Como pessoas imperfeitas formam uma união mais perfeita (texto)
10 de maio de 2026 § Deixe um comentário

Como Pessoas Imperfeitas Formam uma União Mais Perfeita
Por Neil Gorsuch
A Declaração de Independência é um documento breve, pouco mais longo que este ensaio. Ainda assim, contém três ideias que chocaram o mundo em 1776: cada um de nós nasce igual; Deus nos concede a todos direitos invioláveis, entre os quais os direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade; e “Nós, o Povo” temos o direito de nos governar.
Essas três ideias formam o credo da América. Quando Thomas Jefferson redigiu a Declaração em quartos alugados de um pedreiro da Filadélfia, poucos europeus acreditavam nelas. Mais do que isso, muitos as consideravam uma ameaça à ordem social e política então vigente. Para os patriotas que lutaram nos longos e brutais anos da Revolução Americana, contudo, aquelas três ideias valiam o sacrifício de “nossas Vidas, nossas Fortunas e nossa sagrada Honra”.
As três grandes ideias da Declaração ainda falam conosco. No fundo, a Declaração funciona como o boletim escolar da nação. Em qualquer momento da história, o povo americano pode avaliar até que ponto está à altura das promessas da Declaração e quais desafios ainda permanecem. Em 1848, Elizabeth Cady Stanton e suas colegas em Seneca Falls, no estado de Nova York, lembraram aos americanos que homens e mulheres são criados iguais. Anos depois, Abraham Lincoln conclamou o país a estar à altura das promessas da Declaração diante da escravidão, da secessão e de uma sangrenta Guerra Civil. Martin Luther King Jr., diante do Memorial Lincoln em 1963, enfrentou o Jim Crow e chamou o país a resgatar a “nota promissória” da Declaração em favor de todos os americanos. Nossa nação será sempre uma obra em andamento, mas a Declaração permanece como lembrete constante daquilo que aspiramos ser.
As imperfeições de nossa nação tampouco devem nos cegar diante da imensa herança que recebemos. Basta um rápido olhar pela história e pelo mundo de hoje para confirmar quão raro é uma nação ser fundada sobre a esperança de realizar a igualdade, a liberdade e o autogoverno para seus cidadãos. Como observou Daniel Webster, foram necessários milhares de anos de história humana para que surgisse uma nação devotada às três grandes ideias da Declaração, e “milagres” como esse “não se sucedem em série”.
O legado da Declaração, contudo, deve-se apenas em parte ao gênio do documento e de seus redatores. Seu verdadeiro guardião, e a esperança de seu futuro, repousa no coração do povo americano. A igualdade, a liberdade e o autogoverno tornaram-se o credo da nação porque os americanos, geração após geração, os escolheram. E a sobrevivência dessas ideias depende de cada nova geração aprendê-las novamente, revisitar a história que lhes deu origem e escolhê-las uma vez mais.
Sim, temos nossas divergências. Mas isso já era verdade na fundação da nação. Os americanos debateram com paixão se deveriam romper com a Grã-Bretanha. A primeira votação sobre a Declaração de Independência dividiu as colônias. Federalistas e antifederalistas discordaram quanto à ratificação da Constituição. Hoje os americanos divergem fortemente sobre temas relevantes, como sempre divergiram e talvez sempre divergirão. Em muitos sentidos, porém, essa é a maior força de nossa nação. Ao permitir que todos falem e votem, buscamos colher as ideias não de um só governante ou de um grupo de elite, e sim toda a sabedoria do povo americano. Diante da divergência, falamos e escutamos, debatemos e fazemos concessões, votamos e seguimos adiante juntos. Tudo isso é exatamente o que a Declaração desejava para nós, e tudo isso está no âmago da grande experiência americana.
A história americana é diferente de qualquer outra, e neste ano celebramos um marco também sem paralelo: a mais longeva república ainda em funcionamento no mundo. Aguardo com entusiasmo as comemorações, os desfiles e piqueniques, os discursos e fogos de artifício. Mas espero também que todos os americanos dediquem algum tempo a refletir sobre a Declaração e a renovar seu compromisso com o credo que ela carrega. Espero, ainda, que cada um de nós aproveite esta ocasião para conhecer melhor as pessoas comuns que tanto sacrificaram para tornar a América possível: aqueles que travaram uma revolução contra o mais poderoso império da terra, que iniciaram nossa improvável experiência de autogoverno, que ao longo de nossa história desafiaram a nação a estar à altura das promessas da Declaração, e que em todas as gerações deram a vida pela causa da liberdade, da igualdade e do autogoverno. A eles devemos uma dívida impagável, e graças a eles temos a oportunidade de continuar a obra de formar “uma União mais perfeita”.
Justice Gorsuch é copresidente honorário do National Constitution Center. Este artigo é adaptado da antologia do National Constitution Center “The Promise of America: Reflections on Our Enduring Ideals”, a ser publicada pela Simon & Schuster em 12 de maio.
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