20 de abril de 2020 § 10 Comentários

Bolsonaro que gosta tanto dele devia imitar o Trump no ESTABELECIMENTO DE CRITÉRIOS para a saída da quarentena: evolução a cada 14 dias, disponibilidade de UTIs, testes e assim por diante. Isso tira a conversa do achismo e direciona as ações dos governadores

Coronavirus sem politicagem – 1

14 de abril de 2020 § 115 Comentários

por Fernão Lara Mesquita


Os números do Sírio Libanes (cerca de 300 casos, 1 morte) e do Einstein (mais de 400 também com 1 única morte) comparados com os índices da rede publica indicam que a precocidade do início do tratamento é decisiva. Com medo do colapso da rede hospitalar, fizeram a campanha errada no inicio da epidemia para que as pessoas não fossem ao hospital diante de sintomas leves e esperassem o quadro se agravar. Agora “elas estão chegando mortas ou quase mortas aos hospitais públicos”…

Uma nova forma de tratamento rápido, barato, e que livra os pacientes das UTI’s e dos respiradores, o verdadeiro fantasma das autoridades de saude publica nesta epidemia, tem sido usado com grande sucesso nos hospitais privados de São Paulo desde que foi tentada pela primeira vez e tirou do estado crítico um empresário que viajou com a comitiva de Bolsonaro para um encontro com Donald Trump no começo de março e voltou contaminado.

Acompanhe, a seguir, a matéria que O Estado de S. Paulo recusou-se a publicar.


Muito além da cloroquina

Alexandre Fernandes, 44 anos, empresário de Joinville, esportista, não fumante, sem nenhuma “co-morbidade”, era um dos membros da comitiva de Jair Bolsonaro na fatídica viagem a Mar-A-Lago, o resort de Donald Trump em Palm Beach, Florida, no começo de março de que quase todos os participantes menos os presidentes brasileiro e americano voltaram contaminados pelo coronavirus.

Fernandes desembarcou no Brasil dia 11 de março, uma 4a feira, sentindo um certo excesso de cansaço, dor no corpo e um pouco de febre. Na 5a ligou para seu médico, o imunologista dr. Roberto Zeballos, passou no consultório em São Paulo e colheu material. Sábado já tinha o resultado: positivo para coronavirus.

Domingo começou a falta de ar. Fernandes baixou ao hospital Vila Nova Star para a primeira tomografia. O pulmão estava cheio de manchas. 20% comprometido. A saturação de oxigênio baixara a 85 quando o normal é em torno de 98. Além do cateter injetando 1 litro de oxigênio por minuto nas narinas, passou a ser tratado com remédios para baixar a febre e antibióticos para prevenir infecções oportunistas.

Segunda-Feira já não tinha forças para comer nem podia passar sem o cateter de oxigênio na dose de 2 litros por minuto. Na 3a já não tinha forças para ir até o banheiro sozinho. Na 4a passou a 4 litros de oxigênio por minuto. Na 5a o PCR, um indicador de imunologia que marca inflamação a partir do grau 4, chegara a 14 e o jovem saudabilíssimo de apenas seis dias antes não conseguia erguer o celular para … despedir-se da família.

Senti minha vida indo embora”… 

Fez a segunda tomo e a imagem que surgiu era sinistra. 80% do pulmão estava afetado. Foi para a UTI com os médicos discutindo a iminente entubação, momento a partir do qual a medicina praticamente se rende e tudo fica nas mãos de deus.

Mas ele escreve reto por linhas tortas.

Antes da decisão final o dr. Zeballos recorre ao dr. Marcelo Amato, pesquisador de renome internacional e um dos maiores pneumologistas do Brasil. Vários médicos consultados pelo Vespeiro reputam-no como “um cientista”. A sorte estava a favor de Alexandre. Amato acabara de ler um estudo do Hospital Jinyntan, de Wuhan, relatando 201 casos de pacientes com nível crítico de pneumonia relacionada ao coronavirus tratados com um novo esquema publicada apenas três dias antes no Journal of the American Medical Association (aqui). O que se relata ali é um tratamento controvertido que envolve uma espécie de “escolha de Sofia” da medicina. Mas o estado de Alexandre era crítico, a esposa dele também é médica e a proposta, embora contra-intuitiva, ia na direção de suspeitas compartilhadas por imunologistas com experiência no tratamento de quadros pulmonares semelhantes aos do coronavírus. E, agora, tinha o endosso de um dos maiores especialistas do Brasil. Todos os ingredientes necessários para uma decisão de risco como aquela estavam reunidos.

Esse trabalho mostra claramente que o choque de esteroides com claritomicina reduz a mortalidade. Temos de tentar”!, sentenciou Amato.

Nas primeiras medições da sexta-feira o quadro tinha parado de piorar. No sábado o PCR retornara a 12 e iniciou-se a redução da quantidade de oxigênio injetado via cateter. No domingo o PCR tinha voltado a 8. Na 3a o cateter de oxigênio já não era mais necessário. Na 4a, 25, Fernandes fez a terceira tomografia e nem os médicos acreditaram no que viram. “Parece que você fez um transplante escondido. Seu pulmão está cristalino“. A quinta e a sexta seguintes ainda foram passadas no hospital para seguir com os antibióticos intravenosos até o fim da série de segurança, proceder o “desmame” dos esteróides e esperar o resultado do ultimo teste de coronavírus.

Negativo!

Na sexta à noite, 27/3, Fernandes estava em casa festejando com a família.

Como funciona esse tratamento

Os tratamentos com antivirais cuidam de retardar a multiplicação dos vírus de modo a dar tempo aos organismos infectados para vence-los com o seu próprio sistema imunológico. No fundo trata-se de uma corrida. O sistema imunológico leva um tempo para entender o inimigo com que está lidando mas, se esse inimigo não destruir a pessoa antes pelos danos colaterais que vai produzindo nos seus órgãos vitais, o mais provável é que acabará por decifrá-lo e liquida-o.

É isso que explica porque 85% das pessoas que contraem o coronavírus, ou não chegam a ter sintoma algum, ou conseguem eliminá-lo depois de passarem por desconfortos não maiores que os de uma gripe. Essa porcentagem é a daqueles cujos sistemas imunológicos venceram o vírus “no 1º round”. Só em 15% dos infectados o vírus provocará danos suficientes para produzir sintomas mais pesados. E destes apenas 5% evoluirão para o “2º round” onde os sintomas se agravam a ponto de requerer hospitalização e implicar risco de morte.

O que acontece com essa minoria?

Um pulmão vai à breca ou por infecção bacteriana, ou por inflamação. Ou pela combinação das duas coisas. Os problemas com o coronavírus são dois. A facilidade com que se espalha e, principalmente, a velocidade vertiginosa com que se multiplica dentro dos organismos contaminados. Por razões ainda desconhecidas o sistema imunológico de alguns indivíduos, diante da invasão, desencadeia uma reação “exagerada”. São as chamadas “tempestades de citoquinas” nos pulmões onde passa a acumular-se um tal excesso de umidade e matérias orgânicas que, mesmo antes que qualquer infecção oportunista por bactérias chegue a instalar-se, os alvéolos, bloqueados, não conseguem mais perfazer a função de tirar oxigênio do ar e injetá-lo no sangue.

Nas pessoas idosas, que convivem com cargas mais pesadas de bactérias em seus organismos, o pulmão é o primeiro órgão atacado diante de qualquer fator de aumento de vulnerabilidade. O mesmo acontece com as chamadas “co-morbidades” ou doenças anteriores. Nos pacientes enfraquecidos pelo ataque do vírus essas doenças prévias agravam-se até matá-lo. Daí o tratamento padrão consistir em cobrir o paciente com antibióticos para estimular seu aparelho imunológico contra as bactérias e com injeção forçada de oxigênio – por cateter nasal, primeiro; por respiração mecânica, no extremo – para evitar que uma pneumonia o mate antes que seu sistema imunológico possa eliminar as bactérias ou vírus atacantes.

O uso de esteróides ou corticoides para reduzir processos inflamatórios é evitado nesses casos porque o que essas drogas fazem é, exatamente, baixar o funcionamento do sistema imunológico, aquele que combate as infecções bacterianas e, eventualmente, as outras doenças anteriores do portador do coronavírus. 

Ou seja, para reduzir a inflamação arrisca-se agravar as infecções.

O princípio que apoia o uso da hidroxicloroquina no tratamento de coronavírus é o mesmo que justifica o ataque com esteróides. Embora essas substancias sejam muito diferentes uma da outra as duas têm efeito antiinflamatório. Só que a cloroquina é muito menos potente que os esteróides e tem um séquito de possíveis efeitos colaterais muito maior. Pode ajudar, portanto, apenas se aplicada muito no início do tratamento, mas com os riscos todos desses efeitos colaterais, alguns dos quais podem ser graves. 

O ataque com esteróides (metilprednisolona) combinado com claritomicina funcionou mesmo num caso extremo como o de Alexandre Fernandes, o primeiro a ser tratado com esse protocolo no Brasil (ha uma indisfarçável guerra de vaidades de médicos em torno desse pioneirismo). Depois dele já tirou outros nove pacientes tratados pela dupla Zeballos e Amato do fundo do poço para a alta em poucos dias. Um novo grupo de pacientes está sendo tratado dentro desse protocolo, agora já dentro de técnicas de controle para a produção de um primeiro “paper” com valor científico a cargo do dr. Amato. A indicação que se vai impondo é que quanto antes se passar a esse tratamento mais eficaz ele será.

Não é um tratamento que vá funcionar infalivelmente em todos os casos – a indicação é para aqueles em que a inflamação dos pulmões é a ameaça mais premente. Mas outros médicos consultados para esta matéria recomendam o uso de todos esses recursos juntos em doses que variam de caso para caso. Desde pelo menos os primeiros dias de abril, apurou o Vespeiro, inúmeros pacientes vêm sendo tratados com esse protocolo também no Hospital Sírio Libanês, a começar por um paciente ilustre, o dr. Roberto Kalil, contaminado pelo coronavirus, como se constata pelo vídeo acima em que ele menciona que tomou cloroquina mas “o que o salvou foi o corticóide”.

É um tratamento muito rápido e muito barato, que dispensa UTI’s e respiradores, os dois pontos mais vulneráveis não só do sistema de saúde brasileiro como dos de grande parte dos países do mundo. Mais que qualquer outro fator mais diretamente objetivo, foi o medo do colapso desses sistemas que levou suas respectivas autoridades de saude publica às quarentenas que, ao contrário do que se pensa, não curam nem evitam que a epidemia cumpra seu ciclo (só declinam depois que mais de 50% da população é infectada e torna-se imune), ou seja, não “salvam vidas” diretamente, apenas tentam “espalhar” os casos de hospitalização no tempo.

“Vá logo para o hospital”

O dr. Kalil faz, aliás, um alerta para uma falha de comunicação que tem tido efeito desastroso. “Procure o hospital ao primeiro sinal da doença. Não espere os sintomas se agravarem. Isso pode ser a diferença entre a vida e a morte“. Kalil registra que o Hospital Sírio Libanês tratou de 300 doentes de coronavirus e só perdeu um, e que o Hospital Albert Eisntein tratou 400 e também só perdeu um paciente. Mas nos hospitais públicos a mortalidade tem sido muito mais alta “porque os doentes estão demorando demais para procurar o hospital“.

Um número altíssimo já chega morto ou quase morto na ambulância porque, por medo de que isso apressasse o colapso do sistema público, foi feita a recomendação errada, no começo da campanha, para que as pessoas não procurassem o hospital  com sintomas brandos da doença. Fizeram até terrorismo, dizendo que o hospital é o melhor lugar para as pessoas pegarem o corona. Agora até pessoas afetadas por outras doenças estão evitando os hospitais até ser tarde demais. É preciso corrigir urgentemente essa informação“.

Uma semana atras, dado o potencial de utilidade publica e salvação de vidas envolvidos, esta matéria foi oferecida a O Estado de S. Paulo que, por razões alheias ao critério  jornalístico recusou-se a publicá-la. Neste link ou pelo email forum@estadao.com você pode dizer à direção do jornal o que acha dessa decisão. Enquanto isso, repasse-a para o maior numero de pessoas para vencer o segredo que se queria em torno dela.

Quarentenas e coberturas burras ou inteligentes

31 de março de 2020 § 30 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 31/3/2020

Quem não se comunica se estrumbica“. Jair Bolsonaro é um sujeito que tem de ser ouvido “por partes”, como diria Jack, O Estripador. Para entender o que ele diz é preciso separar forma de conteúdo. É uma atitude que requer tomar calmante porque na forma ele agride com tanta força que o resto ninguém ouve, mas é obrigatória pois, sendo ele quem é, não é ele, é o Brasil quem “se estrumbica“.

A crônica da ultima “birra” é enfática. Para além da citação textual da “gripezinha” de Dráuzio Varela com que quis ironizar “aquela televisãozinha”, ele tinha recuado suspendendo dívidas e dando outras condições para viabilizar a quarentena nos estados. Nada era mais fácil e previsível, porém, que uma admoestação pública como a de João Doria provocasse a resposta que provocou…

Ora, tirar Bolsonaro do sério é covardia. Tarefa pra herói que tem mesmo pena do Brasil é ouvir inteligentemente o lado burro dos discursos que profere. É aí que entra a imprensa. Esse jornalismo rançoso, de superexposição de todo e qualquer pelo de controvérsia, encomenda o aprofundamento do dissenso. Anunciar que o passaporte para a exposição de quem vive de voto na telinha é provocar e sustentar controvérsias bem no meio de um desastre é um ato mais criminoso que o do político que topa esse jogo deletério. Mas tem sido a regra. Nada nesta pandemia pode ser compreendido analisando-se apenas os dados concretos do problema. Ninguém perde muito tempo com eles. O vírus foi politizado como tudo o mais. Ou você é “quarentenista” fechado ou dá briga. É proibido raciocinar em voz alta a respeito.

E, no entanto, está mais claro a cada minuto que a verdade está no lugar de sempre – o meio – e não ha jeito de evitar o pior sem incluir o que há de verdade, tanto na necessidade da quarentena burra para não morrer na chegada da doença, quanto na da evolução para a inteligente o mais rápido possível para não morrer das consequências da outra.

Na China o governo é a polícia e todas as empresas são monopólios pertencentes ao mesmo patrão que além do de empregar, emitir a moeda com que opera suas empresas e aguentar tanto prejuízo quanto quiser nem que o “trabalhador” fique reduzido a comer morcegos, também tem o poder de prender e arrebentar quem ele quiser. Mas nem ela pode brincar com esse fogo. É o pais mais avançado do mundo em tecnologia da opressão o que veio a calhar numa crise como essa. Primeiro fechou Wuhan na marra. Mas o quanto antes passou a testar e tomar temperaturas em massa. Agora, com todo o pais fichado no reconhecimento facial e cada chinês vigiado 24 horas por dia, o celular diz ao governo onde ele anda, com quem se encontra e até de quem se aproxima e o algoritmo da polícia o classifica numa de três categorias: vermelho, amarelo ou verde. É verde quem não saiu do país nem se encontrou com ninguém vermelho ou amarelo nos últimos 14 dias. É amarelo quem veio de fora ou se encontrou com alguém vermelho nos últimos 14 dias. É vermelho quem foi testado positivo ou teve a sua temperatura medida com febre. Isso classifica também as cidades e regiões do pais. O trânsito é livre para as verdes, cidades ou pessoas; tudo é restringido para os amarelos; há supressão total da circulação dos vermelhos.

Assim 80% dos chineses voltaram a estar, como sempre estiveram, semi-soltos e trabalhando muito, enquanto o resto do mundo continua preso, menos nos países que estão fazendo coisa semelhante com os custos e limitações da liberdade democrática (ou quase) como Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan, Alemanha e outros que, livres da contaminação em nível critico pela pandemia da conflagração ideológica, estão enfrentando o coronavirus com miolos em vez de bílis, aplicando testes e medindo temperaturas em massa e colhendo números tão bons quanto os da China.

Dinheiro e coordenação são as condições que nos faltam para transitarmos da quarentena burra para a inteligente a tempo de evitar o mergulho que estamos na iminência de dar da miséria para a miséria irreversível. Descobrir onde tem teste, quanto custa, como produzi-los na velocidade necessária; mobilizar “gargalos da quarentena” (supermercados, transportes, etc.) a medir temperaturas são formas de repercutir inteligentemente o modo burro de Bolsonaro afirmar sua parte da verdade desta epidemia e dispensa-lo de fazer a próxima “birra”.

Mas passar adiante dele empurrando-o para a reforma das reformas que, nem ele, nem muito menos quem hoje o critica, quis ou deixou fazer na profundidade necessária para acabar de uma vez por todas com o sistema de privilégios medieval que destruiu este país, seria a única forma da imprensa brasileira pagar a sua dívida histórica. Não só porque não escaparemos do abismo sem isso e porque tempo é tudo, mas porque foi pelo jornalismo pátrio nunca se ter dignado a fazer uma campanha de denuncia remotamente proporcional ao escândalo que são os privilégios da privilegiatura que a economia brasileira chegou a essa pandemia como o “velhinho” mais depauperado e de mais alto risco do planeta de morrer no primeiro minuto que faltar-lhe o ar.

A peste e a reforma das reformas

24 de março de 2020 § 24 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 24/3/2020

O problema é de ajuste fino. Definir o que é ou não essencial. Fechar tudo, sem mais, vai caindo a ficha do mundo inteiro, é mais ou menos como suicidarmo-nos antes que o virus nos pegue. As economias não podem ser desligadas e ligadas impunemente. Elas morrem e têm de nascer de novo o que são processos muito mais demorados e dolorosos.

Dinheiro x vidas? Falso dilema. Economias são pessoas. Sonhos feitos e desfeitos. Semeaduras de saúde ou de doenças futuras. Plantações de paz ou de violência. Partindo do nada, o tsunami econômico politicamente fabricado em nome da contenção da pandemia do coronavirus está provocando uma devastação que, considerado apenas o ponto a que já chegou, muito abaixo da crise de 2008 para a qual havia todos os fundamentos econômicos e financeiros concretos, será um marco divisor na história da humanidade.

Nem os Estados Unidos, com todo o seu poder e sua glória, poderão mantê-la viva artificialmente distribuindo um trilhão de dólares por quinzena para cima e chequinhos de campanha eleitoral para baixo, à la Lula. No Brasil os 15 dias de pânico já quebraram mais de R$ 1,5 trilhão no valor de tudo que está nas bolsas, mais de 20% do PIB…

Investir em precisão e comedimento é a resposta correta como mostra o argumento indiscutível do resultado que se pode aferir comparando a destroçada Europa Latina, de que somos filhos, toda ela em “rigorosa quarentena” e índices de mortalidade que começam por mais que o dobro dos nossos 1,6% e vão até aos quase 9% da Lombardia italiana, com Alemanha, Taiwan, Cingapura, Coreia do Sul e outros que têm colhido índices de letalidade inferiores a 0,4%.

Não há ventos favoráveis para o navegante que não sabe para onde vai. Testagem rápida em massa e parar, na maior medida possível, só os doentes e os transportadores de doença já identificados. Pesquisa intensiva de tratamentos eficazes. Precisão na informação, rigor nas medidas preventivas individuais, eis os ingredientes que detêm a pandemia e enfraquecem o coronavirus.

O primeiro e maior desafio é portanto da imprensa. A pergunta essencial é quanto da reação dos políticos responde aos fatos e quanto à cobertura que ela tem feito pois é no interstício entre essas duas balizas que prospera o virus que vai devastando a economia do planeta inteiro, este sim de uma letalidade nunca antes vista em tempos de paz ou em tempos de guerra, no mundo antigo ou no mundo moderno.

O desafio está em impedir que o foco da cobertura desvie-se da mecânica da progressão da doença para as reações do povo às determinações dos políticos e as dos próprios políticos às decisões de outros políticos, o que nem sempre é fácil de separar. Em outras palavras no rigor do cuidado das redações em não se deixarem transformar em correias de transmissão de um pânico que se alimenta de si mesmo.

Garantir três horas de palanque por dia para políticos isentos dos efeitos das medidas que baixam disputarem poder uns com os outros na base do “quem fecha mais” é tão seguro, num país com o retrospecto político do Brasil, quanto ascender uma tocha para procurar uma agulha num paiol de dinamite.

Não é só no Brasil, aliás. Em todos os países onde a autoridade (dos governantes e da imprensa) está desmoralizada pela conflagração ideológica o combate à peste é duplamente problemático. O comportamento das áreas técnicas dos governos e do povo é razoável mas na ida e na volta as informações têm de passar pelos políticos e pelos seus respectivos “batedores de caixa” na internet e nas redações engajadas. E aí todo cuidado é pouco. Quanto desse empenho todo é luta pelo poder? Quanto é vaidade? Quanto do que dizem e fazem os governadores-candidatos e o presidente candidato é fruto de decisões conscienciosas e equilibradas e quanto é precipitação para acusar, direta ou indiretamente, o adversário de omissão?

As dúvidas são pagas em vidas…

É, de qualquer maneira, uma controvérsia que se desfará por si mesmo. Todo o esforço de equilíbrio fiscal de um ano inteiro do ministro Paulo Guedes virou pó na primeira hora da paralização total da economia mundial. Isso arrebenta com a arrecadação num quadro que já era de falência geral dos governos estaduais e municipais. Vai faltar dinheiro para pagar polícia e hospital em dois, no máximo três meses.

O Brasil é o “velhinho” desta epidemia. A economia de pior desempenho numa quadra de prosperidade global. Roído pela privilegiatura, não tem um pingo de gordura de proteção social. No mínimo a metade da população já vinha vivendo da mão para a boca. Uma economia de guerra será agora, e por muito tempo, a realidade de todos.

Não haverá alternativa senão partir para a reforma das reformas. Para Bolsonaro será a última chance de redimir-se de tudo que não fez e não deixou fazer embora estivesse autorizado a tanto pela votação maciça que teve. Para seus adversários, a definitiva de provar quanto, de fato, preocupam-se com a saúde dos nossos avozinhos. Para o Brasil, como um todo, a de entrar, finalmente, para o rol das democracias, acabando com a privilegiatura medieval, ou mergulhar definitivamente no caos. Não vai ter outra.

 

20 de março de 2020 § 11 Comentários

Grande @lsantanna da @cnn! Finalmente alguém falando lé com cré! Comparando números da Europa Latina com suas quarentenas à brasileira x Alemanha e Taiwan com informação e aceleração de testes. É assim que se detém a peste sem matar todas as vítimas potenciais de pobreza antes.

Onde estou?

Você está navegando atualmente a Saude categoria em VESPEIRO.