em diante, é rigorosamente a seguinte:

A ditadura militar brasileira começou com os militares despindo a farda e vestindo ternos para governar, num mundo em que ditadores civis, por todo lado, despiam o terno e vestiam fardas para sentar-se na cadeira do poder e não se levantar nunca mais dela.

a02

Até o Ato Institucional nº 2, de outubro de 65, um ano e meio depois do golpe, os militares, seguindo o combinado, tinham se limitado a cassar o direito de eleger e de ser eleito por 10 anos de 289 pessoas, incluindo 5 governadores, 11 prefeitos e 51 deputados acusados de corrupção mais do que de esquerdismo. Gente como Orestes Quércia e cia. ltda. estava nessa panela.

Ninguém tinha sido preso, ninguém tinha sido fuzilado, ninguém tinha sido torturado. Esses 289 estavam sendo processados por roubalheira nos IPMs (Inquéritos Policiais Militares) instalados para esse fim.

As revoluções que exterminavam fisicamente seus adversários eram as que esses que se dizem vitimas hoje apoiavam pelo mundo afora e, junto com Jango, diziam que queriam implantar no Brasil.

A discussão até esse momento era, portanto, a mesma de hoje: Zé Dirceu foi condenado porque é de esquerda ou porque é ladrão?

A esquerda dirá até a morte que é porque é de esquerda…

a01

Mas o fato é que até a edição do AI-2 os partidos políticos funcionavam, o Congresso estava aberto, houve eleições diretas para governadores e havia eleições para presidente marcadas.

Isso só começaria a mudar em outubro de 65 com o AI-2 que fechou partidos, interferiu no Judiciário e tornou a eleição para presidente indireta, o que fez com que o jornal O Estado de S. Paulo, que os tinha apoiado um ano e meio antes, rompesse com os militares e passasse a combatê-los.

Tudo isso aconteceu praticamente dentro de minha casa porque meu pai, Ruy Mesquita, era um dos principais conspiradores civis, fato de que tenho o maior orgulho.

Antes mesmo da edição do AI-2, porém, a esquerda armada, com o Congresso e os partidos funcionando, já tinha matado dois: um civil com uma bomba no Cine Bruni, no Rio, que feriu mais um monte de gente e um militar numa emboscada no Paraná.

Assim mesmo a barra só iria pesar mesmo a partir de dezembro de 68, com a edição do AI-5. Aí é que começaria a guerra. Mas os militares só aceitaram essa guerra depois do 19º assassinato cometido pela esquerda armada.

a00012/10/68: C.R.Chadler, o 16º, morto com quase 20 tiros na frente da mulher e do filho pequeno

Foi a esquerda armada, portanto, quem deu o pretexto para a chamada “Linha Dura” militar tomar o poder e a ditadura durar 21 anos, tempo mais que suficiente para os trogloditas de ambos os lados começarem a gostar do que faziam quando puxavam gatilhos, acendiam pavios ou aplicavam choques elétricos.

A guerra é sempre o paraíso dos tarados e dos psicopatas e aqui não foi diferente.

No computo final, a esquerda armada matou 119 pessoas, a maioria das quais desarmada e que não tinha nada a ver com a guerra deles, e os militares mataram 429 “guerrilheiros” segundo a esquerda, 362 “terroristas” segundo os próprios militares. O numero e as qualificações verdadeiras devem estar em algum lugar do meio dessas diferenças.

Uma boa parte das vítimas dos militares morreu atirando, de armas na mão; outra boa parte morreu na tortura, assassinada ou no fogo cruzado.

Está certo: não deveria morrer ninguém depois de rendido e morreu. E assim como morreram culpados de crimes de sangue, morreram inocentes. Eu mesmo tive vários deles escondidos em nossa casa e até no meu quarto de dormir e, já jornalista, contribui para resgatar outros tantos.

Mas isso é o que acontece em toda guerra porque guerra é, exatamente, a suspensão completa da racionalidade e do respeito à dignidade humana.

a1225/10/75. Wladimir Herzog, jornalista, morto na tortura por eletrochoque

O total de mortos pelos militares ao longo de todos aqueles 21 “Anos de Chumbo” corresponde mais ou menos ao que morre assassinado em pouco mais de dois dias e meio neste nosso Brasil “democrático” e “pacificado” de hoje onde se mata 50 mil por ano.

Ha, por enquanto, 40.300 pessoas vivendo de indenizações por conta do que eles ou seus parentes sofreram na ditadura, todas do lado da esquerda. Nenhum dos parentes dos 119 mortos pela esquerda armada, nem das centenas de feridos, recebeu nada desses R$ 3,4 bilhões que o Estado andou distribuindo.

Agora ameaçam suspender a anistia para um dos lados, coisa que não agrada dona Dilma que teria de se sentar no banco dos réus se isso levar à suspensão da anistia também para o outro lado, como é da lógica das revanches que conduzem sempre a outras revanches.

Enfim, esse é o resumo dos fatos nas quantidades e na ordem exatas em que aconteceram, do que dou fé porque estava lá, e que deixo registrados para os leitores que não viveram aqueles tempos compararem com o que andam vendo e ouvindo por aí e tirarem suas próprias conclusões sobre quanto desse barulho todo corresponde, de fato, a sentimentos e intenções honestas.

Este vídeo de uma apresentação feita na edição de 2010 do Oslo Freedom Forum, da Human Rights Foundation, organização da qual sou membro colaborador, é definitivo no que diz respeito ao peso da cumplicidade internacional nos crimes de lesa humanidade envolvendo embates ideológicos que marcaram os anos entre as décadas de 60 e 90 do século passado, e ilustra bem o que estava em jogo nas escolhas que o Brasil tinha de fazer ao longo do processo iniciado em 1964.

Legenda em Português: 1- inicie o vídeo: 2- clique no 2º ícone, (retangulo branco depois do relógio); 3- clique em “inglês” ; 4- clique em “traduzir legendas”; 5- clique na seta ao lado de “afrikaner”; 6- clique no trecho mais claro da barra escura do lado direito; 7- arraste até “Português”; 8- clique em “Português”; 9- clique em “ok”

Mate com prazer! Afirme-o com orgulho!

4 de abril de 2014 § 1 comentário

a1Fernando Llano, da AP, na capa do Estadão de hoje

A Venezuela ainda vai muito bem, obrigado.

Os trogloditas de Nicolas Maduro ainda usam máscaras quando invadem universidades para quebrar ossos de estudantes dissidentes a porretadas e capacetes quando saem às ruas para assassinar a tiros, da garupa de motos, quem pensa diferente deles.

Mas, com o endosso da nossa Unasul, ainda haverá de chegar o dia em que sairão do armário e assumirão o orgulho homicida que hoje ainda reprimem e passarão a fazer isso de cara limpa como os assassinos políticos do nosso passado recente como este que nos fala neste vídeo.

O que autoriza essa previsão auspiciosa é a forma como a imprensa “democrática” das Américas está noticiando hoje essa história do “twitter” que os americanos — esses criminosos! — criaram para intoxicar os corações e mentes da juventude cubana.

Não houve uma voz, abaixo da fronteira do México – e a maioria das que se expressaram acima dela também o fizeram nessa mesma linha – que tenha comemorado essa nova possibilidade que a moderna tecnologia oferece de furar o bloqueio dos que os querem mudos e submissos para sempre e dar voz a todos quantos, pelo mundo afora, estão sendo mantidos calados na porrada.

a6

A coisa foi vendida em toda a parte na forma de “denúncia” de um plano sinistro “para desestabilizar o governo cubano” que tinha por objetivo “atrair um grande número de jovens para depois conduzi-los a dissidência“, possivelmente mediante o uso inadvertido de alguma droga cibernética ou técnica subliminar urdida pelos terríveis feiticeiros da CIA capaz de hipnotizar a exultante juventude cubana – que perigo é a guerra química! – a ponto de fazê-la enxergar no paraíso da família Castro em que tem vivido um inferno de que faz sentido dissidir.

Joseph Pulitzer, o grande patrono e teórico da imprensa democrática americana, morto em 1911, dizia que “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.

Esse tempo, obviamente, já chegou.

a0

Sexo, mentiras e rock & roll

28 de março de 2014 § 3 Comentários

A escola não é uma panaceia.  A educação talvez seja. Mas educação não é o que se entrega em nossas escolas. Nem nas públicas, nem nas privadas, salvo as raríssimas exceções que confirmam a regra.

Em alguma medida a escola sempre acaba por ser transformada em mecanismo de reafirmação, para os futuros súditos, das “verdades” que sustentam o sistema de poder vigente. Especialmente a escola pública mas não apenas ela.

E o sistema de poder vigente entre nós é o que é…

A universidade, nesse sentido, nasceu revolucionária. Mas também acabou por enquadrar-se. Falar do ideal universitário do Iluminismo; da ciência pura e do culto à crítica no Brasil dos tempos que correm, assim como manifestar qualquer outro traço de idealismo, é quase um atestado de insanidade ou, no mínimo, de alienação.

Esse espírito nunca prevaleceu entre nós salvo, talvez, nas duas ou três primeiras turmas formadas pela USP, a única instituição de ensino nacional que, ao menos no momento da sua implantação, foi estruturada tendo esse ideal como modelo.

a1

No mais, tudo aqui já nasceu para o propósito avesso, no melhor espírito da Contrarreforma a cargo da polícia do pensamento jesuíta que, não por acaso, teve por séculos o monopólio da educação no mundo Ibérico do qual a nossa “flor do lácio” foi sempre “a última” a se distanciar.

Quando uma parte substancial da educação ainda estava a cargo das famílias havia, ao menos teoricamente, uma válvula de escape desse grande “afinador” do  pensamento nacional – ou desse grande desafinador se quisermos ter por referência o mundo que existe para além da nossa ilha cercada de catolicismo e língua portuguesa por todos os lados.

Depois do advento da televisão que, especialmente no Brasil, roubou essa atribuição dos pais e das mães passando a ditar não só o modo “correto” de pensar mas também a única forma “aceitável” de cada brasileirinho e cada brasileirinha se comportar, a vaca literalmente afundou no brejo.

a1

Hoje juntei mais três pecinhas do quebra-cabeças particular com que vou tentando decifrar o Brasil.

Voando ontem da Argentina para cá, repassei no iPad a sequência das minhas anotações à margem do 1889 de Laurentino Gomes, exercício que os e-books tornaram muito mais fácil e interessante de fazer ao permitir a leitura de todas elas em sequência sem as dificuldades de decifração que a nossa própria letra enfiada nos espaços exíguos das margens de livros de papel impõe.

Hoje, no início da tarde, a partir de uma referência qualquer, assisti à entrevista de José Serra sobre os 50 anos do golpe de 1964 no UOL (aqui).

Agora ha pouco captei por acaso, na Globonews, a “reprise” da entrevista do ministro Joaquim Barbosa que estreou o novo programa de Roberto D’Avila.

O relato dos primeiros passos claudicantes da República no país, no 1889, é uma crônica eloquente dos desastres produzidos pela completa ignorância, não direi do povo, mas da elite brasileira da época, incluindo de Rui Barbosa para baixo, a respeito do que quer que tivesse a mais remota relação com os equipamentos institucionais de um Estado moderno e muito menos ainda com qualquer equipamento de um Estado democrático de seu tempo.

a1

Serra repete quase que integralmente esse mesmo relato quando descreve o quadro de desorganização econômica aguda com que se viu às voltas João Goulart, mais de 80 anos depois, e o seu completo despreparo para imaginar qualquer linha de ação que fizesse sentido para enfrentá-lo, o que, muito mais que os empurrões que vinham da direita, explicam porque ele voltou correndo para os bois e cavalos a que estava acostumado em São Borja antes mesmo que qualquer “milico” de 64 desse um espirro que fosse.

Joaquim Barbosa, finalmente, guardando os cuidados com a língua que ele tem tido sobradas razões para esquecer nos embates que tem enfrentado no STF (onde “com toda a polidez afirma-se o inaceitável“, conforme ele registrou na entrevista), tratou de explicar também que, no seu modo de ver as coisas “o Direito não se basta” (o que é ainda muito mais verdadeiro, acrescento eu, quando se fala de “direito romano” versão brasileira prática), e que “um juiz especializado no direito do Estado, no direito Constitucional, tem de sorver cargas pesadas de História, de Sociologia, de Ciência Política e de Literatura para estar à altura de interpretar os temas que lhe chegam às mãos” nesse campo como, por exemplo, no caso do Mensalão.

Educação, enfim. Ou até mais que isso, de “cultura” que é educação farta e variada “digerida” e “metabolizada” pelo indivíduo é do que ele estava falando.

a1

A cada vez que me deparo com essas encruzilhadas da vida brasileira vêm-me à mente as manifestações de junho de 2013.

Virgens de educação como seguimos, vamos indo, os condenados a reinventar a roda de geração em geração, re-ensaiando o que já foi ensaiado, representado e descartado centenas de vezes pelo mundo afora, inclusive aqui mesmo. E quando trombamos, ao fim de cada repetição, com o mesmo desastroso resultado de sempre, não aprendemos mais que mais um “não”, ante-sala para partirmos de volta para o mesmo erro e outro “não” quando a última repetição do percurso da mesma batida picada já tiver doído o suficiente, só que numa nova geração sem as memórias da anterior.

Sem memória histórica e conhecimento do nosso próprio passado e afastados de todo conhecimento especialmente nos campos do saber que têm alguma influência na estruturação de novas instituições para balizar as relações de poder entre governantes e governados, empregados e empregadores, produtores e consumidores e assim por diante, seguimos incapazes de formular qualquer proposição em torno da qual se possa arregimentar um “sim”, o que nos torna presa fácil para cair em mais um giro da velha roda, conduzidos pelo “salvador da pátria” da hora e embalados pelo mesmo vazio absoluto de know-how institucional.

Somos o tipo de cego acostumado à cegueira; recusamo-nos a importar tecnologia institucional moderna como fazem os asiáticos, por exemplo, o que é ainda mais burro do que seria recusar o uso da penicilina ou dos computadores só porque não foram inventados aqui.

Como consequência nossa vida política tem sido dar voltas no escuro no mesmo circuito de sempre.

a1

A Primeira Republica que nasceu com um golpe (o “não” contra a monarquia) e prosseguiu com duas rodadas  de ditadura militar e a criação de uma nova “nobreza de ceva” engordada nas tetas do Estado; a Segunda que, do “não” a essa falsa elite “carcomida” da Primeira, mergulhou de 1930 em diante, por absoluta ausência de “sins”, novamente na ditadura e na criação de mais uma fornada de “carcomidos” fabricados pelo Estado, desta vez nas duas pontas do Sistema, a do Capital e a do Trabalho, cujos restos incluem a falsa elite pelego-sindical que está de volta e nos governa hoje; o golpe de 64, nascido como “não” ao golpe contra a volta “no tapetão” do getulismo a cujas mãos nos devolveram os porres de Jânio Quadros e que, por completa incapacidade de formulação de “sins”, projetou-nos de volta ao estado ditatorial natural e à criação de nova “elite” econômica, “de compadrio” como sempre, cujos restos ainda vagam por aí.

Assim vimos seguindo pelo mesmo caminho, com a corrupção que vem de cima engolindo uma nova fatia da sociedade a cada volta no mesmo círculo de ideias mortas, até os atuais “barões do BNDES”, as ONGs chapas-brancas, as “organizações sociais espontâneas” sustentadas por impostos, os 70 milhões de cheques por mês que o governo emite para eleitores e à ditadura comprada que se esboça no horizonte outra vez sob um coro de “nãos” e a absoluta ausência de “sins” da classe média que sustenta essa festa que junho de 2013 expressou tão literalmente…

No meio do caminho um acidente para o bem, para variar, guindou Fernando Henrique Cardoso e a geração virtuosa da USP mesclada a outros estranhos no ninho que tiveram a oportunidade de estudar fora do Brasil e assim municiar-se de alguns “sins” e outros tantos raríssimos “comos” que propiciaram que se arrumasse a casa e desviasse por alguns anos o Brasil da sua rota cega só de “nãos”, sempre colecionados a duríssimas penas e acachapantes trambolhões.

a1

Mas uma vez partidos esses “alienígenas” de volta para o isolamento de que os cerca a ignorância ampla, geral e irrestrita a respeito de tudo que ultrapasse a generalidade e o diktat incutido pela “patrulha” que domina as escolas e as televisões, eis-nos de volta ao que somos, tangidos com mais força ainda para trás pela atual obsessão da Globo de redimir-se do seu próprio passado para arreglar-se com os novos donos do poder, pauta que a jornalistada em peso se sente na obrigação de acompanhar como manada.

É o que nos obriga — enquanto o mundo pensa 50 anos para frente — à essa romaria diária a 50 anos para trás em que vimos vindo desde muitos anos antes da data de comemoração dessa efeméride para reescrever “verdades históricas” de conveniência, o que obrigatoriamente se faz revivendo o jargão e os esquemas ideológicos emburrecedores de meio século atrás que, por sua vez, “confirmam”, solidificam e sacramentam o discurso idêntico que vem sendo martelado na cabeça de nossas crianças em todas as escolas do país.

Já não sei se foi Serra, já não sei se foi Barbosa quem lembrou que essa necessidade “purgativa” da Globo põe este país gigante, no limiar do Terceiro Milênio e da Inteligência Artificial, discutindo mais apaixonadamente que qualquer outra coisa a “verdadeira história”… de 50 anos atrás, “como se tentássemos resolver os problemas de hoje aplicando os remédios dos anos 60 ou fizesse sentido aplicar os dos anos 30 para resolver os daquela época…

a1

A par disso, o único outro grande tema que mobiliza a “intelectualidade” e a “militância política” nacionais a ir às ruas exigir o que “é seu” é tudo quanto se refere à outra estranha obsessão, esta de natureza freudiana, da nossa Vênus Platinada que, na sua cruzada para “reeducar” sexualmente o brasileiro segundo os padrões da ponta mais apodrecida da elite carioca, tem percorrido no horário nobre todas as variações do Kama Sutra e costurado os mais díspares emparceiramentos entre todas as variações de gênero, sub-gênero, trans-gênero, idade, graus de consanguinidade e distúrbios psicológicos e motores que a humanidade produz, amarrando uns aos outros, nos “pares românticos” das novelas que a família brasileira traga reunida, duplas que se montam e desmontam, embaralham e misturam, traem, destraem e re-traem-se umas às outras, sempre com o endosso geral do vale-tudo moral do baixo Leblon, a ver se transformamos o sim em não, o não em sim e tudo em mais ou menos do Oiapoque ao Chuí e nos tornamos mais bandalhos um pouco a cada dia, enquanto o país se pergunta, perplexo, de onde vem a brutalidade e a violência sem limites que assola nossas ruas, extensões dos lares constituídos sob essa boa norma.

E pra frente Brasil que atrás vem o mundo!

a1

 Leia sobre tecnologias institucionais modernas neste link

A arte da biografia não vivida

19 de novembro de 2013 § 1 comentário

bio1

Enquanto a minoria ilustrada, eleitoralmente insignificante, gasta o seu latim discutindo apaixonadamente o direito ou não de se publicar biografias não autorizadas, o PT trata de empurrar goela abaixo das massas as biografias nunca vividas que ele cria e recria “ao seu pesar ou seu contentamento” e impõe a todas as escolas do Brasil.

Não vou longe porque ao fim de 10 anos desse “esqueça o que eu escrevi”, “o que eu disse”, “o que eu fiz”, “o que eu acabei de dizer”, “o que eu acabei de fazer” em que não paramos mais de avançar, muito menos que meia palavra basta.

Fiquemos só com a última semana.

bio3

Negar o crime e jurar inocência, vá lá. É proverbial. É o padrão, de Hollywood para cima. Agora, tentar transformar suborno, roubalheira e abuso de poder em atos de “heroísmo cívico”, péra lá!

Mas chocar não choca.

Desde que está pacificamente aceito e estabelecido que Dilma, Genoíno, Dirceu e cia. ltda. pegaram em armas “para lutar pela democracia brasileira” desde Cuba, que continua hoje como estava ha 56 anos, só que mais mansa, tudo mais que vier cola.

bio4

O PT, por exemplo, “não privatiza” nem no minuto mesmo em que bate o martelo e sai pro abraço da maior venda de poços de petróleo do século. E o Mensalão, nem por ter, subitamente, se tornado heroico, deixou de nunca ter existido.

Brasileirices…

Agora vem essa segunda morte de João Goulart.

Não vou entrar no mérito sobre se foi envenenado ou não foi envenenado pois parece que isto ainda se vai aferir cientificamente se é que ainda não entramos no estágio da falsificação de cadáveres.

bio5

Tentaram a mesma coisa com o JK, que nem era da tribo, e quanto pano pra manga rolou até que se confirmasse que o tiro dos “assassinos” na cabeça do motorista do ex-presidente não era senão o prego descuidado do coveiro mão-de-paca do cemitério São João Batista!

Pois o Getúlio Vargas, que saudava Hitler como “uma nova aurora para a humanidade” e nos legou o peleguismo fascista que Jango queria ver mandando na República não virou herói da esquerda brasileira?

Então quiéquitem querer fazer do vice do Jânio um fura-paredes que chegou “” nos ombros da classe operária e só saiu depois de muito resistir?

Como lembrou bem o Élio Gaspari neste fim-de-semana, a verdade verdadeira é que o Jango ouviu mais barulho com a salva de 21 tiros de canhão desta sua volta triunfal à Brasília petista do que os que foram disparados em todo o golpe militar que o pôs para correr antes da hora e mais os 21 anos inteiros da ditadura que se seguiu.

Coisa totalmente irrelevante, aliás. Porque aqui o que importa, cada vez mais, é só a versão.

bio6

O psicanalista psicopata

16 de outubro de 2013 § 2 Comentários

get1

Li ontem o 11º capítulo do 2º volume do “Getúlio”, de Lira Neto, história que conheço por vivos relatos na primeira pessoa já que é parte constitutiva da saga de minha própria família.

Tudo, nessa experiência, dos fatos propriamente ditos que vão da louca tentativa de golpe comunista em 1935 – a chamada “Intentona” – à oficialização e  ao violento recrudescimento da ditadura de Getúlio Vargas para a qual ela serviu de pretexto, até o modo como eles são reconstituídos por Lira Neto, que também não consegue ocultar suas próprias baldas, passou-me a impressão de déja vu; reforçou a penosa sensação de desperdício que sempre é, nesta solidão dos ilustrados num país que não lê, revisitar a História do Brasil.

get10]

São tantas as semelhanças entre os erros que se repetem em 1930 (o surgimento de Getúlio Vargas), 1935 (a “Intentona Comunista”), 1937 (início do período negro da ditadura Vargas), 1964 (o contragolpe que abortou a “republica sindicalista” janguista), 1968 (a “luta armada” respondida pelo AI-5 e a repressão dos anos 70), 1992 (Collor), 2003 (o início da “Era PT”), tanto da parte da esquerda “revolucionária” internacionalista quanto dos idealistas da democracia liberal em seu desespero comum contra a iniquidade social e a corrupção de que nunca conseguimos nos livrar, que dá pena vê-los outra vez à beira de serem reeditados, ainda que como farsa.

As duas pontas autênticas dessas elites se alternam regularmente, de geração em geração, do protagonismo nas tentativas de mudar o rumo deste país ao pau-de-arara e ao exílio, traídas sempre, uma vez instalado um dos lados no poder, pelo núcleo duro da corrupção que espera sentado a poeira baixar para se alinhar ora a um lado ora ao outro até fazê-lo cair de podre, tenha o ultimo episódio sido iniciado pela ação de uns ou pela reação dos outros às iniciativas de um dos dois.

get11

Eles nunca conseguem muito mais que alçar da periferia para o centro, nos momentos de desespero, o “tertius” que parece limpo porque ainda não teve a oportunidade de se sujar e encarnará a próxima safra de violências políticas, institucionais e morais porque o país terá de passar. Isto quando escapamos das colheitas também de violências  físicas…

A “revolução”- seja a feita com a intenção de empurrar, seja a feita para resistir aos empurrões – não faz mais que manter em suspenso o processo histórico ao qual se terá de retornar fatalmente mais adiante. E retornar do ponto de partida, o que redunda em atraso num mundo em que atrasar-se é erro cada vez mais impiedosamente punido.

get8

Não ha como aprender democracia senão praticando-a ininterruptamente por tempo suficiente para experimentar alhos e bugalhos e constatar – física e palpavelmente – que não ha senão gente neste nosso vale de lágrimas, sendo a ausência de santos e de diferenças essenciais entre os não santos – e portanto a alternância em si mesmo – a única resposta razoável ao desafio do poder. E como a acumulação de tais experiências normalmente toma mais tempo do que o que vive um homem, a História é a chave da charada. Só depois de assegurar o domínio dela é que se pode caminhar para adiante.

A História é a psicanálise das sociedades. Assim como um indivíduo só pode assumir o controle do seu destino e escolher caminhos novos depois de entender como e porque veio a ser aquilo em que se transformou, assim as sociedades.

get6

Muito mais que as tecnologias do futuro, é na reconstituição fidedigna do passado que está o valor mais importante da educação. E ninguém sabia melhor disso que Antonio Granmsci, o grande guru da esquerda brasileira.

A tática, desde sempre desonesta, foi inventada quando ainda havia um alegado objetivo moral a justificar o emprego dela. Hoje não há. Foi apropriada por cleptocracias cujo único objetivo é empanturrar-se de poder, sem distinguir as duas formas que ele assume: a da prepotência e a do dinheiro.

A esta altura, aparelhar as escolas e os demais meios de difusão da cultura para falsificar deliberadamente a História como tem feito sistematicamente o PT antes e depois de chegar ao poder, é igualar-se ao analista psicopata que se aproveita da fragilidade e da desorientação do seu cliente para induzi-lo ao suicídio.

gr

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com 1964 em VESPEIRO.

%d blogueiros gostam disto: