A China vive da nossa mesquinharia
24 de março de 2011 § 1 Comment

É de Lenin o vaticínio de que “os capitalistas vão fabricar a corda com que nós (comunistas) iremos enforca-los”.
A profecia nunca deixou de se confirmar. E se a execução ainda não foi até o fim isso não se deve à parte da tarefa que cabe aos capitalistas. É que, até aqui pelo menos, os comunistas fizeram ainda mais mal aos “seus” proletários que aos capitalistas, e acabaram sendo derrubados por aqueles antes que estes tivessem tempo de lhes fornecer corda suficiente para os pescoços de todos.
É possível que isto mude agora que a China, com o seu hibrido sinistro de capitalismo com estatismo, inventou o primeiro tipo de ditadura que produz prosperidade material.
O Valor de hoje traz matéria sobre mais uma das modalidades de jogo sujo que a China continua livre para praticar graças aos diversos tipos de impulsos egoístas que ela explora no mundo capitalista.
Trata-se das manobras de triangulação que ela arma com outros parceiros asiáticos como Malásia, Vietnã, Taiwan, Tailândia, Indonésia e outros, para driblar as tarifas antidumping que, ao fim de longas lutas inglórias, empresários brasileiros encurralados por sua concorrência criminosa conseguem arrancar, quase sempre tarde demais, da pesada burocracia de Brasília.

Máquinas agrícolas, calçados, vidros, ferramentas para construção civil, imãs (usados em todo alto falante de qualquer aparelho eletrônico), guarda-chuvas, escovas de cabelo, todo dia, enfim, um novo nicho é atacado. A China enfia aqui por centavos, depois de dar meia volta ao mundo, produtos que nos não conseguimos produzir por menos de dezenas de reais, mesmo espremendo os custos ao ultimo bagaço. Jogo viciado, é claro. Mas na melhor das hipóteses, leva-se ano e meio a dois para se conseguir a aprovação de uma sobretaxa. E quando ela é obtida, o efeito não dura mais que um par de meses. As importações da China do produto afetado despencam, então, mas as de algum desses vizinhos que ela aluga para enfiar os mesmos produtos no Brasil, onde frequentemente nem se fabrica o bem em questão, disparam na mesmíssima proporção.
Quando não é esse o caso, é o contrabando que tapa o buraco.
É facílimo entender de onde vem essa “eficiência” toda deles em matéria de “controle de custos de produção”. É que na China as reivindicações trabalhistas como as que fizeram a carreira do nosso Lula são respondidas com cargas de pancadas, prisões sem julgamento, ameaças contra os pais, avós, mulheres e filhos dos descontentes que ousam reclamar e, no limite com tiros na nuca.
Isso quando se trata de casos mais isolados. Na eventualidade de grandes manifestações coletivas a resposta vem com fogo sustentado de metralhadoras e petardos diretos de canhões de tanques de guerra, como aconteceu alguns anos atrás na famosa e ironicamente chamada Praça da Paz Celestial em Pequim.

Não é só modo de falar. A China ainda fuzila mais de 10 mil pessoas por ano em espetáculos grandiosos em estádios esportivos, mandando a conta da bala, disparada de uma pistola encostada na nuca da vitima ajoelhada, para a sua família. Medida de austeridade…
Tudo isso e mais o fato deles terem saído de uma situação ainda muito pior, perante a qual a brutalidade de hoje parece uma delicadeza e sobre a qual se acrescentavam a fome e a miséria extremas que só quem viveu a plenitude do socialismo real conheceu, faz com que os chineses ainda aceitem trabalhar como mulas por uma merreca com uma docilidade que nenhum outro povo aceita. É isso que garante que os “custos de produção” na China sejam imbatíveis.
E no entanto nem a imprensa ocidental, ultimo recurso dos desvalidos, toca mais nesse assunto.
Por que?
Trata-se de uma conjunção de fatores, nenhum dos quais depõe a favor da continuação da supremacia que o bicho homem conquistou neste planeta quando seu comportamento ainda se diferenciava mais que o de hoje do dos animais.

O primeiro deles está nessa lei à qual nós mesmos nos condenamos, de “levar vantagem em tudo”, pensando cada um apenas em si mesmo. Assim é que corremos todos para o produto “mais barato” sem admitir que nenhum chato venha nos dizer quanto sangue está embutido nele, mesmo sabendo que o que estamos comprando nos “bons negócios” de hoje é o nosso desemprego de amanhã.
Como o nosso comportamento individual é esse, não resta alternativa a quem quer permanecer vivo na arena da produção, senão a de exportar suas fábricas e empregos para a China onde ter escravos ainda é legal, para fazer lá o que antes fazíamos aqui.
E quando o resultado dessa brilhante estratégia de sobrevivência se apresenta – salários minguantes, desemprego, crise econômica – nos engalfinhamos todos, culpando a direita quando o governo é “de esquerda” ou a esquerda quando o governo é “de direita”.
Os Estados Unidos, que sempre foram notórios pela sua miopia para qualquer coisa que se passe além de suas fronteiras, são hoje o exemplo extremo dessa síndrome. Ler a imprensa americana hoje lembra ler a imprensa latino-americana nos anos 70, no auge da conflagração ideológica. Todos se chutam mutuamente no estomago com um grau de irracionalidade que fica tanto mais óbvio para quem olha de fora quanto menos é notado por quem está lá dentro.

Sendo a atribuição de “culpas” por qualquer coisa que aconteça ao eleitor a mais acessível das ferramentas eleitorais e havendo eleições a cada quatro anos, é preciso achar culpados ao alcance das nossas cusparadas pelo que nos acontece dentro de casa. Falar da aborrecida realidade e culpar os verdadeiros culpados, lá do outro lado do mundo, não enche a urna de ninguém.
E nessa toada, prossegue a marcha da insensatez.
Como eles estavam no topo da pirâmide mundial dos salários e dos direitos de quem trabalha quando tudo isso começou, já lá vão 30 anos, os americanos são os que mais caíram desde que a economia mundial virou um sistema vaso comunicante global onde o trabalho e o consumo podem migrar livremente para além do alcance dos Estados nacionais. Você aprendeu no colégio: num sistema de vaso comunicação, todo liquido que entra, não importa a que altura dos “canos”, acaba procurando o nível médio. Isto é, quem estava acima da média cai e quem estava abaixo da média sobe, ficando a turma do meio mais ou menos no mesmo lugar, oscilando entre “décadas perdidas” e pequenos espasmos de progresso ou retrocesso.
E aí entramos no outro componente decisivo desse grande mutirão internacional de suicídio coletivo. Sendo a inveja, ao lado da vaidade, uma das grandes forças motrizes da História, uma grande parcela daquele tipo de ser humano que se dedica profissionalmente a disputar o poder politico em países da periferia prefere se abraçar aos apedrejadores de mulheres que se candidatam oficialmente a ser os autores do próximo holocausto do que se alinhar a qualquer posição que coincida com um interesse qualquer dos americanos, mesmo se for evidente que esse interesse é de seu povo também. E como a maior parte da imprensa ha muito que se esqueceu de olhar as coisas objetivamente e vive de mugir só quando muge o “seu lado” dessa boiada, não ha vozes dissonantes.
Assim, cada país estrebucha soberanamente sob os golpes do banditismo econômico chinês, enquanto cada ocidental tenta, ou culpar o seu vizinho mais próximo pelo que lhe está acontecendo, ou agir individualmente para safar-se dos efeitos disso fazendo “bons negócios” às custas da miséria deles, ainda que clame aos céus a evidência de que a condição para que os nossos salários parem de cair é que os deles comecem, rapidamente, a subir.

É no mínimo uma ironia que na República Popular da China o povo não tenha direito a absolutamente nada. O que a China faz é uma concorrência desleal que põe em risco todos os benefícios sociais conquistados no ocidente. Procure participar de uma concorrência internacional. Os encargos sociais e os salários mais altos não dão a menor chance às empresas brasileiras.