“ Os países corruptos queimam melhor”
28 de julho de 2026 § 1 comentário

Incêndios florestais em Bordeaux, no sul da França, e em Madri e Valência, na Espanha, forçaram 325 mil pessoas a deixarem suas casas.
Em Bordeaux, o fogo chegou a “15 quilômetros da cidade”. Rodovias foram fechadas e o serviço ferroviário foi parcialmente interrompido.
Em Le Porge, centenas de casas e carros foram queimados.
Até a ilha da Córsega está ardendo. O fogo já destruiu 42 mil hectares de floresta.
Emmanuel Macron classificou a situação como a mais difícil enfrentada pelo país desde a Segunda Guerra Mundial.
Em Ávila, a oeste de Madri, o incêndio foi o maior já registrado na Espanha. Hoje o primeiro-ministro Pedro Sanchez disse que o país “começa a ver luz no fim do túnel” na luta contra as chamas, que já consumiram quase 80 mil hectares de florestas.
Mas ha uma nova onda de calor chegando ao país amanhã (4a, 29).
Diante do desastre, Juan Soto Ivars escreveu para o diário ABC o artigo abaixo, que não deixa de fazer ecos apropriados para os outros tipos de “incêndios” que assolam recorrentemente o Brasil:
Os países corruptos queimam melhor
Incendiar um país inteiro exige esforço. Não se pode depender apenas das mudanças climáticas, de incendiários ou de faíscas de uma colheitadeira. Esses fatores exógenos prolongam os verões e desencadeiam ondas de calor, ressecam os arbustos e transformam o capim em nitroglicerina, permitindo que incendiários e faíscas de máquinas agrícolas mal posicionadas façam seu trabalho. Mas incendiar um país inteiro exige uma gestão mais planejada e consciente da deterioração.
As florestas queimam mal quando tudo funciona bem. Se a floresta for manejada de forma inteligente e as poucas pessoas restantes nas áreas rurais forem capacitadas para realizar seu trabalho com sabedoria prática; se forem feitos bons aceiros; se houver investimento na promoção da caça; se houver brigadas de incêndio adequadas, juntamente com um suprimento suficiente de recursos terrestres e aéreos, uma sociedade pode enfrentar o fenômeno dos incêndios florestais de forma eficaz.
Portanto, toda essa atividade deve ser dificultada ao máximo. Embora mesmo isso não seja suficiente.
Para incendiar um país, é preciso primeiro perverter suas barreiras morais, semeando nelas a densa vegetação do cinismo e da complacência. É preciso transformar o incêndio em uma questão política, inserindo-o hipocritamente em uma dimensão social que coloca visões de mundo umas contra as outras. Passar de “todos contra o fogo” para “todos contra todos” exige Investir décadas em confrontos estéreis, para que alguns possam acusar outros de serem cúmplices da destruição, e para que haja um grupo de milhões de tolos dispostos a acreditar nisso.
Perverter a convivência em torno de eixos imaginários é uma das tarefas básicas dos líderes de um país corrupto. É o passo preliminar insubstituível para que um lado desculpe, oculte e até justifique a sua própria corrupção. O fato de metade do país acreditar que apenas a outra metade é corrupta é fundamental para que ambos os lados possam praticar a corrupção com um alto grau de impunidade.
Se um sistema robusto de corrupção se estabelecer, estendendo-se do nível local ao estadual, com ramificações entre indivíduos gananciosos e redes de clientelismo passivas, ele não só permitirá que incêndios florestais se alastrem sem controle durante o verão, devastando casas e o meio ambiente, como também abrirá as portas para uma série de destruições subsequentes, como enchentes, inundações repentinas, tempestades de neve, nevoeiros persistentes, acidentes ferroviários, acidentes rodoviários, quedas de aviões, explosões, apagões generalizados, desabamentos de prédios, ruas afundando em túneis de metrô, sem mencionar a pequena criminalidade de assassinos, estupradores ou ladrões, bem como os suicídios dos poucos cidadãos honestos que sobreviverem, movidos pela desolação e melancolia.
O pior incêndio, e que se alastra incontrolável, é o que transforma em cinzas a dignidade e a esperança de muita gente humilde e sofrida, indefesa contra o fogo ateado por desgovernos comunistas, intencionalmente piromaníacos…