A ascensão dos generais na estrutura de poder do Irã
23 de abril de 2026 § 1 comentário

A guerra mudou a estrutura de poder e a cadeia de comando no Irã, fortalecendo a posição dos generais em detrimento do amplo domínio dos clérigos.
Segundo o jornal americano NYT, que ouviu quase duas dezenas de pessoas próximas ao núcleo do regime, o aiatolá Mojtaba Khamenei, o filho, que está ferido e se mantém recluso, administra o país como se fosse um “diretor do conselho”.

“Ele depende muito do conselho e da orientação dos membros do conselho, e eles, coletivamente, tomam todas as decisões”, disse Abdolreza Davari, um político que atuou como conselheiro sênior de Mahmoud Ahmadinejad quando este era presidente e conhece o novo líder supremo.
MOJTABA, FERIDO E ISOLADO
O pai, a esposa e o filho de Mojtaba foram mortos no ataque do dia 28 de fevereiro ao complexo onde a família vivia.
Nas atuais circunstâncias, o acesso ao novo líder é extremamente difícil e limitado.
Ele está cercado principalmente por uma equipe de médicos e profissionais de saúde que tratam dos ferimentos que sofreu nos ataques aéreos.
O presidente Masoud Pezeshkian, que também é cardiologista, e o ministro da Saúde participaram de seus cuidados, mas quase ninguém visita Mojtaba, nem mesmo altos comandantes da Guarda e altos funcionários do governo, temendo que Israel os rastreie.
Apesar dos ferimentos, ele está mentalmente lúcido, dizem pessoas próximas.

Foi submetido a três cirurgias em uma das pernas e aguarda uma prótese.
Além disso, operou uma das mãos e vai lentamente recuperando a função motora.
Graves queimaduras atingiram seu rosto e seus lábios, dificultando sua fala – eventualmente, ele pode precisar de cirurgia plástica.
Diante desse quadro, Khamenei ainda não gravou vídeo nem áudio porque não quer parecer vulnerável ou soar fraco em seu primeiro discurso público.
A comunicação com o líder supremo do Irã se dá por correspondências escritas à mão e transmitidas por um cadeia humana em envelopes lacrados.
A bordo de carros e motos, mensageiros de alta confiança vão e voltam do esconderijo por vias secundárias.

Por razões de saúde, segurança e logística, Mojtaba Khamenei, por ora, delega a tomada de decisões aos generais do Irã, com quem estabeleceu laços estreitos, ainda adolescente, durante a guerra Irã-Iraque.
Grupos de outros espectros políticos até participam das discussões no Irã, mas o poder migrou para os comandantes de uma estrutura militar dura e enraizada, diminuindo a ampla influência dos clérigos.
Para Trump, os novos líderes são “muito mais razoáveis”.
OS GENERAIS DA GUARDA
O Corpo de Guardas da Revolução Islâmica acumulou poder por meio de cargos políticos de alto escalão, participação em indústrias-chave, domínio de operações de inteligência e desenvolvimento de laços com grupos no Oriente Médio que compartilham o ódio do Irã a Israel e aos Estados Unidos.

Hoje, o comandante da Guarda é o general de brigada Ahmad Vahidi.
Enquanto isso, o general Mohammad Bagher Zolghadr, recém nomeado chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, é um ex comandante linha dura da Guarda.
Já o general Yahya Rahim Safavi, também comandante, serve como principal conselheiro militar para Mojtaba, assim como fazia com o pai.
“Mojtaba é subserviente à Guarda Revolucionária, porque ele deve o seu cargo e a sobrevivência do sistema a eles”, disse Ali Vaez, diretor do Irã no International Crisis Group, que tem extensos contatos no Irã.
Segundo ele, apesar do nome, o novo líder “não é supremo” como seu pai era.
Após cinco semanas de bombardeios intensos, os atuais líderes do Irã estão confiantes de que contiveram a ameaça ao regime imposta pelos EUA e por Israel.
Por orientação deles, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, foi marginalizado nas negociações que ele liderava com os Estados Unidos antes da guerra.

Assim, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, ex general da Guarda, assumiu a liderança e se tornou o principal negociador com os Estados Unidos no Paquistão.
Ao lado de outros dois ex-membros da brigada na qual Khamenei serviu na guerra contra o Iraque, o ex-chefe da Guarda, o clérigo Hossein Taeb, e o general Mohsen Rezaei, Ghalibat compõe o chamado “triângulo de poder” em torno do novo líder supremo.
Em 2009, eles atuaram juntos para garantir a eleição Ahmadinejad contra o clérigo Mehdi Karroubi, que acabou perdendo e sua derrota levou a convulsão social, protestos e violência.
Depois de sua experiência no Exército, Khamenei concluiu seus estudos em um seminário teológico, alcançando o posto de aiatolá.
As divergências sempre fizeram parte da estrutura de poder do Irã, que nunca teve uma política monolítica.
Os generais sempre estiveram acompanhados à mesa, mas, agora, com a guerra, eles prevaleceram e nunca estiveram tão alinhados.
AS NEGOCIAÇÕES DA GUERRA
Hoje, a condução do conflito passa pelos militares.
Houve um momento em que surgiram dúvidas sobre as negociações com os EUA, com divergências se arrastando por vários dias.
Cerca de 27 navios iranianos já tinham sido desviados ao tentar entrar ou sair dos portos do país, quando Trump apreendeu duas embarcações.

O presidente Pezeshikian alertava para perdas econômicas devastadoras, estimadas em US$ 300 bilhões pelo governo, e a necessidade de aliviar as sanções e levantava dúvidas sobre o tempo que o Estreito de Ormuz deveria ficar fechado.
No fim, os generais, irritados com Trump, venceram e as negociações fracassaram.
Um grupo mais linha dura também desafio os generais, criticando duramente a abertura de Ormuz e acusando a equipe de negociação de trair apoiadores.
São pessoas ligadas a Saeed Jalili, um candidato presidencial, que foi afastado de tomar decisões, mas ainda possui alguma influência, incluindo sobre a televisão estatal, dirigida por seu irmão.
Ghalibaf falou à nação na televisão estatal na noite do último sábado, mencionando Khamenei.
Apesar do tom desafiador, foi também pragmático, dizendo que o Irã havia conseguido conquistas militares, mas que agora era hora de usar essas conquistas em negociações diplomáticas.


Essa mudança é muito importante e pode trazer novas vertentes de políticas para o Irã, sem a influência do fanatismo religioso xiita.
O Irã é o berço da civilização ocidental e não deveria estar nas mãos do fanatismo.
No final da contas, os chefões brigam e o povo sofre.