O que nos diz o roteiro das UPPs no Rio
23 de novembro de 2011 § Deixe um comentário
São sentimentos ambivalentes os que tenho experimentado diante da cobertura que a imprensa carioca tem dado da “descoberta” do Rio de Janeiro dos morros pelo Rio de Janeiro do asfalto.
Comovo-me com os reencontros proporcionados pela reunificação dessas nossas duas “alemanhas” sem muro; horrorizo-me com as evidências físicas ainda frescas dos horrores e misérias que, para sempre, assombrarão aqueles tugúrios; divido-me entre a ternura e a indignação diante da hesitante esperança de ter esperança que o povo machucado desse outro Brasil sem direito a nada, se esforçando para segurar a dignidade, humildemente suplica que nós todos ajudemos a exigir.
Mas ainda não me atrevo a comemorar.
O próprio roteiro das UPPs trava o aplauso que o coração me pede em nome da solidariedade.
Seria uma traição negar o que ele me diz.
O Valor desta terça-feira trazia matéria com dois dos mais profundos conhecedores da tragédia carioca.
“As UPPs trafegaram pela trilha dos bairros turísticos da Zona Sul; daqueles associados às áreas dos grandes eventos, como a Tijuca e a Mangueira, na Zona Norte, vizinhos ao Estádio do Maracanã, e deverão chegar brevemente à favela da Maré, encravada na rota do aeroporto internacional do Galeão. Mas deveriam, a partir de agora, obedecer às estatísticas da violência como principal determinante para futuras instalações. Por esse critério, a Baixada Fluminense e a Zona Oeste passariam a ser contempladas também“, dizia Ignácio Cano, estudioso do problema da segurança publica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
“Qual a finalidade da UPP? Ela não veio, como diz o próprio secretário da segurança José Mariano Beltrame, para acabar com o tráfico de drogas. Ela tem um sentido: acabar com o controle armado, paralelo, de territórios. E a milícia é isso: controle armado de territórios. Então tem alguma coisa que não bate“, insistia Julita Lemgruber, a primeira mulher a dirigir o sistema prisional carioca entre 1991 e 1994.
Os dois acusavam o que está evidente desde sempre e agora já começa a resvalar para uma rendição admitida.
O trabalho “para inglês ver” está feito. Libertar os morros dos traficantes era a parte da tarefa que podia ser levada a cabo por um simples ato de vontade política, sem que fosse necessário tocar o cerne do problema da segurança pública do Rio de Janeiro que é a corrupção das polícias, profundamente enraizada na corrupção dos legislativos municipal e estadual, e com ramificações que alcançam as duas casas do Congresso Nacional.
A próxima etapa – o combate às milícias que ocupam a Baixada e a Zona Oeste exatamente com os mesmos métodos do tráfico e, se não forem atacadas logo, ocuparão o vácuo aberto pela expulsão dos tráficantes dos morros – vai requerer reformas institucionais.
E é aí que a vaca invariavelmente vai pro brejo no último país do Ocidente a por fim à escravidão.
As tergiversações do delegado Beltrame são mais que um aviso.
“O ataque às milícias exige uma estratégia mais calcada em trabalho de inteligência, diferente daquela que vem sendo aplicada pelas UPPs. Por isso vai ser demorado…”
Ele se defende com números. Diz que 624 milicianos foram presos desde 2006, sendo sete vereadores, um deputado estadual, 142 PMs, 32 ex-PMs e 14 policiais civis.
Mas quantos deles continuam presos? E quantos dos que continuam presos estão entre os que promovem orgias com mulheres, bebidas e bandejadas de lagostas dentro dos presídios de onde ordenam massacres sem se preocupar com detalhes bestas como usar armas sem a assinatura da polícia nos seus crimes?
O país das faxinas hesitantes, dos ministros que peitam presidentes da Republica que encolhem, dos foros especiais e dos amaciados e infindáveis “processos administrativos”; o país onde triunfam incólumes, enfim, os Zés Sarney e Dirceu, tem mesmo leis para tirar realmente de circulação os policiais, as “excelências” e os “meritíssimos” que se associam abertamente ao crime organizado? Está disposto a reformar as que existem para dar essa força ao povo?
O doutor Beltrame parece acreditar que não…





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