Seriam só bois que a JBS anda matando?
20 de fevereiro de 2013 § 5 Comentários
O Estado de ontem noticiou que o Cade vai iniciar uma investigação sobre o crescimento vertiginoso do frigorífico JBS.
A JBS e a holding J&F “à qual pertence” é caso, no mínimo, para o dr. Roberto Gurgel e o seu Ministério Público, o último xerife que paira acima de qualquer suspeita neste país bichado.
Mas antes o Cade do que nada.
Diz a agência que eles triplicaram de tamanho nos últimos quatro anos, indo de 15% para o controle de 40% da carne bovina vendida no pais (na verdade, já é bem mais que isso).
Fora as que registraram no Cade, a JBS fez pelo menos outras 70 operações de aquisição ou arrendamento de frigoríficos no país e 20 ou mais no exterior que nem se deram o trabalho de comunicar à agência de controle da concorrência.
Só os abatedouros e processadores arrendados somados constituiriam, hoje, o terceiro ou quarto conglomerado do setor, afirma o Cade.
Muitos dos arrendamentos, queixam-se os criadores que estão nas mãos desse monopólio, são feitos para fechar os abatedouros envolvidos e, assim, eliminar a concorrência.
E para completar o quadro, comentam os investigadores do Cade, “a já elevada capacidade ociosa da empresa torna essas aquisições questionáveis do ponto de vista da racionalidade econômica, reforçando as suspeitas de estratagema para eliminar a concorrência”.
O “caso JBS” é mais uma daquelas obviedades rodrigueanas, “que clamam aos céus”. Não só é evidente que não se trata de operação que responda a imperativos de racionalidade econômica como, mais ainda, todas essas compras têm sido feitas com dinheiro do BNDES, hoje caudatário do Tesouro Nacional, ou seja, com transferência líquida de dinheiro dos contribuintes para a “família Batista” que é quem aparece à frente desse vasto “empreendimento”.
O fato de entre o primeiro e o terceiro colocado, encarnado pela soma das empresas “arrendadas” por esse mesmo grupo, estar a Marfrig, outra fabricação do BNDES, já indica de modo clamoroso que há, sim, forte racionalidade política nessa vasta armação feita com dinheiros públicos.
Seria uma forma eficiente de, por exemplo, resolver o problema que todos os governos socializantes, desde o primeiro lá na Rússia soviética, enfrentaram, de encontrar meios e modos de controlar o setor fortemente pulverizado da agropecuária e dos pequenos e médios produtores agrícolas, sempre um calcanhar de Aquiles nesses projetos de controle total da economia.
Acredite em coincidência se preferir. Mas que é preciso investigar a fundo porque interessa a um banco nacional de desenvolvimento de um pais mendigo de infraestrutura, educação e saúde gastar centenas de bilhões para fazer da família Batista não o rei mas o imperador do gado no Brasil e no mundo, disso não há dúvida nenhuma.
Afinal, com uma migalha do que se enterrou na JBS, poder-se-ia, só para dar um exemplo, resolver a crise de todas as Santas Casas do país, que decorre de um endividamento de meros R$ 15 bilhões e ameaça por em colapso todo o Sistema Unificado de Saúde que atende a esmagadora maioria dos brasileiros que não podem pagar um médico e um hospital decentes.
Outro aspecto para o qual vale a pena olhar é o seguinte: quem tem a rede de empresas que o BNDES jogou nas mãos dos Batista em todos os continentes do mundo não precisa de bancos ou quaisquer outros canais para lavar dinheiro suspeito. É só “comprar” aqui, “vender” ali, “arrendar” acolá que tudo se resolve dentro de casa…
Não afirmo que é isso que esteja acontecendo. Mas quem não se lembra que meia hora depois que veio à tona tudo que estava enterrado na fossa da Construtora Delta, rainha do PAC filho da Dilma, no trono da qual sentava-se o ininvestigável Fernando Cavendish, o menos traquejado dos irmãos Batista jogou a holding da família na arena propondo comprar a empresa que acabara de ser declarada inidônea “de porteiras fechadas” antes mesmo de examinar qualquer um dos seus números, projeto de que só recuou em função do escândalo que tal oferta produziu num momento em que de escândalos este governo já estava superlotado?
E mais: não é a J&S, também, que, com a gordura dos seus bifes, criou a sua própria empreiteira e está mordendo nacos suculentos das obras de infraestrutura que o PT está terceirizando para a iniciativa privada?
Não é ela, finalmente, que a par de financiar sozinha, por trás dos panos, inúmeras revistas e publicações pelo país afora, está começando a assumir agora também as suas pretensões no setor de mídia com a anunciada compra (ainda não confirmada) do Canal Rural do grupo RBS do Rio Grande do Sul?
Seja como for, uma coisa é certa. Muito pouco desse império supersônico foi construído com bifes ou com alguma secreta alquimia capaz de transformar carne de vaca em diamantes. Tudo foi amealhado com o inestimável concurso do dinheiro fácil do BNDES.
De modo que, senão por outra razão, ao menos por essa isso seria caso para o dr. Gurgel e o seu Ministério Público, mesmo porque o resto já morreu. Mas ainda que seja via Cade, que alguém precisa jogar um pouco de luz dentro desse imenso matadouro, isso sem dúvida nenhuma, precisa.
Uma imensa Argentina?
10 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário
A Folha de hoje atirou no bicho certo mas exibiu o troféu errado.
A longa entrevista por ela publicada (aqui) com o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, continha uma revelação importante e um alerta importantíssimo, mas não foi nenhuma dessas duas preciosidades que a equipe encarregada de editá-la destacou.
A revelação importante é a de que, ao se aproximar o prazo para a sua recondução ou não ao cargo de Procurador Geral da Republica, Roberto Gurgel mandou avisar à presidente Dilma que estava terminando a peça acusatória do Mensalão, a ser apresentada dois dias depois da decisão, e que manteria nela todas as acusações que hoje o Brasil inteiro conhece contra os maiorais do PT e, mesmo assim, a presidente o confirmou no cargo.
Já o alerta importantíssimo que a Folha deixou de amplificar, pode ser resumido nestes tres pontos:
1- A luta não está ganha (vejam que manchete atraente para sair sobre uma foto de Gurgel!);
2- Não ha nada no horizonte que indique que vamos ganhá-la, ao contrário.
3- Se não ganharmos agora não haverá segunda chance.
Ok. Foi “um esforço magnífico”, “um marco histórico”, e coisa e tal, “mas isso não basta”. “Nós não acabamos. É preciso dar efetividade a esse julgamento … É preciso que os juízos condenatórios proferidos pelo Supremo tenham as devidas consequências (tanto) na questão dos mandatos parlamentares (quanto) na questão dos mandados de prisão … Respeito a posição do ministro Joaquim (de recuar de pedir as prisões imediatas)… (mas) Meu temor é assistir cenas como as das fotos recentes do Cachoeira (condenado mas em liberdade) no resort. Isso demonstra a falta de efetividade da Justiça. Essa é a preocupação que o Ministério Público tem. Nosso sistema processual é muito generoso e muito propício a certas manobras da defesa…”
Nenhuma voz tem mais autoridade que a do acusador-chefe de um país sem prisões para nos alertar para a seriedade da ameaça que paira sobre nossas cabeças.
Roberto Gurgel, assim como Dilma, faz parte de uma elite do funcionalismo público que, já nem tão por baixo do pano assim, vem num conflito surdo com a canalha oriunda dessa grande universidade do crime que é o sindicalismo pelêgo que Getúlio Vargas nos legou e vem tomando literalmente de assalto o Estado brasileiro desde o momento em que Lula chegou “lá”.

Não digo que essa elite seja constituida só de santos nem que não existam diferenças ideológicas ou de comportamento ético a diferenciar os que fazem parte dela. Nem mesmo que ela não se aproveite e componha com a outra quando se trata de preservar seus privilégios.
Mas também é indiscutível que, tomada em seu conjunto, há um verdadeiro abismo moral e, principalmente, cultural entre essa nata do funcionalismo concursado, de carreira, e a escória cevada no sindicalismo que Getúlio plantou aqui precisamente para destruir o Estado e deixar o país inteiro nas suas mãos, segundo a receita de Juan Domingo Perón e suas periguetes de palanque.
E já lá vão 10 anos ao longo dos quais para cada concursado que sai pela porta da aposentadoria são dois ou tres predadores que entram pela das nomeações “políticas“.
A Argentina está aí, descambando desabaladamente ladeira abaixo há quase um século, trágica, irrecuperável, aos trambolhões, a nos gritar que não tem fundo o abismo em que ameaçamos despencar.
Dilma sabe disso. Mas, criatura de “deus” que é, hesita. Balança entre “o pai” e o que lhe diz a sua consciência. O dr. Gurgel mostrou que sabe o que vai pela alma dela…
Quanto às cenas como as das fotos do Cachoeira que tiram o sono do promotor-chefe, elas já estão aí, atiradas nas nossas caras.
A ocupação da tribuna do povo em Brasília pelo chefe da grei dos cuequeiros sob os aplausos da alcatéia dos vendidos num congresso nacional que parece antecipar o nosso destino bolivariano é a repetição, como farsa, do acinte do caudilho dos pampas ao amarrar seus cavalos no obelisco do Senado da Republica da antiga capital federal da Guanabara.
Por quanto tempo ainda os “condenados” do Mensalão poderão andar pelas nossas ruas e praias exibindo o seu sucesso?
No mínimo mais um ano, diz o dr. Gurgel mais em tom de torcida que de afirmação…
O país que acompanhou por quatro meses, ao vivo, as seções solenes do Supremo Tribunal Federal para vê-las desaguar numa hermética “dosimetria” onde tudo faz lembrar o Jogo de Truco, síntese da malandragem brasileira onde nenhuma carta vale o que diz o número estampado nela, fica sabendo, depois desse primeiro balde de água fria, que a “última palavra” da nossa “ultima” corte de justiça, de ultima não têm nada. Que vai recomeçar a ciranda dos recursos e dos recursos sobre os recursos, agora batizados de “embargo” disso, “agravo” daquilo, enquanto os “condenados” refestalam-se ao sol dos vencedores na Bahia.
Que país sairá dessa travessia? O que terá restado em pé?
É preciso um esforço de união nacional aberta e francamente apoiado na única dicotomia real que, pelo mundo afora, sobreviveu à entrada do Terceiro Milênio – mocinhos x bandidos; ladrões x roubados – como a derradeira tentativa de incentivar os brasileiros honestos de todas as antigas cores que nos separavam no século passado a se unirem para gritar que “Não, nós não somos todos a mesma merda que Lula quer que sejamos”, ou seremos nós a próxima e imensa Argentina.
É matar ou morrer
3 de agosto de 2012 § 3 Comentários
O Brasil não ficou sabendo nada que essencialmente não soubesse ainda sobre a esbórnia que ficou conhecida como o Mensalão quando, por horas a fio, o Procurador Geral da Republica, Roberto Gurgel, expôs hoje, passo a passo, ladrão por ladrão, saque por saque, tramoia por tramoia, com serena precisão, contundência e abundância de provas como se deu aquela roubalheira.
O que o país inteiro compreende melhor agora é porque Roberto Gurgel e o Ministério Público Federal, a única instituição da República que não está sob suspeita neste momento, merecem dividir com a imprensa a glória de estar entre os alvos preferenciais do ódio da bandidagem institucionalizada.
Se haverá ou não haverá penas à altura dos crimes cometidos é uma questão que está presa aos problemas anteriores da fraqueza da nossa legislação sobre corrupção e da docilidade do sistema processual brasileiro ao golpe baixo, que se traduz, na prática, na sua opção preferencial pelo bandido que tanto revolta cada habitante deste país.
Mas uma condenação às penas máximas mesmo dessa legislação mínima é imprescindível pois ha tempo demais, já, que não paira a menor dúvida sobre as culpas dos personagens do enredo do dr. Gurgel mas nada acontece. E este é que é o verdadeiro problema.
O que está em questão no Supremo Tribunal Federal é o próprio Supremo Tribunal Federal. É saber se a ultima instância do Sistema vai ou não vai reagir àquilo que o país inteiro sabe, ha 7 anos, que aconteceu exatamente do jeito que Roberto Gurgel descreveu hoje, do modo como a lei exige que reaja, ou se a impunidade é que vai se sagrar oficial e irrecorrivelmente lei.
O próprio dr. Gurgel abriu sua exposição citando Raymundo Faoro em seu clássico Os Donos do Poder para lembrar o quanto são velhas e profundas as raízes da corrupção no Brasil. Com o PT, essa árvore seca e retorcida deu frutos e espalhou suas sementes malignas por todo o tecido social.
Theodore Roosevelt advertia ha mais de 100 anos que, “o problema não é haver corrupção, doença inerente à espécie humana; o problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo“.
Já passamos desse ponto e, ou recolocamos as coisas no seu devido lugar, ou não haverá mais volta.
O Estado de Direito foi desafiado para um duelo final. É matar ou morrer.
Lula já entendeu. Mas…
4 de maio de 2012 § 1 comentário
No Ritz de Paris, Cabral marca o casamento entre o dono da Delta e Jordana Kfouri que viria a morrer na queda do helicóptero de Fernando Cavendish em Trancoso da qual o governador e seu filho por pouco escaparam mas que também matou sua futura nora
A divulgação dos detalhes das primeiras seções da CPI do Cachoeira confirmam o que foi previsto no artigo de quarta-feira.
O relator petista, seguindo ordens, propôs limitar a investigação da Construtora Delta aos seus contratos na região Centro Oeste do Brasil, uma tentativa constrangedora de tão bandeirosa. Bem traduzida queria dizer “investigue-se apenas Demóstenes e Marconi Perillo; esqueça-se o resto”.
Nem o Congresso Nacional onde todo mundo tem telhado de vidro podia engolir essa com todas as gravações que estão em cartaz neste momento em todos os jornais, rádios e televisões do país.
Já o ex-presidente Collor, aquele que foi escorraçado do Alvorada a pontapés pelo PT, despontou como o guardião do sigilo dos documentos, gravações e filmes guardados no pacote do inquérito do Supremo enviado ao Congresso que, por tudo que se divulgou até agora, incriminam o PT mais que ninguém.
Jordana Kfouri come caviar no Ritz de Paris
Um papel tão carimbado que ele sentiu-se na obrigação de explicar que, ao ameaçar todos os seus colegas com as penas da lei se “passassem informações por baixo dos panos a alguns confrades (repetidor da Globo nas Alagoas que é, ele se julga jornalista) para fazerem delas o uso que lhes convém“, ele não estava tomando uma posição “hipócrita, safada e jaguara” (de “cão ordinário”; de “pessoa de mau caráter e patife”, segundo o Houaiss), mas sim “defendendo a lei“.
O ex-presidente foi freudianamente exato nos adjetivos que selecionou…
Foi aparteado por Miro Teixeira que lembrou oportunamente que “pode vir o despacho (obrigando ao sigilo) da mais ilustre autoridade do planeta (e este veio do sempre genuflexivo ministro Lewandowski) o fato é que manter o sigilo é contrariar diretamente a Constituição“.
Resumiu bem a situação o ex-líder do governo no Congresso, Candido Vaccarezza: “Com tudo que a Polícia Federal já apurou, o único acordo possível é em torno do aprofundamento das investigações. Quem tentar abafar qualquer coisa vai se desmoralizar“.
O governador, seus secretários e o amigo Fernando na porta do Ritz
O próprio Lula, como confidenciou uma fonte do PT a Dora Kramer, do Estadão, já entendeu que o partido será o principal alvo das outras legendas nesta CPI porque é quem mais tem a perder.
Mas cautela e caldo de galinha nunca são demais. O resultado só sai depois que acaba o jogo. A velha raposa é persistente e conhece o poder que tem.
Enquanto a CPI se instalava resistindo às primeiras tentativas de sonegar ao país aquilo que o STF e o acuado Procurador Geral da Republica já sabem que contem o caminhão de lixo das organizações Delta-Cachoeira estacionado na sala-cofre do Senado, o sr. Luís Ignácio Lula da Silva, com a desfaçatez que o caracteriza, aparecia numa cerimônia pública ao lado de ninguém menos que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o mais irretorquivelmente corrupto dos corruptos colhidos em flagrante delito nesta que se anuncia como sendo a safra recorde das roubalheiras jamais desvendadas na história deste país.
Os secretários de Saude e Governo do Estado do Rio de Janeiro e o amigo Fernando (centro)
Cabral, como se sabe, é o pai da Delta, com cujo dono, Fernando Cavendish, costuma farrear em Paris e voar de helicóptero por aí, ainda muito mais que Dilma é a mãe do PAC, de cujas obras essa empreiteira detém 80%.
Lula conta cegamente com o “efeito Teflon” que lhe proporciona o fato de tantos brasileiros lhe atribuírem responsabilidade direta por estarem desfrutando pequenos confortos básicos nunca antes tidos e havidos, o que em parte é mesmo mérito dele, e dá de ombros para o resto.
Mas desde já está claro até para ele que, longe de apagar a memória dos “malfeitos” do PT para ganhar o poder e comprar apoios apurados no processo do Mensalão, a CPI da Delta-Cachoeira vai mostrar a que nível da estratosfera a associação explícita entre os antigos “paladinos da ética na política” e os collors e sarneys de sempre em defesa da mais ampla, geral e irrestrita impunidade levou a corrupção no Brasil.














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