Da inutilidade da compra de certificados

14 de maio de 2019 § 17 Comentários

O problema do Brasil é a total independência do País Oficial em relação ao País Real. Tudo o mais é nada perto disso. A sobrevida desse País Oficial desenhado como uma privilegiatura depende dessa independência. Eles sabem que estarão mortos se e quando o País Real renascer. Daí ano perdido para nós ser ano ganho para eles. Já vamos em duas “décadas perdidas” desde que o país parou. Mas ele vem desacelerando desde 1988 quando a privilegiatura plantou o marco da sua independência do Brasil que foi a Constituição profeticamente chamada “dos Miseráveis”, hoje um compêndio de 250 artigos e 80 emendas, todos menos um especificamente desenhados para anular a soberania do povo que o primeiro dos seus Princípios Fundamentais afirma.

O Brasil anda perdido. Além do que já está pronto para o consumo, só importa do mundo que funciona as obsessões que o tédio e as doenças correlatas da abundância lhe inflingem: os ódios de raça, de gênero, de religião e seus sub-departamentos; as deformações alimentares, os vícios, o ridículo. O componente conspiratório pesa menos do que parece. O canal preferencial dessa linha de contaminação é a arte, a escola e a imprensa vira-latas. O professor, o artista e o jornalista vira-latas integram um grupo auto referente que vive de chamar mediocridade de talento e vício de virtude (e, claro, de transformar o pertencimento ao grupo em verbas públicas e privilégios vitalícios). Tudo referir a esses temas, o preço a pagar pelas graças alcançadas, é a “credencial de modernidade” com a qual sentem-se autorizados a retrucar com “carteiradas” qualquer argumento racional em contrário. Conjecturar sobre o quê e como fazer para mudar nossa realidade como outros pedaços mais humildes da humanidade fizeram não é, para eles, “aprender”, é aceitar a acusação de “lacaio”, condição que todos, aliás, estão treinados para assumir de bom grado desde que seja do feitor certo.

A elite empresarial de boa fé, imersa nesse processo de deseducação, “compra certificados” de progressismo criando cursos de capacitação e empreendedorismo em favelas e comunidades quilombolas, espalhando bandeiras do Brasil pelas ruas, financiando candidaturas de quem tope receber vagos “cursos de honestidade na política” (?!)… Para ser exato, não sabe o que fazer. Quer, como a maior parte dos outros brasileiros de boa fé, até os políticos, plantar aqui o resultado das profundas reformas feitas pelas sociedades de sucesso sem antes passar por elas.

Não é que nossas elites não acreditem na liberdade. Nunca a experimentaram. Não sabem o que é. Por isso morrem de medo dela. Não têm a menor ideia de como “a desordem” que a liberdade cria trabalha para impulsionar o crescimento, o empreendedorismo, a inovação. Com os dois pés nos estágios mais básicos do mandonismo – positivista no caso da elite política; da revolução industrial velha de 200 anos no da empresarial – nenhuma aceita com naturalidade a submissão ao povo e a alternância no poder político, uns, e a “destruição criativa” e a alternância no poder econômico, os outros. Consciente ou inconscientemente, trabalham todos contra a mudança ao tratar de proteger o povo dele mesmo. Não se dão conta de que não existe mudança possível antes da mudança da fonte de legitimação do poder dos STF’s da vida para o eleitor com poderes ampliados.

Em toda a parte os salários mais altos atraem as maiores ambições, os mais dispostos a tudo e, no sentido darwiniano da expressão, os mais aptos. Cria-se então uma elite que trata de perpetuar-se comprando a melhor educação, a melhor informação, a melhor medicina. Nos EUA, do final dos 70 em diante, o setor financeiro, de instrumento assessório do desenvolvimento se foi transformando, ele próprio, “no” poder, tão estratosférico foi o nivel a que chegaram os salários. Depois da crise de 2008 metade do governo passou a “emanar” … do Goldman Sachs. Os americanos “pés-duros”, porém, contam com poderosas defesas contra isso. Além da constituição mais sólida do planeta, copiaram ha mais de 100 anos, quando sua política esteve tão podre quanto está a nossa hoje, o remédio que os suíços inventaram ha mais de 700 (isso mesmo, desde 1291!) para domar políticos e transformar escravos em senhores que os fez a maior renda per capita e o povo mais educado do mundo. O mesmo que os japoneses adotaram a partir de 1945, os coreanos desde 1954 e que o resto do mundo que funciona vai copiando hoje.

O estado brasileiro paga os maiores salários relativos do planeta. Tão altos que fora dele só restou miséria e brejo. A disputa de poder – o político e o econômico – dá-se, por isso, exclusivamente em torno do controle do Estado. Mas nas nossas condições de extrema fragilidade institucional a elite que se reveza no poder não se apropriou apenas do governo, apropriou-se da própria Constituição, que transformou no instrumento incontestável da sua auto-reprodução.

O único ponto fraco do “Sistema” é a ilegitimidade que a morte à míngua da economia nacional põe, agora, numa evidência impossivel de abafar. O único inimigo capaz de derrota-los é a força que a opinião pública apenas começa a desconfiar que tem e usa, ainda, a esmo, sem foco, como uma adolescente estabanada. A vitória só virá se e quando entender que, sendo o jogo institucional, é preciso definir quais instituições fazem-se necessárias para reverter darwinianamente o processo darwiniano com que se confronta. O que é preciso exigir para transformar em fator decisivo de fracasso o que antes era fator decisivo de sucesso do inimigo, e deixar que a natureza, uma vez instalado o filtro de seleção positiva, faça o resto.

O povo brasileiro perde todas porque não tem representação no País Oficial. “Democracia representativa” é uma hierarquia onde os representados mandam e os representantes obedecem mas o Brasil não dispõe dos instrumentos capazes de criar uma. Isso só é possível se e quando o sistema eleitoral permite saber quem, exatamente, representa quem (voto distrital puro), e o representado traído pode demitir no ato o representante traidor (retomada de mandato/recall).

O resto – todo o resto – é só “me engana que eu gosto”.

§ 17 Respostas para Da inutilidade da compra de certificados

  • Ronald Cavaliere disse:

    Definitivo!
    Simples assim!
    Mais uma vez, meus parabéns!

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  • Milton Leite Bandeira disse:

    A lucidez da análise do jornalista Fernão Lara Mesquita é cativante, é impossível não se interessar pelo seu comentário, seja qual for o tema, todavia lamento que sua inteligência (intelectualidade)  e de seus inúmeros leitores não esteja sendo disponibilizada  para o conhecimento e o reconhecimento do maior escritor do continente americano (America do Sul, Central e do Norte). 

    Estou falando  do Sábio Filósofo LUIS AUGUSTO WEBER SALVI (LAWS), Polígrafo (150 livros), Polímata, um moderno Leonardo da Vinci (100 vídeos na internet), Cosmobiológo, expert em astronomia profunda e geografia sagrada, Mitólogo  Heurístico, criador  de um ‘PROJETO DE NAÇÃO’, de que tanto o nosso país necessita, desdobrado pelos títulos  ‘PROJETO EXODUS – Um mundo para todos’ e das ‘COSMÓPOLIS’, – ‘CIDADES DA LUZ’. 

    Que ao se apresentar no plenário da CÂMARA MUNICIPAL DE JUIZ DE FORA no dia 9 de agosto de 2018 na efeméride do ‘DIA NACIONAL DA EUBIOSE’ (Lei 13.626/2018) com a sua palestra ‘O ITINERÁRIO DE IO E A CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA’ deixou uma energia luminosa que ainda permanece na ‘JUIZ DE FORA NAÇÕES – A MARGEM TERCEIRA DO RIO PARAIBUNA’.  

    Como os COMETAS (espermatozoides cósmicos fecundadores de universos) , sua meteórica passagem pela cidade nos levou a uma mudança profunda de comportamento, tal qual na cultura dos INCAS e dos MAIAS ao desfazer de objetos que a certa altura se tornaram inúteis ou desnecessários, em nosso caso, começando pelo desfazimento dos nossos queridos exemplares colecionados das entrópicas revistas ‘CARTA CAPITAL’, ‘CAROS AMIGOS’, ‘VEJA’, ‘ISTO É’ e ‘ÉPOCA’, quase 300 quilos de material literário doando-as aos que cuidam de material reciclável (catadores de lixo) do bairro Granbery, restringindo a nossa frequência às livrarias e aos sebos da cidade, diminuindo a ingestão de bebidas alcoólicas (Cerveja, Vinho),  e diante de um frugífero, esforçando-me para me tornar um vegetariano.  

    Considerando, todavia estas superficiais atitudes meros reflexos de uma notória e profunda mudança de paradigma cultural/civilizatório,  reconhecida pela parte mais científica da ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU),  – um colapso  da velocidade temporal pelo anúncio do ‘2030 – BOMBA CLIMÁTICA’ mas que a superstição social/popular confunde com uma FICÇÃO (MENTISSÃO, FAKE NEWS) patrocinada pelas referidas Revistas  e uma mídia  inculta e irresponsável,   que foram para um lixo de onde jamais voltarão a serem  recicladas. 

    É como expressa magistralmente Cyril Connoly: “A civilização de uma época é o adubo da próxima”. E PARACELSO: “O que uma geração considera como o cume do saber é amiúde considerado como absurdo e até mesmo prejudicial pela geração seguinte, e o que um século passa por superstição, pode formar a base da ciência do século vindouro”. 

    O segredo da mudança é o foco não na destruição do velho mas na construção do NOVO (que embora ainda submerso, começa a vir à tona). 

    MILTON LEITE BANDEIRA Promotor Mobilizador Cultural 

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  • Carlos Roberto Fleck disse:

    Porque não mais discussão sobre o voto distrital
    Em todos os níveis
    Do
    Presidente ao delegado de polícia

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  • Muito bom Fernão. Penso que a crise que assistimos é de padrão civilizatório. A pós-modernidade patrocinada pela Lógica Dialética que encantou a tantos pelo seu poder de criticar o sistema está revelando que possui poder destruidor mas é completamente inútil na edificação de coisas estáveis. Desponta no horizonte a Lógica da Totalidade que potencializa uma nova razão e o seu advento, como possivelmente Bandeira sabe, independe do sucesso ou do fracasso de um governo particular. Novo Renascimento está às portas.

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  • Olavo Leal disse:

    Muito bom, Fernão, como sempre.Parabéns pela lucidez e objetividade do texto que, em tudo, nos diz repeito. Mas, pergunto-me: não é o caso de nos prepararmos para a “guerra do voto distrital com recall”? À luta!!!

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  • Fernão disse:

    Com certeza.
    É a reforma que abre as portas a todas as outras reformas.
    A reforma que inaugura essa reforma permanente como é o viver no mundo real

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  • Sergio Moura disse:

    Finalmente alguém condena a “Constituição Cidadã”. Mas ela não tem só 250 artigos, tem 370 contando com as disposições transitórias, muitas das quais permanecem altaneiras 30 anos depois. Ela é a fonte da miséria e da falta de liberdade que existe hoje, com sua casta de 60 mil indivíduos, principalmente políticos e juízes, que fazem o que querem com nossa liberdade e nosso dinheiro. Fernão, quer ver minha apresentação em que provo isso em detalhes?

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    • Herbert Sílvio Augusto Pinho halbsgut disse:

      Senhor Sérgio Moura. estou curioso em conhecer os detalhes de sua apresentação – e creio que outros tantos seguidores do Vespeiro – que certamente tem muita munição a ser usada para demolir com essa previlegiatura que escraviza a maioria dos cidadãos brasileiros, que quase nada conhecem sobre o sistema eleitoral do voto distrital puro que lhes permitirá, se adotado, extirpar do governo os falsos representantes, os incompetentes e os corruptos de toda ordem! Grato!

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      • Sergio Moura disse:

        Caro Herbert. Obrigado pelo seu interesse. Como sugere que eu lhe faça a apresentação? Vivo em Brasília.

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      • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

        Gostaria de ler sua apresentação de informações senhor Sérgio Moura, talvez até aqui no Vespeiro – se o senhor Fernão assim o permitir -, e possa ser apresentada abertamente para o público em geral. Trata-se de um vídeo, ou texto, enviado gratuitamente, ou uma apresentação paga a ser contratada, particular? Se for um brinde seu aceito. Meu e-mail é h,halbsgut@ hotmail .com. Muitos dados sobre a administração pública ficam desconhecidos e toda informação sobre estatísticas que demonstrem aberrações, que eventualmente favoreçam a privilegiatura, são bem vindos para serem analisados, em suma aumentar as nossas argumentações contra os abusos que assaltam o Estado.Grato, mais uma vez!

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    • Fernão disse:

      Gostaria de ver, sim.
      Onde é possível encontra-la?

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      • Sergio Moura disse:

        Boa tarde, Fernão. Apresento-a quando sou convidado a fazê-lo. Minhas próximas apresentações serão em Campinas no dia 22/5, no CIESP e no IBEF. Faço-o por espírito público, nada cobro. Está em Power Point. Posso enviar-lha por WeTransfer (tem 85mb) se tiver seu e-mail. Para quem está familiarizado com política, como você, deve ser autoexplicativa, mas fico à disposição para dúvidas. Meu e-mail é saamoura@uol.com.br.

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  • Ethan Edwards disse:

    Pois é, nosso marxismo mascarou por muito tempo a natureza da contradição principal (apud Mao Tse-tung) que move e perpetua a sociedade brasileira: burguesia x proletariado, centro x periferia, burguesia nacional x imperialismo… – tudo para não contemplar o verdadeiro abismo, esse que separa o país real do país oficial e que você descreve com paixão e rigor.

    Ao contrário dos EUA e outros países de inclinação democrática, que tendem a contrastar os interesses genéricos do “povo” com os interesses específicos de cada condado ou comunidade, de modo a impedir os arrastões populistas, nós, brasileiros, escolhemos dissolver os interesses específicos das pequenas comunidades no discurso típico da representação majoritária, indiferenciada: “contra a corrupção”, “pela justiça social”, “desenvolvimento”, “progresso”, “paz”… Construímos, assim, uma rede de desvios que vai conduzindo a pequena demanda local para cada vez mais longe de sua origem, até se transformar em algo irreconhecível, uma exigência genérica, abstrata, que pode ser inscrita tanto na bandeira de Bolsonaro quanto na do PCdoB. Muito antes do Google ou da Apple, nossas instituições políticas encontraram um jeito de se instalar na nuvem, longe deste mundo banal, acessíveis apenas ao deep state que controla login e senha do wi-fi.

    Parabéns por mais um belo artigo.

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  • Fernão disse:

    …tanto na bandeira de Bolsonaro quanto na do PCdoB…
    …nossas instituições políticas encontraram um jeito de se instalar na nuvem, longe deste mundo banal, acessíveis apenas ao deep state que controla login e senha do wi-fi.

    Perfeito, Ethan!
    Faço minhas as suas palavras!

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