O crime dos jornalistas

2 de abril de 2013 § 8 Comentários

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Cada um tem o direito de pensar o que quiser sobre o desarmamento.

Eu, por exemplo, penso que a tese de que os homicídios “são causados” pelas armas de fogo é um raciocínio tão recheado de sentido quanto dizer que quem estuprou a turista americana esta semana no Rio de Janeiro foram os pintos dos três estupradores e não eles próprios, e que é mais insano ainda afirmar que a forma justa e adequada de se conseguir segurança sexual para todos é amputar esse apêndice de todo homem nascido vivo.

Agora, fatos são fatos. E torce-los até que se adequem às teorias da sua preferência é mais apropriado aos políticos malacos que todos nós criticamos que a jornalistas.

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A campeã da “cruzada do desarmamento”, como se sabe, são as Organizações Globo onde o grau de tabu em torno da questão é de tal ordem que nem William Waack, cujo jornal costuma ser mais honesto e inteligente que os de seus colegas de emissora, tem liberdade para falar desse assunto recorrendo apenas ao cérebro.

Não é privilégio dele, diga-se de passagem, posto que mesmo os editorialistas do Estadão, reconhecidos pelo apego ao bom senso e pelo hábito de respeitar os fatos, enfiam o sorvete na testa à simples menção da palavra “armas”.

Enfim, seria de rir se não houvesse razões para chorar posto que desviar a atenção das autoridades e do público das soluções verdadeiras para o descalabro da segurança pública no Brasil custa rios de sangue, suor e lágrimas e nos põe mais longe a cada mentira do fim da guerra que mais mata no mundo (a do Brasil).

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Já mencionei aqui antes que Júlio de Mesquita Filho costumava dizer que manipular desonestamente o noticiário dos jornais é crime muito pior que o do tráfico de drogas porque, em função do alcance da imprensa, o dano produzido é muito maior.

Hoje, depois de repetir a mentira ontem em todos os jornais de todos os seus canais de TV aberta e fechada, O Globo gasta uma página inteira – aquela que costuma dedicar ao assunto mais importante do dia – para escrever um verdadeiro tratado do desrespeito aos fatos e às regras mais elementares da lógica e do bom jornalismo, para dar a uma pesquisa que em má hora alguém da empresa encomendou à Fipe, o sentido inverso daquilo que ela constatou indubitavelmente, a saber, que a uma redução de 35% nas vendas “legais e ilegais de armamentos” desde que o Estatuto do Desarmamento entrou em vigor em 2003, correspondeu um numero de mortes por arma de fogo 26% maior em todo o território nacional.

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Descontada a região Sudeste, de que falaremos mais adiante, a única em que a criminalidade caiu no período (- 41,43%) apesar da redução do numero de armas ter sido a menor do país, a média de aumento da criminalidade nas demais regiões foi de astronômicos 43%.

Como bonus punitivo aos mentirosos contumazes, aliás, essa pesquisa constatou também que a criminalidade aumentou muito mais no Nordeste (+ 42,78%), a região que mais enriqueceu no país nesse período e na qual a venda de armas mais caiu (- 56,5%) e especialmente no Norte (54,5% menos armas e 64,92% mais mortes! por arma de fogo), a segunda região que mais prosperou economicamente no período.

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Os números pulverizam ao mesmo tempo, portanto, as duas teses mais caras àquele jurássico tipo de acrobata ideológico que ainda sobrevive neste nosso exótico país: a de que o crime é função da pobreza e a de que os homicídios “são causados” pelas armas de fogo.

Como don Lula I andou desmontando a Fipe e aparelhando-a com adeptos da “matemática criativa”, imagino que não foi preciso submeter o “pesquisador” João Manoel de Mello, que se prestou ao papel de endossar as mentiras da Globo, à tortura para extrair dele a “conclusão” de que, mesmo com esse crescimento de 26%, os homicídios “entraram em queda” depois da promulgação do Estatuto do Desarmamento.

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Mas onde a desonestidade assumiu proporções nada menos que “lulianas” foi na “análise” dos número da região Sudeste, a única na qual a criminalidade caiu (- 41,43%) no período, o que aponta para as soluções reais e efetivas contra o império do crime no Brasil.

Rigorosamente nenhuma menção foi feita aos dois fatos que explicam essa redução, a saber, a ocupação militar e o início do policiamento dos morros cariocas antes entregues à sanha do crime organizado, e a “operação limpeza” feita na polícia paulista pelo governador Geraldo Alkmin que foi saudado na ONU por ter conseguido o feito inédito no mundo de reduzir a criminalidade em São Paulo nada menos que à oitava parte da que encontrou, embora toda a imprensa brasileira tenha trabalhado em uníssono para esconder esse fato.

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Alkmin conseguiu esse feito com a medida palmar de tirar das mãos dos próprios fiscalizados as corregedorias das polícias paulistas e transferi-las para as do seu ex-secretário de Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto, derrubado em novembro passado, a quem deu plenos poderes para “limpar” a polícia paulista.

Ferreira Pinto estabeleceu rito sumário para os julgamentos administrativos dos policiais corruptos e, em menos de um ano, renovou todos os comandos da polícia de São Paulo. O resto foi mera consequência…

Policiais corruptos e criminosos estavam igualmente interessados na queda dele, portanto.

Por uma feliz coincidência, aliás, o jornal comandado por William Waack, que abriu a “escalada” repetindo a leitura falsificada da pesquisa da Fipe, se deu na imediata sequência da exibição pela Globo do filme Tropa de Elite – 2 que gira em torno da podridão sanguinolenta que caracteriza as polícias do Rio de Janeiro em seu conluio ostensivo com as duas pontas do crime organizado que, diga-se de passagem, não vivem uma sem a outra: o tráfico de drogas e a baixa politicagem.

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Para “sorte” do PT e azar de São Paulo, o maior feito de Alkmin ficou obscurecido pela onda de assassinatos envolvendo policiais como vítimas e como autores que começou a rolar coincidentemente nas vésperas da eleição passada e ainda não se deteve.

A primeira vítima dessa onda de crimes foi o secretário que tanto incomodava os policiais corruptos e os criminosos deste Estado, fato que mais uma vez voltou-me à cabeça ao assistir de novo o final melancólico do filme protagonizado por Wagner Moura.

De modo que cada massacre que hoje temos o privilégio de assistir ao vivo diariamente na TV e cada família destruída pelo descalabro da segurança pública no Brasil, deve um pedaço da sua desgraça aos jornalistas que, mesmo diante de fatos contundentes como os exibidos acima, continuam trabalhando para confundir as bolas, trocar remédios modernos por atos de pajelança, atrapalhar a ação da polícia e transformar translúcidos empulhadores em heróis.

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E já que entrei pelas expressões rodrigueanas, lá vai:

Dirá um idiota da objetividade que os Estados Unidos, “a terra dos massacres“, são a prova de que as armas são o demônio. E eu respondo: os Estados Unidos, o país mais armado do mundo com 88,8 armas por cada 100 cidadãos, tem 2,97 mortes por arma de fogo por cada 100 mil habitantes. O Brasil, com dez vezes menos armas (8 por cada 100 habitantes) tem 21,3 assassinados por arma de fogo por 100 mil habitantes, quase 10 vezes mais.

A diferença é que lá tem polícia e quando alguém ataca outro cidadão de forma criminosa, vai para a cadeia e não sai nunca mais, quando não é executado. E quando é assim que se faz só sobram, a ameaçar a gente de paz, os malucos de verdade, estes que fazem a festa dos jornalistas desarmamentistas mas que, felizmente, são muito poucos. A legião dos covardes, esta que anda livremente pelas ruas do Brasil trucidando gente só porque isso não lhes acarreta consequência nenhuma, desaparece de cena.

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Onde Tropa de Elite 2 “pega” pra valer

27 de outubro de 2010 § Deixe um comentário

O edifício do crime no Brasil se apóia na pedra fundamental da impunidade dos políticos e dos seus nomeados. Corrupção policial é efeito e não causa. Só reformas políticas mudam esse quadro.

Tropa de Elite 2 é um soco no estômago. Fui assistir ontem. É um filmaço! Mas que não deixa nenhuma esperança. A única esperança com que ele acena, melhor dizendo, é o fato de ainda poder ter sido rodado no pais onde os eleitores do Ministério da Cultura nomeados pelo próprio retratado indicam O Filho do Brasil como nosso candidato ao Oscar de filme estrangeiro na véspera de uma eleição conflagrada…

Num único momento Tropa 2 é inverossímil: quando, ao fim da CPI, um dos políticos ligados ao crime organizado vai para a cadeia. Tudo o mais, nele, é de uma desconsoladora verdade que as platéias estão sufragando em massa, inclusive e principalmente o travelling final da câmera pela Esplanada dos Ministérios até o Congresso Nacional que aponta o local onde se homiziam os chefões do “Sistema”.

No seu discurso final, um “capitão Nascimento” que simboliza o Brasil derrotado pela corrupção, começa se interrogando, do alto da tribuna da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, uma das sedes do “Sistema”, sobre a ausência de sentido em matar ou morrer numa guerra que ele (“o Sistema”) deliberadamente deflagrou e da qual se alimenta – o que remete à discussão mundial do sentido prático da criminalização da droga – e termina afirmando que a remissão do Rio de Janeiro teria de começar “pela completa extinção da Policia Militar” como a conhecemos hoje.

É aí que quero enfiar minha colher: isso seria perda de tempo.

Ha um precedente histórico do qual não pude deixar de me lembrar diante dessa cena. Ha pouco mais de um século, na virada do 19 para o 20, os Estados Unidos estavam em situação muitíssimo parecida com a do Brasil de hoje em matéria de impotência diante da corrupção e da violência do crime (semi) organizado. Terminavam a ocupação física de seu território, como aqui à custa de um alto grau de depredação ambiental; viviam um processo insano de urbanização que destruiu a cultura rural antes de por outra em seu lugar. Multidões amontoavam-se em áreas degradadas de cidades sem planejamento criando bolsões de miséria e violência onde as forças do Estado não entravam. E tudo isso tornava a vida nas grandes cidades americanas um inferno.

No âmbito nacional o quadro era desolador. A política era dominada pelos chefões dos dois maiores partidos sem o beneplácito dos quais não se fazia nada no pais. Os presidentes não podiam governar sem eles. As principais comissões dos diversos níveis do Legislativo (federal, estadual e municipal) eram controladas por eles o que garantia a impunidade geral (através do controle dos equivalentes das nossas CPIs) e os cargos públicos eram distribuídos, país afora, entre as tropas dos vencedores das eleições que os usavam para enriquecer e se perpetuar no poder. Os eternos caciques dos partidos cuidavam, por fim, de evitar qualquer renovação da política determinando quem, quando e aonde poderia se apresentar ao eleitorado para pedir votos.

O pais vivia, ainda, a primeira grande onda de fusões e aquisições de empresas que criou corporações gigantes e monopólios setoriais de altíssimo poder de corrupção que operavam em simbiose com a baixa politicagem.

A ausência de fronteiras entre o crime organizado e a policia corrupta, que transformou a vida em cidades como Nova York em algo muito parecido com o que Martin Scorcese descreveu no seu As Gangues de Nova York, levou a população a tal estado de desespero que, em dado momento, decidiu-se pela extinção da policia existente, considerada irrecuperável, e a criação de uma nova a partir do zero. O resultado foi que a policia “extinta” resistiu à ordem e passou a se confrontar a tiros com a nova (que não demorou muito a se corromper), piorando a situação. Qualquer coisa de semelhante às forças que hoje se enfrentam no Rio: policias, quadrilhas e milícias comandadas por ex-policiais.

A situação só começou a ser revertida com o início das reformas políticas da chamada Progressive Era, que reduziram drasticamente a impunidade dos políticos.

O crime organizado é função direta da impunidade. Nenhuma organização tem poder suficiente para enfrentar o monopólio da força armada do Estado se ele estiver realmente disposto a usa-la para o bem. Pelo mundo afora, a limitada impunidade de que desfruta o crime organizado é comprada com o suborno da policia. E esse suborno se torna impossível de conter se a atividade criminosa for rentavel o suficiente para pagá-lo, como acontece no caso da droga. Daí a discussão mundial em torno da idéia de tornar a droga legal para deter a carnificina do combate ao tráfico.

Acontece que, no Brasil, a impunidade é coisa que vem junto com o ingresso do sujeito no serviço publico. O cidadão comum, uma vez eleito para qualquer cargo que seja, torna-se intocável. Praticamente não ha limite. A lei não consegue mais alcançá-lo. E junto com a eleição, vem o poder de estender essa impunidade a quem ele nomear funcionário publico. (“A única coisa que eles temem é a mídia“, lembra o personagem de Wagner Moura).

Todo o resto é conseqüência. O vasto edifício do crime no Brasil suplanta em muito os limites estreitos da corrupção policial. Ele se apóia na pedra fundamental da ilimitada impunidade dos políticos e dos seus nomeados. Toda a cadeia de comando do país, da policia para cima, é especialmente suscetivel à corrupção em função dessa garantia de impunidade. É mais que natural, portanto, que os cabeças do “Sistema” estejam abrigados no centro dessas cadeias de impunidade, que coincidem com os centros nacionais de decisão política.

Basta romper a impunidade, ainda que parcialmente, para colher resultados fulminantes. Foi porque Alkmin instituiu um rito sumario para o julgamento de policiais corruptos que, em poucos anos, o numero de crimes graves caiu 70% em São Paulo. Mas, restrito ao ambiente policial, o processo de saneamento não pode ir muito longe.

É nesse sentido, portanto, que é precisamente exato o movimento de câmera final de Tropa 2 das favelas para as delegacias, destas para as sedes dos governos estaduais, donos das policias, e deles para o centro do poder (de ter e de outorgar impunidade) em Brasília.

Como já descrevi em outros artigos aqui no Vespeiro, os americanos reduziram a impunidade e a corrupção em seu pais a ponto de se tornarem o pais mais rico do mundo com cinco linhas de reformas principais:

  1. legislação anti-truste, limitando o direito de crescer das corporações privadas para fomentar a concorrência em nome da proteção do consumidor (é claro que numa economia onde o Estado é apenas e tão somente um ente fiscalizador);
  2. reforma do serviço publico com forte restrição às nomeações políticas; os funcionários com cargos executivos, policiais inclusive, passaram a ser diretamente eleitos pelo povo enquanto os cargos de confiança, estritamente políticos, foram drasticamente reduzidos e condicionados ao mérito;
  3. eleições primárias para tirar dos caciques dos partidos o poder de decidir quem tem ou não direito de pedir votos aos eleitores e voto distrital para tornar claro quem representa quem;
  4. despartidarização das eleições municipais que reduziu drasticamente o campo de ação dos políticos profissionais e da politicagem; hoje a maioria das cidades americanas não têm prefeitos, têm CEO’s demissíveis a qualquer momento;
  5. reforço dos mecanismos de democracia direta como o de iniciativa de propor leis populares, o de convocar referendos para confirmar ou suspender leis dos legisladores eleitos e o de “recall”, para cassar funcionários eleitos (do presidente da republica para baixo).

A discussão hoje, nos EUA, se dá em torno da conveniência de se eleger tambem os juízes de direto e dar ao povo o poder de cassar sentenças judiciais consideradas desonestas que já está em vigor em diversos estados e municípios do pais.

No Brasil e na America Latina, onde vivemos em sistemas que parecem democracias mas não são, usa-se pedaços dessa receita, aplicadas seletivamente, para reduzir ainda mais a democracia. Mas aplicada em conjunto e com garantias de transparência, para reforçar o cidadão e enfraquecer os políticos e não o contrário, ela é um santo remédio.

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