Como foi que eles conseguiram

11 de fevereiro de 2020 § 31 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 11/2/2020

Todo mundo pergunta como foi que, partindo de uma situação em que tudo estava dominado” pela corrupção, os americanos conseguiram virar o jogo.

O Movimento Progressista” foi uma resposta aos problemas que se tornaram agudos depois da Guerra Civil (1861-1865) que em tudo fazem lembrar os do Brasil de hoje: urbanização desordenada com multiplicação de cortiços, favelas e violência urbana; exploração vil do trabalho; usurpação dos governos das cidades por máquinas políticas corruptas altamente profissionalizadas financiadas por empresários de araque; corrida às fusões e consolidações de empresas de setores inteiros da economia concentrando a riqueza e criando grupos gigantes com poder de corrupção ilimitado (os famigerados robber barons)…

Embora todos tivessem as mesmas queixas, até meados da década de 1890 dezenas de grupos reformistas ou de protesto separados por antagonismos em torno de minucias programáticas e vaidades imensas batiam cabeças em cidades e estados diferentes sem força para mudar nada.

Quatro fatores, principalmente, concorreram para que somassem forças a partir da crise que levou ao pânico financeiro de 1893. A ação de todas as igrejas na crítica do estado de coisas e na pregação do social gospel que associava a salvação individual também à “salvação socialpreparou o terreno. Mas foi a fundação da National Municipal League (NML), em 1894, amplamente financiada pelo empresariado que perdia com a corrupção, que profissionalizou a critica do sistema e a busca de alternativas pesquisando sistematicamente ao redor do mundo bons modelos de gestão das cidades, formando pessoal, prestando assessoria jurídica e legislativa e, principalmente, difundindo para o grande público as alternativas encontradas, municiando de argumentos e estruturando em rede” os movimentos reformistas do país inteiro.

Também foi crucial o início de uma revolução no jornalismo americano que evoluiu do sensacionalismo e do panfletarismo partidário para o jornalismo investigativo dos repórteres revolvedores da sujeira” (muckrakers) da revista de Samuel McClure que circulou entre 1893 e 1929 e expôs os intestinos da corrupção dos robber barons dos setores de petróleo, financeiro, do aço e outros, que constituíram monopólios maquiavélicos mancomunados com os donos das ferrovias e com políticos corruptos. Foram esses jornalistas, também, que pesquisaram e difundiram persistentemente nos EUA novos métodos de combate à corrupção, especialmente as ferramentas de democracia direta usadas na Suíça.

………

Os muckrakers e a NML deram a contribuição decisiva para a mobilização da opinião pública numa direção consistente apoiada numa espinha dorsal de sólido conhecimento.

O elemento sorte entrou, então, decisivamente em cena pela mão de Theodore Roosevelt. Vindo de fora dos currais tradicionais da política, ele foi o primeiro político do Ocidente a compreender a força do novo jornalismo nascente. Jogando fechado” com os grandes repórteres daquela geração, começou como chefe de polícia de Nova York, foi eleito na sequência governador do estado, e logo tornou-se herói nacional ao enfrentar a máfia que dominava a política local havia décadas e controlava nacionalmente o Partido Republicano. Traído, foi esterilizado” numa candidatura à vice-presidência num golpe dos velhos caciques corruptos dentro da convenção republicana. Mas com o assassinato do presidente McKinley antes da posse TR”, aos 42 anos, carismático e orador brilhante, tornou-se, em 1901, o 26o e mais moço de todos os presidentes dos Estados Unidos, servindo até 1909.

Sua primeira providência foi reviver o Sherman Antitrust Act de 1890, engavetado pelos antecessores, regulamentar a operação das ferrovias e instituir a preservação de um grau mínimo de concorrência em cada setor em benefício do consumidor como limite legal da disputa por mercados. Ao mesmo tempo atacou forte as bases do caciquismo” que viciava a política implantando eleições primárias diretas, eleição direta de senadores (antes indicados pelos legislativos estaduais) e os direitos de recall, iniciativa e referendo popular dos atos dos Legislativos e Executivos estaduais e municipais. Essas medidas vieram de encontro aos novos modelos de gestão das cidades a partir de eleições municipais despartidarizadas promovidos pela NML, o de City Council (um conselho eleito de 5 a 7 membros executando todas as funções antes prerrogativas de prefeitos e vereadores) e o de City Manager (uma variação do mesmo sistema mas ainda mais profissionalizado) e acabaram com o poder dos velhos caciques.

TR picou” o poder econômico onde estava excessivamente concentrado e, na política, deu poder de polícia aos eleitores contra os representantes eleitos o que matou o varejo da corrupção e garantiu a constante renovação de quadrosDesde então os EUA vivem em reforma permanente mas com o povo e não os políticos dirigindo a pauta, o que explica toda a diferença de desenvolvimento, afluência e liberdade entre eles e o resto do mundo.

What’s up with the USA?

7 de novembro de 2016 § 2 Comentários

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Publicado em português no Vespeiro e no Estado de S. Paulo de 6/6/2016

The “Protestant ethic” usually takes the spotlight, but the most revolutionary “American exceptionalism” is that the country was born as the only nation of landowners there had ever been.

While Brazil, like the rest of the “New World”, had its vast territory divided up and distributed to 13 good friends of the king, the Virginia Company of London, along with other private companies to whom undercapitalized King James I, of England, handed the colonization of “his” America, offered, since 1618, a 50-acre property-title to anyone who was willing to make a living there.

The opening of a window like the “headright system” into Europe’s brutal medieval world where the only certainty was to die in the exact same social position you were born into (be it landowner or otherwise), was an unprecedented miracle in human History.

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What made the construction of a political order based on free consent, property rights and equality under the law in the United States’ birth as a nation possible is that these were conditions that already existed in that part of the world at that time. The goal of the institutions built around this historical miracle by the Enlightenment’s elite was not to create it, but to “shield” it from returning to the former standards because of man’s natural impulse to “prevail” over their neighbor, and preserve the freedom that permitted them to undertake such challenge.

Their solution was to put effort and merit in the place once occupied by “divine right” as the only acceptable mean to legitimize the accumulation of power or wealth; that is, to legitimize social inequality. That was already a lot, but not enough. Even under the rule of merit, property, little by little, tended to concentrate again into fewer hands. Turning the 19th to the 20th century, with american democracy wraking in corruption, the “Progressive Era’s reforms” step in the political stage to condition the right to accumulate property, even if attained through merit, to the preservation of competition to the consumer’s benefit. Along with new instruments to enforce the power of the many over the few imported from Switzerland like the “recall election”, the right of legislative “initiative” and “referendum” for laws enacted by representatives, antitrust legislation, a genuine (an decisive) american inovation, attained to put political and economic power more clearly on opposite sides and thus to renew the miracle.

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There is a fundamental difference between American democracy and the others that, throughout the world, eventually evolved into meritocratic systems. While for the latter it is a question of purging and overcoming their own historical experiences so that they may stop being what they culturally remain being, the problem for the former is preventing the transformation into what it never was and solemnly swore to never become from its founding day. The absence of the “original sin” on its starting point deprived the United States of the rest of the world’s hatred of property and prosperity, which it constantly associates to privilege and would translate into the communist revolutions that drenched the 20th century in blood.

The result was the most spectacular soar of freedom and prosperity combined ever to be seen by any human society, until the internet and its blurring of sovereign national boarders came to stop the ascent.

In the new reality of exportable markets of goods and labor and the absolute impossibility to enforce national legislations to control them in a globalized context, the American model of individual rights prevaling over State and corporate “reasons” have been implacably diluted in the confront with “State Capitalism”, the multitudes reduced to extreme poverty working for minuscule wages to monopolistic enterprises sustained by national treasuries sustaining dumping wars against its democratic competitors.

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40 years of successive records of company merges and acquisitions followed, in a wacky race to obtain scale and “productivity gains” at the expense of salaries and work conditions along with the ever-growing interference of the State bailling out those who got “to big to fail” in the process, with fear of unemployment closing everyone’s eyes to the corresponding corruption. All of such badly compensated by a technological revolution anchored in a computer science where intellectual property rights are indefensible.

This shift has been pulling americans out off the model they had the privilege to choose for themselves and to definitly empower in the beginning of the 20th century which they had been abble to profit from for almost 80 years. The only beneficiary of the telluric economic shift that followed has beem the financial sector which profits obscenely from the recurrent “restructuring” of the wracks off production and labor. It grown up from 8% to 48% of the national economy during this period.

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Donald Trump “bogie style” and Bernie Sanders “Santa Claus-style” populisms and Hillary Clinton’s dangerous liaisons with both the people who fear them and with Wall Street’s sharks, along with what sounds to us as kind of “vintage” ideological jargon assumed by the american press, are all portraits of the perplexity of a Nation that up to now has had the luxury of living in a true meritocracy, away from the hoplessness of winning by individual worth that ends up in bitterness and social warfare, and reflections of the opportunistic aproach of the Democratic and Republican establishments, allways trying to profit off the consequences of democratic capitalism’s structural shift instead of choosing to discuss the roots of the problem (one of no visible solution in a globalized context).

This election confirms the United States’ contamination by the ancestral sickness of the rest of the world. The “American model” of a generation ago rests itself firmly upon laws that are no longer enforceable in a world that is borderless and unjust. A world that, from now on, will level up by the average, which for America means settling for less. Only after that, and if the model doesn’t get lost in the way, will the world achieve, now as a whole, an institutional aparatus to defend men from men as efective as the one History turned americans able to develop and live under before everyone else on this planet.

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 (Translation, Fernão Mesquita)

Dêem-nos algo por que valha a pena lutar!

29 de maio de 2014 § 4 Comentários

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O programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes, de domingo passado apresentou um dos personagens mais interessantes da História do Brasil de que tomei conhecimento ultimamente.

Luis Gama, hoje quase esquecido como quase todos os personagens mais interessantes da História do Brasil, era negro, foi escravo, autodidata, jornalista e poeta e teve um papel brilhante no Movimento Abolicionista, outra história que é muito mal contada como quase toda a história do Brasil que se conta nas escolas deste país.

Esse momento é, seguramente, um dos mais brilhantes da nacionalidade. Foi um movimento de raiz, vindo de baixo para cima e, por essa qualidade quase único em nossa trajetória como Nação, bem ao contrário do que diz a versão mais conhecida de que a libertação dos escravos foi uma benesse outorgada magnanimamente pela Princesa Isabel.

O Movimento Abolicionista foi um subproduto da Guerra do Paraguai que, pela primeira vez em nossa história, mobilizou brasileiros de todos os cantos de um país que, naquele tempo, mal conhecia a si mesmo e não se pensava como um país, e que envolveu todas as raças e camadas sociais espargidas pelo seu vasto território.

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Foi a primeira vez na História do Brasil que brancos, negros e mestiços de diferentes classes sociais viram-se postos, ombro a ombro, na perseguição de um objetivo comum. E o efeito que isso produziu foi em tudo semelhante ao produzido nos Estados Unidos do norte pela Guerra da Secessão, não apenas em termos de consolidação de um sentido de nacionalidade mas, sobretudo, pela experiência da convivência concreta com a diversidade em situações extremas onde todos dependem de todos e peles de todas as cores e tonalidades rompem-se a toda hora para mostrar o quanto somos iguais por dentro.

A convivência com a diversidade, num mundo em que uns viviam na Casa Grande e outros na senzala e em que a todos, do palácio real à sarjeta, eram impostas as mesmas crenças e as mesmas “verdades” e vedado qualquer desvio dessa linha estreita “por pensamentos, palavras ou obras“, é a matéria prima da ideia de tolerância que se consubstancia institucionalmente na ideia de democracia.

Foi exatamente assim e foi exatamente por isso que ela começou a nascer na Inglaterra de Henrique VIII quando ele baniu a intolerância católica e abriu o país a todas as crenças perseguidas da Europa; foi exatamente assim e foi exatamente por isso que ela saltou das teorias dos fundadores para o real “governo do povo, pelo povo e para o povo” que só se estabeleceu de fato com as reformas da Progressive Era que começaram a se esboçar a partir do final da Guerra de Secessão.

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Assim também foi praticamente aí que a ideia de Nação saiu dos textos dos teóricos e dos idealistas e se materializou nas ruas e nas selvas da vastidão brasileira.

Luis Gama,  que mais de uma vez usou as páginas do jornal A Província de S. Paulo, precursor de O Estado de S. Paulo, como sua tribuna, ao lado de Julio Mesquita, um filho de pai analfabeto ha pouco chegado ao Brasil quase tão pobre quanto aquele ex-escravo, e milhares de outros que, como esses dois, se tinham “feito” sozinhos longe dos latifúndios escravocratas e das benesses do imperador, era um representante da esmagadora maioria dos brasileiros de seu tempo que tiravam do esforço próprio a sua subsistência, ao contrário do quadro falso pintado pela historiografia marxista para a qual só existia, aqui, o senhor e o escravo e nada no meio, que continua sendo a única vendida em nossas escolas.

Essa condição não é alheia à circunstância de ambos terem sido figuras de proa desse momento brilhante da consolidação da nacionalidade brasileira na Campanha Abolicionista que mobilizou o país inteiro. (Leia mais sobre esse Brasil dos empreendedores neste link)

A entrevistada do Canal Livre, Ligia Fonseca Pereira, autora de Com a Palavra, Luis Gama (à venda neste link), uma coletânea de seus textos sem interferências da curadora “pois que ninguém pode explicar melhor o que ele foi do que ele próprio“, como ela ressaltou sabiamente, mostrou-se mais uma da grei dos intelectuais sérios que este país, apesar de tudo, tem produzido, especialmente no campo da pesquisa histórica onde se vem colhendo uma safra cada vez melhor de produtos.

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É essa revisão da verdadeira História do Brasil que, pouco a pouco, vai desintoxicar o inconsciente coletivo nacional fazendo o país passar pela necessária seção de psicanálise coletiva, que é no que consiste a tomada de consciência do que foi o seu próprio passado, experiência que fará com que a nacionalidade entenda, finalmente, como foi que se tornou aquilo que é, passo sem o qual nunca conseguirá tomar as rédeas do seu próprio destino.

É este o processo que, no final, vai nos redimir do estado patológico e da crise de identidade em que nos precipitou um século inteiro da empulhação interpretativa pseudo científica vendida em nossas escolas à guisa de História do Brasil, mas que não passa de manipulação ideológica barata, esta mesma que saltando das universidades para as ruas, chegou ao paroxismo com a vulgata lulista que já não se contenta com manipular apenas os fatos do passado, sente-se à vontade para fazer isso também com os do presente bem diante dos olhos de quem acabou de vive-los.

Luis Gama, como a nata dos abolicionistas de São Paulo e de outros estados brasileiros (as revoluções pernambucanas beberam nessa mesmíssima fonte) pertenceu à Loja Maçônica América, fundada por brasileiros que estiveram nos Estados Unidos, frequentaram a mesma loja maçônica de George Washington e outros dos grandes fundadores da democracia americana, e se encantaram com as promessas encerradas no movimento revolucionário que nascia ali com o propósito de fundar uma sociedade de iguais onde o esforço individual e o merecimento substituiriam a cumplicidade com o último criminoso a conquistar a coroa pela força que tinha prevalecido nos últimos dois milênios e na qual continuamos chafurdando até hoje, como a única fonte de legitimação da conquista de poder e de dinheiro.

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A Loja Maçônica América expressava desde o nome com que foi batizada a esperança do melhor material humano que o Brasil tinha produzido até então, de chegar um dia ao mesmo sucesso a que já tinham chegado os revolucionários do norte.

Como Ligia Fonseca explicou de forma brilhante, Luis Gama e os outros abolicionistas que se congregavam nas lojas maçônicas brasileiras ligadas às suas congêneres espalhadas por todo o mundo de então eram “homens de rede” no sentido moderno da palavra, pois que trocavam ideias e conspiravam através do primeiro protótipo de “rede mundial” criada com o propósito explícito de facilitar a livre troca de ideias e informações que a humanidade constituiu: exatamente as lojas maçônicas.

Sua admiração pela revolução americana, pelo seu federalismo e pelo seu sistema de divisão de poderes era tanta que foi de Luis Gama que saiu a sugestão de batizar o país que surgiria da nossa revolução republicana de Republica dos Estados Unidos do Brasil, nome que o Brasil de fato adotou dos albores da República até o início do regime militar.

Foi a esta altura da entrevista, porém, que um dos jornalistas presentes fez a seguinte intervenção:

É curioso que um negro como Luis Gama não tenha reagido ao (ou “percebido o”, não me lembro quais foram as palavras exatas) fundamento racista que marcava e seguiu marcando a sociedade norte-americana”.

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Lígia Fonseca Pereira, negra ela também, ficou tão desconcertada e perplexa quanto eu ao ouvi-la.

Superadas a surpresa e a dúvida (a afirmação/pergunta teve de ser repetida para ela compreende-la) ela gentilmente tartamudeou algumas palavras hesitantes enquanto na minha cabeça bombava a pergunta: “E precisava um negro ex-escravo no último país ainda escravocrata das Américas, olhar para os Estados Unidos para conhecer o racismo?!!! Seria necessário esse turismo intelectual para experimentá-lo ainda hoje?

Eis aí nu, pelado, com a mão no bolso o drama brasileiro!

O  jornalista autor desse comentário — ninguém me disse, eu mesmo sou testemunha — é das pessoas intelectualmente mais íntegras e cultivadas que conheci na profissão.

O que teria sido aquilo, então?

Não é possível viver no ambiente contaminado do debate intelectual brasileiro, do primeiro ano de escola ao último ano de vida, impunemente, é a resposta. Esse antiamericanismo resiliente, quase orgânico, subliminar, involuntário até, como suspeito que tenha sido o caso desta vez, é uma das manifestações da força que tem a lavagem cerebral por que passa todo brasileiro a cada minuto de sua trajetória por este vale de lágrimas. A própria Lígia Fonseca Pereira, cabe registrar, viveu os últimos anos de sua atividade acadêmica no exterior e foi a partir de lá, respirando ares mais livres dos carregados miasmas do Segundo Milênio que ainda predominam por aqui, que ela encontrou a paz necessária para fazer a sua pesquisa.

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Luis Gama – foi o que ela passou o programa inteiro explicando – viu nos Estados Unidos aquilo para o que a imprensa brasileira insiste em fechar os olhos até hoje: a superioridade moral da utopia e, mais especialmente, o conjunto genial de meios para realizá-la desenhados pela elite do que de melhor a humanidade produziu no seu melhor momento — o Iluminismo — que foram as instituições pelas quais a metade boa dos norte-americanos lutou até a morte contra a metade ruim, ombro a ombro com os escravos desta – e cinco milhões de pessoas perderam a vida nessa luta fratricida! – coisa que a metade boa da população brasileira não consegue encontrar motivos suficientes para fazer exatamente porque tem-lhe sido sonegada — pela escola, pela imprensa, pela televisão — uma referência pela qual valha a pena lutar.

É exatamente isto que continua pendurado no ar nesta eleição.

É disso que estão à procura os 70% de eleitores que “querem mudanças profundas”  mas não encontram quem as formule e proponha. Era exatamente isto que perambulava pelas ruas de todo o país às cegas em junho de 2013: a ausência de uma referência decente pela qual valha a pena lutar que, entretanto, está onde sempre esteve e todos os povos do mundo que “deram o salto” a encontraram, mas que a “inteligentsia” e a imprensa deste país isolado pela língua ainda se recusam a por onde nós estamos.

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Aonde é que a coisa pega

14 de fevereiro de 2014 § Deixe um comentário

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A Comcast, maior empresa de TV paga e provimento de internet dos EUA, mandou oferta de US$ 45,2 bilhões para comprar a Time-Warner Cable, a segunda maior empresa do ramo naquele país que no início do século 20 levou a democracia para outro patamar e o desenvolvimento humano para alturas nunca antes sonhadas ao decidir que “nenhum dinheiro e nenhum poder que não seja fruto do merecimento”, a síntese da Revolução Americana, já não era o suficiente e que até quando fruto do mérito e alcançada inteiramente dentro das regras do jogo, era preciso haver um limite para o crescimento das empresas privadas ou não haveria jeito do cidadão e do consumidor não serem esmagados e da democracia sobreviver ao poder de corrupção desses monstros.

Para exigir o cumprimento desses limites sem misturar outros interesses com essa obrigação, o Estado foi afastado de toda e qualquer atividade econômica, reservando todas as suas forças para fiscalizar e manter a economia privada jogando dentro de regras iguais para todos e obrigando-a a dividir as propriedades que passassem do limite de ocupação de mercado sadio para a preservação da concorrência em benefício do consumidor

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A legislação antitruste e as ferramentas de democracia direta como a do voto distrital com recall, as leis de inciativa popular e os referendos instituídos pelo movimento pelas reformas da “Progressive Era” encerradas em 1914 que tornaram tudo isso possível foram uma revolução dentro da revolução.

Hoje, encurralado pela competição dos monopólios do capitalismo de Estado chinês e com empregos e salários emagrecendo assustadoramente, o povo que enfrentou e venceu J. P. Morgan, os Carnegie, os Rockefeller e os Vanderbilt juntos está apavorado, aplaude as reedições modernas dos “robber barons”, pedincha-lhes humildemente um emprego, e empurra o Estado de volta para os braços do Capital pra enfrentarem juntos a concorrência chinesa, enquanto todos se acusam uns aos outros pelo que não é culpa de nenhum deles.

É por isso que as duas companhias mais odiadas do setor mais odiado pelos consumidores dos Estados Unidos da América podem anunciar festivamente a sua intenção de somar as razões que as fazem tão odiadas, e pode ser que a coisa passe, apesar dos restos da legislação antitruste ainda andarem “em vigor” por lá, como mortos vivos que qualquer sentença judicial provisória derruba.

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Neste vasto mundo vaso-comunicante criado pela internet, abarrotado com bilhões de miseráveis filhos do socialismo real dispostos a trabalhar por qualquer migalha e sem nenhum direito, é assim: se tem um monopólio num setor competitivo na China, tem de ter um nos EUA também. E se passar a ter nos EUA tem de ser replicado no resto do mundo, só que aí com o dinheiro dos BNDES da vida diretamente na veia porque capital privado forte pra coisas desse calibre só mesmo onde o Estado tinha sido domado um dia.

Eis aí o caldo de cultura onde chafurdam as criaturas da classe do PT e as bactérias e protozoários que lhe compõem a ecologia e que engordam em poder e em truculência pelo mundo afora, rindo dos debates dos otários de cujo pânico eles se alimentam.

Já o consumidor, o cidadão, essas criaturas da democracia, estes cada vez mais, coitados, ó…

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Bye, bye democracia

29 de outubro de 2013 § 2 Comentários

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Minha amiga Katia Zero, de quem pode-se dizer que é um exemplo típico do novaiorquino por adoção daqueles que se apaixonaram não apenas pelo que a cidade entrega aos olhos e ao coração mas principalmente por tudo quanto ela tem a dizer a quem vem de terras onde o poder tem outro tipo de fundamento e sonha com liberdade, envia-me a matéria Sombras sobre o Central Park (aqui) que saiu hoje no New York Times.

Jornalista experimentada, ela me brinda quase todos os dias com o que se publica de interessante por lá e tem um olho especial para “sinais dos tempos”.

E este é sem dúvida um deles…

Conta a peça de Warren St. John que, fazendo 26 anos este mês, um grupo de novaiorquinos mobilizados em torno de um chamado de Jacqueline Kennedy Onassis obteve uma vitória memorável sobre um desses tubarões do mercado imobiliário que vivem caçando oportunidades de enriquecer às custas da deterioração da qualidade de vida dos outros em todos os ajuntamentos humanos do planeta.

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Mortimer B. Zukerman tinha conseguido uma licença para construir duas torres – de 58 e de 68 andares – no Columbus Circle, à beira do Central Park, que projetaria sua sombra durante grande parte do dia sobre hectares inteiros daquela área pública prejudicando o lazer das 38 milhões de pessoas que o frequentam anualmente (números de hoje).

Um processo foi aberto na Justiça e a mobilização dos novaiorqunios culminou com uma passeata em que 800 pessoas portando guarda-chuvas negros se postaram na área que seria afetada para ilustrar de forma bem visual a exata medida do efeito “sombrio” que teria a construção.

Ao fim e ao cabo mr. Zukerman não teve alternativa senão refazer seu projeto para as proporções mais democráticas do que hoje é conhecido como o Time Warner Center.

Passado um quarto de século, com leis de urbanismo bem mais lassas, o mundo inundado de capitais baratos e a emergência de uma elite globalizada com milhões de pessoas em condições de gastar muito dinheiro para estabelecer um pied-à-terre na Big Apple, um monstrengo bem mais ameaçador está prestes a começar a ser erguido na borda Sul do parque, exatamente entre ele e o sol que torna os dias de inverno menos insuportáveis naquela latitude.

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O Billionaire’s Row – vejam só o nome! – compõe-se de sete torres que formarão um paredão de 470 metros de altura que, justamente durante os meses mais frios do ano, projetarão uma sombra que vai variar de duas até 4,2 vezes a altura dos edifícios sobre uma grande área do parque entre o meio do dia e o pôr do sol.

Coisa de mais de um quilômetro e meio!

Já há um precedente, aliás. A torre Extell’s One57, cujo apartamento de cobertura foi vendido no início deste ano por 90 milhões de dólares, projeta sua sombra durante todo o inverno, justamente quando um pouquinho a mais de sol faz a diferença entre as crianças poderem ou não brincar na rua, sobre o Playground Heckscher, o maior que existe no parque.

E no entanto, não ha qualquer reação do público que sequer faça lembrar a de 26 anos atrás. “Quase não tem havido discussões sobre o novo projeto, e menos ainda qualquer oposição visível a ele”, registra St. John. “Nova York não é mais a mesma; perdeu várias das organizações que se dedicavam a protegê-la. A Municipal Art Society, que liderou o movimento contra os prédios de mr. Zuckerman, hoje é uma entidade domesticada que conta até com especuladores imobiliários em seu board de diretores. A Landmarks Preservation Comission (protetora do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade) aprovou os planos das torres sem sequer levantar a questão da sombra sobre o parque; exigiu apenas alguns reparos no visual da fachada. A Associação de Protetores do Central Park também se omitiu, alegando que só lhe dizem respeito construções dentro dos limites do parque. Também não existem mais novaiorquinos com o poder de liderança de uma Jacqueline Onassis, de modo que a cidade terá de se mobilizar espontaneamente se quiser evitar o pior para o espaço que Frederick Law Olmsted, em tempos melhores, criou como ‘uma forma democrática de desenvolvimento urbano da mais alta significação’”…

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Não sou otimista.

Torço para estar errado mas os sinais não são promissores. Nova York é também o palco no qual foi travada a histórica batalha entre o povo dos Estados Unidos, os “robber barons” e os primeiros super-capitalistas que, mesmo dentro da lei e por mérito próprio, cresceram a ponto de invadir o espaço e pisotear os direitos alheios em nome da busca da eficiência e do lucro, da qual resultou a legislação antitruste que marca o ponto mais alto da trajetória da democracia na Terra.

A pouco mais de um século de distância já parece um sonho distante aquele momento em que a primeira e única revolução feita por homens para estabelecer que, ao contrário da velha Europa, não se admitiria, ali, nenhum poder e nenhuma riqueza que não fosse decorrência do esforço individual e do mérito, constatou que até para ele tinha de haver um limite ou o tão sonhado remédio contra a praga multimilenar do privilégio acabaria por matar o paciente.

Foi uma longa luta do povo armado pela imprensa que acabou por impor aos políticos, mediante a adoção de ferramentas de democracia direta como as leis de iniciativa popular e o recall, a consolidação da fórmula que separou radicalmente e opôs um ao outro o poder político e o poder econômico em nome da liberdade que só a preservação da concorrência em benefício dos interesses dos consumidores podem garantir.

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Foi essa fórmula, que não estava desenhada com as feições que tomou naquele momento na Constituição americana, ao contrário do que se costuma pensar, que transformou aquela sociedade na mais próspera e mais livre que já passeou por este planeta.

Hoje, encurralado pelos monopólios do capitalismo de Estado chinês, o mesmo povo que enquadrou os Rockefellers e os J. P. Morgans da vida determinando que enfiassem onde quisessem os seus bilhões, menos nos “deles”, venera como heróis os Jeff Bezos, os Googles’s e os Goldman Sachs da vida que tudo afogam em dinheiro, que esmagam, açambarcam e submetem pelo dumping, que atrelam a resgates compulsórios e a temporadas sem fim de quantitative easing o cada vez mais impotente governo do povo, pelo povo e para o povo.

E não é só medo que ha aí. Embora seja ele que paira sempre lá no fundo da cena em função da diluição que a competição sem fronteiras com a massa dos miseráveis sem nenhum direito que a globalização atirou no caldeirão do capitalismo democrático está provocando, já ha sinais de uma cultura – uma cultura doente mas uma cultura – nesse culto da vitória a qualquer preço e no apedrejamento sem sinais de culpa da multidão de “loosers” que ela fabrica, até e principalmente pelos próprios “loosers”.

A marcha para trás da democracia começou nos meados dos anos 70 pela destruição do capítulo da legislação antitruste que disciplinava o universo da imprensa e da mídia. Um tiro preciso na consciência da Nação que foi calando voz após voz, acabando com a dissonância, esmagando as minorias, unificando os discursos, consolidando a ditadura do “politicamente correto” na era da comunicação total e instantânea.

Agora…

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O argumento indiscutível do resultado

29 de março de 2012 § Deixe um comentário

Com quase um século e meio de atraso a comunidade global embarca, com o mesmo misto de fascínio e desconfiança, na submissão de tudo o mais ao “argumento indiscutível do resultado” da aplicação das técnicas de gestão corporativa a todos os níveis da atividade humana em que embarcaram os Estados Unidos, onde essa tecnologia foi inventada, no final do século 19.

Nos primeiros arrancos, essa tecnologia produz um enorme ganho de eficiência e uma fulminante multiplicação das riquezas materiais que passam, então, a ser invocados pelos maiores beneficiários da mudança para calar toda forma de crítica ou resistência aos prejuízos que logo ela começa a produzir no campo das liberdades individuais.

Não é difícil entender como isso acontece.

É sempre mais fácil argumentar em torno de cifras e histórias estonteantes de sucesso econômico do que de direitos difusos difíceis de definir mas muitíssimo concretos como a humanidade acaba por descobrir sempre tarde demais.

O efeito econômico das tecnologias de gestão corporativa, que surge sempre bem antes dos demais, reflete essencialmente os ganhos de escala na produção que se obtém com a voragem crescente das fusões e aquisições entre empresas que antes concorriam entre si e pela “redução de custos” que, curto e grosso, decorre de demissões e/ou redução de direitos trabalhistas.

É por esse caminho que a nova ordem empurra inexoravelmente a economia para a criação de monopólios com poderes cada vez maiores sobre os consumidores e leva a um processo agudo de concentração da riqueza que tem como corolário o desenvolvimento de relações cada vez mais promíscuas entre o Capital e o Estado com a consequente exacerbação da corrupção.

Assim como os nossos barões do BNDES de hoje, os “robber barons”, ícones da crônica da corrupção nos Estados Unidos daquela época, e o poder político tornam-se íntimos, um passando a servir ao outro.

Não é a primeira vez que passa, portanto, o filme a que vimos assistindo nestes últimos anos. Mas os próprios americanos parecem esquecidos dessa página tão importante da sua própria história.

Um século de hegemonia econômica incontestável levaram-nos a esse “apagão”.

De fato, tudo levava a crer que progresso material e democracia fossem fenômenos indissociáveis naquele século 20 ao longo do qual nenhum governo autoritário ou totalitário logrou vencer a miséria, ao contrário, só a agravaram.

Hoje as coisas estão mais claras.

É que autoritários e totalitários rejeitados por populações que os recusavam dedicaram o século 20 inteiro quase exclusivamente a exercer o terror sobre seus súditos para conseguirem se impor. E populações aterrorizadas não conseguem se dedicar ao trabalho, à inovação e ao desenvolvimento.

Tendo entrado no século 21 com seu poder consolidado pela supressão pela força e pela troca de gerações de toda memória anterior, porém, o regime chinês restabeleceu a verdade a esse respeito.

E essa verdade é bem simples. Como todas as outras, a tecnologia de gestão corporativa é neutra. Um apagador de matizes em nome da eficiência e da objetividade matemáticas que serve indiferentemente a qualquer um que queira dele se servir. E serve muito melhor ainda a quem não oponha limitadores morais ou ideológicos, como direitos individuais e de trabalhadores, à essência matemática da lógica que a inspira.

Iniciado o Terceiro Milênio, a China partiu no limite mínimo no quesito direitos trabalhistas, e no limite máximo no quesito associação entre Capital e Estado, para a disputa com concorrentes que, com gradações variadas, encontravam-se nos extremos opostos nesses dois campos, conquistados ao fim de longas trajetórias de lutas.

Como “direitos” é igual a “custos” a vantagem matemática, que é o que define quem vence a disputa pelos mercados neste nosso mundo sem fronteiras, é indiscutivelmente dela.

Como conseqüência os Estados Unidos vão sendo arrastados de volta a um passado de que eles próprios já se esqueceram pela mesma força que, 150 anos atrás, fez deles a primeira vítima a embarcar no abuso da lógica corporativa aplicada sem limites em função da miragem do enriquecimento rápido: o “argumento indiscutível do resultado”, que a tudo submete. Ou seja, os direitos e a qualidade de vida de cada trabalhador deixam de ser o objetivo último do sistema; tudo passa a ser sacrificável ao dogma da redução de custos que se torna condição essencial de sobrevivência econômica.

Além disso, uma vez iniciada a corrida das fusões e aquisições, passa a ser imperativo “crescer ou morrer”. E como hoje os concorrentes são os monopólios chineses que só sobrevivem anabolizados pelo dinheiro estatal é preciso emula-los também nisso.

E por aí entra a corrupção galopante.

Foi assim que, de referência de alternativa para as populações do mundo submetidas a todos os graus de iniquidade econômica, o centro do Capitalismo Democrático passou a funcionar para o resto do planeta como Brasília funciona para o Brasil.

“Se os Estados Unidos que são os Estados Unidos ‘são’, quem ha de não ser”?

Para não deixá-los ir dormir sem um aceno de esperança, lembro que, na virada do século 19 para o 20, um quadro muito semelhante ao de hoje desaguou nas reformas da Progressive Era (ponha essa expressão na ferramenta de busca do Vespeiro e aprenda mais a respeito) que levaram a democracia ao seu apogeu.

Os ingredientes desse feito, do qual a imprensa foi o maior artífice, foram os seguintes, mais ou menos pela ordem da entrada em cena no cenário institucional:

  • reforma do funcionalismo público com drástica redução dos cargos preenchidos por nomeação, eleição direta de funcionários e facilitação da sua demissão (a partir de 1870);
  • introdução de legislações antitruste (1890) subordinando o direito de propriedade e o crescimento das empresas à preservação da concorrência em favor do consumidor;
  • despartidarização das eleições municipais e profissionalização da gestão das cidades (1º passo em 1894);

  • introdução de ferramentas de democracia direta (começando em 1898) como leis de iniciativa popular, referendo das iniciativas mais controvertidas dos Legislativos; impeachment/recall de governantes e funcionários eleitos, usadas hoje principalmente para limitar o poder dos governos de cobrar impostos, determinar as prioridades no gasto público e criar politicas de segurança pública e educação;
  • criação de agências setoriais de controle com mandatos independentes (1914) para despolitizar as decisões mais importantes nas áreas de alimentos industrializados, saúde publica, informação, energia e outros setores essenciais;
  • eleição direta de juízes de direito e possibilidade de cassação de sentenças judiciais por meios plebiscitários (atualmente em discussão).

O Brasil chegou a implementar algumas dessas reformas sob Fernando Henrique Cardoso mas voltou para trás na Era Lula.

Amanhã conto porque acredito que só partindo da despartidarização da política municipal poderemos chegar a um resultado mais sólido numa próxima tentativa.

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