A competição de colapsos

22 de março de 2021 § 13 Comentários

 

O governador democrata Gavin Newson, da California, ex-prefeito de San Francisco eleito em 2018, anunciou na 2a feira, 15, que começou a levantar dinheiro para financiar a campanha contra a eleição de recall que pode tomar-lhe o mandato ainda em novembro deste ano. Iniciada por mães de alunos que tiveram de deter sua rotina de trabalho para cuidar de seus filhos em casa em função do fechamento das escolas determinado pelo governador, a campanha teve forte adesão de eleitores proibidos de trabalhar pelas determinações de lockdown por ele baixadas.

Ele não deu nenhuma escolha a ninguém” disse uma signatária do recall à Associated Press. “Simplesmente nos proibiu de fazer qualquer coisa com um ‘é aceitar ou aceitar’”.

O Brasil ainda discute se deve ou não ter um comprovante impresso do voto. Na democracia americana não apenas esse comprovante existe – quase todos os votos são exclusivamente em papel – como o voto é um contrato assinado de próprio punho por cada eleitor, entre ele e a autoridade organizadora das eleições. E como o sistema eleitoral é o distrital puro, onde cada candidato só pode concorrer pelos votos de um único distrito eleitoral, ou seja, a representar os eleitores residentes num determinado endereço e pedaço do país, a assinatura no voto das eleições majoritárias passa a ser o padrão com o qual deverão ser cotejadas todas as outras manifestações dele dali por diante, como adesões a propostas de recall ou de leis de inciativa popular, aprovação de compras e obras públicas ou pedidos de referendo a leis dos legislativos, entre outras questões que lá o eleitor decide diretamente no voto.

Na Califórnia uma campanha de recall de funcionário do Executivo só vai a voto se seus organizadores conseguirem assinaturas correspondentes a 20% dos votos recebidos para elege-lo, o que no caso de Newson significa no mínimo 1,5 milhão. Os organizadores já conseguiram mais de 2 milhões que agora estão sendo conferidas.

A dúvida favorece sempre o eleitor, nunca o eleito. Somente uma assinatura com “múltiplas, significativas e óbvias discrepâncias” com a de votos anteriores pode ser impugnada. E mesmo assim, dois funcionários têm de concordar “acima de qualquer duvida razoável” para desqualificá-la. E como todo funcionário público também está sujeito a recall não ha duvida sobre para qual lado pende a lealdade do funcionalismo.

Na legislação da Califórnia o eleitor que assina uma petição de recall tem 30 dias para se arrepender. É para uma campanha com esse apelo que Newson está agora arrecadando dinheiro. Não que ele ache que pode evitar o recall. É que quanto mais longe tiver ido a vacinação e estiver a memória dos lockdowns no momento da votação, acredita ele, maior a sua chance de escapar da cassação que, no momento, parece muito provável. É de esticar prazos que se trata, portanto.

Os problemas, como se vê, são idênticos, apesar das abissais diferenças de níveis médios de renda e educação. A diferença está em quem tem o poder de participar das e decidir as discussões políticas. Nas democracias, onde “todo poder emana do povo e em seu nome ou por ele diretamente é exercido”, o povo debate, o povo decide e o governo obedece. Nas “democracias” de mentira que já estão podres mas ainda não caíram, os governantes “debatem” com seus especialistas de estimação e o povo, que assiste a tudo calado e de longe, apenas sofre a decisão que eles baixarem, isso se os 11 monocratas acharem que ela foi boa…

Ouço cada dia mais gente que herdou o luxo da liberdade, inconsciente da gota d’água que é a condição de desfrutá-la no vasto oceano da história da servidão humana neste “vale de lágrimas”, dizer de boca cheia, diante das idas e vindas desta pandemia nos países livres, que prefere o sistema chinês.

Ali sim, resolvem-se as coisas! Quando ‘o cara’ manda fechar fecha mesmo. Ninguém morre de covid na China”.

Primeiro é preciso saber se é isso mesmo. A avareza com que soltam para o exterior as doses das suas vacinas – menos para a África que é o mais imediato objeto da sua cobiça geopolítica – parece indicar o contrário. Não é atoa que ha anos sem fim víamos imagens dos chineses andando de máscara nas ruas, sem saber o que estava por trás daquela estranha “moda”. Ninguém morre de covid na China? Jamais saberemos ao certo, fato que diz a qualquer sujeito com um pingo de desconfiômetro tudo que é preciso saber sobre a quantidade de porrada que se distribui num país de extensão continental onde se amontoa 1/4 da espécie humana, para garantir que só se saiba, do que se passa lá dentro, aquilo que a ditadura do partido único quiser que seja sabido.

A China criou a covid, isso é absolutamente certo, reduzindo sua gente à condição de comer morcegos e, principalmente, a fazer isso em obsequioso silêncio. 

Mas o que move essa gente, pelo mundo afora, a insistir em sair de casa na iminência da catástrofe com a pandemia matando como está? 

“Negacionismo”? 

O que com certeza não há, posso garantir aos sem imaginação, é qualquer diferença na reação dos donos de botequins brasileiro, americano ou chinês – e mais ainda, na dos empregados quase miseráveis dessa fatia dos remediados que têm de batalhar hoje o prato que sua família vai comer amanhã. 

Quando “o cara” lhes diz que vão ter de perder tudo que conseguiram na vida arriscando, dia após dia, o seu sangue, o seu suor e as suas lágrimas, o que se instala é uma competição de colapsos: o da luta da vida de cada um versus o dos governantes, que eles desde sempre e com toda a justiça culpam por mantê-los no limiar da miséria apesar de toda essa luta, que não quer encerrar sua carreira com a colheita dos anos todos de incúria que levaram, ao primeiro desafio sério, à falência de sistemas de saúde e capacidade de produção de vacinas que o povo sempre pagou mil vezes melhores do que são. 

Então o remediado e o quase miserável chineses engolem em seco e voltam a comer morcegos porque a alternativa é o tiro na nuca. Já os nossos ainda podem chiar, enquanto Alexandre, O Pequeno, e cia. ltda., que dispensam-se olimpicamente das penas que impõem a quem precisa desempenhar para manter seu emprego e seu salário, não se tiverem tornado tão grandes quanto se enxergam ao se olhar no espelho.

O resumo, brava gente brasileira, é que pandemia desse calibre é, pra todo mundo – governantes e governados – andar sobre o fio da navalha. “Se correr o bicho pega, se parar o bicho come”.  Mas isso de democracia talvez seja como todas as outras conquistas humanas: pai rico, filho nobre, neto pobre. Vai embora quando se perde a memória viva da epopeia que foi para conquistar aquilo que, para o herdeiro estroina, não custa nada jogar no lixo.

CoronaVac ou Oxford, eis a questão

14 de janeiro de 2021 § 5 Comentários

Não é só saber qual das duas o governador João Dória e o resto da privilegiatura fura-filas vai tomar, se é que já não se inoculou a da Pfizer quando andou esbarrando lá por Miami. Mas de fazer todas as perguntas óbvias que os nossos jornalistas não estão se permitindo fazer, que se trata.

A elas:

Posto que temos “apostas” feitas em duas vacinas, uma com 50,38% de efetividade, outra com 74%, ambas desenvolvidas em laboratórios brasileiros a partir de insumos estrangeiros, não teria o governo de parar onde já chegaram as compras da mais fraca para concentra-las nas compras da mais forte?

Sendo o mote da campanha “Brasil imunizado, uma só nação”, como deve ser, sob que critérios vai arbitrar o governo quais brasileiros tomarão uma e quais tomarão outra das “nossas” vacinas?

Considerando que a extensão da cobertura no menor tempo possível é o objetivo a perseguir, que outras vacinas iguais ou melhores que as nossas estão disponíveis no mercado internacional, e em que prazo? Porque não ha notícia de qualquer esforço do governo para encontrar outras vacinas?

Considerando que está claro que o governador João Dória vem mentindo sobre a performance da CoronaVac desde pelo menos a véspera do Natal quando recebeu os resultados dos testes do Butantan, e que a trajetória que arquitetou entre aqueles 100% quiméricos e os 50,38% (reais?) tomou um tempo precioso de um país com mil mortes por Covid-19 e suas variações por dia para tomar decisões no interesse de conter a pandemia com alternativas mais eficientes, não seria o caso de suspender suas contas nas redes sociais e tomar outras providências cabíveis?

Decoro, pelo amor de Deus!

9 de dezembro de 2020 § 20 Comentários


João Doria e Jair Bolsonaro nasceram um para o outro. O oportunismo sem breque de um e a pesporrência interneteira suicida do outro acabam sempre em sexo explícito enfiado goela abaixo do Brasil.

Haja saco para tanta falta de compostura no meio do velório nacional!

É questão de tempo, aliás, para que um exale o último suspiro sobre o cadáver político do outro pois assim como a única coisa que pode salvar este e qualquer hipótese de um próximo mandato para Bolsonaro e evitar a explosão para a qual se vai acumulando pressão na miséria nacional é a velocidade da retomada da economia que depende estritamente da velocidade da vacinação, só um recolhimento e uma modéstia de monge budista em penitência poderiam “desplastificar” a imagem e apagar a memória da incontida sofreguidão que está expulsando João Doria das pesquisas de intenção de voto.


A orientação da cobertura da imprensa preferencialmente para o disse-que-disse e não para o esclarecimento do público também não ajuda a poupar essa náusea ao país. 

  • Estão completados os testes em humanos a cargo do Butantã?
  • Se não estão, quanto tempo tomam ainda? 
  • Se estão, porque o instituto não os entregou à Anvisa?
  • Com os testes em humanos nas mãos, qual o protocolo que a Anvisa tem de seguir? 
  • O que justifica os prazos que ela alega ter de cumprir, burocracia ou tempo de processamento tecnicamente justificado?
  • O que é preciso fazer para acelerar o andamento disso?
  • Como foi o “procedimento de emergência” da agência inglesa?
  • Estando todas elas cadastradas num mesmo organismo internacional não teria a Anvisa acesso a essa mesma via rápida?


Enquanto em vez de responder perguntas como essas as televisões oferecerem um palco iluminado diário ao Boneco dos Bandeirantes o Panaca do Planalto responderá com mais uma grosseria internetavel e o Brasil não se livrará desse barraco.

Só a re-angulação dessa cobertura da doença do país para o interesse do país doente cala a boca desses dois.

Cloroquina ou não cloroquina?

18 de maio de 2020 § 40 Comentários

É bom não esquecer: cloroquina ou não cloroquina é uma questão que só pode tornar-se problemática numa medicina estatizada onde que remédio você toma ou deixa de tomar é decisão de políticos e não de médicos. Nos hospitais privados toma-se contra o Covid-19, que mata de 20 jeitos diferentes conforme cada corpo invadido, o que o exame de cada doente recomendar ao médico que receite. Mas nos hospitais públicos só vai ter na farmácia aquilo que o político de plantão achar que deve, seja pela razão que for. Daí estarem esses hospitais sempre no limiar do colapso. A oferta pro marajá que decide será sempre maior que as razões médicas para se construir ou comprar o que quer que seja para a saude do povo.

UTI’s à beira do colapso onde, cara-pálida? Nos hospitais públicos, é claro. Como sempre. Eu passei 60 anos assistindo na TV gente morrendo sem atendimento pelo chão de hospitais imundos sem precisar de pandemia nenhuma neste país que proporcionalmente mais gasta com saude e com educação publicas no mundo. Por bem ou por mal, o favelão nacional faz a sua parte. Arrancam dele o dinheiro dobrado, triplicado, quadruplicado, o tanto necessário para coloca-lo na miséria em que está. Mas nunca, jamais, tudo isso vira alguma coisa que não dê náuseas…

Os hospitais privados, graças também à desinformação para criar o medo-pânico do Covid, estão às moscas. Uma diária de internação nas UTI’s dos hospitais de luxo de São Paulo sai em torno de R$ 2 mil por dia. Mas os governadores bandalhos saem por aí comprando equipamentos e construindo hospitais superfaturados em tendas em vez de alugar o que está sobrando.

Só tem uma coisa decente para se fazer nessa pandemia, diga-se de passagem, que é dar a cada prefeitura, que sabe o que se passa no seu terreiro, a decisão do que fazer com a sua pandemia. No máximo os governadores e o presidente deviam estabelecer os parâmetros mínimos – e repito, mi-ni-mos – para nortear a ação dos prefeitos.

Fora daí é só esse pisotear de cadáveres que a cada dia que passa faz mais insuportável o nojo!

Um país amarrado para o estupro coletivo

21 de abril de 2020 § 37 Comentários

Jair Bolsonaro frequentemente não sabe o que faz. Nada mais fácil que levá-lo ao destempero absoluto. Mas Rodrigo Maia sabe perfeitamente.

Essa macheza toda de João Dória é mau sinal. Ele não é homem de arriscar o próprio lombo. Lá da fazendinha dele no Jardim Europa, com suas fronteiras com o resto do mundo fechadas pela policia, vocifera o seu olímpico “Que coma bolos o povão; São Paulo tem de parar!” porque está certo de poder mandar a conta para Bolsonaro. Se soubesse que era a ele que caberia entrega-la ao favelão nacional pensaria dez vezes e, como sempre, não teria a menor dificuldade em desdizer o que disse ontem com as boas palavras que faltam ao nosso inarticulado presidente para explicar os passos necessários para transitar desse mergulho de cabeça na miséria do jogo do poder para a quarentena seletiva necessária à preservação da saude pública.

Mas poder “bate” fortíssimo. Os “nóias” dessa droga vão a qualquer profundidade por ela. Nenhuma abominação é grande demais para obte-la. Veja-se Rodrigo Maia. O DEM veio bem até aqui pertinho. Mas foi só ser-lhe dado comer um pouquinho de melado e lambuzou-se todo. E dizer que quem o armou de ministérios bilionários e articulou a entrega do comando da Câmara e do Senado ao partido foi o próprio Bolsonaro! É quase bíblico…

O DEM sempre foi dois. Um é o tribal, que deita raízes em 64. Ainda caminham por aí assombrando o Brasil os mortos vivos do “coronelismo eletrônico” salvos da lata de lixo da história pela distribuição de rádios e TVs do presidente por acaso José Sarney. Nos “feudos” onde ganharam o poder de falar sozinhos é da lei do machão da “casa grande” da vez manter a marca do inaugurador da dinastia – “de direita” ou “de esquerda” – mas qualquer diferença real no comportamento pessoal ou na praxis da relação com a “senzala” ampliada do eleitorado que só come se for na mão deles está enterrada sob camadas sucessivas da cultura do comércio de privilégios que iguala a todos e entorta de cabo a rabo a política nacional.

O outro DEM é o pós 85. Desde o fim do regime militar filiar-se ao antigo PFL que já tinha sido Arena passa a ser uma credencial de consistência ideológica. O sujeito entrava para o PFL, depois DEM, quando a vocação política mais a fidelidade a princípios davam uma soma maior que a sede de poder porque, de cara, essa opção matava qualquer chance dele disputa-lo para valer. Isso era privilégio exclusivo dos 30 e tantos “partidos de esquerda” que, entre vivas à democracia, entretinham-se no nobre esporte de, alternadamente, distribuir ou agarrar tetas.

Luiz Henrique Mandetta é dos últimos representantes desse DEM vocacional, hoje circunscrito a uns cantos do Centro Oeste, último bastião da meritocracia no Brasil. Ele foi eleito pela primeira geração de uma gente que saiu do nada e, longe do Estado, arrancou da terra o próprio sucesso e hoje sustenta este país devastado. Nada é “puro” como nada é puro, mas esse DNA é que faz a diferença que, do primeiro ao último discurso, com exceção da esparrela do Fantástico, o Brasil inteiro notou entre o que é Luiz Henrique Mandetta e o que são os chefões do partido que agora tratam de cavalgá-lo.

Rodrigo Maia, lá dos seus 74 mil 232 chorados votinhos, aderiu de corpo e alma ao movimento reacionário da esquerda apeada do poder pela revolução midiática que derrubou a dupla muralha do patrulhamento da imprensa e do financiamento público de campanha e resultou nos 57 milhões 797 mil e 847 votos que puseram Jair Bolsonaro, O Tosco, onde está na (frustrada) expectativa de um país exausto de que ele pusesse pelo menos um freio às indecências da privilegiatura “fina e chique”.

Ha sinais claros de que o presidente periclitante começa, até, a arrepender-se do quanto tolheu o avanço das reformas no início, agora que as vê empurradas aos trambolhões para trás, mas é tarde. Paulo Guedes e seu programa que se queria liberal é o primeiro fuzilado da contra-revolução. Já Nelson Teich é um natimorto. O inédito surto “fededralista” do STF é o contrário do que parece. O cargo dele foi abatido antes mesmo dele pensar em aceitá-lo pelos franco atiradores que, lá do pico mais alto da privilegiatura, vêm fuzilando, uma a uma, as ultimas defesas do favelão nacional contra o saque final em preparação.

O “Orçamento de Guerra” acaba com todas as restrições legais ao gasto público. Os novos “controles” passam a ser do Congresso Nacional, o que dispensa qualquer especulação mais séria sobre sua consistência. E agora, depois da confirmação da intocabilidade do emprego público e da inimputabilidade geral do “servidor” mesmo ladrão com sentença passada e re-confirmada, prepara-se a imposição da “estabilidade na arrecadação” ou seja, o moto contínuo da “renda mínima da corte” com suas lagostas e vinhos premiados, seus infalíveis aumentos anuais e seus penduricalhos de ocasião venha o que vier e dane-se o favelão, que será o tiro na nuca do Brasil.

Rodrigo Maia definitivamente abraçou o capeta. Resta torcer para que Davi Alcolumbre ainda esteja neste mundo e poupe o país de ser definitivamente amarrado para esse estupro coletivo.

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