Bets, INSS, Corinthians, PCC, roubalheira, tudo na mesma lavanderia
2 de julho de 2026 § Deixe um comentário


As sanções impostas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos ao empresário brasileiro Vitor Shimada, acusado de liderar uma estrutura de lavagem de dinheiro que atuava em conjunto com integrantes do PCC radicados na Flórida, revelaram uma rede criminosa da qual também fazem parte o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como Careca do INSS, amigo e suposto patrocinador de Lulinha, a plataforma de apostas VaideBet, pivô de um escândalo de desvio de dinheiro em um contrato de patrocínio do Corinthians, e o influenciador Buzeira, com mais de 15 milhões de seguidores, preso no ano passado na Operação Narco Bet, e servidores públicos e do Judiciário que aceitam suborno.
A medida do governo americano de ontem também teve como alvos Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, três empresas de Shimada no Brasil (Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças E Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda e Wave Construções Inteligentes Ltda), e uma portuguesa (Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda).
As autoridades dos EUA afirmam que o grupo movimentou mais de US$ 30 milhões em recursos de origem ilícita, utilizando criptomoedas para transferir valores provenientes do tráfico internacional de drogas.

Em dezembro, Shimada e Stella foram denunciados na Justiça da Flórida por participação no esquema de lavagem em instituições financeiras de 12 cidades americanas, como Denver, Rochester, Atlanta e Chicago.
Pela denúncia, que não cita facções, os valores eram provenientes do fornecimento de drogas, beneficiando o mexicano Manuel Garcia-Urrea, o Manny.
Conhecidos como “Japa” e “Lara Croft“, Shimada e Stella tinham ajuda de brasileiros residentes nos EUA para movimentar o dinheiro.
Em janeiro, seis pessoas envolvidas no esquema, entre elas outros brasileiros, foram detidas pelas autoridades americanas.
A Victory Trading e
as fraudes no INSS
Uma das empresas de Shimada sancionadas ontem pelos EUA, a Victory Trading, entre 2023 e 2024, recebeu R$ 514 milhões da Wave Intermediações (sem relação com a Wave Construções), que é considerada um dos principais CNPJs da chamada rede Arpar, suspeita de integrar o esquema de lavagem de dinheiro nas fraudes contra aposentados e pensionistas.
Segundo a CPMI do INSS, a rede Arpar é um grupo de mais de 40 empresas relacionadas entre si, com indícios de serem de fachada, usadas para lavagem de dinheiro, cujo nome vem de uma das firmas do grupo, pertencente a um associado do Careca do INSS, chefe do esquema, que está preso.
Trata-se de uma “estrutura de lavagem de capitais que movimentou mais de R$ 39 bilhões e é responsável pelo branqueamento dos recursos desviados no esquema do INSS”, escreveu o deputado Alfredo Gaspar no relatório final da comissão.

A CPMI do INSS não conseguiu quebrar os sigilos da Victory Trading, mas a empresa aparece em relatórios de inteligência financeira (RIFs) do Coaf em relação próxima à ACX ITC Serviços de Tecnologia, uma das principais da rede Arpar, que fez pagamentos para a ministra do Superior Tribunal Militar (STM) Verônica Sterman, indicada por Lula, e para o ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nefi Cordeiro, indicado por Dilma Rousseff.
“Identificamos que a empresa ACX ITC utiliza o mesmo dispositivo para realizar login em contas de outras duas empresas, a saber, Texas Quantum Serviços Digitais e Victory Trading. Sendo que a Victory já foi comunicada anteriormente por atividade suspeita”, diz um trecho do relatório da CPMI do INSS ao qual o portal Metrópoles teve acesso.
Com capital de R$ 101 milhões, a ACX ITC pertence ao paulistano Ericsson de Azevedo, de 52 anos, que recebeu 10 parcelas do Auxílio Emergencial durante a pandemia, e seu último endereço registrado fica em um condomínio simples no bairro do Jaçanã, em São Paulo.
Patrocínio da VaideBet
ao Corinthians
A Victory Trading, assim como a Wave Intermediações, foi mencionada nas investigações sobre o desvio de milhões de reais do patrocínio da VaideBet ao Corinthians.
De acordo com o Ministério Público, Victor Shimada era o operador financeiro do esquema.
A Polícia Civil diz que a Victory Trading funcionava como uma “conta de passagem” na movimentação do dinheiro investigado no caso VaideBet, recebendo recursos de empresas envolvidas no fluxo financeiro investigado e depois redistribuindo os valores, dificultando o rastreamento da origem do dinheiro.

Os investigadores sustentam que a empresa misturava recursos de origem aparentemente lícita com valores de origem ilícita para dar aparência de legalidade às movimentações antes que o dinheiro chegasse aos destinatários finais.
Segundo o relatório da CPMI do INSS, a Wave movimentou R$ 2,68 bilhões entre setembro de 2023 e agosto de 2025.
O relatório do Coaf sobre a empresa afirma não ter encontrado “justificativas nem fundamentos econômicos ou legais para a movimentação financeira”, o que pode configurar “indícios do crime de lavagem de dinheiro”.
Delator do PCC
assassinado no aeroporto
As investigações também identificaram movimentações financeiras entre a Victory Trading e a empresa UJ Football Talent, incluindo uma transferência de R$ 200 mil em 28 de março de 2024, pouco depois de receber milhões de reais da Wave.

A UJ Football Talent foi citada na colaboração premiada de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, executado no Aeroporto Internacional de São Paulo em 2024, como uma empresa utilizada para lavagem de dinheiro do PCC.
Segundo o delator, a empresa era ligada ao agente de jogadores Danilo Lima de Oliveira, conhecido como “Tripa”, apontado nas investigações como integrante da facção criminosa.

O influenciador Buzeira
e o tráfico de drogas
A investigação identificou ainda transferências da Victory Trading para a Buzeira Digital, empresa do influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, conhecido como Buzeira, que tinha mais de 15 milhões de seguidores no Instagram antes de ser preso e ganhou notoriedade nas redes sociais promovendo rifas e sorteios de carros, artigos de luxo e outras ações promocionais.
Além disso, costumava ostentar carros de luxo, joias, relógios e helicópteros em seus perfis.
Segundo a Polícia Civil, em abril de 2024, a Victory Trading transferiu em diferentes operações R$ 1,3 milhão para a Buzeira Digital.
Para os investigadores, essas movimentações chamam atenção porque ocorreram apenas três dias depois de a Victory Trading transferir R$ 200 mil para a UJ Football Talent e logo após a empresa receber repasses milionários da Wave Intermediações, apontada como uma das destinatárias dos recursos desviados do contrato entre o Corinthians e a VaideBet.

Ainda segundo os relatórios, Victor Shimada e Buzeira aparecem ligados ao mesmo fluxo financeiro investigado, havendo um “entrelaçamento atípico” entre as movimentações das empresas de ambos, reforçando a hipótese de que a Victory Trading funcionava como uma “conta de passagem” para pulverizar recursos e dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.
Os policiais acreditam que tanto as empresas controladas por Shimada como as de Buzeira mantêm uma “aparente relação com o crime organizado”.
No caso do influenciador, a polícia apura suspeitas de ligação com um traficante do PCC conhecido como “Neymar do PCC”.

A prisão de Buzeira aconteceu em uma operação que investiga um esquema de tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.
Fraudes eletrônicas
via PIX
No Brasil, Shimada foi condenado por integrar um esquema de fraude eletrônica e lavagem de dinheiro contra o antigo Banco Votorantim, hoje BV.
No âmbito da operação Retorno Velado, da Polícia Federal (PF), deflagrada em dezembro de 2024, ele foi acusado de participar de um esquema que realizou 2.799 transferências fraudulentas via Pix em apenas um final de semana, em agosto de 2024, totalizando R$ 35 milhões desviados do BV.

Os valores foram enviados para uma conta da Victory Trading e convertidos em criptomoedas.
Shimada chegou a ser preso preventivamente em dezembro de 2024, mas foi solto no mês seguinte e, hoje em dia, está apenas proibido de se ausentar do país.
Além do envolvimento financeiro com o PCC, Victor Shimada responde a outros quatro processos sem ligação direta com organização criminosa: ameaça, violência doméstica e familiar, injúria cometida ofendendo a dignidade ou o decoro e lesão corporal dolosa.
PCC e CV
organizações terroristas
De acordo com o promotor Lincoln Gakiya, especialista em PCC, Victor e Stella não são integrantes do PCC.
Em junho, o Departamento de Estado dos EUA classificou o PCC e o CV como organizações terroristas.

A determinação abre espaço para ações mais duras e unilaterais dos Estados Unidos, como sanção de cidadãos e empresas brasileiras.
O governo americano já havia imposto sanções a funcionários do governo brasileiro e do judiciário, incluindo Alexandre de Moraes, que depois foram retiradas.
As sanções de ontem obedecem à lógica do que os americanos consideram que sejam o interesse deles de segurança nacional, colocando o governo Lula sob pressão diplomática, já que não é reconhecido por sua atuação contra o crime organizado, ao contrário.
Deixe uma resposta