Do ‘Italiano’ aos ‘Heróis’, os apelidos da quadrilha que fraudou o INSS
15 de julho de 2026 § 2 Comentários


O relatório de indiciamento da Polícia Federal sobre a Operação Sem Desconto, que desarticulou um esquema de fraudes no INSS em que valores desviados de aposentados e pensionistas eram usados para pagar propinas mensais a agentes públicos e políticos, revelou que a quadrilha se identificava internamente por apelidos como “Herói”, “Notáveis” e “Amigos”.
Segundo a investigação, o núcleo financeiro do esquema era operado por Cícero Marcelino de Souza Santos e por sua esposa, que, de acordo com a PF, controlavam empresas de consultoria, de carros e de agropecuária que, juntas, receberam mais de R$ 312 milhões.

Cícero fazia parte da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais, a Conafer.
O então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, nomeado pelo ministro da Previdência de Lula Carlos Lupi, que se demitiu após o escândalo, era identificado como “italiano”, “Itália” ou apenas “I”.
A PF afirma que os pagamentos indevidos eram registrados em planilhas e mensagens de “prestação de contas” e que a movimentação financeira era feita de forma oculta, com uso de empresas de fachada, depósitos fracionados e interposição de terceiros.

Os policiais denunciam que a alta administração do INSS e políticos considerados estratégicos recebiam propinas volumosas e recorrentes para garantir blindagem ao esquema e facilitar a continuidade dos descontos indevidos.
Segundo a PF, os pagamentos a agentes públicos e políticos somaram pelo menos R$ 24,6 milhões, dentro de uma engrenagem destinada a manter a “boa fluidez” da fraude em massa, que pode ter alcançado mais de 600 mil vítimas.
Na documentação, os principais codinomes identificados foram:
- “Herói V”, atribuído a Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, ex-procurador-geral do INSS (recebeu ao menos R$ 6,5 milhões em 35 transferências, feitas por empresas interpostas como a JBO Comércio de Veículos);
- “Herói A”, usado para André Paulo Felix Fidelis, ex-diretor de Benefícios do INSS (recebeu de forma continuada entre 2023 e 2024, pelo menos R$ 3,4 milhões em propinas, distribuídos em 13 transações eletrônicas mapeadas pela Polícia Federal);
- “Herói E”, referente ao deputado federal Euclydes Marcos Pettersen Neto (integrante “mais bem remunerado” do grupo, com repasses que podem ter chegado a pelo menos R$ 14,7 milhões, por meio de transferências fracionadas para empresas como Fortuna Loterias e Construtora V L H LTDA);
- “O Italiano”, “Itália” ou “I”, ligados a Alessandro Antonio Stefanutto, ex-procurador-geral e ex-presidente do INSS (recebia repasses mensais de até R$ 250 mil, somando pelo menos R$ 900 mil por meio de escritórios e empresas como Stelo Advogados, Delícia Pizzas Italiana e Moinhos Imobiliária);
- “O Ministro”, “São Paulo” ou “Abou Yasser”, associados a Ahmed Mohamad Oliveira, antigamente chamado José Carlos Oliveira, ex-diretor de Benefícios, ex-presidente do INSS e ex-ministro da Previdência de Bolsonaro (recebeu R$ 550 mil em propinas por meio de empresas de fachada); e
- “O servidor do INSS”, “Rogério” ou “R”, identificado como Rogério Soares de Souza (recebeu valores indevidos de forma recorrente e ocultados por contas de terceiros, aparecendo no relatório com a frase “esqueceu de mim, mestre?”, interpretada pelos investigadores como indício de conhecimento e participação ativa no esquema).
Stefanutto e o
dinheiro no forno
A PF sustenta que Alessandro Stefanutto também aparecia em mensagens com o código “forno”, usado, segundo os investigadores, para tratar da compensação de cheques e da ocultação de propina por meio de empresas de fachada.
Em uma das conversas citadas no relatório, Stefanutto teria dito a Cícero Marcelino: “Quando puder usar o forno me avisa”, expressão que a PF interpreta como referência ao momento de “esquentar” o dinheiro e permitir a compensação dos valores sem chamar atenção.
A PF também diz que, antes mesmo de assumir a presidência do INSS, Stefanutto já recebia valores por meio de cheques e intermediários, como no episódio em que Cícero Marcelino orienta o depósito de um cheque de R$ 250 mil para o “Italiano”.+

O relatório foi enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator do caso, e agora segue para análise da Procuradoria-Geral da República, que poderá apresentar denúncia, pedir arquivamento ou solicitar novas diligências.
Quando bater na mão da PGR – Parceria do Gonet com a Rapinagem, o abecedário de bandidos ficará reduzido a poucas vogais expiatórias.
E o Carlos Lupi? aquele que era o jornaleiro do Brizola, vão continuar a blinda-lo?