Como o colapso de um banco derrubou um presidente?

6 de novembro de 2026 § 1 comentário

Ao contrário do que acontece no Brasil, onde nem investigação contra um ministro do STF que trocou dezenas de mensagens com um banqueiro mafioso envolvido em um escândalo de bilhões de dólares se consegue abrir e onde o filho do chefe do excutivo do país metido com um lobista preso acusado de fraudar milhões de aposentados é blindado pela Justiça e pelo Congresso, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou ontem sua renúncia após o colapso do Ueno Bank e a abertura de um processo de impeachment contra ele.

A renúncia foi rejeitada pelo Congresso, que decidiu manter o julgamento político para que Peña possa ser formalmente destituído e, assim, perder o foro privilegiado.

Hoje, ele pediu ao Congresso uma extensão de 72 horas para preparar sua defesa, mas o Congresso recusou. Logo depois, os senadores aprovaram, por unanimidade, a admissão das provas apresentadas pela comissão de acusação da Câmara dos Deputados, dando andamento ao processo.

O que
levou à
crise

A crise começou quando o Banco Central do Paraguai constatou que o Ueno Bank estava tecnicamente insolvente.

Em 2 de novembro, a autoridade decidiu iniciar o procedimento de resolução do banco digital, suspendendo suas operações e deixando os depósitos temporariamente indisponíveis para cerca de 3 milhões de clientes, aproximadamente metade da população do país.

A decisão decorreu de uma revisão dos balanços da instituição. O índice de solvência, que mede a capacidade do banco de absorver perdas, caiu para 5,56%, menos da metade do mínimo legal de 12%; a supervisão também identificou a necessidade de constituir provisões adicionais de 1,62 trilhão de guaranis para cobrir possíveis perdas em créditos.

O que a
fiscalização
encontrou

O Banco Central havia identificado, em junho de 2026, créditos concedidos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank. Segundo a fiscalização, essas operações contribuíram para a deterioração da liquidez do banco e exigiram ajustes contábeis que reduziram seu capital.

O Ministério Público do Paraguai também investiga uma venda de carteira de créditos à empresa Vinanzas, avaliada em US$ 74,4 milhões, sob a suspeita de que a compra não teria sido feita com recursos genuínos.

Acusações
contra
Santiago Peña

A oposição acusa Peña de conflito de interesses porque foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. Também sustenta que ele indicou Carlos Carvallo, ex-presidente do banco, para comandar o Banco Central em agosto de 2023, criando uma suposta proteção institucional à instituição financeira.

As acusações incluem manipulação regulatória, excesso de limites de crédito a empresas ligadas ao grupo controlador, favorecimento patrimonial indevido, possível enriquecimento ilícito e uso indevido de recursos públicos. A oposição alega ainda que o governo permitiu a concentração de centenas de bilhões de guaranis do Instituto de Previdência Social no Ueno, acima dos limites legais.

Impacto
dos recursos
públicos

O Instituto de Previdência Social (IPS) tinha US$ 348,5 milhões aplicados no Ueno Bank até setembro de 2026, entre certificados de depósito, títulos e contas. Esses recursos são vinculados a aposentadorias e benefícios previdenciários, o que elevou o impacto político e social da crise.

O Ministério da Economia denunciou irregularidades financeiras no banco e alertou que cerca de 250 bilhões de guaranis da “Caja Fiscal” estavam expostos à instituição. O MP abriu investigação contra Peña, o vice-presidente Pedro Alliana e outras 37 autoridades e ex-autoridades, incluindo dirigentes do Banco Central, do IPS, da Itaipu e de Yacyretá.

Vida de
luxos e
bloqueios

A investigação aponta que o ex-CEO do Ueno, Miguel Vázquez, mantinha um estilo de vida de alto padrão mesmo com dívidas estimadas em mais de US$ 340 milhões no grupo ligado ao banco. A Justiça determinou o bloqueio de bens e contas de Vázquez, de outros dirigentes e de empresas vinculadas, até o limite de US$ 70 milhões e mais de 1,6 trilhão de guaranis.

Entre os bens identificados estão veículos de luxo avaliados em cerca de US$ 1,4 milhão, um iate Azimut e duas aeronaves. Os promotores também imputaram acusações a 27 pessoas ligadas ao caso, e um juiz decretou prisão preventiva para seis executivos, incluindo Vázquez.

Sucessão e
consequências
após renúncia

O provável sucessor de Peña é o vice-presidente Pedro Alliana, do mesmo Partido Colorado. A Câmara rejeitou o pedido de impeachment contra ele, mas o MP também o incluiu entre os investigados no caso Ueno.

Após o colapso do Ueno, o Banco Central ativou o Fundo de Garantia de Depósitos, que cobre até 75 salários mínimos por depositante e por instituição. O governo também autorizou um adiantamento de até 40 salários mínimos, equivalente a até 121,76 milhões de guaranis, como parte do processo de devolução dos recursos.

A crise abalou a confiança no sistema financeiro, pressionou o câmbio e os títulos da dívida paraguaia e provocou protestos em Assunção. A investigação sobre responsabilidades individuais ainda está em curso, e nenhuma condenação foi proferida até o momento.

§ Uma Resposta para Como o colapso de um banco derrubou um presidente?

  • gracefullyf6aa39b6a3 disse:

    Isso é que dá fazer falcatrua e não ter um Alcolumbre, nem um Motta no Congresso. É impeachment na certa.

    Resta saber se o Congresso brasileiro vai aprender com o Paraguai ou o Paraguai vai aprender com o Brasil.

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