A ONG ‘Terra Firme’ de Guga Lima que serviu de solo fértil para o Master e o PT
13 de agosto de 2026 § Deixe um comentário


O portal A Investigação montou um quebra-cabeça que envolve o governador Jerônimo Rodrigues da Bahia e os aliados petistas que o precederam no cargo, a histórica oposição carlista ao PT no estado encabeçada por ACM Neto, executivos do Banco Master menos conhecidos e a futura gestora do CredCesta nos EUA a partir de uma festa em 6 de novembro de 2023.
Foi o lançamento do Instituto Terra Firme, ONG fundada por Augusto Lima, então sócio e presidente executivo do Banco Master, no Museu de Arte Moderna da Bahia.
Na superfície, uma festa da sociedade baiana, com direito a show do Olodum, mas, por trás do verniz social, o evento serviu para um grande arranjo institucional e financeiro, incluindo a parceria formal que vincularia a ONG fundada por um sócio do Master ao programa estadual Bahia Sem Fome.

Na prática, revela a matéria, o evento funcionou como epicentro de uma rede que conectava o núcleo operacional da turma de Daniel Vorcaro, sua estrutura nos EUA e lideranças políticas de espectros opostos na Bahia.
A partir dali, foram articulados convênios estaduais que canalizaram mais de R$ 140 milhões a entidades ligadas à ONG, com grande parte dos recursos retornando ao próprio banco e a empresas de seus controladores.

Seis técnicos do Tribunal de Contas do Estado da Bahia redigiram um relatório em junho de 2025 expondo falhas graves no programa Bahia Sem Fome.
Paralelamente, a Polícia Federal e o Coaf mapearam fluxos financeiros e comunicações que ligam o empresário Augusto Lima a políticos como Jaques Wagner e ACM Neto, além de apurar a atuação de executivos do Master na montagem e depois no ocultamento da operação americana.
O caso culminou em buscas, apreensões e medidas judiciais contra bens dos incontáveis envolvidos.
Na Flórida, um juiz autorizou a varredura de ativos e documentos de escritórios de advocacia para rastrear imóveis e recursos do grupo, que mudou até de nome depois do escândalo no Brasil.

No mês seguinte à festa, em dezembro de 2023, Daniel Vorcaro foi convocado pelo Banco Central para um “ultimato” formal.
Veja os principais citados na matéria:
- Augusto Lima: sócio e presidente executivo do Banco Master e fundador do Instituto Terra Firme; apontado como principal interlocutor privado do senador Jaques Wagner dentro do banco e como articulador de relações com políticos de diferentes partidos.
- Flávia Peres (ex-Flávia Arruda): ex-deputada federal que assumiu namoro com Augusto Lima na semana do evento e passaria a presidir a ONG junto com ele.
- Jaques Wagner (PT-BA): senador com 74 ligações telefônicas com Augusto Lima em 18 meses; articulou contratações de Lewandowski Advocacia e de Guido Mantega pelo Master e é alvo de investigações sobre pagamentos a seu núcleo familiar e sobre bens de valor desproporcional.
- Rui Costa: ministro da Casa Civil de Lula e ex-governador da Bahia, responsável pela privatização da Ebal que originou o CredCesta; também citado como beneficiário de presentes de vinho de alto valor distribuídos por Lima.
- Ricardo Lewandowski: ex-ministro do STF que assumiu o Ministério da Justiça de Lula; seu escritório de advocacia foi contratado pelo Master por R$ 250 mil mensais, contrato que seguiu ativo após sua nomeação para a pasta que supervisiona a PF.
- Guido Mantega: ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma, contratado como consultor do Master por cerca de R$ 1 milhão mensais, em articulação atribuída a Wagner, para abrir canal que levaria Vorcaro ao Planalto.
- Guilherme Sodré Martins (“Tio Guiga”): publicitário que apresentou Jaques Wagner a Augusto Lima; pai de Eduardo Sodré e figura descrita pela PF como consolidador de relação “antiga, próxima e de confiança” entre o senador e o banqueiro.
- Eduardo Mendonça Sodré Martins: secretário de Meio Ambiente da Bahia (Sema) e enteado de Jaques Wagner; presente ao evento e alvo de apurações sobre repasses da operação CredCesta à empresa de sua esposa, BN Financeira, e sobre intervenção ambiental em rio sob disputa.
- Bonnie Toaldo Bonilha: esposa de Eduardo Sodré e gestora da BN Financeira, que recebeu ao menos R$ 11 milhões do Master entre 2022 e 2025 e, em 2025, mais R$ 3,5 milhões de entidade ligada ao CredCesta.
- Andréa Lima Novaes: prima de Augusto Lima e administradora da PKL One Participações S.A., entidade ligada à operação CredCesta que fez repasse de R$ 3,5 milhões à BN Financeira.
- Jerônimo Rodrigues (PT): governador da Bahia presente ao lançamento do Terra Firme; na mesma noite, formalizou parceria do governo estadual com a ONG, que depois se transformou em fluxo de recursos públicos repassados à Asseba/Terra Firme.
- Nara Peres de Aguiar: inicialmente gestora da CredCesta USA e, depois, única responsável formal por quatro empresas do grupo em Miami; corretora de imóveis sem histórico público no banco no Brasil, assumiu progressivamente a titularidade das entidades americanas entre 2024 e 2025.
- Luiz Antonio Bull: então diretor de Riscos, Compliance, RH, Operações e Tecnologia do Banco Master; um dos fundadores da estrutura americana e, depois, removido dos registros da Flórida; preso na Operação Compliance Zero, afirmou à PF que assinava documentos sem ler e sem atuar de fato em compliance.
- Matheus Kruschewsky Silva: gerente comercial do Banco Master e familiar de André Kruschewsky Lima; seu nome aparece no evento da Terra Firme e em contexto de ligações familiares com o ex-diretor jurídico do banco.
- André Kruschewsky Lima: ex-diretor jurídico do Banco Master, apontado pela PF como articulador da tentativa de blindar o Fundo Garantidor de Créditos antes do colapso; responsável por contratações de escritórios de advocacia que receberam dezenas de milhões do banco e integrante do chamado “Trio K”.
- Eduardo Centola: ex-Goldman Sachs e ex-ModalMais, ingressou no Master para liderar a internacionalização; considerado o “arquiteto prático” da estrutura americana, fundou entidades em Miami com Nara e depois foi removido dos quadros societários antes do colapso público.
- Angelo Antonio Ribeiro da Silva: um dos quatro executivos que assinavam documentos das empresas americanas e que, entre abril e agosto de 2024, foi removido dos registros da Flórida, dando lugar a Nara como única signatária.
- Bruno Reis: prefeito de Salvador e figura da oposição (União Brasil) presente ao evento; posteriormente beneficiário de presentes de vinho de alto valor distribuídos por Augusto Lima, segundo a PF.
- Antonio Rueda: presidente nacional do União Brasil, partido de ACM Neto e Bruno Reis; listado entre os recebedores de presentes de vinho de até R$ 5.300 distribuídos por Lima.
- Ciro Nogueira (PP-PI): senador autor de proposta legislativa (“emenda do Master”) que ampliaria a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, proposta encaminhada a Vorcaro pouco antes do colapso.
- ACM Neto (União Brasil): ex-prefeito de Salvador, vice-presidente do União Brasil e pré-candidato ao governo da Bahia; sua empresa de consultoria recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da Reag entre 2022 e 2024, período em que mantinha proximidade pública com Lima e Flávia Peres.
- ACM Júnior: citado entre os presentes ao lançamento do Terra Firme, integrando o grupo de lideranças políticas que circulavam no evento.
- José Ronaldo (União Brasil): deputado federal presente ao evento, listado entre as lideranças que dividiam o mesmo espaço com o governador petista.
- João Roma (PL): deputado federal presente ao lançamento da ONG de Guga Lima.
- Cacá Leão (então PP): deputado federal citado entre os convidados do evento.
- Otto Alencar Filho (PSD): deputado federal, filho do senador Otto Alencar, também presente à festa.
- Eugênio Kruschewsky: procurador do Estado da Bahia e sócio do escritório Gabino Kruschewsky Advogados, que recebeu cerca de R$ 54 milhões do Master entre 2022 e 2025; integra, com André e “Luiá”, o chamado “Trio K”.
- “Luiá” Kruschewsky: citado como suporte jurídico da operação CredCesta e parte do “Trio K” de advogados ligados à família Kruschewsky e ao banco.
- Escritórios Greenberg Traurig, Rennert Vogel Mandler & Rodriguez e VMM Law: alvos da ordem judicial na Flórida para apresentar documentos que identifiquem interesses em empresas ligadas a imóveis e transferências internacionais do esquema.

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