A primavera do nada

12 de outubro de 2026 § Deixe um comentário

Eu tinha chegado às redações havia apenas quatro anos, em 1978, e o Suplemento Especial, que viria a ser batizado o da “Primavera do Nada”, era o projeto mais importante de que eu tinha sido encarregado até então: os 10 anos do maio de 68 que mudara a cara do mundo, e desaguara na loucura do terrorismo, da violência pela violência quanto mais selvagem melhor do final dos 70, que mergulharia num banho de sangue os mais refinados centros da civilização ocidental nos anos 80.

Os que fui buscar para explica-lo foram os antigos professores da Escola de Educação e da Filosofia da USP pela admiração dos quais fui cair lá, e os franceses a que era obrigatório recorrer quem quisesse subir o nível da discussão de qualquer assunto naqueles tempos.

O que teria sido o Maio de 68? A sucessão de rebeliões estudantis que se espalhou pelo mundo, o Brasil inclusive. A primeira grande quebra? O primeiro desafio direto dos que sabiam tudo pelos que não sabiam nada?

A disputa entre visões antagônicas ou o homem diante de mais um dos sucessivos becos sem saída em que historicamente têm desaguado os seus projetos de explicação do mundo?

Vencido o problema multimilenar da insuficiente produção para alimentar a todos; desconectada a sobrevivência da faina diária para chegar até amanhã; diante do triunfo da sociedade industrial, que se acreditava capaz de resolver todos os problemas fundamentais do homem moderno — a fome, a miséria, a servidão — a primeira geração a experimentar todos esses confortos depara-se outra vez com o nada, o vazio de uma existência sem Deus, que é Aquele a quem se não interroga; é a aceitação do mistério como mistério.

Muito se debateu, na época, o significado daquilo, entre as mentes que apostavam na ordem anterior e as que achavam que antecipavam uma ordem nova.

Mas só Roque Spencer Maciel de Barros, reconfirmo após reler o suplemento inteiro, olhou para aquilo pela ótica do mistério essencial da condição humana de sempre…

Bem, mas a questão hoje não é o mérito daquelas avaliações. É oferecer aos leitores do Vespeiro uma prova concreta do que foi o jornalismo do século 20 no seu apogeu, com a reprodução deste produto daquela universidade que descia diariamente ao chão da rua, como queria Ortega y Gasset, que foi o jornal O Estado de S. Paulo nos tempos em que ele realmente era “ão”.

Para uma farta coleção das paginas mais memoráveis daquele Estadão de que falamos, vá ao site:

jornalistaruymesquita.com.br

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