O racha entre aliados de Lula em torno do ajuste fiscal
3 de novembro de 2026 § Deixe um comentário


As cobranças em torno da redução de juros e de um ajuste fiscal criaram um racha entre aliados de Lula.
Nesse fim de semana, rumores de uma reunião entre o presidente e André Lara Resende geraram uma forte reação do mercado financeiro.
O economista, integrante da equipe que formulou o Plano Real, defende a criação de um Conselho Monetário e Fiscal Nacional que imponha um tabelamento para redução de juros.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou qualquer solução heterodoxa para baixar a taxa Selic e garantiu que Lula não se encontrará nesta semana com Lara Resende.
O presidente do PT, Edinho Silva, fez coro: “Essa proposta nunca foi debatida no PT ou com o presidente Lula, nem há agenda construída para isso”.
Amanhã, o Copom anuncia a nova taxa Selic, que deve permanecer em 13,75%, segundo projeta a maior parte do mercado financeiro e dos analistas, interrompendo um ciclo de cortes graduais de 0,25%.

Embora menos provável, uma redução para 13,50% também pode acontecer.
Apesar da negativa de Durigan e Edinho, o assunto voltou à tona nesta terça-feira diante das especulações sobre a nova direção do Banco Central.
Até o fim de 2027, Lula poderá indicar seis diretores.
Há duas vagas abertas desde janeiro de 2026 — nas diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução — e mais duas serão liberadas em 28 de fevereiro de 2027, com o fim dos mandatos dos diretores de Política Monetária e de Fiscalização.
As duas últimas vagas abrirão em 31 de dezembro de 2027.

Durigan afirmou hoje mais cedo que ainda não conversou com o presidente sobre novas indicações para o Banco Central, mas garantiu que os futuros nomes serão escolhidos com “rigor técnico” e perfis diversos.
Ele voltou a dizer que Lula não tem mantido agendas com outros economistas e que as discussões com o ministro não justificam “uma posição de medo” do mercado.

Segundo Durigan, o governo defende um ajuste fiscal gradual, que respeite compromissos de campanha e seja justo com os mais pobres, buscando maior progressividade no sistema.
Lula ainda não se pronunciou sobre o assunto, o que deixa turvo o horizonte para o equilíbrio das contas públicas no quarto mandato, com aliados divergindo do ministro.
A começar por Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República.
Em publicação nas redes sociais, ele disse que quem exige corte de gastos em políticas sociais “não entendeu nada” da campanha eleitoral de 2026.

Também afirmou que o “tesouraço” foi derrotado nas urnas.
Em entrevista à Folha, Boulos classificou como “chantagem do mercado” as cobranças por um ajuste fiscal no próximo governo Lula e minimizou o aumento da dívida pública — que passou de 71,7% para 82,5% do PIB entre o fim de 2022 e julho de 2026.
José Guimarães, ministro-chefe das Relações Institucionais do Planalto, também se opõe ao corte de gastos.
Segundo ele, o ajuste fiscal “não foi discutido e nem está sendo discutido”.
Já a deputada e ex-presidente do PT Gleisi Hoffmann criticou a reação do mercado financeiro à proposta de Lara Resende, afirmando que o setor tem o “DNA do autoritarismo”.

Ela também acusou analistas de mercado de confundirem os interesses dos rentistas com a racionalidade econômica e classificou as pressões por ajuste fiscal como uma “ofensiva terrorista” contra a política fiscal brasileira.
Por fim, o economista José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo da campanha de reeleição de Lula, divulgou ontem o artigo “Política fiscal para o fim de 2026 e para 2027”.
Nele, ele afirma que a situação fiscal brasileira é “menos dramática” do que sustentam os defensores de um ajuste rígido, embora reconheça a necessidade de reduzir os déficits.
Gabrielli defende um ajuste progressivo de gastos e receitas, sem “austeridade contra o próprio eleitor”, e argumenta que o aumento do superávit primário, por si só, não é o caminho mais eficaz para derrubar os juros.
Ele também endossa a proposta de André Lara Resende de criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, voltado a coordenar as políticas fiscal e monetária e a contribuir para a redução da Selic.
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