Se este é o preço da paz, Trump está à beira de um desastre (texto)
17 de junho de 2026 § Deixe um comentário

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, um dos primeiros a ter acesso aos termos do acordo, se disse “chocado” com o que lera.
E, desde então, o regime dos aiatolás não se cansa de festejar, embora se contendo até a batida do martelo.
Os republicanos mesmo, sentindo o cheiro do desastre, não escondem mais sua inquietação.
O primeiro alarme público veio do senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, no domingo, com uma postagem no X em que, embora elogiando o esforço para chegar a um acordo inicial, ele se disse “um tanto preocupado” com o fato de a versão dos detalhes apresentada pelo Irã não coincidir com a da Casa Branca.
E, sinalizando que já tinha tido acesso aos termos agora publicados, antecipava que o Congresso é quem deve votar qualquer acordo.
E desde então, outros republicanos, assim como a imprensa conservadora — a Fox, a National Review e até algumas figuras de destaque do movimento MAGA — vinham apertando essa cobrança.
Depois de ensinar aos iranianos e aprender a duras penas com eles o que é o poder garantido pela geografia de ser dono do estreito ele Ormuz, Trump anunciou um cessar-fogo apressado no início de abril e desde então, entre bravatas, vem tergiversando para apresentar os termos em que foi pactuada essa suspensão das hostilidades.
?Com a Copa do Mundo encostando e as eleições de meio de mandato na esquina, a pressão para que a guerra cessasse teria chegado ao ponto de fazer o genro, Jared Kushner, e o amigo, Steve Witkoff, sob a batuta de JD Vance, negociar um memorando tão obviamente desmoralizante como este?
Parece ter sido o caso…
Depois de alguns balões de ensaio que já provocaram as reações mais adversas, hoje a imprensa árabe, primeiro, e a israelense, mais para o fim da tarde, apresentaram versões detalhadas idênticas dos 14 pontos que constariam do Memorando de Entendimento de Islamabad (MOU).
No fim do dia toda a imprensa mundial confirmava que se trata de uma versão autêntica.
Mas se a ideia era evitar a derrota na eleição de meio de mandato a qualquer custo, a única coisa que me veio imediatamente à cabeça, se confirmado que é este mesmo o texto do MOU, foi a critica de Churchill a Neville Chaberlain pelo Acordo de Munique, de 1938 quando, para evitar a guerra, ele entregou a Checoslováquia à Alemanha nazista:
“Você teve a escolha entre a guerra e a desonra. E, ao escolher a desonra, você terá a desonra e a guerra”.
Trump ainda tem até sexta-feira, conforme prometeu, para alterar alguma coisa. Mas se não alterar muita coisa do que consta desta versão, o que a esta altura é improvável, um memorando como este, que remonta, em condições bastante pioradas, o acordo nuclear de Obama, que ele mesmo vem espinafrando há quase uma década, será a pá de cal na carreira de Trump, e nas esperanças do Partido Republicano na eleição de meio de mandato.
O resumo comentado que eu faço dos 14 pontos é o seguinte:
1 – O Irã assume abertamente que é ele quem detém a soberania sobre o território do Libano e exige que a integridade desse território seja respeitada.
2 – Só exigem o respeito à soberania e à integridade territorial do próprio Irã no item 2.
3 – Definem o memorando de Islamabad como um começo de conversa com 60 dias de prazo para terminar, prorrogáveis por comum acordo.
4 – Os EUA se comprometem a suspender o bloqueio (da saída) do Estreito de Ormuz e retirar suas tropas da região em 30 dias.
5 – O Irã se compromete a abrir a entrada do Estreito de Ormuz em 30 dias, mas só promete que ela será gratuita nos primeiros 60 dias.
6 – O futuro dessa gratuidade ou não, será decidido pelo Irã em negociação com Omã e países vizinhos.
7 – Os Estados Unidos se comprometeram, sim, com um fundo de ressarcimento de US$ 300 bi para reconstrução do Irã (que Trump denunciou ainda ontem como “fake news”) e mais a suspensão de todos os embargos financeiros.
8 – Serão canceladas todas as sanções primárias e secundárias, incluindo as do Conselho de Segurança da ONU e as da Agência Internacional de Energia Atômica, segundo um cronograma a ser discutido em 60 dias.
Quer dizer, a condição está aceita; só resta definir o cronograma de sua execução.
9 – O Irã promete que não desenvolverá nem comprará uma bomba atômica e, quanto ao urânio já enriquecido, “no mínimo” ele será diluído no próprio território iraniano com supervisão da AIEA, podendo ser negociada a diluição em outro território, mas só depois de cumprida a suspensão de todas as sanções.
Esse “no mínimo” é a única concessão visível, feita pelo Irã, que Trump possa apresentar como salvação da face, já que é a única tecla na qual vem batendo, depois de ir abandonando, uma pr uma, todas as outras.
10 – Até um acordo futuro, o Irã manterá seu programa nuclear como está e os EUA não reagirão.
11 – Antes de qualquer outra decisão negociada, os EUA permitem desde já a livre exportação de petróleo e derivados pelo Irã.
12 – Desde o momento da assinatura do Memorando, os fundos congelados do Irã têm de estar liberados e à disposição do Banco Central dos aiatolás ou de quem ele indicar. Os EUA comprometem-se a emitir todas as licenças necessárias para isso.
13 – Será criado, de comum acordo, um mecanismo de fiscalização do cumprimento dos demais acordos futuros.
14 – O Irã só se compromete a cumprir as demais cláusulas do Memorando depois que as cláusulas 1 (soberania sobre o Líbano), 4 (suspensão do bloqueio e retirada das tropas americanas da região), 5 (abertura de Ormuz gratuita por 60 dias), 10 (a questão nuclear fica como está até segunda ordem) e 11 (a livre exportação de petróleo e derivados pelo Irã) estiverem cumpridas e executadas.
E que os 30 mil mortos da ultima rebelião descansem em paz.
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