As mensagens que colocam Jaques Wagner na cena do crime
20 de junho de 2026 § 1 comentário


O Estadão revelou diálogos inéditos do banqueiro Daniel Vorcaro com um funcionário citando Jaques Wagner como intermediário para enviar recado a Lula, de quem o senador é amigo próximo.
Segundo a PF, Vorcaro tinha relação com o senador petista, marcou encontros com Jaques Wagner e tinha acesso direto ao seu telefone celular.
Os investigadores também apontam que, além de Augusto Lima, o fundador do Mater tinha influência com políticos da Bahia.
A mensagem que cita Lula envolve Vorcaro e um funcionário seu no Banco Master, Fernando Mascarenhas Filho.
A conversa aconteceu em 17 de julho de 2024.
Nela, Vorcaro comemora ao receber a informação de que estava sendo citado como alguém próximo ao governo federal “igual aos irmãos Batista”, uma referência aos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da J&F.
Mascarenhas Filho escreveu ao banqueiro: “Unica coisa que falaram que somos proximos do governo, igual irmaos batista sao. O que é verdade rsrs”.
Após compartilharem risadas, Vorcaro diz: “Isso aí é marketing pra nós. Manda pro Lula e pra base aliada”.
Em resposta, Mascarenhas Filho afirmou: “Vou mandar então pra tio Guiga e Jaques”.

De acordo com a PF, Guiga seria o publicitário baiano Guilherme Sodré, considerado amigo muito próximo do senador petista e citado pela investigação com seu operador financeiro.
De acordo com a PF, os diálogos “sugerem proximidade entre Daniel Vorcaro e pessoas com poder político no estado da Bahia”.
“Identificou-se no aparelho celular de DANIEL BUENO VORCARO conversa com o contato ‘Fernando Master’ referente a FERNANDO DE GOES MASCARENHAS FILHO, Diretor Comercial do Banco Master, em que este afirma existir proximidade entre o banco e o Governo Federal: ‘Única coisa que falaram que somos proximos do governo, igual irmaos batista sao. O que é verdade rsrs”. Em seguida, afirmou tratar-se de “mkt pra nos” e sugeriu encaminhar o material ao Presidente Lula e à base aliada. O interlocutor então replicou: “vou mandar então pra tio guiga e Jaques” – referência direta a GUILHERME SODRÉ MARTINS e ao Senador JAQUES WAGNER”, escreveu a PF.

Propina
Na investigação, a PF apontou que Daniel Vorcaro também foi responsável por dar vantagens indevidas ao senador baiano em troca da sua atuação parlamentar em favor do Banco Master.
A PF também apontou Vorcaro como responsável por dar vantagens indevidas ao senador baiano em troca da sua atuação parlamentar em favor do Banco Master.
“Há elementos convergentes segundo os quais, pelo menos entre 2024 e 2025, JAQUES WAGNER recebeu de AUGUSTO FERREIRA LIMA e DANIEL BUENO VORCARO, diretamente ou por familiares próximos, vantagens econômicas diversas, em aparente correlação com sua atividade como senador da República, voltada a favorecer os interesses do Banco Master em pautas parlamentares e em temas regulatórios do sistema bancário”, escreveu a PF.
Pela Investigação, Wagner atuou em propostas para tentar ampliar o crédito consignado, em iniciativas relacionadas ao aumento da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e no acompanhamento da tentativa de venda do Banco Master ao BRB, medidas que, segundo a PF, eram estratégicas para as fraudes comandadas por Vorcaro.
A investigação da PF aponta que o senador manteve interlocução direta com o ex-sócio de Vorcaro, Augusto Ferreira Lima, sobre propostas legislativas e iniciativas parlamentares que poderiam beneficiar o Master.
As conversas também mostram que Vorcaro marcou encontros e disponibilizou um avião para o Jaques Wagner.
Segundo a PF, a sistemática se assemelha à de fundos de investimento ligados à gestora Reag e suspeitos de lavagem de dinheiro servindo de veículos para aportar os recursos para os imóveis.

Pelas mensagens, Wagner pediu ao ex-CEO do Master, Augusto Lima, a compra de um apartamento de R$ 2,5 milhões em Salvador.
Em seguida, o executivo repassou a tarefa a operadores ligados ao Master.
A investigação aponta ainda que o operador do Master é o mesmo nas duas situações, o advogado Daniel Monteiro, preso na mesma fase que mirou Paulo Henrique.
No caso do ex-presidente do BRB, foi Daniel Vorcaro quem pediu a Monteiro para viabilizar a operação, que resultou em um processo de aquisição de seis apartamentos no valor total de R$ 146 milhões, dos quais R$ 74 milhões foram efetivamente pagos.
“O fluxo financeiro utilizado para mascarar a origem dos recursos e o beneficiário da compra do imóvel ocorre com sistemática muito semelhante à adotada na propina paga ao então presidente do BRB, PAULO HENRIQUE COSTA: o dinheiro transita por fundos de investimento, para ao final aportar em pessoa jurídica de fachada, registrada em nome de laranja e criada exclusivamente para esta finalidade. A empresa, formalmente constituída como S.A. ou SPE (modalidades que facilitam a ocultação do beneficiário final), adquire formalmente o imóvel, que na prática é o objeto constitutivo da vantagem indevida”, escreveu a PF.
A compra do apartamento solicitado por Jaques Wagner tem a assinatura de fundo de investimento administrado pela gestora Reag, também investigada na Compliance Zero por suspeita de participar dos crimes financeiros do Master.
Ele transfere recursos para uma outra empresa, que formalmente adquire o apartamento junto à construtora.
“Essa dinâmica encontra correspondência direta com o modus operandi identificado em fases anteriores da Operação Compliance Zero, quando foi comprovado o emprego sistemático de interpostas pessoas por DANIEL MONTEIRO para ocultar a entrega de imóveis como vantagens indevidas a agentes públicos cooptados, a exemplo do ex-presidente do BRB, PAULO HENRIQUE COSTA. Reforça essa hipótese o fato de que os valores destinados ao apartamento nº 1.702 do Poème Horto terem sido disponibilizados por estruturas societárias ligadas à REAG, cujos fundos de investimento foram identificados no curso das investigações como veículos de lavagem de ativos em benefício do grupo MASTER, sobretudo por AUGUSTO FERREIRA LIMA”, escreveu a PF.
O que coloca Jaques Wagner na cena do crime não são as mensagens, mas a certidão de nascimento.