Populismo é sempre sucesso de publico

4 de março de 2010 § Deixe um comentário

O Financial Times de ontem trazia um artigo bem interessante a respeito da histórica relação de desconfiança entre os cidadãos americanos e o Estado que faz pensar quem vive a situação exatamente oposta aqui no Brasil.

O artigo é assinado por William Galston, professor da Escola de Políticas Publicas da Universidade de Maryland que foi conselheiro especial de Bill Clinton e trabalhou nas campanhas de Al Gore e Walter Mondale.

Diz ele que “os Estados Unidos diferem das outras democracias avançadas em dois aspectos, principalmente: a religiosidade e a suspeição em relação ao poder do Estado”. A religiosidade se deslocou para o centro da política americana durante a década passada e a próxima promete ser a década da desconfiança no Estado.

Na pesquisa mais recente publicada por lá, encomendada pela rede CBS e pelo New York Times, somente 19% dos entrevistados disseram confiar no governo. Apenas 28% acreditam que influenciam as ações do governo e 78% acham que o governo age em função de interesses escusos de agentes econômicos. Só 35% acham que o governo deveria fazer mais alguma coisa para resolver os problemas nacionais enquanto 59% acreditam que ele já se intrometeu demais e deveria sair de certas áreas para abrir espaço para a iniciativa privada. 56% prefeririam um governo menor mesmo que isso implicasse redução dos serviços.

Embora a desconfiança no governo esteja no DNA da cultura política americana, houve um período em que isso mudou. O prestígio do Estado chegou ao auge, nos Estados Unidos, em 1964 quando a confiança no governo atingiu 76%. É que entre 1933 e os meados dos anos sessenta o governo combateu a Grande Depressão atuando diretamente sobre a economia com programas assistencialistas de grande envergadura que, entre outros efeitos, transformaram-no no grande empregador do país. Em seguida venceu a Segunda Guerra Mundial e, depois dela, presidiu a maior expansão da classe média que a História já assistiu. Lá como cá, populismo e pesquisas em alta andam juntos…

A partir daí a maré virou.

Depois do Vietnã, em 1970, a confiança no governo tinha caído para 53%. Com Watergate desceu, em 1974, para 36%. Com a disparada da inflação, caiu para 25% em 1980.

Reagan (1983) conseguiu reverter temporariamente a maré e puxou um pouco a confiança no governo mas ela já estava de volta aos 29% quando ele entregou a presidência a Bill Clinton. Houve mais um pulinho no segundo mandato de Clinton e no primeiro de Bush. Depois de 2004, despencou de novo até encostar em 17% nas semanas que precederam o início do governo Obama.

A histórica eleição de Obama, envolvida num movimento cujo mote era a esperança, não mudou muito o quadro indicando que os americanos desconfiam das instituições mesmo, e não necessariamente das pessoas temporariamente no comando delas.

Depois da operação de resgate a bancos e seguradoras ameaçados pela crise financeira, nem a reforma do sistema de saúde reverteu o quadro. Outra pesquisa apresentada há duas semanas na CNN mostrou que 56% dos americanos endossam a frase: “O governo se tornou tão grande e poderoso que os direitos e liberdades das pessoas comuns estão sob ameaça imediata”. O dado preocupou Galston que acredita que um anti-estatismo moderado ajuda a preservar a liberdade mas um anti-estatismo radical mina o governo democrático e ameaça a liberdade.

Até certo ponto, diz ele, isso se corrige sozinho à medida que a economia for melhorando e o desemprego caindo. Só que, desta vez, ha forças mais pesadas envolvidas. A desigualdade econômica voltou a níveis só registrados nos anos 20 e a polarização entre os dois grandes partidos – Democrata e Republicano – chegou a um nível que não se via desde 1890. E isso não é nada bom, dados os enormes desafios que o país terá de enfrentar.

“Durante a próxima década os lideres políticos terão de convencer o povo a tomar medidas indigestas para reduzir um desequilíbrio fiscal que não é sustentável. Coisa muito difícil de fazer com o prestígio da instituição governo no limite de baixa. (A situação fiscal é tão grave e a necessidade de medidas duras é tão premente que) negar confiança ao governo que terá de vender essas medidas à população pode ser o prenuncio de um movimento de declínio nacional”.

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