Duas instâncias onde é tudo ou nada
14 de abril de 2011 § Deixe um comentário
Um

Sobre PT, China, Dilma e os monopólios, ocorreu-me um complemento ao raciocínio exposto na matéria aí embaixo sobre tecnologia da informação e democracia, na noite passada, enquanto pensava no anticlímax que acabou sendo a viagem da Dilma.
Depois de muito papo furado sobre mudar o tom da política externa, sua excelência finalmente entrou em campo para dar meia volta ao mundo e ir fazer mesuras e rapapés ao gigante. Perdoou-lhe as barbaridades que pratica contra as dilmas de lá que, mesmo sem pegar em armas, são “presas e arrebentadas” apenas por pedir respeito aos direitos humanos mais elementares. E, como “o chefe”, acenou com o reconhecimento como um igual na luta pelos mercados ao rei dos piratas que rouba os trabalhadores do resto do mundo praticando um “dumping monetário” em escala planetária.
O que me ocorreu ontem foi o seguinte.
A economia e o desenvolvimento modernos são um subproduto do império da lei. Não se pode fazer negócios nem desenvolver economias se não se respeitar o direito de propriedade e contratos regidos por regras claras, sustentáveis e previsíveis.
É para isso que foram criadas as leis.
E não existem meios tons.
A lei é a alternativa para a força bruta. Onde uma não impera, impera a outra.
Sem regras, sem leis e sem o reconhecimento de direitos na arena da competição global, sobra, sozinha em campo, a força bruta. Vence o mais forte. Vence o maior.
Sempre.
Levado o raciocínio adiante vai-se chegar inevitavelmente à situação que caracterizava o feudalismo e a Idade Média, antes que a lei passasse a imperar. Sobrarão uns poucos barões muito fortes mancomunados com um rei, cada um com o seu numero de súditos aos quais oferecerão uma escassa proteção (o emprego) em troca da sua liberdade e da maior parte do produto do seu trabalho.
E essa é uma descrição perfeita para uma economia de monopólios.
Foi disso que viemos. É para isso que poderemos voltar.
Dois

Terminei o artigo sobre a fixação da Globo com o tema do desarmamento, outro dia, lembrando o quanto foi decisivo o empenho da maior rede brasileira de televisão para que se tomasse a providência comezinha de ocupar os morros cariocas com a polícia, fato que levou o Rio de Janeiro, de um dia para o outro, do inferno para o céu.
Mas registrei também que isso não serviu para ensinar à emissora, que continua visando mais o cerceamento dos cidadãos honestos que a repressão aos fora da lei, que o crime prospera essencialmente graças à impunidade.
Hoje o jornal da mesma empresa, O Globo, abre a sua primeira página com a prisão de mais um vereador, Luis André Ferreira da Silva, o Déco, que usava seu gabinete na Câmara Municipal como escritório da quadrilha de “milicianos” que chefiava em 13 comunidades de Jacarepaguá.
Déco, que ja tinha sido acusado na CPI que tratou do assunto mas continuava no cargo sabe-se bem porque, é o quarto vereador do Rio de Janeiro a ser preso nos últimos quatro anos pelo mesmo tipo de crime.
Taí um tema que a Globo poderia pegar como bandeira e não largar mais com muito melhores resultados para a segurança publica do Rio de Janeiro que essa bobagem do desarmamento. Até para que não se perca o que foi conseguido até agora com as UPPs que ela ajudou a implantar.
Sem um trabalho consistente e corajoso para limpar a policia carioca, as UPPs vão se transformar rapidamente em postos avançados das “milícias” e os desvalidos do Rio só terão trocado de algoz.
E aí, sonhemos: uma coisa pode levar à outra…

Se pegasse firme na luta contra a corrupção que sustenta o crime organizado, a Globo teria de ir subindo escada acima. Como mostra a matéria do jornal deles de hoje, as milícias só podem existir em função da corrupção da polícia e a corrupção da polícia só pode existir em função da corrupção dos políticos. No Rio essa ligação é tão explícita que um dos “negócios” das milícias é eleger seus chefões vereadores, controlando todos os títulos de eleitores das “suas” áreas e impondo aos seus titulares o mesmo regime que lhes impõem como trabalhadores: ou pagam (no caso, com seu voto) ou morrem.
E é claro que não são só as “milícias” que agem assim. O tráfico, que compete com as “milícias” por esses territórios, também trata de garantir costas quentes nas diversas instâncias da política.
Se seguir pelo fio dessa meada a Globo vai acabar entrando na Assembléia Estadual e na Justiça Eleitoral para encontrar os corruptos que, de lá, acobertam essas práticas. E daí para Brasília é um passo.
Enfim, como já se disse muitas vezes aqui no Vespeiro, a impunidade – e o seu filho dileto que é o crime organizado – é uma cadeia que desce pela hierarquia do Estado desde lá de cima. E não tem jeito de acabar com o corrupto pequeno – não tem jeito de deter o dedo que, nas favelas e comunidades cariocas, aciona o gatilho, sem acabar antes com o corrupto grande, dono do braço, que está lá em Brasília.
Mãos a obra, portanto!
É pra isso que serve a imprensa, não para animar festividades. A imprensa é uma arma a serviço do povo. E quanto maior a arma, maior a caça a ser abatida.
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