Uma história do telefone

16 de maio de 2012 § 1 comentário

Filme enviado por Luis Oswaldo Pastore

Despartidarizar as eleições municipais

30 de março de 2012 § 1 comentário

De toda a pletora dos remédios que os americanos inventaram para reduzir a corrupção a níveis que fizeram deles a sociedade mais rica que a humanidade já produziu enumerados na matéria que precedeu esta, a despartidarização das eleições municipais é aquela em que os brasileiros deveriam focar os seus esforços.

E isto pelo simples fato de que ela sozinha seria a que produziria os maiores danos no “Sistema” montado pelos nossos políticos para que nada mude neste país.

Tornar as eleições municipais independentes dos partidos políticos é tirar das mãos dessa máfia o instrumento de controle absoluto que ela tem hoje sobre a porteira onde se filtra quem pode ou não entrar no mundo da política brasileira.

A continuação do sistema criminoso que enfrentamos hoje depende essencialmente desse filtro e está montado para controlá-lo absolutamente.

O loteamento dos canais de rádio e televisão brasileiros entre as velhas oligarquias regionais que desde sempre estiveram no poder neste país foi o instrumento através do qual a dupla Jose Sarney, então Presidente por acaso do Brasil, e Antônio Carlos Magalhães, que ele escolheu como seu Ministro das Comunicações, mataram antes que nascesse a “Nova Republica” que deveria ter inaugurado uma nova era na política brasileira depois do fim do regime militar.

Desde então são os mesmos “coronéis eletrônicos” e sua descendência que controlam dos bastidores a política nacional.

Com esse instrumento nas mãos eles foram conquistando praças e pondo a força da publicidade governamental para matar a imprensa independente local até ficarem falando sozinhos em seus terreiros particulares.

Desde então esse Sistema elege ou deselege quem eles querem nas regiões dominadas por suas rádios e televisões ou é “alugado” contra pedaços das praças que eles ajudarem a conquistar, até mesmo para os candidatos “bons de voto” em eleições majoritárias que entram na carreira política com a ilusão de que seu carisma pessoal poderá levá-los ao poder contornando os currais eleitorais regionais.

Ninguém pode, como já comprovamos à exaustão.

Mais além, esse sistema de servidão foi “socializado” pelo expediente do “horário eleitoral gratuito” que estendeu um pedaço desse poder a cada partido que conseguir comprar seu trânsito para dentro do Sistema.

Abrir as eleições municipais a todo e qualquer candidato que quiser se oferecer aos eleitores sem ter de pedir licença aos “coronéis eletrônicos” e/ou aos alugadores de tempo na TV nas campanhas eleitorais varre de uma só vez para a lata de lixo da história essas duas pragas.

Não se poderá eliminá-las “por dentro”. A única maneira de acabar com elas é pela “supressão do seu habitat”, que é, em ultima instância, o controle e o aluguel das instâncias políticas municipais e regionais contra o direito de saque da parcela do todo que ajudarem a conquistar.

Também essa mudança só poderá ser feita com a aprovação dos próprios prejudicados por ela, o que torna esse projeto inviável“, dirão os mais pessimistas.

Não é verdade.

Essa mudança pode ser conseguida pelos instrumentos de legislação de iniciativa popular, mesmo fracos como eles ainda são no Brasil. E além disso, já está na hora do Brasil aprender que nada em política é impossível desde que haja uma firme decisão do povo de querer que a mudança aconteça.

Mais difícil seria resolver o problema da concentração da arrecadação de impostos nas mãos da União e dos Estados que deixaria os governantes municipais dependentes deles, de qualquer maneira.

Mas com seis mil e tantos representantes eleitos fora da ordem partidária, independentes dos chefões, seria muito difícil que estes, com suas hostes reduzidas às instâncias federal e estaduais, tivessem força para resistir-lhes.

A despartidarização das eleições municipais traria sangue novo para a política brasileira e deixaria os grandes predadores de hoje condenados a morrer à míngua.

Pense nisso. E faça seus amigos pensarem nisso.

A imprensa, os blogs e a eleição

5 de janeiro de 2011 § 1 comentário

Respondi hoje um questionário da California State University, onde leciona uma ex-colega do Estadão, sobre a cobertura da imprensa e dos blogueiros da rede da nossa ultima eleição. Ainda que algumas respostas tenham sido telegráficas, acho que o questionário pode interessar aos leitores do Vespeiro.

1. Como você classifica a cobertura da imprensa online em geral sobre as eleições presidenciais de 2010?

  • Muito boa
  • Boa
  • Regular
  • Fraca
  • Muito Fraca
  • Ruim
  • Outro (especifique)

2. Por que?

A dos jornalões online tem os vícios dos jornalões de papel.

As dos grandes portais são viciadas pelos interesses das teles associadas ao ou dependentes do governo que estão por trás deles.

As dos chamados “independentes” estão viciadas ou pela militância disfarçada mas centralmente organizada e orquestrada (fenômeno novo em que o PT se esmerou) ou por diversos graus de radicalismo.

Resumo: o “admirável mundo novo” continua recheado pela velha e desprezível humanidade de sempre…

3. Qual o diferencial oferecido pelos colunistas online e/ou blogs produzidos por jornalistas com credibilidade em relação à mídia tradicional? Defino jornalistas com credibilidade aqueles com experiência profissional reconhecida associados ou não a empresas jornalísticas.

Eles continuam, como sempre foi no Brasil e é cada vez mais nos EUA (preocupante essa radicalização aí!), muito marcados ideologicamente. Ha, quase sempre, mais opinião que informação. Difícil separar o joio do trigo…

4. Qual o diferencial oferecido pelos colunistas online e/ou blogs de jornalistas com credibilidade reconhecida em relação aos websites de portais de noticias e outros veículos online?

Assumem mais claramente suas posições enquanto os main stream tratam de (mal) disfarçar as suas sob um manto de “objetividade”, o que me parece mais honesto e permite ao leitor posicionar melhor o seu senso critico.

Em geral não houve esforços coordenados de grupos de jornalistas independentes nesta eleição. E quando houve, foi ideologicamente inspirado e/ou financiado por fontes suspeitas.

Muito poucos esforços (na verdade nenhum que eu conheça) para atuar explicitamente nas brechas identificadas do jornalismo main stream.

Não vi ninguém com pautas independentes criativas.

Todos, como sempre, se deixando pautar pelas fontes…

5. Na sua opinião, a cobertura online acertou em que aspectos? Errou em que aspectos?

Marina Silva foi objeto de um esforço relativamente inovador em matéria de uso da web.

Contratou um trabalho profissional que se inspirou no modelo Obama e marcou alguns gols, inclusive e principalmente em matéria de doações de pessoas físicas, coisa inédita no Brasil.

Também trabalhou bem as ferramentas sociais da rede, promovendo ondas bem planejadas de repercussão dos movimentos da candidata.

Mas isso não é cobertura, exatamente.

É campanha.

Deveria ser objeto de cobertura…

6. Houve censura? Houve auto censura?

Houve um nível fortíssimo de patrulhamento, que incluiu esforços organizados e sistemáticos da militância petista até nas seções dos leitores dos jornalões online.

Foi algo que, se um dia for estudado na minucia (e certamente deveria), causará surpresa e escândalo.

A rede também foi “aparelhada”.

A rede, alias, como tudo mais, é neutra enquanto ferramenta. Amplifica tudo que se joga lá dentro, all the shit inclusive…

7. Os colunistas online e autores de blogs foram parciais e/ou partidários?

  • Sim
  • Não
  • Outro (especifique)

8. Por que?

(já respondido)

9. Os colunistas online e autores de blogs atuaram com independência?

  • Sim
  • Não
  • Outro (especifique)

Alguns sim…

10. Por que?

(já respondido)

11. Os colunistas online e autores de blogs foram influenciados pelas fontes?

  • Nem um pouco
  • Um pouco
  • Muito
  • Extremamente
  • Outro (especifique)

12. Por que?

(já respondido)

13. Os colunistas e autores de blogs discutiram os planos de governo dos principais candidatos à presidência mais do que outros temas?

  • Sim
  • Não
  • Outro (especifique)

14. Por que?

Ate certo ponto, sim.

Censura à imprensa e outros temas momentosos incluídos no PNDH, o programa de governo do PT disfarçado em documento independente do governo para evitar retaliações eleitorais, especialmente os mais assumidamente antidemocráticos foram, assim como na imprensa main stream, os mais debatidos ao longo do processo.

Não vi muita diferença entre independentes e main stream nesse aspecto.

A grande novidade foi, sim, o aparelhamento da rede pela militância de forma claramente organizada para fazer fogo de encontro ao repudio da opinião publica a essas propostas autoritárias

15. Os colunistas online e autores de blogs discutiram a personalidade dos candidatos e/ou a corrida eleitoral mais do que outros temas?

  • Sim
  • Não
  • Outro (especifique)

16. Por que?

(já respondido)

17. Quais as questões éticas enfrentadas pelos colunistas online e autores de blogs na cobertura das eleições presidenciais de 2010?

(já respondido)

18. Como você procurou cobrir a campanha eleitoral?

Peças de opinião/informação.

Agregação e edição de noticiário alheio.

Muitos filmes mostrando posições do passado e do presente dos candidatos.

Entrevistas com interpretações das votações.

O material disponibilizado no Youtube, alias, merece destaque nesta eleição.

Se nossos jornalistas, independentes ou não, não mudaram grande coisa, o sistema de registro de documentos e de sua disponibilização para toda a web é, em si mesmo, revolucionário.

Como não se mudam imagens nem gravações sonoras o choque entre o “antes” e o “depois” nas posições de Lula e do PT e os flagrantes de corrupção filmados tiveram grande impacto e foram muito usados por toda a web independente, foçando ate os jornalões e redes de TV cujos editores teriam preferido não faze-lo a se lembrar de certas passagens.

Isso influenciou a pauta geral da imprensa.

Incomodou especialmente o PT que, muito mais que os proprietários, sempre deteve o controle das redações, a tal ponto que foi alvo até da ação de hackers organizados.

O famoso filme de Waldomiro Diniz recebendo suborno na sala ao lado da de Lula, por exemplo, sumiu do Youtube onde esteve por alguns anos, ate agora sem explicação.

Outro efeito notável é que a ausência de limitação de espaço na web proporcionou coberturas ou agregações de coberturas que, no final, ao menos para os mais atentos, deixou claro o que os editores de cada jornalão preferem cortar de suas coberturas com a desculpa da limitação de espaço.

Está ficando mais difícil ser desonesto na edição…

19. Você utilizou elementos de multimídia ao cobrir a campanha eleitoral? Marque as opções cabíveis.

  • Fotos
  • Video
  • Audio
  • Gráficos
  • Animação
  • Cartuns
  • Outro (especifique)

Aprendendo a entender o PT

9 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

Aos poucos o PT vai ensinando a gente a entender o PT.

Atente-se aos prolegômenos da montagem do governo Dilma.

Diziam o presidente Lula e sua galera que estavam aí para lutar pela ética na política. Uma vez “lá”, revelaram-nos que não eram exatamente contra a malversação do dinheiro publico que marca a política deste pais. O que os incomodava era a dispersão de forças entre os malversadores e o destino preferencial que se dava ao dinheiro publico roubado até então.

Trataram, assim, de organizar a bagunça. Antes de mais nada, a necessária dose de hierarquia. Perfilharam na sua bancada de sustentação política as 10 organizações que mais têm assaltado o pais e que até ha pouco chamavam criminosas e passaram a exercer eles próprios o comando, agora sim “socialmente orientado”, de uma maquina nacional de malversação de dinheiro publico muito mais rentável, organizada em moldes, digamos assim, federativos.

Ao fim de dois mandatos de inegáveis ganhos de produtividade na atividade “core” (de colher e repartir o nosso dinheiro) e à beira de um terceiro, o PT acena agora aos seus associados com a segurança de uma festa sem perspectiva de final e, em troca da paz entre os que antes disputavam o poder com ele, promete distribuir a cada um dos seus apoiadores, com critério rigorosamente proporcional, o quinhão correspondente aos votos aportados por cada um à organização sob comando unificado que passa a abrigar e proteger a todos.

Super democrático!

Desde a origem, aliás, a relação entre o PT e o grande publico tem sido marcada por confusões semânticas desse tipo.

Parte do que hoje constitui a nata dos seus quadros, por exemplo, subiu ao poder vendendo um retrospecto de heróis da liberdade.

Pura confusão!

Dizia o ministro Franklin Martins, assim como a presidente Dilma Rousseff, entre outros petistas menos notórios, que pegou em armas no passado para “combater a ditadura”. Mas, veja bem, não para combater qualquer ditadura. Para combater aquela ditadura e instalar no lugar dela outra ditadura, nos moldes destas com que, para escândalo do mundo civilizado e vergonha de tantos brasileiros, o seu líder e patrocinador vive se abraçando até hoje.

Para desempatar discussões, esses paladinos da liberdade lembram sempre os apuros que alguns deles passaram nas mãos de torturadores. Fica pois subentendido que são contra todo tipo de tortura.

Engano outra vez!

Preste atenção à discussão travada neste filme. Para se contrapor aos torturadores do lado de lá o hoje ministro e seus companheiros de armas seqüestraram um pacato diplomata que tinha contra si o fato de ser norte-americano, ameaçando assassiná-lo caso não fossem libertados os seus companheiros presos.

Seriam mesmo capazes de trucidá-lo a sangue-frio ou aquilo era apenas um blefe de rapazes idealistas encurralados pela ditadura? A resposta do ministro Franklin não deixa duvidas. E porque iriam tão longe? Porque “seguiam ordens”, ora (de Cuba onde todos foram treinados, talvez)! A mesma explicação dada pelos seus torturadores cuja lógica, preste atenção às suas palavras finais, Franklin Martins e os demais torturadores do lado de cá, mutatis mutandis, “entendiam perfeitamente”.

Tão perfeitamente que, até hoje, seu líder e patrocinador compara os presos cubanos por “crime de opinião” em greve de fome a assassinos e estupradores de crianças trancados nos presídios brasileiros.

Agora, com as “garantias” de praxe de que nada do que parece é, o ministro Franklin Martins instalou em Brasília o Seminário Internacional das Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídia. É a enésima tentativa de voltar ao tema do controle da mídia. Mas, segundo ele, o propósito do evento é só “preparar o projeto de regulamentação dos artigos 220, 221 e 222 da Constituição, que a presidente Dilma Rousseff enviará ao Congresso Nacional”. Esses artigos da nossa Constituição, que hoje o PT e seus aliados, majoritários na Câmara e no Senado, têm condições matemáticas até de revogar se assim quiserem, são os que garantem a irrestrita liberdade de imprensa de que ainda desfrutamos e reservam a atividade para brasileiros, como se faz em todo o mundo.

Diz o ministro que o propósito de tudo é alterar a legislação existente para ampliar a liberdade de imprensa e garantir a diversidade de opiniões que estaria ameaçada pelos proprietários dos meios de comunicação que “sujeitam as informações dirigidas ao publico, especialmente as que dizem respeito ao governo, aos seus interesses inconfessáveis”.

Quem lê o Vespeiro sabe que não tenho opiniões monocromáticas sobre esse assunto, apesar de ser sócio minoritário de uma empresa que publica jornais.

Mas acontece que a legislação como está hoje é a que garantiu ao atual ministro, assim que saiu da clandestinidade em que se jogou pelo radicalismo com que se dispunha a “convencer” a tiros quem discordava das suas opiniões, a oportunidade de militar como jornalista em todas as grandes redações privadas do pais, em especial aquela contra a qual se dirige hoje a mais explicita carga de ódio do governo que ele serve.

Foi no Globo que começou a carreira jornalística de Franklin Martins em 1985, logo depois da redemocratização. Em 1987 estava de coordenador político da sucursal de Brasília do Jornal do Brasil. Passou, depois, pelo SBT e pelo O Estado de S. Paulo. Voltou para O Globo onde foi repórter especial, colunista político (com liberdade para emitir opiniões diferentes das do jornal, portanto), editor de política e diretor da sucursal de Brasília. Era chancelada por ele a descrição que o jornal fazia do que se passava no mundo da política nacional. Passou, então, pelo Jornal de Brasília e pelas revistas Republica e Época. Finalmente, caiu na Rede Globo de Televisão onde foi sucessivamente, por oito anos, comentarista político (na rede aberta, na GloboNews e na rádio CBN). Foi ainda comentarista político da Radio e TV Bandeirantes.

 

Antes de se tornar político, manteve uma coluna no portal IG, uma operação jornalística ilegal da Portugal Telecom, a mesma empresa estrangeira que está por trás de uma rede de jornais também ilegal (violam a exigência de 70% de capitais brasileiros já que tem 100% de capitais portugueses), publicados por uma editora com marca de fantasia da qual a esposa do companheiro Jose Dirceu é “diretora de marketing”. A mesma Portugal Telecom que, graças aos préstimos do presidente da Republica em pessoa, tornou-se sócia da Oi, a maior telefônica brasileira, fabricada pelo governo Lula mediante legislação especialmente escrita para a ocasião e a injeção de bilhões de reais a fundo perdido do BNDES entregues a “empresários” sem nenhuma relação com esse ramo de atividade mas dóceis aos planos do PT para o setor.

Até hoje é no transgressor IG que o ministro das Comunicações do governo Lula hospeda o seu site.

Hoje Franklin Martins cuida da distribuição nacional das verbas de publicidade do governo. Fora dos mercados mais avançados de São Paulo, Rio de Janeiro e o Sul do pais, onde a imprensa independente é sustentada por publicidade privada, rádios, jornais e televisões sobrevivem ou morrem em função do acesso que lhes é dado ao dinheiro da propaganda do governo federal e suas estatais.

Mesmo assim, sem nunca ter tido de mudar ou esconder suas marcadíssimas opiniões ao longo de tão movimentada carreira, o ministro Martins julga que ha pouca democracia na imprensa independente brasileira e que a maneira de oxigená-la com mais diversidade e tolerância é armando a mão de um órgão governamental ou para-governamental para avaliar o que, dentro do que ela publica, condiz com “A Verdade”. Expediente semelhante aos que têm garantido a “livre expressão da verdade” nos países centro e sul-americanos que desfrutam do irrestrito apoio da política externa do lulismo como a Argentina dos Kirshner, a Venezuela de Hugo Chávez, a Bolívia de Evo Morales ou a Cuba dos irmãos Castro.

Para esta cruzada pela democracia, resta registrar, o ministro Martins abriu mão dos canais consagrados da democracia representativa onde todos nos opinamos. Deu preferência às reuniões só para convidados organizadas pelo PT, onde “representantes da sociedade civil” escolhidos por ele são chamados a dar subsídios para a reformulação do que nossa Constituição determina a respeito de liberdade de imprensa.

Cheira bem, não é mesmo?

Condenados ao Supercapitalismo

8 de julho de 2010 § 1 comentário

Ha 100 anos os americanos sabem que democracia e empresas gigantes são incompatíveis e não podem conviver pacificamente.  Mas é impossível enfrentar o capitalismo de Estado sem elas. No mundo todo, a competição com a China e o medo do desemprego estão trazendo os monopólios de volta. Do  açougueiro ao banco, os brasileiros já se deparam com eles em cada ato do seu cotidiano. E o governo é sócio de todos…

***

Desde que a China apresentou ao mundo a força do capitalismo de Estado os sinais de que o capitalismo democrático não poderá conviver nem sobreviver a ele vêm se multiplicando.

O modelo desenvolvido nos Estados Unidos ao longo do século 20 baseava-se naquilo que o ex-secretário do Trabalho do governo Clinton, Robert Reich, descreve como “o contrato social tripartite entre empresas fortes, sindicatos fortes e um governo forte”, em que cada parte tratava de garantir que ela, assim como as outras duas, recebessem uma parcela justa dos ganhos do sistema.

A distinção entre medidas pró-mercado (de reforço da concorrência e proteção do consumidor) e regulamentos pró-business (contemplando interesses específicos das corporações) era nítida. O Estado, com a legislação anti-truste, limitava por cima a competição o que garantia um nível saudável de disputa pelos consumidores e proporcionava um mecanismo eficiente de estabilização dos preços livre de manipulações políticas. E os sindicatos limitavam por baixo a possibilidade das empresas crescerem às custas do esmagamento dos salários.

Nesse ambiente, a inovação se impunha como o único caminho para a conquista de grandes diferenciais competitivos, o que vale dizer que a qualidade da educação era, para empregados e para empregadores, o fator decisivo de sucesso.

Com isso os indivíduos eram incentivados a se organizar para reivindicar junto aos empregadores e para se fazerem ouvir pelo legislador/regulador assim como este, para se eleger, tinha de se mostrar sensível às pressões do eleitor assalariado e do consumidor. Um arranjo que reforçava a dimensão de cidadão dos indivíduos e tendia a promover o continuo aperfeiçoamento do sistema representativo. E que acenava, para quem estava mais para traz no caminho da democracia, com a promessa de um futuro melhor.

Ao contrario do que afirmava a propaganda esquerdista, esse sistema estava no extremo oposto do laissez-faire, onde chora mais quem pode menos, que agora volta triunfalmente à arena global ressuscitado pelo capitalismo de Estado. O capitalismo democrático resulta de uma minuciosa teia de regulamentos que definem os deveres, os direitos e os limites para a atuação do Estado, do capital e do trabalho nas relações econômicas. Acontece que esse complexo pacote de convenções e ficções legais só pode ser negociado, aperfeiçoado e cobrado num ambiente de sólida  estabilidade do estado de direito, um privilégio de pouquíssimos quando o que se considera é a arena global.

Essa invenção genuinamente americana – a competição econômica livre apenas até o ponto considerado bom pelo conjunto da sociedade e legalmente cerceada a partir daí – começou a tomar forma no final do século 19, quando a primeira onda de fusões e incorporações de empresas tornou algumas das grandes corporações ianques maiores e mais poderosas do que era compatível com o sistema democrático. E evoluiu para o estado da arte entre 1945 e os meados da década de 70 quando aquele pais registrou o menor “gap” entre ricos e pobres de sua história.

Se não era, como não foi, um sistema perfeito, ele conseguiu subordinar o poder econômico aos interesses da comunidade e produzir a melhor equação de distribuição de renda e liberdade individual jamais alcançada por qualquer sociedade humana moderna. A economia norte-americana era, no século 20, e ainda continua sendo hoje, para resumir, a mais regulamentada do mundo, qualidade que, na nova realidade de competição aberta com o capitalismo de Estado, que opera sem respeitar nenhuma regra ou limite pré-estabelecido, se transformou no mais pesado handicap que ela paga para o novo adversário.

A entrada em cena do capitalismo de Estado trouxe de volta as empresas gigantes que, ha cem anos, os americanos já sabem que são incompatíveis com a democracia.

E, ironicamente, foi pela porta aberta pelas novas tecnologias de informação, comunicações e transportes, que nunca poderiam ter sido desenvolvidas sem ele, que o capitalismo democrático ficou exposto ao inimigo que poderá matá-lo.

O primeiro golpe veio com a padronização dos processos de gestão empresarial e a possibilidade da migração das industrias e dos empregos para territórios onde não vigora o estado de direito, onde a produção é monopólio do Estado e onde o regime de trabalho é quase escravo. O segundo foi consequência do advento da cópia idêntica ao original, ao toque de um botão, de produtos, de desenhos, de softwares e de ferramentas de produção, inerente à transformação de tudo em “bits”, que anulou os efeitos do gap educacional para todas as etapas da produção que sucedem os processos de pesquisa e desenvolvimento. E o terceiro veio com as tecnologias de redes virtuais globais que proporcionam aos comerciantes e consumidores de todo o mundo a condição da ubiqüidade.

Essas mudanças inverteram o sentido das forças positivas que atuavam sobre o sistema. E embora todo mundo esteja plenamente consciente de onde tudo isso vai acabar, é para esse buraco que as coisas caminham, inexoravelmente, tangidas pelo medo do desemprego em massa iminente. O mundo parece ter entrado num funil. O processo tem uma lógica própria e não ha maneira discernível de detê-lo.

No campo do trabalho, por exemplo, o que a competição entre a China e o mundo parece indicar é que um aparato de repressão capaz de  garantir disciplina e conformismo com condições sub humanas de trabalho faz uma diferença muito maior que o investimento em educação e em recompensas crescentes na equação custo x qualidade nos esquemas de produção em escala num ambiente onde tudo é “pirateavel” impunemente e as cópias são idênticas ao original.

O medo de perder o mercado chinês, envolvendo mais de 1/5 da humanidade, por outro lado, blinda o regime contra pressões externas em favor da distensão no campo dos direitos humanos. E isso inverte o sentido do ajuste que seria lícito esperar: fica mais fácil fazer os salários do Ocidente se aproximarem dos níveis chineses que fazer os salários chineses subirem ao nível dos ocidentais.

Não é algo que possa acontecer de uma hora para outra. Mas a persistência desse tipo de pressão acaba produzindo efeito. A presente crise financeira, é bom lembrar, posto de lado o fator do crescimento exponencial da corrupção corporativa que também tem seu peso, resulta basicamente dos ganhos minguantes das classes assalariadas dos países ricos cruzada com a inapetência dos políticos por medidas impopulares como a redução dos benefícios do welfare state e a contenção do consumo pelo encarecimento dos financiamentos. O consumo e a expansão dos benefícios sociais, ao contrario, vêm sendo mantidos à custa do endividamento crescente do Estado (na Europa) e dos consumidores (nos Estados Unidos) num processo cujo caráter nitidamente insustentável foi e continua sendo escamoteado pelos caçadores de votos.

Simplesmente é falsa a momentosa questão “to keynes or not to keynes” a que jornalistas e economistas badalados, famintos de popularidade fácil, querem reduzir o problema. Pois, como o próprio Keynes ensinava, só pode gastar keynesianamente em medidas anticíclicas na crise (Lula) quem poupou ortodoxamente na bonança (FHC).

Tudo indica, portanto, que haverá, sim, mergulhos sucessivos na recessão enquanto os limites da aritmética continuarem sendo desrespeitados em favor da satisfação de hábitos difíceis de abandonar e de projetos individuais de poder.

O problema da escala de produção, outro fator que afeta decisivamente os custos, também lança pressões negativas sobre o sistema. No campo do capitalismo de Estado a produção se dá em regime de monopólio. E só outro monopólio pode chegar à escala de produção de um monopólio. Desse fato incontornável decorre, para o resto do mundo, a desmontagem acelerada do aparato anti-truste, sem duvida a mais preciosa construção da democracia, e a desabalada corrida para o “crescer ou morrer” com fusões e aquisições que jogou as autoridades reguladoras no colo das grandes corporações.

“Salvar empregos” hoje é alterar leis de proteção à concorrência e eliminar direitos individuais para favorecer a consolidação de monopólios deste lado do mundo capazes de fazer frente aos do lado de lá em matéria de ganhos de escala. Mas a associação explicita entre o poder político e o poder econômico que essa mudança exige, alem de minar a confiança do publico na democracia, favorece o desenvolvimento de relações promiscuas altamente indesejáveis entre eles.

A constituição dessas empresas-gigantes requer quantidades de capital que nenhum individuo sozinho pode fornecer. É preciso ir buscá-lo nas bolsas de valores. Os gestores e executivos dos monopólios do Supercapitalismo manipulam valores muitas vezes maiores que os PIB’s nacionais da maioria dos países. Mas não enfrentam nada de parecido com o complexo sistema de prestação de contas a poderes  independentes aperfeiçoado a duras penas ao longo de 2.500 anos para garantir o bom uso do dinheiro alheio pelos governantes nas democracias. A tecnologia institucional de proteção ao acionista anônimo desses conglomerados ainda é apenas incipiente. Daí a corrupção desenfreada que grassa entre os controladores desses estados dentro do Estado, que se outorgam prêmios milionários enquanto esfarinham impunemente o patrimônio de seus acionistas e põem em risco o equilíbrio da economia mundial.

Por força da onda de consolidações, aliás, o setor de intermediação financeira inchou como nunca antes pelo mundo afora (nos EUA, saiu de pouco mais de 8% ha cerca de duas décadas, para mais de 40% da renda nacional) o que proporcionou à camada de cima das populações afetadas, com maior capacidade de poupança, embarcar na especulação financeira e apropriar-se das sobras do banquete dos grades predadores que se aproveitam desses momentos de crise.

Esse fenômeno produz três tipos de efeitos deletérios. O primeiro é a desmoralização da ética do trabalho. O segundo é dividir ainda mais a opinião publica, criando em parte dela a falsa impressão de estar ganhando com o que está acontecendo. E a terceira é tornar toda a economia dependente das entidades financeiras que conseguirem ficar “grandes demais para quebrar”, o que resulta, como já vimos, em dar aos seus gestores garantia de impunidade para toda forma inovadora de roubar o próximo que vierem a inventar.

E, no final, a consolidação forçada e o inchaço do setor de intermediação aprofundam o fosso social. Hoje, 1% da população americana detém 23% da renda nacional. A ultima vez em que a riqueza esteve tão concentrada nos EUA foi em 1928, não por acaso às véspera da Grande Depressão.

Mas tudo isso são apenas as mudanças que já ficaram para trás. O que se esboça pela frente pinta um quadro ainda mais preocupante.

Se a incapacidade de produzir riqueza era o maior inimigo da longevidade das tiranias, com o advento do capitalismo de Estado isso deixou de ser um obstáculo.  A violência não é mais a única arma dos ditadores que, agora, estão aparelhados para explorar vertentes bem menos resistentes da natureza humana. Essa novidade deu uma decisiva injeção de animo às forças antidemocráticas ao redor do globo. E como o Estado democrático cuja razão de ser é, por definição, moderar a força corruptora do poder econômico, foi impelido a se aliar a ele para enfrentar a ameaça do capitalismo de Estado, desapareceram todos os obstáculos para a completa “dinheirização” de todos os aspectos da vida.

Organicamente incorporado ao Estado, o poder econômico se transforma, também, na melhor das ferramentas de projeção internacional (ou multinacional) de poder político. E, para este fim, o foco se concentra nos setores de infra estrutura com maior valor estratégico, tendo como alvo principal as empresas de telecomunicações que, com poderes condicionalmente concedidos pelos políticos, controlam as grandes estradas por onde transitam os dados que hoje põem a economia e o mundo em movimento. É com elas atuando nos campos da produção e distribuição de conteúdos informativos e de entretenimento que os governos planejam conseguir o desde sempre sonhado controle da circulação da informação.

Nos trópicos, onde sempre se mostrou mais o corpo que alhures, esse jogo de cooptação mutua entre os candidatos a controladores de monopólios setoriais e candidatos a controladores de monopólios políticos é mais explícito. O governo, o Tesouro Nacional, os bancos públicos e até os fundos de pensão da casta que se apropriou do Estado – para não mencionar os imprescindíveis atores coadjuvantes dessa construção no Legislativo e no Judiciário, – estão abertamente empenhados nele. Com isso, em poucos anos, a economia saiu de algo que parecia familiar e dizia respeito a cada um de nós para este fechado arquipélago de grandes sesmarias econômicas ao largo do qual o cada vez mais insignificante cidadão comum tenta se manter à tona. Do açougueiro ao banco, o pobre trabalhador brasileiro confronta-se com monopólios hoje em praticamente todos os atos do seu cotidiano. E o governo é sócio de todos eles.

Se as eleições nunca estiveram à salvo da influencia do poder econômico, antes a contaminação era, pelo menos, restrita a grupos de interesse bem identificados. Agora as campanhas se transformaram em gigantescas operações abertas de suborno eleitoral. Duas classes são cooptadas: a base da pirâmide social, que aqui ainda pesa mais em termos de votos que todas as outras somadas, e a militância do partido no poder que hoje coincide exatamente com o aparato de administração do Estado e com os quadros do funcionalismo publico. Somente as migalhas do balúrdio extorquido de quem trabalha e produz retornam à sociedade em obras de infra estrutura. Mesmo assim, a falsa sensação de enriquecimento que a disseminação do dinheiro do suborno eleitoral proporciona economia abaixo é de tal modo inebriante para uma geração que nunca tinha visto crescimento econômico que mesmo quem, na política, tem plena consciência do crime que esta sendo cometido não tem coragem de denunciá-lo. Ao contrario, adere ao discurso corruptor.

O cidadão, cada vez mais minúsculo nesse mundo movido a bilhões, ainda vota. Mas é o caso de perguntar se quando essa obra tiver sido completada e eles forem donos do emprego e do salário de todos nós não vão dispensar essa formalidade.

Quem viver verá…

O jogo mundial do poder

31 de maio de 2010 § 2 Comentários

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Série

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O Jogo Mundial do Poder

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No dia 8 de outubro de 2009 o Brasil se deparou com uma imagem inusitada. Sem mostrar nenhum sinal de azia, lá estava o presidente Lula lendo um jornal, com um bem humorado sorriso de satisfação estampado no rosto!

Quando nasce um jornal”, proclamava na legenda, “a democracia é reforçada”.

Nem sempre…

O recém lançado Brasil Econômico é uma das partes que nos cabe naquilo que pretende vir a ser o mais vasto latifúndio multimídia que jamais operou em todo o “universo lusófono” (Portugal, Brasil e ex-colonias portuguesas africanas e do Oriente),  segundo o ambicioso projeto em andamento, como diz o nome da empresa que se apresenta como sua proprietária, a Ongoing Strategy Investments, com sede em Lisboa, Portugal, à frente da qual aparecem Nuno Vasconcelos e Rafael Mora.

Na verdade, a Ongoing que, no mês passado, comprou também os três jornais e a licença de TV por assinatura do grupo carioca O Dia e anuncia para breve o lançamento de mais um jornal em Brasília, é uma peça de uma engrenagem muito maior.

Para entender esta história, será preciso destrinchá-la por camadas.

Na base de tudo está, como sempre, o Grande Jogo Mundial do Poder , que hoje é disputado em escala global.

Na era da economia movida a informação, um dos grandes objetivos desse jogo é controlar as estradas e as ruas por onde ela vai ter de transitar para chegar a cada usuário final ao redor do planeta.

Não é difícil entender por que.

Num futuro imediato, tudo que move o mundo de hoje – informação, entretenimento e dados – terá de transitar preferencialmente pelas redes físicas de telefonia fixa e pelas redes de fibras óticas para poder se deslocar de um ponto a outro do globo com o volume e a velocidade necessárias  ao regime de concorrência feroz em que viverá cada setor da economia (veja, no final desta matéria, mais informações sobre o funcionamento da “banda larga”).

Ao mesmo tempo, a “convergência de meios” acabará fazendo com que tudo que hoje circula sobre outros suportes, mais cedo ou mais tarde seja traduzido em bits e passe a circular por essas mesmas estradas e ruas (ou dutos informativos).

Hoje a industria da informação, dentro da qual se insere a imprensa, a única ferramenta autônoma de fiscalização do poder político a sustentar uma equipe profissional especializada dedicada a essa tarefa em tempo integral, é sustentada pela publicidade, um negócio que pode ser independente da política e que, no Brasil, movimenta perto de R$ 18 bilhões. A telefonia sozinha, movimenta 10 vezes mais. Se, como está pintando no Brasil, não houver uma forte regulamentação para garantir igualdade de direitos no uso dessas estradas e para separar a tarefa de construí-las e gerenciar o trafego dentro delas da de produzir os conteúdos que vão transitar por esses caminhos vai se tornar possível sobrepor as duas coisas, o que tende a concentrar nas mãos de quem o tiver um poder capaz de por todos os outros de joelhos.

Na nova realidade de empresas transnacionais com orçamentos maiores que os dos estados nacionais, de propriedade ultra pulverizada, em que as crises globais são desencadeadas pelo mau uso do poder de manipular essas montanhas de dinheiro sem dono visível pelos administradores dessas corporações-gigantes, o problema do controle dos representantes deixa de ser exclusivo da política e a arena da luta pelos direitos civis migra para os campos da legislação financeira e do direito dos acionistas minoritários. Em outras palavras, fiscalizar esses novos donos do poder requer um regime de dedicação e um grau de especialização ainda maiores que os exigidos quando o problema se restringia ao campo da política.

Para tornar essa tarefa impossível não é mais preciso, para os ditadores em projeto, enfrentar o desgaste de produzir legislação para tolher a liberdade de imprensa. Basta armar as “teles” com essa dupla prerrogativa. Isso equivale a dar-lhes uma licença para matar, por asfixia econômica, os canais independentes que hoje se dedicam a fiscalizar os atos dos políticos e a fazer circular as opiniões, concentrando essa tarefa nas mãos de operadores que vivem na dependência de concessões e da regulamentação produzida pelos próprios fiscalizados.

Alem desse efeito, a distribuição de privilégios e prioridades na utilização desses dutos pode, teoricamente, armar a mão de quem tiver o poder de concedê-los com a capacidade de afetar decisivamente o resultado da competição em virtualmente todos os campos da economia, cada vez mais dependentes do “insumo” informação (dados).

Essa perspectiva, mais que real, iminente, assanha ambições gigantescas tanto no campo da política, hoje mera coadjuvante da verdadeira luta pelo poder porque ainda circunscrita a fronteiras nacionais, quanto, especialmente, no do poder econômico.

É sobre este pano de fundo que corre a nossa historia.

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A corrida pelo “ouro dos Incas”

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No momento, as grandes operadoras de telecomunicações se enfrentam para decidir quem vai dominar cada continente.

A Portugal Telecom (PT) é a única empresa de Portugal em condições de alimentar pretensões globais (ou, pelo menos, multinacionais).  Por isso ela atrai, como a luz aos insetos, todos os egos lusitanos inflados o bastante para aspirar participar do Grande Jogo Mundial do Poder . Mas Portugal e Espanha continuam presos àquela velha sina. “Reinos” pródigos na produção de ambições tão grandes quanto as maiores que a espécie humana é capaz de engendrar, suas economias não proporcionam escala suficiente para que elas possam ser satisfeitas em seu próprio território.

 

Assim, o domínio pelas duas “teles” ibéricas do mercado brasileiro, que por razões desconhecidas oferece-se preferencialmente a elas, está para as pretensões de Portugal e Espanha de continuarem disputando o Grande Jogo Mundial do Poder como a conquista do “ouro dos Incas”, do “Potosí”, do “Eldorado” esteve, 500 anos atrás, para suas esperanças de continuar na primeira divisão do jogo mercantilista.

A trama que trouxe a Ongoing ao Brasil – ha um ano sob investigação de uma comissão de inquérito da Assembléia da Republica portuguesa – insere-se nesse panorama e mistura a corrupção do governo socialista de José Sócrates, em permanente guerra com a imprensa, com movimentos muito mais que suspeitos de bancos públicos e bancos privados lusitanos para garantir para a Portugal Telecom, dona, meio a meio com a Telefônica de Espanha, da Vivo no Brasil, o exercício desse poder ao menos no chamado “universo lusófono”.

Já a Telefônica de Espanha, que herdou a rede de telefonia fixa da Telesp, por via das duvidas arma também o seu grupo de mídia no Brasil, em aberto desafio à norma constitucional, por meio da operação jornalística abrigada dentro do portal Terra. Mas no que ela confia mais é na possibilidade de absorver a Portugal Telecom inteira antes que esse jogo vá muito mais adiante do que já foi.

Ha duas semanas, aliás, ela lançou uma proposta sobre os acionistas da Portugal Telecom, oferecendo US$ 7 bilhões pelos 50% que ela tem da Vivo no Brasil. Essa proposta, com a recusa da PT de sequer considera-la, promete evoluir para uma guerra aberta logo adiante.

Ha ainda a Oi/Telebras, que entra nessa guerra em aliança formal com o estado petista mas já nasce com vícios e dividas que comprometem o seu desempenho futuro, e a Telmex/Claro, uma das gigantes do mundo, disputando com a Telefônica a posição de provável grande consolidadora do setor no Brasil.

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O “agente secreto” da piada

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Mas o que nos interessa para o momento é o caso português, que pode ser tomado como um paradigma.

Por razões fortuitas ele acabou sendo exposto ao publico com um nível de detalhe impensável em outras circunstâncias. E isto nos permite entrever como se ajustam os interesses do poder político e do poder econômico para, um com a ajuda do outro, lançarem mão  dessa ferramenta decisiva. Não errará por muito quem tomar esta história como um padrão das relações perigosas entre “teles” e governos ao redor do globo…

No caso em exame, foi a sede de vingança do primeiro-ministro José Sócrates contra a imprensa livre que veio juntar a fome à vontade de comer. A ele interessava criar um grupo de comunicações simpático ao governo e vingar-se de alguns jornalistas incômodos. Ao grupo que, dos bastidores, comanda os movimentos da Portugal Telecom, interessa preparar a companhia para ocupar os espaços a serem disputados pelas mídias convergentes articulando o gigante midiático que pretende ser hegemônico ao menos no “mundo lusófono” ou, em caso de uma (provável) derrota para a Telefônica de Espanha na disputa pelo Brasil, reforçar a herança que a PT vai deixar.

A conspiração que uniu os dois veio a publico por acaso, no meio de gravações telefônicas feitas pela Policia Judiciária portuguesa que investigava um dos casos de corrupção envolvendo o governo Sócrates (e os ha para todos os gostos). Em função da divulgação desses telefonemas pela imprensa o país ficou sabendo, contada por seus próprios protagonistas, a verdadeira história que o levou a abortar no ultimo momento uma operação montada para estruturar uma rede de jornais e televisões que o tratassem com brandura, que começava pela compra pela Portugal Telecom da maior rede de televisão aberta do país, a TVI pertencente à espanhola Prisa, na qual as grandes eminências pardas das finanças portuguesas, aproveitando-se do incontido ódio do primeiro ministro aos órgãos de imprensa que o hostilizavam, trataram de usá-lo para fazer avançar um projeto bem mais ambicioso.

A única parte desse projeto que conseguiu avançar livremente é a que diz respeito ao Brasil e às demais antigas colônias portuguesas na África e no Oriente. No próprio Portugal, com os primeiros vazamentos sobre o complô para a imprensa na véspera da eleição de setembro de 2009, a Portugal Telecom foi obrigada a sair (só oficialmente) do páreo por um ato a que foi forçado o próprio José Sócrates, temeroso de que mais um escândalo pudesse atingi-lo. Isso ajudou a dar-lhe a vitória na eleição e a renovar o mandato como primeiro-ministro.

Mas a Portugal Telecom não podia dar-se o luxo de abandonar o seu projeto. Assim, voltou ao seu plano original. Abusando da “cara de pau”, porém. Literalmente no dia seguinte ao anuncio do resultado da eleição, no mais puro estilo do “agente secreto português” da piada,  a Ongoing Strategy Investments, que já vinha sendo preparada para isso ha muito tempo, apresenta-se propondo-se a fazer as mesmas compras que a Portugal Telecom tinha sido impedida de fazer.

Por pouco não conseguiu.

Foi quando já festejava a vitória que vieram a publico as gravações fatídicas.

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A conexão portuguesa do “Mensalão”

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A investigação que se seguiu, e continua até hoje, remete a personagens velhos conhecidos dos brasileiros que têm em comum com José Sócrates um declarado ódio à imprensa livre e que tiveram papel central na “conexão portuguesa” do famigerado “Mensalão do PT”, episódio que, na época, cresceu em importância porque foi nele que se esboçou a única ligação direta entre aquele escândalo e a pessoa do presidente Lula.

Sr. e sra. José Dirceu

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O onipresente José Dirceu, que operava também a “conexão portuguesa” do “Mensalão”, se apresenta, agora, no time dos colunistas permanentes do Brasil Econômico. E sua mulher, Evanise dos Santos, vem a ser a “diretora de marketing” da empresa que assumiu o ramal brasileiro da operação, a Ejesa, editora do Brasil Econômico, “pertencente à” … esposa brasileira do dono português da Ongoing Strategy Investments, Maria Alexandra Mascarenhas Vasconcelos.

É com essa história que ofende qualquer inteligência superior à de um primata que Nuno Vasconcelos e as forças por trás dele pretendem passar por cima da norma constitucional que proíbe a posse por estrangeiros de meios de comunicação no Brasil em proporções maiores que 30%.

Foi, aliás, em função da falta de cerimônia com que Nuno Vasconcelos repete explicações desse gênero para tudo que diz respeito à origem das centenas de milhões de euros que a Ongoing movimenta, sempre com uma largueza que não corresponde à racionalidade dos negócios em que entra que, lá onde o conhecem melhor, os seus passos foram, por enquanto, atalhados.

Sr. e sra. Nuno Vasconcelos

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Seja como for, é preciso, antes de mais nada, ter bem claro em mente sobre quem se está a falar quando se fala de Nuno Vasconcelos. E é esta a história que começaremos a contar no capítulo de amanhã.

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Banda Larga

O fio do telefone

O fio do telefone pode transmitir dados em várias freqüências, mas apenas as freqüências entre 1 e 4 mil hertz servem para a conexão discada. Essa faixa de freqüências é, portanto, compartilhada pela voz e pela internet, ou seja, só dá para usar uma de cada vez, o que provoca “engarrafamentos”.

Internet banda larga

A banda larga do tipo ADSL (da sigla em inglês para “linha de assinante digital assimétrica”) também usa o fio de telefone.  Hoje, tudo que passa por esse fio passa pela faixa de 1 a 4 mil hertz. Mas, para o transito de dados, esse fio suporta cerca de 250 faixas de freqüência.  Com a nova tecnologia, todas as outras freqüências entre 1 e 1 milhão de hertz poderão ser usadas para mandar e receber dados, inclusive os de voz, sem necessidade de alternância. E isso resulta no enorme aumento da velocidade de trânsito desses dados, pela chamada “banda larga”. Esse tipo de conexão pode chegar a 8 Mbps (milhões de bits por segundo).

A conexão por cabo, assim como o ADSL usa diferentes freqüências para dados e voz no fio de cobre, divide freqüências para a internet e os canais de TV. Só que o cabo comporta muito mais faixas de frequencia do que o fio de cobre e a conexão pode chegar a 30 Mbps

A conexão wireless é feita por ondas de rádio. Usa um modem específico e o usuário precisa ter uma antena e um rádio instalados em casa. Acaba sendo uma opção cara, mas a conexão é rapidíssima – 11 Mbps .

A conexão por satélite também usa ondas de rádio e, portanto, tem o mesmo potencial de transmissão do wireless (até 11 Mbps). A vantagem é que, via satélite, a conexão não sofre interferências ambientais – de uma montanha, por exemplo -, o que acontece no wireless.


Um meteoro no céu da mídia

30 de maio de 2010 § 4 Comentários

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Série: O Jogo Mundial do Poder

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Um meteoro no céu da mídia

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Nuno Rocha dos Santos de Almeida e Vasconcelos, 45 anos, mais conhecido como Nuno Vasconcelos, “dono” da Ongoing Strategy Investments, é o mais fulgurante meteoro que jamais riscou os céus do universo da mídia em Portugal.

De 2007 em diante, comprou 6,9% da Portugal Telecom (PT), o que fez dele o segundo maior acionista da maior empresa de Portugal; 3,5% da Zon Multimedia, antiga PT Multimedia, desmembrada da empresa mãe em 2007 para operar todos os negócios da Portugal Telecom, excluídas a telefonia fixa e a telefonia móvel, e hoje controla 90% do mercado de TV por assinatura, é o maior provedor e tem o maior portal de internet e é dona da maior produtora de conteúdos para TV de Portugal (atua em todos esses ramos em outros países também); tornou-se sócio, com perto de 2%, do Banco Espírito Santo, o maior banco privado do país; comprou o Diário Econômico e o Semanário Econômico de Lisboa por um preço que os próprios vendedores consideraram “irrealista”; montou a Mobbit, que dá consultoria, desenha, hospeda e opera todo tipo de solução de internet tais como sites para qualquer finalidade (inclusive os dos jornais do grupo), iTVs corporativas, painéis informativos, displays de publicidade, etc, em Portugal e no Brasil; tentou comprar a TVI, a maior rede de televisão aberta de Portugal (ele já era sócio da segunda maior rede, pertencente à Impresa, da família Pinto Balsemão); fez uma oferta hostil pela maioria das ações da Impresa; lançou do zero o Brasil Econômico; comprou os três jornais e a licença de TV por assinatura do grupo carioca O Dia; promete para breve o lançamento de um jornal generalista em Brasília “para falar de política”; iniciou as transmissões da TV Econômico de Portugal em dois canais de cabo, um deles em HD; comprou a GPTI, empresa de outsorcing com 19 anos de atuação no Brasil e uma vasta carteira de clientes nas áreas de governo, finanças, telecomunicações, consumo e serviços; lançou o jornal econômico Expansão em parceria com o segundo maior grupo de mídia angolano, o Score Midia; anunciou para breve a assinatura de um acordo também com o primeiro grupo de mídia de Angola, o Media Nova, dono da TV Zimbo, da Radio Mais, do jornal O Pais, do semanário Econômico e da revista Exame; anunciou acordo, com opção de participação acionária, com o grupo Soico, de Moçambique, dono da STV (líder de audiência), da rádio SFM, do jornal O Pais e do jornal Border Post, bilíngüe, visto como “uma porta de entrada para a África Austral”; constituiu a CTN Transnational Contents, criada para oferecer conteúdos audiovisuais e consultoria para TVs de língua portuguesa, dirigida por Fernando Maia Cerqueira, que trabalhou sete anos em Macau implantando a TV local e é o encarregado de expandir a rede Ongoing para o Extremo Oriente.

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Sabões, náufragos e degredados

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Sede da Sociedade Nacional de Sabões

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O capital em que se ancora todo este império, segundo Nuno Vasconcelos,  tem sua origem na prosaica Sociedade Nacional de Sabões (SNS) que chegou a ser uma potencia para os modestos padrões portugueses na fase em que produziu para o mercado local marcas mundiais, como Colgate e outras, sob licença.

Ele se diz “o único herdeiro” da SNS. Mas nem isso é verdade. Segundo fonte que conhece de muito perto a história da empresa, o avô materno de Nuno (família Rocha dos Santos) era, na verdade, sócio minoritário (40%) da SNS cujo maior dono era a família Beirão da Veiga (60%). Esse avô teve dois filhos, cabendo a cada um 20%. O tio de Nuno vendeu sua parte aos Beirão da Veiga em 1987. A parte de sua mãe,  “Belucha” (Isabel), foi vendida ao mesmo comprador em 1992, ano em que seu avo morreu, por um milhão de contos, equivalente a algo entre 5 e 6 milhões de euros.

Para cuidar do produto dessa venda foi criado um family office que, sob a chefia de Nuno, passaria a cuidar do dinheiro da família. É ele que dará origem, em 2004, à Ongoing Strategy Investments.

Já seu pai, Luis Vasconcelos, do qual viveu afastado em função do divorcio e do segundo casamento da mãe que levou a família para morar nos Estados Unidos, foi administrador e sócio (23%) de Francisco Pinto Balsemão, criador do jornal Expresso, o primeiro a se estabelecer depois da redemocratização. O jornal deu origem ao grupo Impresa, dono da segunda rede de TV, em audiência, do país – a SCI – e de uma editora de revistas.

Sobre o valor da herança do pai, morto em 2009, Nuno Vasconcelos em pessoa, depondo em março deste ano à Comissão Parlamentar de Ética da Assembléia da Republica que examina a conspiração do governo Jose Sócrates para por de joelhos a imprensa livre de Portugal, disse o seguinte: “Nos últimos dez anos não houve distribuição de dividendos pelos acionistas; a empresa vale metade do que valia e 75% do valor dos acionistas foi destruído“.

E, no entanto, partindo dessas duas heranças relativamente modestas, Nuno Vasconcelos se transformou, de repente, justamente durante os dois anos da maior crise que o mundo vira desde 1929, em que faltava dinheiro para tudo, no maior comprador de empresas de telecomunicações e de mídia da história de Portugal.

Barrado em seu país por violação das leis de proteção à concorrência e em função das suspeitas sobre a origem do dinheiro que movimenta e do envolvimento com o plano do governo para interferir com a liberdade de imprensa, Nuno Vasconcelos e a sua Ongoing, como os náufragos e os degredados do passado, veio dar com os costados na Terra de Vera Cruz.

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Do zero ao infinito

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Difícil não é saber de onde vem o dinheiro que a esposa de Nuno Vasconcelos alega ter investido para fundar o Brasil Econômico e comprar os jornais do grupo O Dia. Difícil é saber de onde vem o dinheiro do próprio Nuno Vasconcelos.

Mas é possível.

A súbita escalada do dono da Ongoing do tranqüilo vale do seu family office para os mais altos picos das finanças portuguesas coincide com a tentativa do grupo Sonae, do empresário Belmiro de Azevedo, que fez dinheiro no ramo de supermercados mas também mantinha um pé nas telecomunicações, associado à France Telecom, de comprar o controle da Portugal Telecom por meio de uma oferta hostil por um mínimo de 50% + 1 do total das ações, apresentada no início de 2006.

Algo parecido com o que a Telefônica de Espanha está tentando fazer novamente neste momento.

Foi um verdadeiro terremoto em Portugal, pátria do “capitalismo de relacionamentos” onde nada se faz sem antes combinar cada passo com o governo e com a pequena confraria dos poderosos que estão sempre na sua órbita (ou será o contrario, visto que os governos se alternam e os poderosos continuam sempre os mesmos?).

O estado português detém pouco mais de 7% das ações da PT e mais 500 “golden share” que lhe dão direitos especiais. É ele quem nomeia um terço do conselho de administração, o seu presidente, estabelece os limites ao direito de voto dos demais acionistas e tem o poder de vetar decisões estratégicas. Esta ferramenta, sobretudo nas mãos de um “sócio” com os poderes do estado, tira a transparência da gestão e permite as obscuras manipulações mais voltadas a projetos de poder do que a criar valor para os acionistas em que a empresa se envolve, exatamente como estas que transformaram Nuno Vasconcelos, da noite para o dia, num dos membros do seleto grupo dos grandes acionistas da PT.

Partindo do principio de que a Portugal Telecom não esta entre as futuras consolidadoras do setor, muito pelo contrario, o projeto da Sonae propunha acabar com as “golden share”, descartorializar o setor, dar total liberdade aos acionistas para dispor como quisessem de suas ações, abandonar os negócios paralelos e focar a gestão na criação de valor para os acionistas. Isso sinalizava para o desmembramento das redes de cabo e de telefonia fixa, a separação das atividades de telefonia das de produção e distribuição de conteúdos (na época concentradas na PT Multimedia, hoje Zon) e até a possível venda dos 50% que a PT tem na Vivo à Telefônica. Seria a única maneira que o grupo Sonae teria de pagar o investimento feito na compra do controle da PT. Por esta, razão seu projeto foi apoiado pela companhia espanhola que detém 10% da PT e é dona dos outros 50% da Vivo.

Como o premio oferecido pela Sonae aos acionistas minoritários era muito tentador (como também ocorre hoje com a proposta da Telefônica), o perigo de que a oferta fosse aceita era real.

Em função disso, o governo e seus aliados trataram de protelar ao máximo a decisão, para ganhar o tempo necessário para organizar a resistência. Essa articulação envolveu desde a criação de novos sócios simpáticos à manutenção do status quo até manobras para impedir a articulação de acionistas minoritários de forma a reduzir o numero de votantes não comprometidos com a rejeição da oferta na reunião decisiva.

Foi nessa canoa que Nuno Vasconcelos embarcou rumo ao estrelato.

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O pai, o filho e o Espírito Santo

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Os mapas dos acionistas da PT publicados na época mostravam que a propriedade da companhia era – como continua a ser – muito  pulverizada. Mas é certo que a Ongoing e suas coligadas não constavam deles.

Em janeiro de 2006, quando a Sonae apresentou sua oferta, Nuno Vasconcelos e suas empresas ainda não tinham uma única ação da Portugal Telecom.

Na conturbada Assembléia Geral de Acionistas que finalmente se reuniu a 2 de março de 2007, mais de um ano depois, para decidir a aceitação ou rejeição da oferta da Sonae, a Ongoing já era dona de 3% da PT.

Para escândalo de muitos, Nuno Vasconcelos conseguiu, no momento da votação, cooptar o presidente da Associação dos Acionistas Minoritários para representar a sua pessoa e não os seus associados que, assim, acabaram não votando. Mas não foi só. No calor dessa mesma Assembléia Geral, Nuno Vasconcelos foi, de repente, eleito “administrador” da Portugal Telecom, fato que provocou contestações até na Assembléia da Republica onde deputados exigiram que fosse apresentado o seu curriculum para averiguar o que, nele, poderia recomendá-lo para essa função.

Hoje, Nuno Vasconcelos já tem 6.9% da PT. É o segundo maior acionista privado, portanto, depois do Banco Espírito Santo (BES) que tem pouco menos de 9% (acima do BES, só ha a Telefônica de Espanha, com 10%).

Junto com seu sócio, Rafael Mora, ele vinha armando esse bote ha anos. Os dois eram sócios numa empresa de “gestão de talentos”, a Heidrick & Struggles, que começou a operar em Portugal em 1995 e logo passou a assessorar a Portugal Telecom, o Banco Espírito Santo, o Banco Comercial Português e outras empresas que seriam decisivas para o seu futuro salto financeiro e para compor a frente que barrou a aceitação da oferta da Sonae.

Dois anos depois, com a publicação, em 2009, do balanço de 2008 da Ongoing e as subseqüentes investigações sobre seus números, foi possível montar a história que correu nos bastidores sobre como foram financiadas as compras de Nuno Vasconcelos dentro e fora da Portugal Telecom.

O primeiro passo parece ter sido um empréstimo de 216,4 milhões de euros do Crédit Suisse (que também tinha uma participação de 2,34% na PT). Hoje parece claro que o banco recebeu garantias de alguém que as tinha mais sólidas do que as que a Ongoing podia oferecer. Esse dinheiro terá sido usado para comprar as primeiras ações da PT, que a Ongoing “deu como garantia” para outros empréstimos, daí por diante tomados a bancos bem mais maleáveis.

A maior fatia veio do Banco Comercial Português (BCP), banco privado com poderosas filiais em Angola e Moçambique, que está sob intervenção do governo socialista. O BCP é dirigido, no momento, por um personagem que carrega o sugestivo nome de Armando Vara e tem estado ao lado de José Sócrates desde os seus primeiros passos na política. Envolvido em todos os escândalos que atingiram o atual primeiro ministro, Armando Vara chegou a ser condenado por corrupção.  Mas logo depois da condenação, foi colocado por José Sócrates na direção da Caixa Geral de Depósitos (CGD), o maior banco estatal de Portugal, de onde saltou para o BCP, como interventor, no momento em que era o pivô de mais uma investigação por corrupção, o “caso Face Oculta”,  no qual acabaram sendo colhidas as gravações sobre a conspiração socialista para comprar a TVI e outros órgãos da imprensa portuguesa.

O BCP, sob Armando Vara, “emprestou” à Ongoing de Nuno Vasconcelos nada menos que 400 milhões de euros.

Mas ainda não era suficiente.

Ricardo Salgado

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Foi então que o maior banco privado português, o Banco Espírito Santo e sua subsidiária, BES Investimentos, dirigidos por Ricardo Salgado, uma das figuras mais poderosas da republica, deslocou-se dos bastidores para a linha de frente. Já estava difícil contornar as regras bancárias para colocar ainda mais dinheiro no topo de uma pirâmide cuja base continuava a ser a modesta herança de Nuno Vasconcelos proveniente de um pedaço de uma velha fábrica de sabões e de uma participação  minoritária no quase falido empreendimento jornalístico dos Pinto Balsemão. O BES, portanto, só pôde “emprestar” à Ongoing 160 milhões de euros. Outros 60,8 milhões vieram do BES Investimentos, na forma de “investimento de risco” em commercial papers emitidos pela Ongoing, sem cotação no mercado.

Em julho de 2009 a Ongoing Strategy Investments publicou seu balanço relativo ao ano anterior. Ele dava conta de que a empresa terminou 2008 (antes, portanto, de dar início às suas compras d’além mar) com um passivo de 831 milhões de euros e um prejuízo consolidado, somente naquele ano, de 65 milhões de euros.

Notas do auditor independente alertavam para o “iminente risco de insolvência”, visto que 97,5% dessa dívida era exigível no curtíssimo prazo.

Mesmo assim, Nuno Vasconcelos mostrava-se tranqüilo e continuava falando grosso.

Disse à imprensa que tinha “excelentes garantias”, que todo o passivo estava sendo renegociado em prazos mais longos e que (apesar do vertiginoso mergulho das bolsas em plena crise do subprime) os dividendos que recebia de suas ações na Portugal Telecom eram suficientes para honrar todos os seus compromissos. Tanto assim que pretendia pagar os 157 milhões  de euros que oferecera pela TVI “à vista e em cash”.

Com a posição que montou na Portugal Telecom graças à ilimitada confiança com que o tratavam esses banqueiros, Nuno Vasconcelos e seu sócio Rafael Mora conquistaram o direito de fazer parte do Conselho de Administração da Portugal Telecom.

Aí ficou mais fácil.

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Dentro do cofre

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O presidente do fundo de pensão dos funcionários da PT, Fernando Soares Carneiro, também fazia parte do grupo de José Sócrates. Tinha sido plantado na companhia como um dos representantes do sócio estado no conselho, compondo o time que, a pretexto da tentativa de take over da Sonae, chegou à PT com a missão de derrubar o então presidente da empresa, Henrique Granadeiro, para colocar Zeinal Bava, o atual dirigente da confiança do grupo de Sócrates, em seu lugar. Executada a tarefa, Soares Carneiro passou a controlar o fundo de pensão dos funcionários.

A Portugal Telecom era, agora, dos socialistas e de seus aliados. Mas havia, ainda, um elo fraco na corrente.

Na reunião de 30 de junho de 2009, quando o Conselho de Administração examinou as contas semestrais da PT, Jorge Tomé, membro do Comitê de Investimentos, deparou-se com uma ata em que se registrava a “aprovação por unanimidade” de um “investimento” de 35 milhões de euros do fundo de pensões dos funcionários da PT num fundo de private equity da Ongoing International , com sede no paraíso fiscal de Luxemburgo. Indignado ele interpelou o presidente do fundo de pensão e seus colegas do Comitê de Investimentos afirmando que tal aprovação nunca tinha acontecido e o caso sequer fora debatido no conselho de que fazia parte,  o que era duplamente grave porque beneficiava uma empresa que detinha ações da PT e cujos donos tinham assento no conselho encarregado de aprovar tais “investimentos”. Investigando mais fundo, constatou que outros “investimentos” do fundo dos empregados da PT tinham sido feitos na Ongoing International nos meses anteriores. Foram 105 milhões de euros, ao todo, por este canal.

Jorge Tomé, que tem uma sólida reputação nos meios financeiros portugueses, pediu a correção da ata, demitiu-se de seu cargo na PT e foi à imprensa delatar a ocorrência. Em depoimento à comissão de inquérito da Assembléia da Republica no mês passado, confirmou todas as acusações.

Interpelados, Nuno Vasconcelos e Rafael Mora afirmaram, na cara dura, em depoimento em que foram corroborados por Ricardo Salgado, do BES, que eles mesmos tinham sugerido ao fundo de pensões da PT que saísse das “aplicações mal remuneradas em que estava” e aplicasse o dinheiro no seu próprio fundo, que proporcionava “retornos de dois dígitos”. E mais disseram: que a Ongoing Strategy Investments e a Ongoing International eram empresas “totalmente independentes entre si” e que o dinheiro das pensões dos empregados da PT “jamais seria usado nas aquisições de veículos de mídia”.

Já sabemos, portanto, como é que foi vestido este santo, e quem foram os mais generosos entre os que depositaram nele a sua devoção. Amanhã vamos mostrar qual o tipo de milagre que esperavam dele.

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