Como foi que a Dilma comemorou a Queda do Muro?
10 de novembro de 2009 § 1 comentário
O Brasil, junto com o mundo, passou as ultimas duas semanas vendo e revendo as cenas da construção, dos sofrimentos dos aprisionados, dos que conseguiram e dos que não conseguiram atravessá-lo e, finalmente, da queda do Muro de Berlim.
Mas, por incrivel que pareça, em plena campanha eleitoral, nenhum jornal, nenhuma televisão se lembrou de perguntar à Dilma ou a qualquer outro dos nossos presidenciáveis, como foi que ela “comemorou” a queda do Muro.
Ouvi dezenas de depoimentos emocionados de metade da “torcida do Corinthians” contando na TV como viveu aquele momento decisivo da História. Mas ninguem que realmente interessasse especialmente ao Brasil.
E, no entanto, não é que nossa possivel futura presidente fosse indiferente a isso. Não! Ela era uma militante da política tão apaixonada por suas ideias que pegou em armas para incuti-las nos outros.
A pauta esquecida por todas as redações do Brasil é, portanto, uma pauta que, nos meus tempos de redação, seria classificada entre aquelas que, como dizia Nelson Rodrigues, “clamam aos céus”, de tão óbvias.
Mas ninguem se lembrou dela…
De que lado estava a nossa possivel futura presidente? Dos que fuzilavam ou dos que eram fuzilados? Dos que erguiam muros ou dos que tentavam atravessá-lo? Dos personagens fardados ou dos paisanos dos filmes que você viu na TV? Dos que atiçavam os cães ou dos que eram mordidos por eles?
A Dilma mudou? E como sua consciência lida com esse fato hoje? Que reação tem a senhora de hoje quando revê as cenas dos adolescentes fuzilados tentando atravessar O Muro e se lembra de como a jovem militante de outros tempo as via ao vivo?
Pois é. Ainda tem muito muro de pé nas cabeças brasileiras…
Legalizar as drogas e preservar as Forças Armadas
6 de novembro de 2009 § 1 comentário
O crime organizado depende estritamente da corrupção. E a proibição das drogas garante o dinheiro que o alimenta. O Taleban é sustentado pela proibição das drogas e nem o exército dos EUA consegue derrotá-lo. Colocar as Forças Armadas nessa briga só vai fazer com que elas se corrompam e se tornem mais suscetíveis à política.
Anuncia-se que as Forças Armadas ganharão poderes de polícia tanto nas operações de fronteira quanto “nas demais ações ordenadas pelos poderes constituídos” e que, “diante de eventuais incidentes, seus integrantes serão julgados por tribunais militares e não pela Justiça comum como ocorre hoje”. Daí por diante, a matéria é contraditória. Diz que a nova lei “fortalece de maneira explícita” (sic) o cargo de ministro da Defesa que “passa a ter comando operacional sobre as três Forças”. E logo adiante, afirma taxativamente que ele “coordenará os chefes do Estado Maior das Forças mas não os comandará”. Quem fará isso é o presidente da Republica.
E a isto chama a redação do Estadão “um modelo moderno”!
Misturar as Forças Armadas com o crime organizado é o caminho mais curto para corrompê-las. E essa corrupção poderá vir não só do crime organizado mas tambem das forças políticas que disputam o governo. O combate ao crime exige decisões de curto prazo baseadas em critérios que dificilmente combinam com o isolamento da política em que convem manter as Forças Armadas. Com seu poder incontrastavel, elas são uma tentação forte demais para ficarem expostas às influências dos que vivem da disputa pelo poder. Hoje esta parece uma ameaça distante. Mas não é por outra razão que as democracias sentiram a necessidade de criar as polícias federais para exercer a função de combate ao crime organizado e vigilância policial das fronteiras, deixando às Forças Armadas a função clara e exclusiva de defender a Constituição, entre cujas determinações uma das mais importantes é a de garantir que a disputa pelo poder se restrinja ao campo das ideias.
As Forças Armadas devem agir exclusivamente do país para fora , por assim dizer, e nunca do país para dentro. E é por isso que bate tão duro em meus ouvidos essa história de “nas demais ações ordenadas pelos poderes constituídos”. Seguro morreu de velho…
Daqui o que parece é que a nova lei afasta as Forças Armadas de sua atribuição precípua e deixa-as mais abertas à influência “dos poderes constituídos”, ou seja, do governo de plantão. E isto somado à garantia de impunidade implícita na ideia de julgar desvios em tribunais da própria corporação cria uma receita que aponta diretamente para resultados pra lá de indesejáveis.
E o que justifica tudo isso? Será mesmo o combate ao crime organizado?
Ora, a existência do crime organizado depende estritamente da corrupção e não da falta de capacidade do Estado de exercer a violência, da qual tem o monopólio, para reprimi-lo. Assim, a primeira providência para combatê-lo de fato é iniciar uma cruzada nacional de reformas simples destinadas a reduzir a impunidade que hoje é garantida para os policiais corruptos, em vez de tentar estende-la também aos militares.
Por incrível que seja o fato dos jornais jamais tocarem nesse “pormenor”, a verdade é que o que torna toda ação policial contra o crime organizado um desperdício criminoso de recursos e de vidas é que um oficial de patente superior que pegue seu comandado em flagrante conluio com os traficantes de drogas e de armas não tem poder para expulsá-lo da tropa. Nem mesmo o comandante da PM pode fazê-lo. E nem sequer o secretário de Segurança Publica. Somente o governador em pessoa pode exonerar o policial corrupto que antes passará por um “julgamento administrativo” – isto é, feito por seus próprios pares – que correrá em duas instâncias, cada uma das quais com a possibilidade de centenas de recursos. Enquanto isso, o traidor permanecerá “afastado”, eufemismo de difícil definição pois que não implica em perda do soldo, do poder de polícia ou do direito de carregar uma arma. Em outras palavras, o traidor permanecerá sentado ao lado daqueles que traiu, o que torna a desinfecção do sistema rigorosamente impossível.
É isto que explica o Rio de Janeiro de hoje.
Quando o governador de São Paulo, Geraldo Alkmin, que não conta com a especial simpatia dos jornalistas, instituiu o julgamento sumário dos policiais corruptos e, assim, fez uma primeira limpeza da polícia paulista, a criminalidade no Estado caiu mais de 50%, apesar do silêncio da imprensa.
A impunidade do policial corrupto é um componente do esquema de impunidade geral na política. Existe para atrelar todas as lealdades ao governador e não porque isso faça qualquer sentido racional. E esta é a principal razão pela qual a imprensa deveria concentrar nesse alvo os seus tiros, em vez de apenas ecoar, de forma sensacionalista, os muitos que são disparados por falta de correção dessa distorção.
O outro componente sem o qual a questão da segurança publica jamais será equacionada é o enfrentamento do erro gritante que é criminalizar as drogas.
Hoje seria levado na piada qualquer indivíduo que viesse propor a criminalização das bebidas alcoólicas como os Estados Unidos caíram na besteira de fazer nas primeiras décadas do século XX. Essa criminalização, diga-se de passagem, deu-se por leis de iniciativa popular votadas diretamente pelos eleitores. O resultado é mais que conhecido e está imortalizado pelo cinema. As grandes cidades americanas foram transformadas em cenários de guerra que só se diferenciavam do Rio de Janeiro de hoje pelo nível de pobreza e pela potência das armas envolvidas. Felizmente para os americanos, os mesmos eleitores que propuseram e aprovaram a criminalização do álcool, propuseram e aprovaram a sua descriminalização, e os Al Capones desapareceram como que por encanto.
A questão é que, depois do álcool, veio a poribição das drogas. E a história é a que conhecemos. Os números do consumo que, em todo o mundo, cresce tanto mais quanto mais aumenta a repressão, são prova mais que suficiente do desperdício que é o sangue que corre em torno desse comércio. Por trás deles, está um fato sabido desde a pré-história, qual seja, o de que a humanidade nunca resistiu e, provavelmente, nunca resistirá ao impulso de alterar quimicamente o seu estado psíquico, moderadamente, alguns, compulsivamente outros.
Não se pode vencer a guerra contra o tráfico enquanto a proibição continuar fazendo da droga uma industria de bilhões de dolares. Não é só o PCC e o Comando Vermelho que ela sustenta. É todo o esquema do terrorismo internacional, que inclui exércitos muito mais poderosos em confronto aberto com governos nacionais. As FARC vivem da proibição das drogas. O Taleban vive da proibição das drogas. E o Exército dos Estados Unidos da América não consegue vencê-los. Como o tempo tem mostrado que é ilusório esperar que políticos, muitos dos quais lucram com o crime organizado, tomem uma iniciativa nessa direção, resta torcer para que os eleitores americanos, que têm esse poder, usem-no para por um fim a essa tragédia anunciada como fizeram com a legalização do álcool e que, com isso, inaugurem uma nova tendência mundial.
Porque se todos os que desejarem se matar com drogas conseguirem, haverá, ainda assim, imenso benefício para todos os outros e para a paz mundial, se isto puder ser feito por eles legalmente.
Uma imensa Argentina?
6 de novembro de 2009 § Deixe um comentário
Uma das ilusões a que mais comumente se aferram as vítimas do banditismo político é a de que existe um limite para a queda de um país.
A prova mais candente do quanto isso é falso é a Argentina. Partindo da posição que tinha na virada do século XIX para o XX entre as cinco maiores economias do mundo, o país que tinha todos os motivos para se orgulhar da sua cultura e do seu padrão de vida não encontra o fundo desde que entrou em queda livre com Juan Domingo Perón.
Ha interrupções e acidentes aqui e ali, mas nada parece ser capaz de vencer a formidável máquina de seleção negativa em que Perón transformou o sistema político argentino, por onde só o pior consegue passar.
Já falei disso aqui no Vespeiro (veja “A cadeia do escracho”). De geração em geração o padrão ético se deteriora mais e mais à medida que a memória de tempos melhores vai se perdendo.
Sim, os povos se acostumam à miséria moral.
Corrompem-se tanto mais quanto mais a corrupção política os vai afundando na miséria e tornando dependentes do Estado. Quanto mais essencial se torna o Estado; quanto mais poderoso e onipresente; mais ele se corrompe e mais ele corrompe o seu povo.
Não é um círculo, trata-se de uma espiral viciosa na qual, a cada volta, começa-se de um ponto mais baixo para chegar-se a um ponto mais baixo ainda.
Um dos traços distintivos do processo de esquizofrenia política argentino é a renitência das “dinastias” de casais. De Perón para Evita; de Perón para Isabelita; de Kirshner para Kirshner…
Estaria aí a fonte de inspiração para o “de Lula para Dilma”
que se ensaia aqui? Dona Marisa Letícia é brasileira demais para se enquadrar no figurino da mulher de botas e culote, instigando sindicatos pelegos contra a “zelites”. Já a Dilma…
E o que mais do que acontece por aqui nos remete ao que acontece por lá?
Quarta-feira, menos de 48 horas antes do início da 65ª assembléia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) que se inicia hoje em Buenos Aires, o sindicato dos caminhoneiros argentinos, liderado por Pablo Moyano, filho de Hugo Moyano (sempre as dinastias), secretário geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a central sindical criada por Perón, montou um piquete na porta das oficinas do Clarín e do La Nación, jornais que fazem oposição ao casal Kirshner, impedindo a sua circulação. Os dois jornais seguem bloqueados, sob o olhar complacente da polícia dos Kirshner, que se recusa a agir. O episódio se dá na sequência de uma série de golpes aplicados pelo próprio governo contra diversos órgãos da imprensa argentina que incluíram a virtual estatização das transmissões dos jogos do campeonato nacional de futebol, a suspensão da fusão aprovada por órgãos técnicos de canais de TV a cabo e a aprovação de uma nova lei de mídia que impõe o desmembramento das empresas jornalísticas locais.
“De quebra”, o governo amigo do sargento Hugo Chavez está patrocinando – pasme-se! – em plena capital argentina, o “Primeiro Encontro Internacional de Meios e Democracia na América Latina” que será aberto por Gabriel Mariotto, autor da nova lei de mídia, e do qual será a grande estrela Andrés Izarra, presidente da TV estatal que Chávez criou e através da qual dá suas ordens ao povo venezuelano. Em paralelo, a embaixada venezuelana em Buenos Aires está convocando uma passeata contra a Sociedade Interamericana de Imprensa. Hugo Chávez, recorde-se, fechou o único canal de TV venezuelano que lhe fazia oposição, fato no qual Lula e seu quase chanceler Marco Aurélio Garcia honestamente não viram nenhuma arranhão no que chamam “a plena democracia que se pratica na Venezuela”…
É de se notar, a propósito, que Chávez e os Kirshner, que primeiro calotearam o mundo e depois se venderam ostensivamente a ele, que sustenta com seus petrodolares a dívida publica argentina, já estão no ostracismo internacional e, por isso, assumem-se como o que são. Não têm nada a perder. Já o nosso Lula ainda está em pleno idílio com o establishment internacional. Os mais “refinados” governantes europeus, do alto da sua segurança institucional, não se cansam de paparicá-lo. Não quer dizer grande coisa, uma vez que governantes europeus do passado paparicaram gente como Hitler, Stalin, Mao Tsetung e outras figuras de proa da galeria de monstros da humanidade, até depois que eles já se tinham revelado como os monstros que de fato foram.
Lula não é um monstro. Mas daí a premiá-lo como paladino da democracia…
Seja como for, isso pode estar fazendo uma boa diferença. Até a eleição de Dilma, quando estaremos todos definitivamente amarrados, a aprovação internacional, as fotos ao lado “do cara”, os sorrisos da velha rainha, fazem as vezes da “Carta aos Brasileiros”, prometendo bom comportamento, que já vai sendo revogada.
Assim, Lula, por enquanto, só esbofeteia a liberdade de imprensa verbalmente. No país que tem o judiciário que temos, aliás, pode se dar o luxo de simplesmente se omitir, quando lhe interessa fazer mais que as bofetadas verbais. Como tem feito em relação à censura do Estadão que, para bom entendedor, pode ser posta na conta do recibo que sua excelência passa pela aquisição de José Sarney, O Intocável, por preço módico.
Não é por outra razão que o reizinho do Maranhão, depois de uma semana desafiando a suprema corte da Nação do alto da sua impunidade, dignou-se ontem a ir apresentar a rendição do Senado a um desmoralizado STF, à sombra de uma espécie de palanquim carregado por um solícito puxa-saco, como se ele fosse um d. João VI redivivo.
Aos Kirshner, o nosso presidente sindicalista não pode fazer carícias porque faz parte do show daqueles dois atirar-lhe “pontazos” às partes baixas. Mas com Chávez já fez tudo menos sexo (pelo menos até onde se sabe). E se ainda não lhe cedeu Brasília para a montagem de um meeting internacional de execração da democracia “burguesa”, já lhe emprestou a embaixada do Brasil em Tegucigalpa para esse mesmíssimo fim.
Se, por enquanto, Lula não usa os sindicatos de que é dono e senhor para blitze ao estilo peronista-kirshneriano, não se furta a recorrer ao MST para esse mesmo fim. O banqueiro Daniel Dantas é o “judeu” da vez. Sob a desculpa das culpas que este senhor tem no cartório, que são muitíssimas, até a imprensa bem pensante entra no jogo do Rinoceronte (falo daquele do Ionesco) e se permite deixar crescer o chifre no lugar do nariz. O partido de Jose Dirceu, de Waldomiro Diniz, de Delubio Soares, de Ângela Guadagnin, de Carlos Jereissati, de Sergio Andrade e, porque não dizer, de José Sarney, não persegue Daniel Dantas sem tréguas porque ele é desonesto. Persegue-o — Estado contra indivíduo — em vez de se aliar a ele como se aliou a tantos como ele, porque Daniel Dantas ousou desafiar – e até “levar no bico” – os sagrados sacerdotes da Previ, centro nevrálgico do projeto de poder petista.
O nível de fúria empregado na destruição da Fazenda Maria Bonita sob o olhar complacente da polícia do Pará, estado governado pelo PT, não permite enganos quanto ao grau do ódio que a entidade que o governo sustenta destila, nem ilusões quanto ao que serão capazes de fazer quando se sentir suficientemente seguro para oficializar sua relação com ela.
Cada vez mais, portanto, as diferenças entre Brasil e Argentina são apenas de grau. O programa que por aqui ainda está apenas na “fase Beta”, dos ensaios, lá já está rodando na versão 7.0. Mas, até onde já fomos – aparelhando o Estado, as empresas publicas e as estatais; desmontando suas instâncias técnicas; usando fundos de pensão e bancos publicos para financiar um projeto de poder; minando o que restava do Legislativo; ensaiando a censura à imprensa; patrocinando a desmoralização do Judiciário – não cabe a menor dúvida sobre para que lado pendem Lula e o PT nas questões que hoje enfrentam a ditadura bandalho-sindicalista dos Kirshner e o que resta da Argentina.
De modo que, tudo indica, estava errado o vaticínio de Chico Buarque.
Vem vindo aí…
6 de novembro de 2009 § 1 comentário
A máquina ainda não mas o conceito já está aí, baseado na tecnologia OLED (já existente) de telas flexíveis, sensíveis ao toque.
A proposta do Rolltop é da empresa alemã Orkin Design (http://www.orkin-design.de/).
A tela desenrolada tem 17 polegadas. Enrolada, vira um cilindro de 13 polegadas.
A tecnologia OLED, ainda por cima, consome muito menos energia, o que significa duração de bateria totalmente fora dos padrões atuais.
Maravilhas da tecnologia
3 de novembro de 2009 § 1 comentário
Por enquanto já está decidido para os carros.
Em menos de cinco anos, começando pelos de SP, todos vão ter um chip que transmitirá diretamente para Brasília e em tempo real, por onde você anda, se você pagou seus impostos, se está transitando na velocidade permitida, se está ou não no seu rodízio, se passou num pedágio, etc.
O tal chip, dizem, vai custar uns R$ 50. Mas podemos ficar sossegados porque tudo vai ser pago pelo Fundo Municipal de Trânsito (que reúne o dinheiro arrecadado com multas). Trata-se, portanto, de um investimento nos negócios futuros, do qual as autoridades e seus parceiros privados esperam ter rapidíssimo retorno. Agora ninguém escapa, com ou sem polícia, de noite ou de dia, faça chuva ou faça sol. Vinte e quatro horas por dia!
Deu uma paradinha em local proibido só pra pegar aquela encomenda? A multa já caiu no seu cartão de crédito. Estacionou com o carro virado para o lado errado? Plin – $ – plin – $.
São Paulo vai começar com umas duas mil antenas pra que não existam “pontos cegos” onde o cidadão possa se lembrar do que era a liberdade. E todo município do país vai ser obrigado a ter as suas. As estradas idem.
Obaaaa! Quanta licitação!
Mas, péra aí! Porque só dos carros pra fora? Afinal um monte de infrações gravíssimas são cometidas do carro pra dentro e não poderão ser captadas por chips e antenas externos. Não faz nenhum sentido. O certo é colocar, também, câmeras dentro dos automóveis. E se o motorista resolve fumar no carro? Afinal carro tem teto e não pode fumar debaixo de teto. E se não usar o cinto de segurança? E se falar no celular? Puser criança no banco da frente?
Tudo isso sem o governo saber? De jeito nenhum! A sociedade não pode correr esse risco…
Agora, já que não existe mesmo lugar onde se possa acelerar, pra que seguir fazendo carros com esses motorzões? Boa pergunta! Vamos discutir criteriosamente se é melhor fazer só carroças, logo de uma vez, ou cobrar um imposto por cada cavalo de força, para desincentivar a condição para a contravenção…
E, pensando bem, porque cuidar de vigiar só os carros se dentro dos carros é o lugar onde menos se cometem crimes hediondos?
Não! Mais importante que tudo é fazer isso dentro das casas. Vejam só o que as câmeras nas ruas têm feito para coibir o crime e ajudar o trabalho da polícia! Porque dar ao cidadão a chance de se esconder dentro de casa para cometer suas infrações? De que adianta todo esse zelo pela saúde publica se ele chega em casa e acende um charutão ou, pior ainda, um cigarro de maconha?
E os crimes hediondos, então?
Alô, alô, Viva Rio! Que bobagem é essa de ficar proibindo arma de fogo? Vamos acabar com a impunidade dentro de casa que, ela sim, é que faz subir as estatísticas “da violência”. E não me venham com essa balela de presunção de inocência até prova em contrário. Se nós já tínhamos concluído que a posse de uma arma é indicio seguro da intenção do cara de assassinar alguém, porque vamos aceitar agora essa história que o cara foi pra dentro de casa porque quer paz? É nada! Se ele entrou em casa, foi para se esconder das câmeras. E se foi se esconder das câmeras é porque está mal intencionado. Assim como todo mundo que tem uma arma é um assassino enrustido, todo mundo que vai se esconder entre quatro paredes ta mesmo é querendo praticar uma monstruosidade.
Não vamos dar mole não! Olho nele!
E mais: vejam só o efeito que a instalação dos chips nos automóveis provocou na arrecadação. Agora sim, nós pegamos aqueles contraventores, aqueles sonegadores filhos da puta! Olha quanta gente praticava atos anti-sociais e saía impune. Porque só os automobilistas? Isso é uma discriminação odiosa baseada na condição social do indivíduo. No que ele tem e não no que ele é. Nada disso, vamos instalar chips subcutâneos em cada cidadão na maternidade.
Totalitarismo?! Invasão de privacidade?
Quem não deve não teme! Esse pessoal que fica vendo fantasma debaixo da cama quer mesmo é acumular só para si e não dividir nada com os pobres. Há 500 anos que essas zelites são isso aí! Mas a gente ensina eles!
Nesse momento, acordei, suando, do pesadelo.
Naquela confusão estremunhada, pensei: Que nada! Quiéisso, cara! Nós vivemos numa democracia, num Estado de Direito. Taí o Congresso Nacional, taí o Judiciário pra defender os nossos direitos…
Um pigarro dos grandes subiu e quase me afogou…
Então tateei o criado mudo atrás da caixinha dos remédios, peguei o maior sonífero que eu tinha e me apaguei.
Desta vez de propósito…
















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