O escândalo do Master chega ao Instituto Lula
9 de outubro de 2026 § Deixe um comentário


Daniel Vorcaro pagou cerca de R$ 30 milhões em dinheiro vivo, “por fora”, ao Instituto Lula, gerenciado por Paulo Okamotto, para financiar a produção do documentário “Lula”, dirigido por Oliver Stone nos Estados Unidos.
O fundador do Banco Master também repassou um valor adicional, não revelado, diretamente ao instituto.

Em troca do dinheiro, Vorcaro negociava acesso a fundos de pensão de estatais federais, como Previ, Petros, Postalis e Caixa Asset.
As informações constam de áudios, mensagens e documentos obtidos pela revista Veja e reunidos em um anexo levado em junho à Procuradoria-Geral da República.

A PGR de Paulo Gonet e a PF de Andrei Rodrigues não viram no material nada que justificasse sua validação para uma delação premiada.
Ex-tesoureiro
preso na
Lava Jato
Segundo o ex-banqueiro, a articulação começou no fim de 2023 e envolveu seu então sócio, Augusto Lima, o senador Jaques Wagner e o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, preso na Operação Lava Jato e condenado em múltiplas ações penais antes de ser solto pelo Supremo Tribunal Federal.

Vorcaro afirma que, em um primeiro encontro, ficou combinado que o pagamento em espécie de aproximadamente R$ 30 milhões para o documentário sobre Lula, além de valores ao Instituto Lula, abriria caminho para o credenciamento do Banco Master junto aos fundos de pensão do Banco do Brasil, da Caixa e da Previ.
De acordo com o relato, Vaccari exigiu ainda uma taxa de 10% sobre o que o banco captasse junto aos fundos de previdência vinculados à Caixa, ao Banco do Brasil, à Petrobras e aos Correios. Se o plano tivesse avançado, segundo Vorcaro, o petismo embolsaria R$ 1 bilhão por fora e o Banco Master faturaria R$ 9 bilhões.

Em um dos áudios, Vorcaro diz: “Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele. É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara pede para colocar dinheiro no filme do Lula”.
A diferença
de ‘Lula’ para
‘Dark Horse’
Na mesma conversa, Vorcaro compara os pagamentos feitos para o documentário sobre Lula e o patrocínio ao filme sobre Jair Bolsonaro, “Dark Horse”, produzido com recursos relacionados a Flávio Bolsonaro.
“O filme do Lula eu coloquei acho que até mais. Eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”, afirma o ex-banqueiro.
Vorcaro também aponta a participação do ministro Alexandre Padilha, então titular da Secretaria de Relações Institucionais, e do secretário-executivo da pasta na época, Olavo Noleto. Segundo o ex-banqueiro, um operador identificado como “Júlio”, com acesso ao gabinete de Padilha, teria facilitado os contatos.

De acordo com o relato, Júlio apresentou Vorcaro a Noleto.
O empresário Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula e parceiro de Vorcaro em outros negócios, também aparece nas mensagens como parte da rede de aproximação com o governo. Em uma conversa, Mares Guia teria escrito que Noleto disse ter gostado de Vorcaro.
O fundador do Master afirma ter ido pessoalmente ao Planalto conhecer Padilha e participado de pelo menos dois jantares com o ministro. Segundo ele, Padilha teria dito que “o que eu tratasse com Olavo seria como se eu estivesse tratando com o próprio Padilha”.
Vorcaro relata ainda que Júlio, Olavo e o primo deste, Fernando, foram à casa dele para uma conversa reservada, na qual teria sido dito que só haveria um jeito de entrar na Previ, na Petros e na Postalis: mediante pagamento de propina na ordem de 10% de tudo o que o banco captasse.
Mensagens
e ‘lista
exaustiva’
Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro teriam ajudado a corroborar parte do relato. Elas mostram a pressão pela liberação de investimentos junto aos fundos.
Em 8 de abril de 2024, Vorcaro escreve a Júlio: “O e-mail que pediram Petros”. O operador responde: “Já repassei. Agora é o amigo com dever dele. Ontem estive com ele”, em referência a Noleto.
Vorcaro insiste: “O da Petros já foi? Cobrando?”. Júlio afirma que sim. O banqueiro pede: “Vamos pressionar pra boletar (liberar o investimento). Postalis evoluiu?”. Júlio responde: “Evoluiu. Mandando e-mail também. Do BB essa semana resolve. Semana que vem reunião lá. Aí alinho contigo na sua agenda”.

A negociação envolvia a entrada do Banco Master na chamada “lista exaustiva”, documento oficial que reúne as instituições financeiras autorizadas a receber recursos dos fundos de previdência estatais. A inclusão teria ocorrido em 29 de abril de 2024.
Segundo as mensagens, Augusto Lima anunciou a Vorcaro: “Entramos na lista exaustiva. Resolvido”. O ex-banqueiro comemorou: “Você é foda”. No mesmo dia, Júlio teria cobrado R$ 500 mil como adiantamento.
“Quero ver agora você virar uma boleta de verdade”, teria dito Vorcaro, referindo-se à expectativa de captar pelo menos R$ 500 milhões junto aos fundos. Júlio respondeu: “Pode deixar. É empenho de vida, Daniel, isso”.
No fim,
o esquema
não deu certo
O esquema, segundo Vorcaro, não se concretizou nos fundos federais. Em julho de 2024, a imprensa revelou uma tentativa do Banco Master de aplicar R$ 500 milhões em letras financeiras na Caixa Econômica Federal, depois de dois gerentes da Caixa Asset emitirem parecer contrário à operação. Com a exposição, os envolvidos teriam recuado.
Vorcaro afirma ter captado cerca de R$ 6 milhões em fundos municipais, sob a mesma lógica de pagamento de 10%. Segundo ele, após meses sem conseguir liberar recursos nos fundos federais, encerrou os contatos em agosto de 2025.

Segundo o ex-banqueiro, a confissão dele sobre o esquema armado com Vaccari, os pagamentos para o filme de Lula, para o instituto e os relatos da atuação de Padilha e de seus auxiliares nos fundos foram apresentados às autoridades.
E mais: mesmo oferecendo uma longa lista de provas — conversas de WhatsApp, registro de entrada dele no Planalto, e-mails, atas de reuniões nos fundos, comprovantes de pagamento e dados de voos usados no esquema —, essas autoridades teriam descartado o anexo juntamente com o material que revelava pagamentos ao chefe do Senado, Davi Alcolumbre, e a integrantes do Judiciário.
A Procuradoria-Geral da República confirma que analisou o material apresentado pela defesa de Vorcaro.
Disse não ter encontrado provas suficientes, em parte porque os pagamentos teriam sido feitos em dinheiro vivo.
Em nota, a PGR esclareceu que as tratativas de colaboração premiada envolvendo Vorcaro foram sempre mediadas por advogados contratados pelo investigado.
Segundo o órgão, todas as propostas foram recebidas na forma elaborada pela defesa, sem juízo ou recusas prévias, e não houve interlocução direta de Vorcaro com representantes da PGR.
A procuradoria afirmou ainda que não houve depoimento oral do banqueiro justamente por conta da rejeição da proposta de colaboração.
A defesa de Vorcaro sustenta que existem mensagens de WhatsApp, registros de retirada de valores, e-mails, atas de reuniões, comprovantes de pagamento e dados de voos que podem sustentar a versão do ex-banqueiro.
Lula negou ter solicitado ou recebido qualquer vantagem financeira e afirmou que nunca autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome.
O advogado
Warde e Guido
Mantega
Na mesma edição, Veja revelou novas mensagens no celular de Daniel Vorcaro em que o advogado Walfrido Warde aparece como articulador político do banqueiro, usando contatos no Planalto, em ministérios, na Advocacia-Geral da União e no Judiciário para tentar evitar a falência do Banco Master.
O material indica que Warde intermediou o encontro de Vorcaro com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, depois contratado como consultor do banco por R$ 14 milhões, e teria articulado a reunião entre o banqueiro e o presidente Lula, realizada em 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial do Planalto.
As mensagens também sugerem que Warde mantinha acesso frequente ao entorno presidencial e que, em julho de 2025, pediu ao então chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana, o Marcola, que avisasse Lula sobre supostos obstáculos do Banco Central à venda do Master, ameaçando “quebrar tudo”.
O Banco Master foi liquidado três meses depois; Vorcaro foi preso, Warde deixou a defesa do banqueiro no início de 2026 e Marcola foi afastado após a revelação de que mantinha contas pagas por uma lobista que fazia negócios com o filho do presidente, o Lulinha.


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