O último a derrotar a máquina

3 de junho de 2013 § 6 Comentários

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É provável que Steve Jobs venha a ser, para a História, o marco da última grande vitória do homem sobre a máquina.

Mesmo com o implacável império do recondicionamento algoritmizado das criações alheias em pleno funcionamento e tendo-o o Google anos antes de sua morte como o principal foco da sua ação predatória, foi a força do seu gênio que, até o seu ultimo dia na Terra, seguiu transformando e retransformando a paisagem cultural humana dando dribles desconcertantes no território do previsível onde a matemática e o Google reinam incontestáveis.

Depois dele, com a acumulação de informações sobre cada pequeno ato do nosso cotidiano municiando a formulação de algoritmos cada vez mais complexos e exatos combinada com a sistemática sanção econômica imposta a quem resistir às novas técnicas “colaborativas” de produção e “criação” em todos os campos de especialização, o indivíduo, pelo menos enquanto agente econômico, estará morto.

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Já não é possível produzir e vender de forma sustentável nem música, nem informação, nem aplicativos (e o que mais se quiser lembrar de incluir nessa infindável lista), senão por meio de um dos dois gigantes do hiper-processamento, a Apple ou o Google, assim como se vai tornando inviável vender qualquer bem físico por fora dos canais da terceira fera detentora dessa capacidade, a Amazon.

Ha erzats desses leviatãs reproduzidos aqui e ali onde o Estado Nacional ainda consegue manter porteiras semi-cerradas, mas não por muito tempo.

E a cada minuto que passa, mais bilhões entram no caixa dessas baleias e mais profundo e intransponível se torna o fosso entre elas e quem possa vir a aventurar-se a sair das profundezas para tentar desafia-las.

ste4Nos próximos semestres, o Google terá tragado também a Apple cuja força estava concentrada na capacidade de criação e invenção de seu falecido dono e não na especialização em espionar e medir comportamentos humanos além de roubar invenções e conteúdos alheios e anaboliza-los sobrehumanamente com algoritmos de modo a açambarcar mercados e amealhar uma quantidade inenfrentável de trilhões.

Esta capacidade, a partir de um limite, opera uma mudança decisiva: mata, por inútil, qualquer veleidade de resistência do roubado, transformando todo e qualquer criador ou inovador em qualquer área de especialização e onde quer que esteja, ainda na casca ou já fora do ovo, no máximo num futuro empregado do gigante que passa a trabalhar desde o início na expectativa de entregar-lhe o que vier a criar contra uma quantia que, quanto mais solitário no mercado estiver esse comprador já quase único, menor tende a ser.

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É o momento em que o fenômeno deixa de ser visto como uma violência para transformar-se em uma nova cultura pacificamente assimilada, como na Idade Média, para lembrarmos apenas do período mais recente em que tal cultura foi dominante.

Esta semana a imprensa especializada noticiava que o Google já ultrapassou o limite que praticamente “condena-o” a transformar-se na plataforma única de venda de aplicativos – o novo nome dos meios de produção – uma das invenções que fez da Apple de Steve Jobs o gigante que foi um dia.

Quase no mesmo dia a Apple anunciou o download do quinquagésimo bilionésimo aplicativo vendido para o seu sistema iOS (iPhone, iPad e cia.) enquanto o Google anunciava a venda do quadragésimo oitavo bilionésimo programa produzido pelos anônimos do mundo e vendido na sua plataforma para os processadores do sistema Android.

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Mas o número importante é o que mede a virada da tendência. Embora a Apple ainda venda 850 mil aplicativos, muitos dos quais ainda não disponíveis para o sistema do concorrente, o Google já espalhou pelo mundo 900 milhões de aparelhos Adroid enquanto a Apple tem só 600 milhões de máquinas iOS em circulção. E isto põe as vendas de aplicativos do Google na conta de 2,5 bilhões de unidades por mês contra apenas 2 bilhões de downloads por mês da Apple.

O resto é apenas questão de tempo, portanto.

Como que a selar o epitáfio, Tim Cook, o sucessor de Steve Jobs na Apple, participando na semana passada da conferência anual do AllThingsD, publicação líder do setor de tecnologia, embananou-se todo para mostrar quais as novidades em gestação na antiga usina de criação de Cupertino.

A fonte secou…

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Já os algoritmos, a ferramenta matemática que deu vida ao Google, são cada vez mais onipresentes e vão tornando a mão de obra humana cada vez mais obsoleta, dispensável e googledependente.

Cito trechos de artigo recente de Sergio Augusto para o Estadão:

É por meio de algoritmos que os sites de busca na internet hierarquizam suas informações, as locadoras online estimam quais os gêneros de filme de nossa preferência, as livrarias virtuais selecionam os lançamentos e as rádios digitais preparam suas programações.

Sem algoritmos, o Google, a Netflix, a Amazon e a Pandora Radio seriam inviáveis, as campanhas políticas e publicitárias se transformariam em meros chutes sem nenhuma base.

Já existe arte criada a partir de algoritmos.

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‘Daqui a 15 anos, 90% dos textos da imprensa serão escritos por computadores (sem intervenção humana)’, prevê Kristian Hammond, fundador da Narrative Science.

Reportagem de Brook Barnes, publicada no New York Times mostra a crescente utilização de dados estatísticos na confecção de roteiros e scripts de cinema”.

Nos bancos, nos fundos de investimentos e nas bolsas de valores, não são mais operadores que compram e vendem ações, são computadores armados de algoritmos que decidem para que lado vai virar a economia global. E nem os médicos podem mais nada sem o recurso a essas fórmulas matemáticas até certo ponto elas também auto engendradas e às máquinas que fazem melhor que eles o que eles antes faziam por nossa saúde.

Do que sobrou, no mundo das manufaturas, de peças de automóveis a órgãos humanos, as impressoras em 3D movidas a algoritmos se encarregarão.

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O que foi dito até aqui, cabe lembrar, não é uma visão de futuro, é nada mais que uma descrição do presente.

É daí que tiro as previsões que se seguem:

Nesse novo “socialismo colaborativo” animado e fiscalizado pela matemática, pelas super-memórias e pela hiper-capacidade de processamento a originalidade de origem humana será sancionada primeiro economicamente, o que já será suficiente para praticamente varre-la da face da Terra enquanto o bezerro de ouro seguir sendo o único deus idolatrado pela nossa espécie.

Mais adiante é provável que venha a ser perseguida também pela polícia pois, como tudo se dará em processos despersonalizados a autoria, primeiro, e a mera diferença, depois, começarão a ser tratadas como crime posto que, não havendo autores nem proprietários tudo desaguará, como no socialismo arcaico que conhecemos no século 20, numa ultra-centralização como esta que já se vem ensaiando no Google, no que diz respeito aos meios de produção (tecnologias da informação). E essas entidades hiper centralizadoras odeiam a diferença.

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O rei de quem todos serão dependentes poderá, então, não apenas cobrar o imposto que quiser para por em circulação as criações alheias como também determinar – e aos seus barões contemplados com os monopólios em que já se vão consolidando cada setor de produção de insumos para os demais setores – que as criações dos seus desafetos não circulem nunca.

É um cenário sinistro, eu concordo. Mas duas coisas me impedem de ser mais otimista: primeiro porque é principalmente em economia que o meio inevitavelmente se transforma “na mensagem”; segundo porque a relação da humanidade com o poder nunca a levou numa direção diferente da prevista acima.

O consolo é que “haverá sempre moicanos” e a imaginação humana para inventar meios de atalhar e moer O Poder também sempre se mostrou inesgotável.

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A escolha de Dilma

2 de maio de 2013 § 5 Comentários

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Entre uma e outra declaração de amor e protestos de elevada estima e consideração por si mesma no seu discurso à Nação deste Primeiro de Maio, dona Dilma voltou a bater na tecla da educação.

Disse que está mandando finalmente ao Congresso a sua tantas vezes anunciada proposta de obrigar o investimento de todo o dinheiro dos royalties do pré-sal em educação porque educação é tudo aquilo que a gente sabe como condição para o desenvolvimento, e coisa e tal…

É claro que é só um gesto simbólico posto que, gostando como tem gostado ultimamente da baixa politicagem, dona Dilma sabe melhor que ninguém qual é a chance real dos seus sócios no alegre condomínio da governabilidade abrirem mão da parte que lhes cabe desse latifúndio que cada um tem defendido rosnando e arreganhando dentuças ameaçadoras para qualquer um que dela se aproxime.

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Ainda assim é digna de nota essa insistência no tema por parte desta filha de professores universitários emigrados da Europa (ainda que do Leste).

Posto ao lado do outro grande esforço pela educação de sua autoria – o Programa Ciência sem Fronteiras que pretendia mandar 75 mil brasileiros para estudar em universidades estrangeiras e que se vai arrastando por aí no padrão PT de gestão – esse projeto dos royalties nos permite espiar para dentro daquele que talvez seja o último grande dilema de consciência vivido por dona Dilma.

Ja comentei antes que não é pouca coisa para quem se alinhou a vida inteira com todos quantos vêm na cultura ocidental a obra de Satã em pessoa, propor algo com sabor tão herético quanto pagar para mandar brasileiros estudar no próprio “Inferno“.

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Mas ha uma explicação plausível.

Se tudo se apoiava na idéia de dar aos proletários a propriedade dos meios de produção e hoje os meios de produção são exclusivamente intelectuais, como negar o poder revolucionário da educação?

É impossível. Mas conhecendo como conhece o anel de ferro ideológico e corporativo em que estão encerrados os professores do Estado, componente essencial da armação granmsciana que, ao lado do expediente contra-revolucionário de distribuir coisas em vez de distribuir educação, ajudou a levar e ajuda a manter o PT no poder, dona Dilma tem todas as informações de que precisa para saber que não pode alimentar ilusões quanto à expectativa de fazê-los retornar à função de ensinar da qual foram afastados depois de tanta luta apenas cobrindo-os de dinheiro.

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O problema da educação pública brasileira, aliás, nunca foi de falta de dinheiro como provam todas as pesquisas internacionais comparando o nosso investimento por aluno com o do resto do mundo.

Se os empregados do Estado, viciados nas blandícias da estabilidade no emprego e da impunidade ampla, geral e irrestrita, não conseguem fazer uma estrada, um porto, um aeroporto, nem mesmo um hospital público decente se apropriando de mais de 1/3 de tudo que os brasileiros produzem ano após ano, porque seria diferente com a educação que é coisa muito mais complicada que tudo isso junto?

Dilma está certa. O único remédio é o que usam as universidades do “Império”: liberdade de pensamento e exigência de desempenho como condição para o professor e para o aluno.

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Mas como aplicá-lo aqui? Como renegar a desclassificação do esforço como justificação da diferença e passar a afirmar o primado da responsabilidade individual e a competição como parteira da qualidade depois de toda uma vida dedicada ao contrário, sobretudo a partir do posto mais alto de um esquema de poder que se baseia em substituir tudo isso pela esmola institucionalizada?

Impossível. Só resta, portanto, mandar brasileiros aprender la fora, onde o objetivo da escola pública continua sendo ensinar.

Com o país escorregando inexoravelmente para a periferia de uma economia global hipercompetitiva apesar dos seus ingentes esforços para fazer desaparecer na marra as consequências inevitáveis da nossa miséria educacional; balançando entre as delícias do Poder e a consciência de que o seu apoia-se na ignorância e na remediação da ignorância, dona Dilma fez a sua escolha mas sofre recaídas.

Sua consciência parece não ter morrido ainda mas a proposta quimérica envolvendo os royalties indica que ela passa muito mal.

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