É pra comemorar ou pra chorar?

6 de junho de 2012 § 1 comentário

“Drone” mata Nº 2 da Al Qaeda

E a gente não sabe se comemora, aliviado, ou se chora.

Da guerra generalizada  à guerra individualizada. O que se tem agora são operações policiais com alcance planetário nas quais o alvo é previamente julgado, condenado à morte e inexoravelmente caçado até a execução.

Só fica-se sabendo que houve um julgamento e uma sentença depois que ela é executada.

É preciso formalizar esses processos de algum modo, ou…

Mas e a necessidade de segredo, como é que fica?

O terrorismo funciona.

Hoje toda pessoa é vigiada onde quer que esteja e seja o que for que estiver fazendo. Não era isso a anti-utopia de Orwell? (1984)

Não demora nada e algum stalinzinho (que certamente já nasceu e anda por aí) vai nos mostrar que o inimigo não era exatamente quem nós pensávamos que era e começará a ter “novas ideias” sobre pra que usar essa parafernalia toda…

A busca de segurança foi sempre o que levou os homens a se atirar nos braços da tirania.

O novo canto da velha sereia

5 de janeiro de 2010 § 2 Comentários

Está aí, passados 36 anos, o lance que Alain Peyrefitte previu em 1973: a China acordou … e o mundo tremeu.*

O lado bom dessa história é mais visível do Brasil que de qualquer outro lugar do mundo. Um quarto da humanidade mantida à força fora do século XX e levada à miséria extrema solta-se de repente e, sem lei e sem ordem,  salta para o século XXI faminta de commodities, em busca do tempo perdido…

Benza deus!

Abram os bolsos e fechem os olhos (para a pirataria institucionalizada e para a brutalidade do regime) porque esta é uma oportunidade única e, da China para dentro, o problema é dos chineses…

Será mesmo?

Não é o que Lula está enxergando. E se existe alguém que tem faro para os grandes eventos da meteorologia política, é ele.

O vôo da economia chinesa se dá, como alguém lembrou na imprensa esta semana, “num contexto de desastrosa perda de autoridade” da receita pregada pela grande democracia ocidental. A crise financeira, que promete mantê-los amarrados a crescimentos medíocres por não poucos anos, abalou fortemente a reputação de competência dos Estados Unidos. E os desastres  do Iraque e do Afeganistão, alem de não contribuírem em nada para reconstituí-la, apontam para o valor relativo da hegemonia militar no novo contexto que se anuncia.

O mundo já enfrentou o poder do capital, em conluio ou não com o poder do estado, e tambem o poder do estado totalitário incapaz de performance econômica. Mas a nova besta que a China soltou em campo mistura tirania com prosperidade. O capitalismo de estado, este híbrido que junta o pior de dois mundos, tira de cena os corolários ate aqui obrigatórios das tiranias – o atraso econômico e a pobreza – que, mais que todos os exércitos e todos os sonhos idealistas, as condenavam a uma duração limitada no tempo.

É uma perda terrível, essa do monopólio da afluência!

“…existe no coração humano um gosto depravado pela igualdade – dizia Tocqueville –  que leva os fracos a querer atrair os fortes ao seu nível e que reduz os homens a preferir a igualdade na servidão à desigualdade na liberdade”.

Sempre foi essa a força sedutora da tirania. Explorado por todos os tiranos para se instalar no poder, ironicamente foi tambem esse “gosto depravado”, com o sentido invertido, que acabou com as grandes ditaduras do século XX, quando elas ainda eram incapazes de produzir prosperidade. Mais que qualquer outra coisa era a vontade de possuir e de desfrutar, como os do outro lado, que atraia os olhares dos tiranizados para alem do Muro…

Agora, tudo empurra numa só direção. Quantos, como o Brasil, se deixarão seduzir pelo autoritarismo que põe dinheiro no seu bolso? E o capitalismo democrático, poderá sobreviver nesse ambiente?

Aquele “mercado”, força de sustentação e regulação do capitalismo democrático, é uma frágil construção jurídica. Um pacto entre pessoas. Baseia-se na subordinação de todos aos mesmos custos, às mesmas oportunidades e às mesmas regras do jogo. É um subproduto do estado de direito e do império da lei. Ultimo grau de refinamento do estado nacional, foi criado para funcionar em águas interiores.

Soçobrou na primeira onda do grande oceano sem lei da economia global.

Quando a revolução tecnológica derrubou as fronteiras nacionais e o capitalismo com limites, dos mercados com regras, passou a enfrentar o capitalismo sem limites das empresas-estados em mercados sem regras; quando a mão de obra do primeiro mundo passou a competir com a mão de obra quase escrava dos últimos  mundos, a primeira vitima foi a legislação antitruste que impunha a moderação dos apetites no capitalismo democrático.

Crescer ou morrer, o grito de alarme do primeiro momento de pânico, deu início à corrida de volta à lei da selva.

E o jogo mudou de natureza.  Sob a lei do mais forte, a escalada foi vertiginosa. Os cacifes, agora, já são de proporções nacionais. Ninguém pode banca-los sem o concurso do estado.

O que se vai desenhando é um mundo de poucos senhores e muitos servos, onde os reis de cada bloco, espontaneamente ou arrastados, anabolizam empresas com os BNDES e os TARPs da vida, criam um feudo em cada setor da economia grande o bastante para tragar todos os concorrentes à sua volta, e os distribui à sua corte de “empresários de relacionamentos”. E o resto dos mortais se torna, para tudo (do emprego ao consumo), dependente deles…

Não ha recuo suave dessa nova realidade da competição global sem limites. A volta às fronteiras nacionais instalaria uma guerra comercial de proporções catastróficas. Impossível mantê-la fria. Se for para seguir para frente, o mundo terá de caminhar junto daqui por diante.

Não parece ser o fim. Soa mais como um recomeço da História.

Seria o primeiro capítulo de uma nova História da Comunidade Humana que teria de partir da sopa ralíssima da presente média mundial de desenvolvimento político resultante da diluição, num caldeirão único, de todas as experiências nacionais vividas até aqui.

Por quanto tempo teríamos de fervê-lo até que esse caldo geral apurasse o suficiente para voltar a ter a consistência alcançada pelos povos que estão na vanguarda do desenvolvimento político nesta reta final da infância da humanidade? Eles consentirão num recuo? Terão condições de evitá-lo ?

Quem viver, verá…

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