O jogo mundial do poder

31 de maio de 2010 § 2 Comentários

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Série

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O Jogo Mundial do Poder

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No dia 8 de outubro de 2009 o Brasil se deparou com uma imagem inusitada. Sem mostrar nenhum sinal de azia, lá estava o presidente Lula lendo um jornal, com um bem humorado sorriso de satisfação estampado no rosto!

Quando nasce um jornal”, proclamava na legenda, “a democracia é reforçada”.

Nem sempre…

O recém lançado Brasil Econômico é uma das partes que nos cabe naquilo que pretende vir a ser o mais vasto latifúndio multimídia que jamais operou em todo o “universo lusófono” (Portugal, Brasil e ex-colonias portuguesas africanas e do Oriente),  segundo o ambicioso projeto em andamento, como diz o nome da empresa que se apresenta como sua proprietária, a Ongoing Strategy Investments, com sede em Lisboa, Portugal, à frente da qual aparecem Nuno Vasconcelos e Rafael Mora.

Na verdade, a Ongoing que, no mês passado, comprou também os três jornais e a licença de TV por assinatura do grupo carioca O Dia e anuncia para breve o lançamento de mais um jornal em Brasília, é uma peça de uma engrenagem muito maior.

Para entender esta história, será preciso destrinchá-la por camadas.

Na base de tudo está, como sempre, o Grande Jogo Mundial do Poder , que hoje é disputado em escala global.

Na era da economia movida a informação, um dos grandes objetivos desse jogo é controlar as estradas e as ruas por onde ela vai ter de transitar para chegar a cada usuário final ao redor do planeta.

Não é difícil entender por que.

Num futuro imediato, tudo que move o mundo de hoje – informação, entretenimento e dados – terá de transitar preferencialmente pelas redes físicas de telefonia fixa e pelas redes de fibras óticas para poder se deslocar de um ponto a outro do globo com o volume e a velocidade necessárias  ao regime de concorrência feroz em que viverá cada setor da economia (veja, no final desta matéria, mais informações sobre o funcionamento da “banda larga”).

Ao mesmo tempo, a “convergência de meios” acabará fazendo com que tudo que hoje circula sobre outros suportes, mais cedo ou mais tarde seja traduzido em bits e passe a circular por essas mesmas estradas e ruas (ou dutos informativos).

Hoje a industria da informação, dentro da qual se insere a imprensa, a única ferramenta autônoma de fiscalização do poder político a sustentar uma equipe profissional especializada dedicada a essa tarefa em tempo integral, é sustentada pela publicidade, um negócio que pode ser independente da política e que, no Brasil, movimenta perto de R$ 18 bilhões. A telefonia sozinha, movimenta 10 vezes mais. Se, como está pintando no Brasil, não houver uma forte regulamentação para garantir igualdade de direitos no uso dessas estradas e para separar a tarefa de construí-las e gerenciar o trafego dentro delas da de produzir os conteúdos que vão transitar por esses caminhos vai se tornar possível sobrepor as duas coisas, o que tende a concentrar nas mãos de quem o tiver um poder capaz de por todos os outros de joelhos.

Na nova realidade de empresas transnacionais com orçamentos maiores que os dos estados nacionais, de propriedade ultra pulverizada, em que as crises globais são desencadeadas pelo mau uso do poder de manipular essas montanhas de dinheiro sem dono visível pelos administradores dessas corporações-gigantes, o problema do controle dos representantes deixa de ser exclusivo da política e a arena da luta pelos direitos civis migra para os campos da legislação financeira e do direito dos acionistas minoritários. Em outras palavras, fiscalizar esses novos donos do poder requer um regime de dedicação e um grau de especialização ainda maiores que os exigidos quando o problema se restringia ao campo da política.

Para tornar essa tarefa impossível não é mais preciso, para os ditadores em projeto, enfrentar o desgaste de produzir legislação para tolher a liberdade de imprensa. Basta armar as “teles” com essa dupla prerrogativa. Isso equivale a dar-lhes uma licença para matar, por asfixia econômica, os canais independentes que hoje se dedicam a fiscalizar os atos dos políticos e a fazer circular as opiniões, concentrando essa tarefa nas mãos de operadores que vivem na dependência de concessões e da regulamentação produzida pelos próprios fiscalizados.

Alem desse efeito, a distribuição de privilégios e prioridades na utilização desses dutos pode, teoricamente, armar a mão de quem tiver o poder de concedê-los com a capacidade de afetar decisivamente o resultado da competição em virtualmente todos os campos da economia, cada vez mais dependentes do “insumo” informação (dados).

Essa perspectiva, mais que real, iminente, assanha ambições gigantescas tanto no campo da política, hoje mera coadjuvante da verdadeira luta pelo poder porque ainda circunscrita a fronteiras nacionais, quanto, especialmente, no do poder econômico.

É sobre este pano de fundo que corre a nossa historia.

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A corrida pelo “ouro dos Incas”

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No momento, as grandes operadoras de telecomunicações se enfrentam para decidir quem vai dominar cada continente.

A Portugal Telecom (PT) é a única empresa de Portugal em condições de alimentar pretensões globais (ou, pelo menos, multinacionais).  Por isso ela atrai, como a luz aos insetos, todos os egos lusitanos inflados o bastante para aspirar participar do Grande Jogo Mundial do Poder . Mas Portugal e Espanha continuam presos àquela velha sina. “Reinos” pródigos na produção de ambições tão grandes quanto as maiores que a espécie humana é capaz de engendrar, suas economias não proporcionam escala suficiente para que elas possam ser satisfeitas em seu próprio território.

 

Assim, o domínio pelas duas “teles” ibéricas do mercado brasileiro, que por razões desconhecidas oferece-se preferencialmente a elas, está para as pretensões de Portugal e Espanha de continuarem disputando o Grande Jogo Mundial do Poder como a conquista do “ouro dos Incas”, do “Potosí”, do “Eldorado” esteve, 500 anos atrás, para suas esperanças de continuar na primeira divisão do jogo mercantilista.

A trama que trouxe a Ongoing ao Brasil – ha um ano sob investigação de uma comissão de inquérito da Assembléia da Republica portuguesa – insere-se nesse panorama e mistura a corrupção do governo socialista de José Sócrates, em permanente guerra com a imprensa, com movimentos muito mais que suspeitos de bancos públicos e bancos privados lusitanos para garantir para a Portugal Telecom, dona, meio a meio com a Telefônica de Espanha, da Vivo no Brasil, o exercício desse poder ao menos no chamado “universo lusófono”.

Já a Telefônica de Espanha, que herdou a rede de telefonia fixa da Telesp, por via das duvidas arma também o seu grupo de mídia no Brasil, em aberto desafio à norma constitucional, por meio da operação jornalística abrigada dentro do portal Terra. Mas no que ela confia mais é na possibilidade de absorver a Portugal Telecom inteira antes que esse jogo vá muito mais adiante do que já foi.

Ha duas semanas, aliás, ela lançou uma proposta sobre os acionistas da Portugal Telecom, oferecendo US$ 7 bilhões pelos 50% que ela tem da Vivo no Brasil. Essa proposta, com a recusa da PT de sequer considera-la, promete evoluir para uma guerra aberta logo adiante.

Ha ainda a Oi/Telebras, que entra nessa guerra em aliança formal com o estado petista mas já nasce com vícios e dividas que comprometem o seu desempenho futuro, e a Telmex/Claro, uma das gigantes do mundo, disputando com a Telefônica a posição de provável grande consolidadora do setor no Brasil.

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O “agente secreto” da piada

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Mas o que nos interessa para o momento é o caso português, que pode ser tomado como um paradigma.

Por razões fortuitas ele acabou sendo exposto ao publico com um nível de detalhe impensável em outras circunstâncias. E isto nos permite entrever como se ajustam os interesses do poder político e do poder econômico para, um com a ajuda do outro, lançarem mão  dessa ferramenta decisiva. Não errará por muito quem tomar esta história como um padrão das relações perigosas entre “teles” e governos ao redor do globo…

No caso em exame, foi a sede de vingança do primeiro-ministro José Sócrates contra a imprensa livre que veio juntar a fome à vontade de comer. A ele interessava criar um grupo de comunicações simpático ao governo e vingar-se de alguns jornalistas incômodos. Ao grupo que, dos bastidores, comanda os movimentos da Portugal Telecom, interessa preparar a companhia para ocupar os espaços a serem disputados pelas mídias convergentes articulando o gigante midiático que pretende ser hegemônico ao menos no “mundo lusófono” ou, em caso de uma (provável) derrota para a Telefônica de Espanha na disputa pelo Brasil, reforçar a herança que a PT vai deixar.

A conspiração que uniu os dois veio a publico por acaso, no meio de gravações telefônicas feitas pela Policia Judiciária portuguesa que investigava um dos casos de corrupção envolvendo o governo Sócrates (e os ha para todos os gostos). Em função da divulgação desses telefonemas pela imprensa o país ficou sabendo, contada por seus próprios protagonistas, a verdadeira história que o levou a abortar no ultimo momento uma operação montada para estruturar uma rede de jornais e televisões que o tratassem com brandura, que começava pela compra pela Portugal Telecom da maior rede de televisão aberta do país, a TVI pertencente à espanhola Prisa, na qual as grandes eminências pardas das finanças portuguesas, aproveitando-se do incontido ódio do primeiro ministro aos órgãos de imprensa que o hostilizavam, trataram de usá-lo para fazer avançar um projeto bem mais ambicioso.

A única parte desse projeto que conseguiu avançar livremente é a que diz respeito ao Brasil e às demais antigas colônias portuguesas na África e no Oriente. No próprio Portugal, com os primeiros vazamentos sobre o complô para a imprensa na véspera da eleição de setembro de 2009, a Portugal Telecom foi obrigada a sair (só oficialmente) do páreo por um ato a que foi forçado o próprio José Sócrates, temeroso de que mais um escândalo pudesse atingi-lo. Isso ajudou a dar-lhe a vitória na eleição e a renovar o mandato como primeiro-ministro.

Mas a Portugal Telecom não podia dar-se o luxo de abandonar o seu projeto. Assim, voltou ao seu plano original. Abusando da “cara de pau”, porém. Literalmente no dia seguinte ao anuncio do resultado da eleição, no mais puro estilo do “agente secreto português” da piada,  a Ongoing Strategy Investments, que já vinha sendo preparada para isso ha muito tempo, apresenta-se propondo-se a fazer as mesmas compras que a Portugal Telecom tinha sido impedida de fazer.

Por pouco não conseguiu.

Foi quando já festejava a vitória que vieram a publico as gravações fatídicas.

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A conexão portuguesa do “Mensalão”

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A investigação que se seguiu, e continua até hoje, remete a personagens velhos conhecidos dos brasileiros que têm em comum com José Sócrates um declarado ódio à imprensa livre e que tiveram papel central na “conexão portuguesa” do famigerado “Mensalão do PT”, episódio que, na época, cresceu em importância porque foi nele que se esboçou a única ligação direta entre aquele escândalo e a pessoa do presidente Lula.

Sr. e sra. José Dirceu

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O onipresente José Dirceu, que operava também a “conexão portuguesa” do “Mensalão”, se apresenta, agora, no time dos colunistas permanentes do Brasil Econômico. E sua mulher, Evanise dos Santos, vem a ser a “diretora de marketing” da empresa que assumiu o ramal brasileiro da operação, a Ejesa, editora do Brasil Econômico, “pertencente à” … esposa brasileira do dono português da Ongoing Strategy Investments, Maria Alexandra Mascarenhas Vasconcelos.

É com essa história que ofende qualquer inteligência superior à de um primata que Nuno Vasconcelos e as forças por trás dele pretendem passar por cima da norma constitucional que proíbe a posse por estrangeiros de meios de comunicação no Brasil em proporções maiores que 30%.

Foi, aliás, em função da falta de cerimônia com que Nuno Vasconcelos repete explicações desse gênero para tudo que diz respeito à origem das centenas de milhões de euros que a Ongoing movimenta, sempre com uma largueza que não corresponde à racionalidade dos negócios em que entra que, lá onde o conhecem melhor, os seus passos foram, por enquanto, atalhados.

Sr. e sra. Nuno Vasconcelos

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Seja como for, é preciso, antes de mais nada, ter bem claro em mente sobre quem se está a falar quando se fala de Nuno Vasconcelos. E é esta a história que começaremos a contar no capítulo de amanhã.

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Banda Larga

O fio do telefone

O fio do telefone pode transmitir dados em várias freqüências, mas apenas as freqüências entre 1 e 4 mil hertz servem para a conexão discada. Essa faixa de freqüências é, portanto, compartilhada pela voz e pela internet, ou seja, só dá para usar uma de cada vez, o que provoca “engarrafamentos”.

Internet banda larga

A banda larga do tipo ADSL (da sigla em inglês para “linha de assinante digital assimétrica”) também usa o fio de telefone.  Hoje, tudo que passa por esse fio passa pela faixa de 1 a 4 mil hertz. Mas, para o transito de dados, esse fio suporta cerca de 250 faixas de freqüência.  Com a nova tecnologia, todas as outras freqüências entre 1 e 1 milhão de hertz poderão ser usadas para mandar e receber dados, inclusive os de voz, sem necessidade de alternância. E isso resulta no enorme aumento da velocidade de trânsito desses dados, pela chamada “banda larga”. Esse tipo de conexão pode chegar a 8 Mbps (milhões de bits por segundo).

A conexão por cabo, assim como o ADSL usa diferentes freqüências para dados e voz no fio de cobre, divide freqüências para a internet e os canais de TV. Só que o cabo comporta muito mais faixas de frequencia do que o fio de cobre e a conexão pode chegar a 30 Mbps

A conexão wireless é feita por ondas de rádio. Usa um modem específico e o usuário precisa ter uma antena e um rádio instalados em casa. Acaba sendo uma opção cara, mas a conexão é rapidíssima – 11 Mbps .

A conexão por satélite também usa ondas de rádio e, portanto, tem o mesmo potencial de transmissão do wireless (até 11 Mbps). A vantagem é que, via satélite, a conexão não sofre interferências ambientais – de uma montanha, por exemplo -, o que acontece no wireless.


Um meteoro no céu da mídia

30 de maio de 2010 § 4 Comentários

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Série: O Jogo Mundial do Poder

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Um meteoro no céu da mídia

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Nuno Rocha dos Santos de Almeida e Vasconcelos, 45 anos, mais conhecido como Nuno Vasconcelos, “dono” da Ongoing Strategy Investments, é o mais fulgurante meteoro que jamais riscou os céus do universo da mídia em Portugal.

De 2007 em diante, comprou 6,9% da Portugal Telecom (PT), o que fez dele o segundo maior acionista da maior empresa de Portugal; 3,5% da Zon Multimedia, antiga PT Multimedia, desmembrada da empresa mãe em 2007 para operar todos os negócios da Portugal Telecom, excluídas a telefonia fixa e a telefonia móvel, e hoje controla 90% do mercado de TV por assinatura, é o maior provedor e tem o maior portal de internet e é dona da maior produtora de conteúdos para TV de Portugal (atua em todos esses ramos em outros países também); tornou-se sócio, com perto de 2%, do Banco Espírito Santo, o maior banco privado do país; comprou o Diário Econômico e o Semanário Econômico de Lisboa por um preço que os próprios vendedores consideraram “irrealista”; montou a Mobbit, que dá consultoria, desenha, hospeda e opera todo tipo de solução de internet tais como sites para qualquer finalidade (inclusive os dos jornais do grupo), iTVs corporativas, painéis informativos, displays de publicidade, etc, em Portugal e no Brasil; tentou comprar a TVI, a maior rede de televisão aberta de Portugal (ele já era sócio da segunda maior rede, pertencente à Impresa, da família Pinto Balsemão); fez uma oferta hostil pela maioria das ações da Impresa; lançou do zero o Brasil Econômico; comprou os três jornais e a licença de TV por assinatura do grupo carioca O Dia; promete para breve o lançamento de um jornal generalista em Brasília “para falar de política”; iniciou as transmissões da TV Econômico de Portugal em dois canais de cabo, um deles em HD; comprou a GPTI, empresa de outsorcing com 19 anos de atuação no Brasil e uma vasta carteira de clientes nas áreas de governo, finanças, telecomunicações, consumo e serviços; lançou o jornal econômico Expansão em parceria com o segundo maior grupo de mídia angolano, o Score Midia; anunciou para breve a assinatura de um acordo também com o primeiro grupo de mídia de Angola, o Media Nova, dono da TV Zimbo, da Radio Mais, do jornal O Pais, do semanário Econômico e da revista Exame; anunciou acordo, com opção de participação acionária, com o grupo Soico, de Moçambique, dono da STV (líder de audiência), da rádio SFM, do jornal O Pais e do jornal Border Post, bilíngüe, visto como “uma porta de entrada para a África Austral”; constituiu a CTN Transnational Contents, criada para oferecer conteúdos audiovisuais e consultoria para TVs de língua portuguesa, dirigida por Fernando Maia Cerqueira, que trabalhou sete anos em Macau implantando a TV local e é o encarregado de expandir a rede Ongoing para o Extremo Oriente.

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Sabões, náufragos e degredados

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Sede da Sociedade Nacional de Sabões

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O capital em que se ancora todo este império, segundo Nuno Vasconcelos,  tem sua origem na prosaica Sociedade Nacional de Sabões (SNS) que chegou a ser uma potencia para os modestos padrões portugueses na fase em que produziu para o mercado local marcas mundiais, como Colgate e outras, sob licença.

Ele se diz “o único herdeiro” da SNS. Mas nem isso é verdade. Segundo fonte que conhece de muito perto a história da empresa, o avô materno de Nuno (família Rocha dos Santos) era, na verdade, sócio minoritário (40%) da SNS cujo maior dono era a família Beirão da Veiga (60%). Esse avô teve dois filhos, cabendo a cada um 20%. O tio de Nuno vendeu sua parte aos Beirão da Veiga em 1987. A parte de sua mãe,  “Belucha” (Isabel), foi vendida ao mesmo comprador em 1992, ano em que seu avo morreu, por um milhão de contos, equivalente a algo entre 5 e 6 milhões de euros.

Para cuidar do produto dessa venda foi criado um family office que, sob a chefia de Nuno, passaria a cuidar do dinheiro da família. É ele que dará origem, em 2004, à Ongoing Strategy Investments.

Já seu pai, Luis Vasconcelos, do qual viveu afastado em função do divorcio e do segundo casamento da mãe que levou a família para morar nos Estados Unidos, foi administrador e sócio (23%) de Francisco Pinto Balsemão, criador do jornal Expresso, o primeiro a se estabelecer depois da redemocratização. O jornal deu origem ao grupo Impresa, dono da segunda rede de TV, em audiência, do país – a SCI – e de uma editora de revistas.

Sobre o valor da herança do pai, morto em 2009, Nuno Vasconcelos em pessoa, depondo em março deste ano à Comissão Parlamentar de Ética da Assembléia da Republica que examina a conspiração do governo Jose Sócrates para por de joelhos a imprensa livre de Portugal, disse o seguinte: “Nos últimos dez anos não houve distribuição de dividendos pelos acionistas; a empresa vale metade do que valia e 75% do valor dos acionistas foi destruído“.

E, no entanto, partindo dessas duas heranças relativamente modestas, Nuno Vasconcelos se transformou, de repente, justamente durante os dois anos da maior crise que o mundo vira desde 1929, em que faltava dinheiro para tudo, no maior comprador de empresas de telecomunicações e de mídia da história de Portugal.

Barrado em seu país por violação das leis de proteção à concorrência e em função das suspeitas sobre a origem do dinheiro que movimenta e do envolvimento com o plano do governo para interferir com a liberdade de imprensa, Nuno Vasconcelos e a sua Ongoing, como os náufragos e os degredados do passado, veio dar com os costados na Terra de Vera Cruz.

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Do zero ao infinito

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Difícil não é saber de onde vem o dinheiro que a esposa de Nuno Vasconcelos alega ter investido para fundar o Brasil Econômico e comprar os jornais do grupo O Dia. Difícil é saber de onde vem o dinheiro do próprio Nuno Vasconcelos.

Mas é possível.

A súbita escalada do dono da Ongoing do tranqüilo vale do seu family office para os mais altos picos das finanças portuguesas coincide com a tentativa do grupo Sonae, do empresário Belmiro de Azevedo, que fez dinheiro no ramo de supermercados mas também mantinha um pé nas telecomunicações, associado à France Telecom, de comprar o controle da Portugal Telecom por meio de uma oferta hostil por um mínimo de 50% + 1 do total das ações, apresentada no início de 2006.

Algo parecido com o que a Telefônica de Espanha está tentando fazer novamente neste momento.

Foi um verdadeiro terremoto em Portugal, pátria do “capitalismo de relacionamentos” onde nada se faz sem antes combinar cada passo com o governo e com a pequena confraria dos poderosos que estão sempre na sua órbita (ou será o contrario, visto que os governos se alternam e os poderosos continuam sempre os mesmos?).

O estado português detém pouco mais de 7% das ações da PT e mais 500 “golden share” que lhe dão direitos especiais. É ele quem nomeia um terço do conselho de administração, o seu presidente, estabelece os limites ao direito de voto dos demais acionistas e tem o poder de vetar decisões estratégicas. Esta ferramenta, sobretudo nas mãos de um “sócio” com os poderes do estado, tira a transparência da gestão e permite as obscuras manipulações mais voltadas a projetos de poder do que a criar valor para os acionistas em que a empresa se envolve, exatamente como estas que transformaram Nuno Vasconcelos, da noite para o dia, num dos membros do seleto grupo dos grandes acionistas da PT.

Partindo do principio de que a Portugal Telecom não esta entre as futuras consolidadoras do setor, muito pelo contrario, o projeto da Sonae propunha acabar com as “golden share”, descartorializar o setor, dar total liberdade aos acionistas para dispor como quisessem de suas ações, abandonar os negócios paralelos e focar a gestão na criação de valor para os acionistas. Isso sinalizava para o desmembramento das redes de cabo e de telefonia fixa, a separação das atividades de telefonia das de produção e distribuição de conteúdos (na época concentradas na PT Multimedia, hoje Zon) e até a possível venda dos 50% que a PT tem na Vivo à Telefônica. Seria a única maneira que o grupo Sonae teria de pagar o investimento feito na compra do controle da PT. Por esta, razão seu projeto foi apoiado pela companhia espanhola que detém 10% da PT e é dona dos outros 50% da Vivo.

Como o premio oferecido pela Sonae aos acionistas minoritários era muito tentador (como também ocorre hoje com a proposta da Telefônica), o perigo de que a oferta fosse aceita era real.

Em função disso, o governo e seus aliados trataram de protelar ao máximo a decisão, para ganhar o tempo necessário para organizar a resistência. Essa articulação envolveu desde a criação de novos sócios simpáticos à manutenção do status quo até manobras para impedir a articulação de acionistas minoritários de forma a reduzir o numero de votantes não comprometidos com a rejeição da oferta na reunião decisiva.

Foi nessa canoa que Nuno Vasconcelos embarcou rumo ao estrelato.

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O pai, o filho e o Espírito Santo

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Os mapas dos acionistas da PT publicados na época mostravam que a propriedade da companhia era – como continua a ser – muito  pulverizada. Mas é certo que a Ongoing e suas coligadas não constavam deles.

Em janeiro de 2006, quando a Sonae apresentou sua oferta, Nuno Vasconcelos e suas empresas ainda não tinham uma única ação da Portugal Telecom.

Na conturbada Assembléia Geral de Acionistas que finalmente se reuniu a 2 de março de 2007, mais de um ano depois, para decidir a aceitação ou rejeição da oferta da Sonae, a Ongoing já era dona de 3% da PT.

Para escândalo de muitos, Nuno Vasconcelos conseguiu, no momento da votação, cooptar o presidente da Associação dos Acionistas Minoritários para representar a sua pessoa e não os seus associados que, assim, acabaram não votando. Mas não foi só. No calor dessa mesma Assembléia Geral, Nuno Vasconcelos foi, de repente, eleito “administrador” da Portugal Telecom, fato que provocou contestações até na Assembléia da Republica onde deputados exigiram que fosse apresentado o seu curriculum para averiguar o que, nele, poderia recomendá-lo para essa função.

Hoje, Nuno Vasconcelos já tem 6.9% da PT. É o segundo maior acionista privado, portanto, depois do Banco Espírito Santo (BES) que tem pouco menos de 9% (acima do BES, só ha a Telefônica de Espanha, com 10%).

Junto com seu sócio, Rafael Mora, ele vinha armando esse bote ha anos. Os dois eram sócios numa empresa de “gestão de talentos”, a Heidrick & Struggles, que começou a operar em Portugal em 1995 e logo passou a assessorar a Portugal Telecom, o Banco Espírito Santo, o Banco Comercial Português e outras empresas que seriam decisivas para o seu futuro salto financeiro e para compor a frente que barrou a aceitação da oferta da Sonae.

Dois anos depois, com a publicação, em 2009, do balanço de 2008 da Ongoing e as subseqüentes investigações sobre seus números, foi possível montar a história que correu nos bastidores sobre como foram financiadas as compras de Nuno Vasconcelos dentro e fora da Portugal Telecom.

O primeiro passo parece ter sido um empréstimo de 216,4 milhões de euros do Crédit Suisse (que também tinha uma participação de 2,34% na PT). Hoje parece claro que o banco recebeu garantias de alguém que as tinha mais sólidas do que as que a Ongoing podia oferecer. Esse dinheiro terá sido usado para comprar as primeiras ações da PT, que a Ongoing “deu como garantia” para outros empréstimos, daí por diante tomados a bancos bem mais maleáveis.

A maior fatia veio do Banco Comercial Português (BCP), banco privado com poderosas filiais em Angola e Moçambique, que está sob intervenção do governo socialista. O BCP é dirigido, no momento, por um personagem que carrega o sugestivo nome de Armando Vara e tem estado ao lado de José Sócrates desde os seus primeiros passos na política. Envolvido em todos os escândalos que atingiram o atual primeiro ministro, Armando Vara chegou a ser condenado por corrupção.  Mas logo depois da condenação, foi colocado por José Sócrates na direção da Caixa Geral de Depósitos (CGD), o maior banco estatal de Portugal, de onde saltou para o BCP, como interventor, no momento em que era o pivô de mais uma investigação por corrupção, o “caso Face Oculta”,  no qual acabaram sendo colhidas as gravações sobre a conspiração socialista para comprar a TVI e outros órgãos da imprensa portuguesa.

O BCP, sob Armando Vara, “emprestou” à Ongoing de Nuno Vasconcelos nada menos que 400 milhões de euros.

Mas ainda não era suficiente.

Ricardo Salgado

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Foi então que o maior banco privado português, o Banco Espírito Santo e sua subsidiária, BES Investimentos, dirigidos por Ricardo Salgado, uma das figuras mais poderosas da republica, deslocou-se dos bastidores para a linha de frente. Já estava difícil contornar as regras bancárias para colocar ainda mais dinheiro no topo de uma pirâmide cuja base continuava a ser a modesta herança de Nuno Vasconcelos proveniente de um pedaço de uma velha fábrica de sabões e de uma participação  minoritária no quase falido empreendimento jornalístico dos Pinto Balsemão. O BES, portanto, só pôde “emprestar” à Ongoing 160 milhões de euros. Outros 60,8 milhões vieram do BES Investimentos, na forma de “investimento de risco” em commercial papers emitidos pela Ongoing, sem cotação no mercado.

Em julho de 2009 a Ongoing Strategy Investments publicou seu balanço relativo ao ano anterior. Ele dava conta de que a empresa terminou 2008 (antes, portanto, de dar início às suas compras d’além mar) com um passivo de 831 milhões de euros e um prejuízo consolidado, somente naquele ano, de 65 milhões de euros.

Notas do auditor independente alertavam para o “iminente risco de insolvência”, visto que 97,5% dessa dívida era exigível no curtíssimo prazo.

Mesmo assim, Nuno Vasconcelos mostrava-se tranqüilo e continuava falando grosso.

Disse à imprensa que tinha “excelentes garantias”, que todo o passivo estava sendo renegociado em prazos mais longos e que (apesar do vertiginoso mergulho das bolsas em plena crise do subprime) os dividendos que recebia de suas ações na Portugal Telecom eram suficientes para honrar todos os seus compromissos. Tanto assim que pretendia pagar os 157 milhões  de euros que oferecera pela TVI “à vista e em cash”.

Com a posição que montou na Portugal Telecom graças à ilimitada confiança com que o tratavam esses banqueiros, Nuno Vasconcelos e seu sócio Rafael Mora conquistaram o direito de fazer parte do Conselho de Administração da Portugal Telecom.

Aí ficou mais fácil.

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Dentro do cofre

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O presidente do fundo de pensão dos funcionários da PT, Fernando Soares Carneiro, também fazia parte do grupo de José Sócrates. Tinha sido plantado na companhia como um dos representantes do sócio estado no conselho, compondo o time que, a pretexto da tentativa de take over da Sonae, chegou à PT com a missão de derrubar o então presidente da empresa, Henrique Granadeiro, para colocar Zeinal Bava, o atual dirigente da confiança do grupo de Sócrates, em seu lugar. Executada a tarefa, Soares Carneiro passou a controlar o fundo de pensão dos funcionários.

A Portugal Telecom era, agora, dos socialistas e de seus aliados. Mas havia, ainda, um elo fraco na corrente.

Na reunião de 30 de junho de 2009, quando o Conselho de Administração examinou as contas semestrais da PT, Jorge Tomé, membro do Comitê de Investimentos, deparou-se com uma ata em que se registrava a “aprovação por unanimidade” de um “investimento” de 35 milhões de euros do fundo de pensões dos funcionários da PT num fundo de private equity da Ongoing International , com sede no paraíso fiscal de Luxemburgo. Indignado ele interpelou o presidente do fundo de pensão e seus colegas do Comitê de Investimentos afirmando que tal aprovação nunca tinha acontecido e o caso sequer fora debatido no conselho de que fazia parte,  o que era duplamente grave porque beneficiava uma empresa que detinha ações da PT e cujos donos tinham assento no conselho encarregado de aprovar tais “investimentos”. Investigando mais fundo, constatou que outros “investimentos” do fundo dos empregados da PT tinham sido feitos na Ongoing International nos meses anteriores. Foram 105 milhões de euros, ao todo, por este canal.

Jorge Tomé, que tem uma sólida reputação nos meios financeiros portugueses, pediu a correção da ata, demitiu-se de seu cargo na PT e foi à imprensa delatar a ocorrência. Em depoimento à comissão de inquérito da Assembléia da Republica no mês passado, confirmou todas as acusações.

Interpelados, Nuno Vasconcelos e Rafael Mora afirmaram, na cara dura, em depoimento em que foram corroborados por Ricardo Salgado, do BES, que eles mesmos tinham sugerido ao fundo de pensões da PT que saísse das “aplicações mal remuneradas em que estava” e aplicasse o dinheiro no seu próprio fundo, que proporcionava “retornos de dois dígitos”. E mais disseram: que a Ongoing Strategy Investments e a Ongoing International eram empresas “totalmente independentes entre si” e que o dinheiro das pensões dos empregados da PT “jamais seria usado nas aquisições de veículos de mídia”.

Já sabemos, portanto, como é que foi vestido este santo, e quem foram os mais generosos entre os que depositaram nele a sua devoção. Amanhã vamos mostrar qual o tipo de milagre que esperavam dele.

Obsessão fatal

29 de maio de 2010 § 4 Comentários

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Série: O Jogo Mundial do Poder

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Obsessão fatal

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Na extensa lista de casos que puseram o atual primeiro-ministro português, José Sócrates, sob forte suspeita de corrupção, duas datas são especialmente marcantes: 27 de março de 2009 e 12 de fevereiro de 2010.

A primeira caiu numa sexta-feira, dia de maior audiência do Jornal Nacional da TVI, apresentado por Manuela Moura Guedes, casada com  o diretor da rede, José Eduardo Moniz. Ela colocou no ar, em rede nacional, um DVD recebido da policia inglesa que mostrava três homens reunidos numa sala. Eram eles, Alan Perkins, administrador do projeto Freeport, que gravou o vídeo sem o conhecimentos dos demais, João Cabral, funcionário da Smith & Pedro, firma especialmente criada para desenvolve-lo, e Charles Smith, o empresário escocês que era o dono do empreendimento.

Na reunião, Smith dizia aos outros dois que José Sócrates era corrupto, e lhes explicava em detalhe como ele pediu e recebeu 500 mil euros pagos em parcelas de 50 mil euros a um primo do primeiro-ministro através de empresas offshore sediadas na Suíça e em Gibraltar, para garantir a continuação da operação do Freeport, o maior outlet de toda a Europa.

O caso Freeport vinha se arrastando desde 2002. Em março daquele ano, faltando três dias para as eleições legislativas (que o Partido Socialista perderia para o PDS de Durães Barroso), José Sócrates, então ministro do Meio Ambiente do governo Antonio Guterres, baixa um decreto alterando a delimitação da Zona de Proteção Especial do Estuário do Tejo que o governo português tinha acordado com a União Européia para permitir que o projeto Freeport fosse construído no terreno de uma antiga fabrica da Firestone desativada em função do zoneamento ambiental.

Acusado pelos ambientalistas, Sócrates safou-se com a afirmação de que tudo não passava de uma denuncia de véspera de eleição.  Desde então, o processo vinha rolando no típico ritmo de quem não quer chegar a lugar nenhum.

Agora primeiro-ministro, o Freeport voltava do tumulo para assombrá-lo, pelas mãos da polícia inglesa que investigara por seu lado a falcatrua e enviara o resultado do que descobrira à justiça portuguesa (mencionando que 15 autoridades, entre elas o ex-ministro Sócrates, tinham sido subornadas). Mas, na cabeça de Sócrates, a culpa era da imprensa. Esmagar Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz passa a ser uma obsessão que o primeiro-ministro não se cansa de verbalizar, até em discursos oficiais em eventos públicos de alta visibilidade como, por exemplo, o Congresso Anual do Partido Socialista.

Como o Freeport era apenas um dos casos suspeitos em que estava envolvido e diversos órgãos de imprensa insistissem em prestar contas dos demais à opinião publica, Jose Sócrates foi desenvolvendo aquilo que alguns observadores portugueses hoje descrevem como “uma relação doentia com a mídia”.

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Pelo Telefone

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Essa relação doentia apareceu de corpo inteiro no dia 12 de fevereiro deste ano quando o semanário Sol publicou uma serie de gravações de telefonemas trocados entre próceres do governo socialista (inclusive  o primeiro-ministro), banqueiros e administradores da Portugal Telecom, em que se revelava uma trama mirabolante que começava pela compra da maior rede de TV aberta do pais, a TVI, da qual seriam expelidos os dois desafetos do primeiro-ministro, e prosseguia com a montagem de um grande grupo de comunicação social para apoiar o governo que se tornaria “parceiro estratégico” da PT. Numa primeira fase, o plano contemplava a compra da Confina, que publica o Correio da Manhã, ou da Impresa (jornal Expresso, revista Visão e rede SCI de TV). No final da conspiração, considerou-se também o grupo Controlinveste (Diário de Noticias, Jornal de Noticias, rádios, TV e internet) e até o jornal Publico, dos mesmos proprietários do grupo Sonae. A integra da matéria está aqui: http://fliscorno.blogspot.com/2010/02/escutas-socrates-vara-penedos-rui-pedro.html

Por tudo que se sabe hoje, está claro que o destempero de Sócrates veio ao encontro de um plano bem mais antigo e consistente que os poderosos de Portugal vinham articulando ha muito mais tempo, com o objetivo de transformar a Portugal Telecom num gigante multimídia capaz de estender o poder de seus controladores muito alem das exíguas fronteiras portuguesas. Como ponta de lança desse projeto, a Portugal Telecom usaria o grupo Ongoing, conforme telefonema gravado de Fernando Soares Carneiro a Armando Vara: “À PT interessa ter um acionista forte no campo dos media, ainda mais se se consubstanciar uma operação com a Media Capital”.

A jogada de Sócrates acabou, na verdade, sendo uma grande atrapalhação para um projeto desenhado para se desenvolver na surdina, e no qual a consolidação das posições da PT no Brasil eram e continuam sendo o elemento chave.

Comandava a articulação de Sócrates o seu antigo sócio e fiel escudeiro Armando Vara, que aparece em todas as manobras ilícitas registradas no seu percurso político. E seus principais interlocutores eram Rui Pedro Soares, administrador executivo da Portugal Telecom, seu assessor Paulo Penedos, filho de um dos ministros de Jose Sócrates, e Zeinal Bava, atual presidente da PT.

As gravações foram autorizadas pelo juiz de instrução da comarca de Aveiro, Antonio Gomes, que estava montando o chamado “processo Face Oculta”, que investigava negócios escusos entre diversos ministérios e governos municipais socialistas com um “empresário” – Manuel Godinho – dono de extensa ficha policial.

Sócrates, Armando Vara,

Rui Pedro Soares, Paulo Penedos, Zeinal Bava

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Faltando três meses para as eleições legislativas de setembro de 2009, este juiz, juntamente com o procurador João Marques Vidal, requer à Procuradoria Geral da Republica, em documento oficial, que abra um processo autônomo sobre um determinado conjunto das escutas colhidas que “fornecem indícios muito fortes da existência de um plano em que está diretamente envolvido o governo, nomeadamente o senhor primeiro-ministro, visando a interferência no setor da comunicação social e o afastamento de jornalistas incômodos” e alertando, ainda, que os participantes do complô, “que consubstancia atentado ao Estado de Direito” tentaram, também, “condicionar a atuação do presidente da Republica” (Aníbal Cavaco Silva).

O Procurador Geral da Republica, entretanto, sentou-se em cima do pedido do juiz de Aveiro e o manteve em segredo.

Portugal permaneceu alheio ao que se passava até à véspera da eleição quando começou a vazar para a imprensa um suposto movimento da Portugal Telecom para comprar a TVI, movimento este que acabou sendo detido pelo próprio Sócrates que anunciou que usaria a golden share do governo para impedi-lo se a PT realmente estivesse pensando nisso.

A eleição se deu sob o eco desse veto e Sócrates foi reeleito.

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Interposta pessoa

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Nuno Vasconcelos

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Passadas 24 horas da reeleição de Sócrates,  a Ongoing Strategy Investments, de Nuno Vasconcelos e Rafael Mora, anuncia a compra de 35% da Media Capital.

O negócio acabou sendo barrado pela Autoridade da Concorrência em função do fato de Nuno Vasconcelos deter uma participação de 23% no grupo Impresa, dono da segunda rede de TV portuguesa, a SCI.

Esta era a versão que passaria à história, não fosse a decisão precipitada do Procurador da Republica de mandar destruir as fitas contendo as gravações em que estavam registrados os detalhes do que realmente se passou.

Essa ordem provocou a decisão de quem tinha guardado copias delas de passá-las para a imprensa. Foram estas as gravações que o Sol publicou, a 5 de fevereiro de 2010.

A TVI, a rede aberta de maior audiência em Portugal, pertence à Media Capital, empresa do grupo Prisa, da família Polanco que, entre outras coisas, publica o El Pais, da Espanha. Com uma divida superior a 5 bilhões de euros, o grupo precisa desesperadamente de liquidez e estava se desfazendo de diversos ativos. O plano era que a Portugal Telecom comprasse o controle da Media Capital.

Página do “Sol”

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Os telefonemas gravados pelo juiz de Aveiro cobrem toda a montagem da operação, em que se considera, por sugestão de Zeinal Bava, a opção de “fatiar a Media Capital”. Em vez de comprar toda a holding, “a PT compra diretamente só a internet e a produtora de novelas” enquanto “outras entidades mais inócuas compram 30% da TV”. Para tanto, os articuladores do plano tratariam de “mobilizar empresários amigos para contribuir para a compra do resto”.

Foi José Sócrates em pessoa quem insistiu que a compra inteira fosse feita diretamente pela Portugal Telecom. Como o que lhe interessava era atingir seus dois desafetos, ele queria ter a operação nas mãos para garantir que eles não escapassem.

Essa obsessão é que pôs tudo a perder.

O problema é que José Eduardo Moniz é indiscutivelmente o mais competente homem de televisão em Portugal. E todos os participantes da operação tinham consciência de que fuzilá-lo na imediata sequência da compra da rede pela PT provocaria demasiado ruído político. Era necessário, portanto, “negociar com ele” para que saísse por iniciativa própria antes da venda da Media Capital à PT.

Essa tarefa, na qual tiveram parte ativa Nuno Vasconcelos e seu sócio,  Rafael Mora, foi o que retardou fatalmente a operação.

O resumo das gravações enchem 14 páginas do Sol. Os detalhes são chocantes.

As articulações para a compra da TVI se estendem por quase um ano. As viagens secretas de Rui Pedro Soares para encontrar-se com Manoel Polanco em Madri vão se sucedendo e o acordo vai sendo montado. A cada ida e vinda, os detalhes são discutidos com Armando Vara e este articula os demais membros do esquema. A 19 de junho o negócio com a Prisa está quase fechado. Rui ordena a Paulo Penedos que envie os documentos definitivos a Manoel Polanco por e-mail. Vai jantar com Sócrates e volta a ligar a Paulo para dizer que “o chefe estava muito bem disposto”.

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Ladeira abaixo

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Mas já não é possível manter segredo.  Gente demais tem conhecimento da operação e a boataria cresce incontida.

A 23 de junho a assinatura do acordo é iminente. O Diário Econômico, de Nuno Vasconcelos (“pai” do Brasil Econômico), planta a primeira manchete sobre o assunto, para confundir, dizendo que “PT e Telefônica estão na briga pela Media Capital”.  Invocar a disputa com a Espanha é sempre o melhor meio de “blindar” qualquer ação da PT. Criticá-las seria antipatriótico. Rui e Paulo festejam a manchete: “Podemos escrever um livro e ser pagos a peso de ouro”, diz um deles às gargalhadas. Armando Vara também comemora.

Cedo demais.

Rui volta de Madri dizendo que os bancos da Prisa não estão aceitando as condições financeiras. Explica que as minutas tinham sido escritas pelo BES Investimentos. A negociação com Moniz está difícil e estão redigindo um novo documento. Os vazamentos já são muitos. No dia seguinte, o jornal “i”, socialista, dá em manchete: “PT compra 30% da Media Capital”.

Zeinal nega.

José Eduardo Moniz

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Rui preocupa-se é com Moniz. “Ele é a idéia fixa de Sócrates. Quer correr com ele antes da PT entrar”, diz a Paulo Penedo. E este: “Custe o que custar em termos de dinheiro, por muito que um gajo possa pensar que o crime compensa, vamos beneficiar o gajo; o Moniz deveria sair confortável para estar calado”. Rui ainda está em Madri e pede que alguém vá ao seu apartamento para pegar informações em seu computador. “A senha é Socrates2009”. Diz que fechou com a Prisa e que Sócrates já tinha acertado tudo com Zapatero (primeiro-ministro espanhol), mas que Moniz ainda era um impedimento.

Penedo lê para Rui, pelo telefone, o novo contrato para Moniz como “consultor do grupo PT na área de audiovisuais”. Rui explica a Penedos que as rádios da Media Capital serão compradas pela Ongoing e pelo genro de Cavaco Silva, Luiz Montez. “Isto é bom” diz Penedos, “quem é o autor dessa patifaria”? “É o preço da paz” responde Rui. “Este cala-se logo e fica a cuidar dos netos”…

Finalmente, a 10 de agosto, Nuno Vasconcelos consegue desatar o “nó” Moniz. A Ongoing anuncia a contratação de José Eduardo Moniz como seu diretor geral e este anuncia para os próximos dias a saída da TVI. O efeito é fulminante: as ações da SCI, a rede concorrente sobem 10% em poucas sessões da bolsa.

Mas já tinha havido barulho demais. A comissão de ética do parlamento convoca um debate sobre o assunto e os participantes do complô começam a ser interrogados. Sócrates é chamado e diz que “desconhece o negócio” e que o governo “não dá nem recebe informações da PT”. Armando Vara liga aos comparsas e diz que “isso foi um erro crasso”, que ele deveria ter dito que não fora oficialmente informado mas tinha conhecimento. Que ninguém poderá acreditar que ele não sabia de nada.  “As coisas vão correr mal. Isto está no ar ha tempo demais…

A pressão na imprensa e no parlamento chegam a um nível insuportável. Ha pânico entre os conspiradores em função do que possa vir a ser revelado com uma eleição à porta…

No dia seguinte, o presidente Cavaco Silva desafia publicamente a PT a esclarecer o caso. Zeinal Bava vai à RTP, a TV estatal, e dá uma entrevista pouco convincente negando tudo.

Mas é tarde demais. A eleição torna imperativo abortar o plano e por em curso o plano B (em que a Ongoing, diretamente, é quem compra a Media Capital e a TVI).

Sócrates vem a publico e anuncia que se o negócio prosseguir o estado usará sua golden share para vetá-lo.

E … da cappo…

No fim das contas, o grupo Ongoing ficou com o grande craque da TV portuguesa mas sem uma rede onde empregá-lo. E Nuno Vasconcelos e seus patrocinadores acabaram ficando presos numa armadilha. Até hoje a compra da Media Capital está em discussão na Assembléia da Republica, entre idas e vindas de Nuno Vasconcelos para vender sua participação na Impresa – que ninguém quer comprar – e assim livrar-se do impedimento da Autoridade da Concorrência, ou para comprar a maioria da Impresa e assim ficar com a segunda rede de TV, o que Francisco Pinto Balsemão, seu padrinho, que ele traiu no início da conspiração ao tentar lançar uma oferta hostil para comprar o grupo, não admite.

Enquanto espera, vai operando Brasil, Extremo Oriente e África. É lá que está hoje José Eduardo Moniz, costurando acordos em Angola e Moçambique.

Pelo meio, repetem-se os interrogatórios no parlamento sobre a origem do seu dinheiro e suas suspeitíssimas relações com a PT.

E para tumultuar ainda mais as coisas, cai-lhes agora sobre a cabeça a oferta hostil da Telefônica.

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Velhas amizades

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Roberto Jefferson

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O Banco Espírito Santo (BES) foi acusado pelo deputado Roberto Jefferson de ser o pivô de uma fracassada operação para resolver parte das dívidas de campanha do PT e do PTB. Este ultimo partido era, na época, o “dono” do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), dirigido por Lídio Duarte, indicado pelo próprio Jefferson. O plano era transferir para o BES US$ 600 milhões de reservas técnicas do IRB aplicados em outros bancos europeus, contra o pagamento de uma “comissão” de 50 milhões com os quais o PT saldaria dívidas de campanha com o PTB. Segundo Jefferson, a operação tinha sido combinada entre Dirceu e o diretor do BES no Brasil, Ricardo Espírito Santo, em encontros articulados, no Brasil e em Portugal, por Marcos Valério.

Jefferson foi mais longe: disse que até o presidente Lula tinha recebido  Ricardo Espírito Santo e Miguel Horta e Costa, na época presidente da Portugal Telecom, em Palácio, levados a ele por Marcos Valério em pessoa.

Foi, naturalmente, desmentido por todos os acusados.

Acontece que o “Mensalão” estava no início e o governo Lula ainda não tinha o know-how que tem hoje. Checadas as agendas nos sites oficiais da Presidência e da Casa Civil, tudo se confirmou. Lula tinha recebido Horta e Costa, Espírito Santo,  Valério e Dirceu em duas ocasiões: 21 de janeiro de 2003 e 19 de outubro de 2004.

Marcos Valério

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Instaurou-se o pânico entre os executivos do banco, apavorados com a perspectiva de se verem transformados no elo de ligação que faltava entre Lula em pessoa e o “Mensalão”.

Nos dias que se seguiram, notas oficiais coordenadas foram disparadas pelo Palácio do Planalto, pela Casa Civil e pelo Banco Espírito Santo onde todos admitiam o que era impossível negar, mas alegando que o que tinha sido tratado no encontro foram apenas os investimentos da Portugal Telecom no Brasil.

O banco e a Portugal Telecom continuavam negando, entretanto, os outros encontros mais recentes nos quais, segundo Jefferson,  teria sido articulada a operação envolvendo o IRB. Novamente as agendas oficiais, desta vez a da Casa Civil, provaram que ele estava dizendo a verdade, e todos tiveram que reformular suas histórias.

Sim, tinha havido uma reunião na Casa Civil com a presença de Ricardo Espírito Santo, Jose Dirceu, Marcos Valério e Emerson Palmieiri, tesoureiro do PTB, em 11 de janeiro de 2005. Treze dias depois, Valério, Palmieri e Dirceu seguiram para Lisboa onde, segundo Jefferson, iriam fechar o negócio envolvendo o IRB.

Desmentido pelas agendas oficiais, Ricardo Espírito Santo viu-se em maus lençóis. Convidado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito não conseguia esconder sua irritação: “Não precisamos de intermediários … investimos mais de 7 bilhões de euros no Brasil … O encontro com o ministro Dirceu foi uma reunião de apresentação … De onde conheço Valério? Sei lá como conheci Valério! Foi em contatos sociais…”

A notícia, obviamente, teve intensa repercussão em Portugal de onde veio nova e contundente menção ao nome do presidente Lula relacionado às relações perigosas entre Valério, Dirceu, o BES e a Portugal Telecom.

José Dirceu

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A mesma agenda publicada no site da Casa Civil registrava outra viagem anterior de Dirceu e Valério a Lisboa, a 7 de junho de 2004, em que participaram de um jantar com o presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa. Apertado, Valério emitiu nota confirmando esse encontro e acrescentando que, na mesma viagem tinha visitado o então ministro de Obras e Comunicações do governo Antonio Guterres, do Partido Socialista, Antonio Mexia, que lhe tinha sido apresentado por Horta e Costa. E, o que é pior, três semanas antes da revelação entrar no foco dos investigadores brasileiros,  o ministro Mexia, numa entrevista ao jornal Expresso, de Lisboa, afirmara, desastradamente, que tinha recebido Valério “na qualidade de consultor do presidente do Brasil”.

Seguiu-se nova bateria de desmentidos e novo realinhamento do discurso de todos os envolvidos. Valério, confirmado pelo ministro português, passou a dizer que suas tratativas em Portugal visavam manter em sua agencia a conta publicitária da Telemig cuja compra estaria sendo negociada pela Portugal Telecom. E disse mais: que Palmieri, o tesoureiro do PTB, seria apenas “um amigo pessoal” que só o acompanhou naquela viagem porque “andava estressado” (tinha sido traído pela mulher) e precisava espairecer.

Investigações subseqüentes indicam  que os dois movimentos aconteceram ao mesmo tempo. Valério estava mesmo intermediando a negociação entre a Portugal Telecom e a Telemig, exibindo como credencial o seu acesso privilegiado à Casa Civil. Os contatos que fez em Portugal o colocaram na posição ideal para intermediar, mais adiante, a solução imaginada para as dividas de campanha do PT com o PTB através do “esquema IRB”.

Valério, aliás,  já tinha prestado serviços anteriores à Portugal Telecom, influenciando, com ajuda de Dirceu, a decisão da Anatel de manter a divisão de tarifas nas ligações entre telefones fixos e celulares. Pelas regras de 1998, de cada real gasto nas ligações entre aparelhos celulares e fixos, os primeiros ficavam com a maior parte. Sendo a Vivo a única das grandes teles a só operar com celulares, ela é quem mais ganha com essa decisão.

No julgamento de José Dirceu, só duas testemunhas de defesa concordaram em depor a seu favor: o presidente do Banco Espírito Santono Brasil, Ricardo Espírito Santo, e o escritor Fernando Morais.

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