O Brasil se transformou numa grande mentira

4 de setembro de 2026 § 1 comentário

por Pedro Jobim

Entre os regimes comunistas instaurados no Leste Europeu no pós-guerra, a Romênia viveu, sob a ditadura de Nicolae Ceaușescu, um dos mais sanguinários e opressivos. A Securitate, polícia política do regime, prendeu e torturou centenas de milhares de opositores, intelectuais, religiosos e dissidentes. Como em outros sistemas semelhantes, o racionamento de bens de consumo e de energia tornou-se prática cotidiana. Na década de 1960, em nome do aumento da taxa de natalidade, o aborto foi proibido e as mulheres submetidas a exames ginecológicos obrigatórios. Milhares de crianças acabaram abandonadas em orfanatos estatais mantidos em condições degradantes. Ainda, o programa de “sistematização” promoveu a demolição de centenas de vilas — em especial de seus núcleos históricos e igrejas —, substituídos por conjuntos residenciais de concreto. Grande parte da antiga Bucareste foi também arrasada para dar lugar ao gigantesco complexo administrativo do regime. Os filhos e apadrinhados do ditador, por sua vez, assediavam e estupravam mulheres com total impunidade, além de praticarem outras formas de abuso de poder.

Não surpreende que o regime tirânico e corrupto de Ceaușescu não tenha sido sucedido por outro minimamente justo. Essa sucessão de regimes corruptos é recorrente na história. No caso romeno, como argumenta o filósofo Gabriel Liiceanu em seu magnífico ensaio “Da Mentira”, escrito em 2007, ela está intimamente ligada à ausência de punição dos protegidos do ditador e dos abusadores do poder. Liiceanu recorda que, ao fim da Guerra Fria, a sociedade romena — com a cumplicidade dos líderes do então “mundo livre”, George Bush pai, Helmut Kohl e François Mitterrand — não impôs aos criminosos do regime qualquer castigo, quando o correto seria aplicar algo comparável ao que os Aliados impuseram aos dirigentes nazistas nos julgamentos de Nuremberg, quarenta e cinco anos antes. Tendo levado a corrupção ao seu “estágio último”, segundo a expressão de Maquiavel, e contribuído maciçamente para a construção e a manutenção do mal comum, os securistas e demais altos funcionários do regime deposto esperavam severa punição, o que ficou evidenciado pelo medo que os tomou na fuga em massa e desordenada que empreenderam nos primeiros meses de 1990.

Prossegue Liiceanu: “A ausência desta reparação exemplar entrou em contradição com a lição de Maquiavel sobre a relação entre a produção do mal, o medo e a perspectiva de castigo. Se desaparece o medo de castigo que está à espreita, se o mal pode ser cometido sem ser castigado, então desaparece também qualquer meio de limitá-lo. O desmoronamento de um regime corrupto abre as portas, neste caso, para uma corrupção ainda maior. O regime comunista na variante Ceaucescu chega hoje – coisa alucinante à primeira vista – a ser lastimado exatamente por causa da nova corrupção gerada e redobrada pelos filhotes deixados vivos que saíram, em coorte, do ventre do monstro assassinado, tendo a reciclagem destes em homens de negócio e políticos comprometido, igualmente, os negócios e a política.”

Na Romênia, os antigos comunistas, seus parentes e afilhados permaneceram no núcleo do poder após a queda do regime, em 1989, e puderam assim postergar por décadas e limitar o escopo do julgamento dos crimes contra a humanidade cometidos sob o jugo comunista – somente em 2014 um antigo dirigente seria, enfim, condenado.
Não há como evitar a comparação deste episódio com o ocorrido no Brasil, um país onde a corrupção e a impunidade de autoridades foram também, nos últimos anos, banalizadas. De forma muito semelhante ao observado na Romênia, se a Operação Lava-Jato e a condenação e prisão de Lula constituíram o “purgante psíquico” — para usar a expressão de Liiceanu — pelo qual a sociedade começou a livrar-se do ressentimento acumulado por décadas de malfeitos e de pilhagem de recursos públicos pelo grupo político do PT, que culminaram na maior recessão jamais registrada no país, o desmonte da operação nos anos seguintes, bem como a reabilitação eleitoral, e a recondução do ex-presidente ao cargo máximo, interromperam o ato catártico e impediram o escoamento das toxinas concentradas. O resultado foi ainda mais ressentimento e maior divisão do tecido social. Também de forma análoga, o retorno de Lula, do PT e de suas práticas políticas; o perdão judicial concedido a todos os políticos e empresários envolvidos no “Petrolão” — possivelmente o maior escândalo de corrupção já registrado no mundo ocidental — e a extinção de todas as multas e acordos de ajustamento de conduta impostos às empresas nele envolvidas, constituíram, em seu conjunto, a senha que todos os malfeitores à espreita, novos e reincidentes, aguardavam. Aqui, como lá, e como sucede em qualquer polity, a perspectiva de ausência de castigo remove qualquer limite à prática do mal, à pilhagem de recursos públicos e à corrupção.

E assim foi. O Brasil assiste, desde 2019 — quando teve início o chamado “inquérito do fim do mundo”, pelo STF —, a uma escalada contínua de erosão das liberdades individuais e de perseguições políticas. Pessoas foram condenadas a dezesseis ou dezessete anos de prisão — penas superiores às impostas a assassinos e a grandes traficantes de drogas — por crimes que não cometeram. Realizaram-se julgamentos potemkins, em que o mesmo agente acumula as funções de juiz e de acusador, sendo ao mesmo tempo alegada vítima dos supostos delitos. Extinguiu-se, enfim, qualquer resquício de justiça, ao menos quando se trata de sua aplicabilidade a um grupo de apoiadores do ex-presidente Bolsonaro — e dele próprio.

Assistimos, afinal, ao exercício continuado e impune da mentira e da injustiça exatamente por aqueles que deveriam zelar pela observância das leis e do estado de direito, ao que a sociedade reagiu, no máximo, com uma difusa indignação. A imprensa, salvo exceções, segue narrando os desdobramentos políticos cotidianos como se o país vivesse plena normalidade democrática. Os líderes das casas do Congresso, que poderiam, em tese, recircunscrever o STF a seu quadrado constitucional, ocupam-se apenas de suas emendas orçamentárias e de seus próprios negócios, escusos ou não.

O dono do Banco Master, como muitos outros delinquentes, compreendeu o significado da senha – e apostou alto. O maior escândalo financeiro do país, que subtraiu ao Fundo Garantidor de Créditos quase sessenta bilhões de reais e implicou autoridades de todos os poderes da República, só poderia ter ocorrido num país em que, como na Romênia pós-Ceaușescu ou no Brasil pós-demolição da Lava-Jato, a tendência à corrupção das autoridades e o grau de corrosão das estruturas de poder fossem de tal ordem que conferissem ao criminoso a quase certeza da impunidade, desde que ele comprasse os agentes públicos (também criminosos) certos.

O Brasil, nestes últimos anos, transformou-se, à semelhança da Romênia, numa grande mentira. Como escreveu Liiceanu a respeito do caráter da mentira pública instituída pelo comunismo — mas aplicável ao caso presente —: “Sendo insolente, atrevida, inchada, ela não se cansa de passar por verdade [golpe de estado sem movimentação de um único jipe das FA; atentado violento ao estado de direito por manchar uma estátua com batom; R$ 129 milhões em serviços de consultoria; R$ 55 milhões para fazer um filme; o governo pratica austeridade fiscal, e muitas outras]. O mentiroso mente para aquele a quem se mentiu, mas este, por sua vez, mente para aquele que lhe mentiu (fingindo que crê). Mas o mentiroso mente ainda uma vez, quando, mentindo, finge que não sabe que aquele a quem se mentiu sabe que lhe foi dita uma mentira. Essa mentira infinita em espelhos se transforma em mentira coletiva: todo o mundo mente, à medida em que uns dizem mentiras, mas os outros, por não as denunciarem, deixam entender que as aceitam como verdades.”

É onde estamos. E, obviamente, não, nada mudará após a “eleição” que se aproxima.

§ Uma Resposta para O Brasil se transformou numa grande mentira

  • kittencasuallye1d2cd8bf9 disse:

    É difícil acreditar, mesmo com a vitória de Flavio Bolsonaro, que será possível tirar o Brasil deste lamaçal em que se encontra…

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