Estamos todos virando rinocerontes

10 de junho de 2013 § 9 Comentários

ion15

A grande celeuma do momento é a “revelação” pelo Washington Post e pelo Guardian, em edições sucessivas, de que ha sete anos o FBI e a Agencia Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos, amparadas em ordens judiciais ainda que secretas, têm tido acesso a ligações telefônicas de clientes da Verizon, a segunda maior companhia telefônica do país, e a trocas de mensagens suspeitas em nove das maiores redes sociais em uso no país.

Essas “escutas” não podem ser acessadas em seu conteúdo pelos agentes do governo, são, antes, rastreadas contra um programa que detecta conexões entre endereços suspeitos e combinações de palavras em diversas línguas que o computador identifica.

Só as separadas por esses programas automáticos chegam a ser examinadas.

ion5

Tudo isso são ações amparadas no Programa Prisma baseado em lei recentemente renovada pelo Congresso promulgada por Bush Filho em 2001, dentro do espírito do Patriot Act, o pacote de leis de prevenção e combate ao terrorismo que se seguiu ao ataque a Nova York.

É claro que a vigilância não se limita à Verizon e nem, possivelmente, aos sites mencionados mas a todas as comunicações telefônicas e online feitas no país e no mundo. Estes são apenas os casos que os dois jornais puderam comprovar.

E é claro, também, que estão cercadas de todas as garantias que um Estado de Direito pode dar para a consecução de uma missão básica de segurança obviamente necessária para os tempos em que vivemos.

Por isso o que me escandaliza é o escândalo em torno de tão momentosa “novidade”.

ion4

Ha dois dias programas jornalísticos nas TVs de todo o mundo e jornais ao redor do globo todo não falam de outra coisa, sempre no tom sintetizado no iracundo editorial do NY Times que sentenciou que o governo Obama “perdeu toda a credibilidade em matéria de transparência”, que “usará todo poder que lhe for dado e muito provavelmente abusará dele”, etc. , etc. e tal.

É função básica da imprensa saber o que e como os governos estão fazendo e prestar-nos contas disso. É para isso que ela foi inventada nas democracias. E ha nesse caso, é verdade também, o fato de Obama ter feito críticas aos abusos em torno do Patriot Act em suas campanhas eleitorais e a obrigação que a ética protestante sente de reagir diante de um flagrante de mentira.

Mas o que definitivamente não ha nele é novidade ou surpresa. Nem mesmo as pessoas menos informadas do mundo que já tenham assistido a algum seriado básico de televisão estão alheias ao fato de que esse tipo de monitoração é feito e, mais que isso, tem de ser feito no mundo em que vivemos, ainda que ninguém goste do que está acontecendo.

ion6

Até aí, portanto, estou como a proverbial “torcida do Corinthians” diante da “novidade“…

A discussão que deveria estar havendo é outra.

O que realmente me choca é ver esse escândalo todo vociferado pelos mesmos jornais que, embora estando entre as maiores vítimas não só da vigilância ilegal, ilegítima e movida por interesses vis que grupos privados praticam, sem ordem judicial ou lei alguma a ampará-los, contra todo e qualquer cidadão do mundo vivo hoje para trocar seus segredos e o “log” das suas preferências, deambulações e hábitos por dinheiro, mantêm um silêncio cúmplice sobre essa prática generalizada dos mesmos meliantes que são também os autores do roubo sistemático de qualquer peça escrita, gravada ou filmada alguma vez transformada em bits, especialmente as informações apuradas a um custo altíssimo por jornalistas profissionais.

E se ha uma ameaça séria à democracia é essa. Pois eles fazem isso de modo tão agressivo, desonesto e implacável que estão matando a profissão que sustenta um elemento constitutivo dos sistemas representativos democráticos de governo que morrerão com ele se o jornalismo profissional morrer.

ion17

O resumo, enfim, é que se houve tempo em que o famigerado “complexo industrial-militar” é que inventava as práticas sujas e as armas que, mais adiante, teriam a sua versão civil e viriam a mudar os costumes do mundo e as práticas de negócios, agora a equação se inverteu.

São as grandes corporações privadas, infinitamente mais poderosas e com infinitamente mais tentáculos estendidos sobre todo o planeta que os pobres governos nacionais (aí incluido o dos EUA), que inventam as armas e os golpes baixos que o “complexo industrial-militar” eventualmente assimilará para levar adiante suas ações que, diga-se de passagem, têm cada vez mais semelhança com ações policiais focadas e restritas do que com as antigas ações de guerra.

A guerra sem regras nem fronteiras e as violências contra os direitos civis são os açambarcadores gigantes, especialmente os concentrados na operação das grandes ferramentas globais de comunicação, que levam a cabo.

ion19

A covardia moral humana, entretanto, ao contrário do que se afirma, é mais forte até que o instinto de sobrevivência pois, diante da clareza dos fatos prevalece o critério do milênio passado de apedrejar a “CIA” da vez, o que para os dinossauros da imprensa continua parecendo bonito e heroico, mas não os novos tubarões travestidos de heróis da “liberdade na rede” que não passam dos mesmos oportunistas insaciáveis famintos de poder de sempre que estão por trás de todas as grandes tragédias da história da humanidade.

A estes é dado, livremente, gravar as suas conversas, as suas movimentações, as suas gravações, as suas fotos, os seus filmes, e até os seus batimentos cardíacos e as alterações na sua respiração diante dos estímulos subliminares com que eles o provocam para saber mais sobre você do que você mesmo sabe e vender essas informações a quem interessar possa, à sua revelia.

ion18

Tudo isso lhes é franqueado sem que quase ninguém na old mídia os chame pelo nome que descreve o métier a que se dedicam, que junto com a prostituição está entre os mais antigos do mundo, por medo de parecerem menos “modernos” do que a maioria.

Enfim, nada de novo sob o sol, como sempre.

O que estamos assistindo é só a mais uma das vésperas das grandes tragédias que assolam a nossa espécie de tempos em tempos, e à onda de covardia coletiva que costuma antecedê-las, idêntica à que foi magistralmente descrita na peça O Rinoceronte, de Ionesco, sobre a cidade em que, um por um, os habitantes se vão metamorfoseando em rinocerontes sem que ninguém, menos um solitário cidadão, admita o que está acontecendo ou faça nada para preservar seu senso crítico e, com ele, a sua condição humana, por medo de destoar do discurso prevalecente na manada.

ion14

Democracia e informática são coisas compatíveis?

22 de abril de 2013 § 4 Comentários

esp27

Você já guiou um desses carros que ficam te avisando por uma gravação que “você está acima da velocidade permitida”?

Pois é, a coisa está se invertendo. Logo, logo é o seu próprio carro que vai multa-lo, ao captar de alguma fonte emissora instalada pelo Estado em cada rua, em cada esquina, em cada estrada, o que você pode ou não pode fazer naquele lugar.

Já, já, aliás, você não terá mais nem o prazer de guiar. Será guiado pelos Google Car da vida, de um lugar para o outro, pelos caminhos e na velocidade que eles escolherem.

Por enquanto, os carros mais modernos apenas registram um monte de informações sobre tudo que você faz dentro ou perto deles que os fabricantes podem acessar quando quiserem e, eventualmente, vender para terceiros.

esp28

Seu telefone idem. Ele grava, minuto a minuto, dia após dia, a sua localização além de tudo que você gosta de fazer e usar na internet acoplada a ele.

Mas ha muito mais.

Ha câmeras nos drones voando lá em cima (ultimamente andam por aí drones do tamanho de libélulas, para espionagens mais discretas e caçadas mais precisas), nos caixas automáticos, nos estabelecimentos comerciais, nos elevadores, nas ruas e nos becos de cada longínquo rincão do mundo.

Os softwares de reconhecimento facial estão cada vez mais aperfeiçoados e os bancos de fotografias (de vozes, de hábitos, de…) cada vez mais vastos.

No ritmo em que vai ainda nos enfiam um chip subcutâneo na maternidade…

esp23

Na verdade as únicas empresas que não podem espioná-lo e vender as informações que capturam sobre os seus movimentos e comportamentos hoje são as de old ou semi old tech, nascidas naquela longínqua era em que o indivíduo ainda valia alguma coisa e respeitar a privacidade dele era uma lei fundamental das democracias.

Se as telefônicas ou o Murdoch gravarem o que você faz nos ambientes deles ou usarem as informações que outros gravam e publicá-las como fazem o Facebook, o Google, e todo e qualquer site espalhado pela internet, eles vão para a cadeia.

Mas tudo que veio depois da internet pode, livremente, espionar você e usar como bem entender as informações assim colhidas em benefício próprio ou de terceiros simplesmente em troca da apresentação de … dinheiro.

Ordens judiciais para invadir a vida alheia são reminiscências em desuso de um mundo em vias de desaparição.

esp9

Por que os legisladores e, pior ainda, as próprias vítimas dessa empulhação ainda acreditam que os atos de uns são nefandos e os dos outros não são, como são, maneiras desonestas, violentas, invasivas e perigosas de ganhar dinheiro às custas da liberdade alheia mas sim ações generosas e altruístas em prol da “liberdade na rede” (para roubar?) e da “democratização do conhecimento” é coisa de que a História ainda haverá de tratar.

Isso se tudo não acabar, como parece claro que acabará, no verdadeiro “fim da História” como reconstituição daquilo que de fato aconteceu para dar lugar exclusivamente à história oficial que serão os pedaços daquela que os detentores do registro milimétrico da sua e da vida de cada um de nós houverem por bem montar e liberar, já que esse tipo de poder, uma vez experimentado, nunca se detém apenas onde começa.

esp6

Na mesma semana em que a caçada aos terroristas de Boston mostrou o quanto já andamos longe nessa senda da espionagem geral, a Câmara dos Representantes do Congresso dos EUA aprovava a CISPA e o Google mandava para as lojas os seus óculos/computadores/filmadores, capazes de acrescentar ao que o seu telefone já faz para espioná-lo, também o registro de tudo que você está vendo, passo a passo, segundo por segundo.

A CISPA (Cyber Intelligence Sharing and Protection Act), ainda faltando a aprovação do Senado que deve ser tranquila, é uma lei que formaliza a aliança privilegiada entre o governo e as grandes estruturas e encruzilhadas da internet empregando batalhões de matemáticos e programadores como o Google e o Facebook, entre outros. Legaliza “a troca de informações voluntária entre empresas privadas e o governo no caso de cyber-ataques ou suspeita de cyber-ataques” (movimentações anormais de tráfego, etc).

esp22

É uma estrada de mão dupla em que o governo ajuda preferencialmente essas mega-corporações e elas ao governo, coisa que, para quem partiu da gloriosa saga da legislação antitruste, ponto mais alto da construção da democracia, representa nada mais nada menos que a inversão de um princípio até então tido como fundamental.

Ao fulminante efeito de multiplicação do poder dos poderosos, de facilitação da criação de monopólios e de concentração da riqueza que a internet tem provado dramática e implacavelmente que tem para a crescente legião apavorada dos desempregados e dos sub-empregados do mundo, vem somar-se o seu corolário necessário que é a associação do poder do Estado Nacional, hoje mero subsidiário do outro, ao poder econômico globalizado sem fiscalização nem fronteiras.

Empurrando tudo, além do pânico generalizado e da busca de proteção a qualquer custo que reduz a capacidade de discernimento e induz à aceitação do inaceitável, está essa “transparência forçada de mão única” a criar um mundo onde privacidade – privilégio das mega-corporações e do Estado – é poder.

esp15

Não é a primeira vez que proponho isto aqui no Vespeiro e, para meu alívio, começo a ver essa ideia “bombar” pela rede como o início de um movimento mais estruturado de opinião pública, no sentido de obrigar o governo e as empresas à mesma transparência absoluta que nos impuseram, de modo a reduzir um pouco a desvantagem.

A “transparência de mão dupla” consiste em filmar e expor todo e qualquer movimento dos agentes do governo do mesmo modo como eles filmam e expõem seletivamente os nossos.

Como fazê-lo em relação às megaempresas é um problema bem mais espinhoso no qual é preciso começar a pensar antes que seja tarde.

esp8

Uma experiência recente envolvendo os agentes do TSA (Transportation Security Administration), aqueles brutamontes que fazem gato e sapato da gente nos aeroportos americanos, demonstrou que quando forçados a usar câmeras filmando seus movimentos as reclamações de abusos caíram 88%.

Já fiz, aqui, recentemente, um exercício para imaginar o que isso faria pelo fim da violência e da corrupção policiais no Brasil.

Enfim é preciso que o povo filme e grave constantemente todos os atos dos agentes do governo assim como eles filmam e gravam todos os atos do povo, e que algo de parecido seja feito em relação às principais reuniões de informação envolvendo os gestores ao menos das empresas “grandes demais para quebrar” ou com ações em bolsa.

A caçada aos terroristas de Boston em que sites como 4chan e Reddit incentivaram seus usuários a publicar fotos da cena do crime indicou que, nessa sociedade da espionagem geral vão surgir também as turbas de linchadores cibernéticas.

esp14

Milhões de fotos foram publicadas apontando pessoas com mochilas pretas nas costas, os rostos assinalados por círculos vermelhos, e com tantas ameaças e pressão que várias delas se apresentaram à polícia com medo do que lhes pudesse acontecer.

Estavam entre eles campeões esportivos das universidades locais carregando seus equipamentos, pessoas com traços raciais fora do padrão WASP (White Anglo Saxon Protestant) e até gente que despertou suspeitas apenas “por não estar prestando atenção na maratona” no momento do registro da foto.

Enfim, não parece nada bom o mundo da espionagem geral que vem vindo inexoravelmente por aí, e ha dúvidas crescentes sobre se democracia como a conhecemos e informática são coisas compatíveis entre si.

Mas se não ha volta possível aos bons tempos da privacidade, é mais justo que ninguém a tenha.

esp7

Porque o Google pode e Murdoch não?

19 de fevereiro de 2013 § 1 comentário

goo14

Correspondentes do NY Times em Londres informavam, na semana passada, que mais seis jornalistas que trabalham para The Sun ou trabalhavam para The News of the World, dois dos tablóides sensacionalistas de Rupert Murdoch, foram presos e tiveram suas casas devassadas, ainda com relação às investigações de escutas telefônicas, hackeamento de computadores, interceptação de mensagens e suborno de policiais nos anos de 2005 e 2006 para conseguir informações sobre celebridades ou crimes e publicá-las em primeira mão.

Mais de 100 repórteres, editores, policiais e funcionários públicos já foram presos nessa investigação. Rupert Murdoch sentiu-se obrigado a fechar o The News of the World, o mais lucrativo dos seus tabloides em junho de 2011 para tentar aplacar a indignação do público que ameaçava contaminar todos seus títulos em papel, na TV ou em bits, 169 vítimas desses atos de invasão de privacidade entraram com processos e 144 já foram indenizadas em valores em torno de US$ 1 milhão cada.

goo11

Perfeito! É o mínimo que tem de acontecer com picaretas desse naipe num país civilizado.

Agora, o que possivelmente ficará para os historiadores explicarem a nossos filhos é porque invasões de privacidade, bisbilhotagem, arapongagem e roubo de informações para proporcionar lucro fácil a quem se entrega a essas práticas é punida de forma proporcional à ofensa e ao prejuízo produzido quando praticados pela “old mídia” e até pelas companhias telefônicas mas não apenas é permitido como, até, é saudado como um paradigma de autêntica ação democrática em favor do bem comum quando praticada pelos donos dos meios modernos de comunicação online como o Google, o Facebook e todas as famigeradas “third parties” a quem todo mundo que possui algum “hub” ou ponto de trafego de alguma significância na internet encarrega de espionar seus clientes e usuários para vender legalmente as informações assim obtidas a qualquer um que queira pagar por elas.

goo16Qual a diferença entre subornar um policial que prega o seu grampo no telefone de uma ou outra celebridade para obter as informações e pagar pelas que a legião de programadores ultra-especializados dos senhores Page ou Zuckergberg arranca de todos nós, celebridades ou não, abrangendo todas as nossas movimentações físicas e financeiras, nossas perambulações pela rede, nossas conversas, nossas intimidades e até as fotografias que trocamos com os amigos, senão a solerte afirmação deles próprios de que não fazem isso pelas dezenas de bilhões de dolares que isto lhes rende por mês, coisa de somenos, mas sim pelo bem da humanidade?

Por que razão deixar ir adiante esse tipo de espionagem interessa a governos é uma pergunta cuja resposta não exige muito tirocínio. Por que isso interessa a partidos totalitários e a inimigos da democracia como os apedrejadores das yoanis sanchez da vida, menos ainda.

É multimilenar a luta dessa gente pelo controle e o esmagamento do indivíduo. É proverbial a sua ânsia de espionar.

goo13

Mas, mais que tudo, o que lhes espicaça o apetite neste momento particular é a ameaça mortal que decorre do roubo sistematico de informações para o jornalismo independente, seu inimigo figadal desde sempre. Sobretudo em países de instituições periclitantes como o Brasil onde a imprensa professional e livre é o ultimo obstáculo entre eles e o poder absoluto.

Agora por que uma massa enorme de intelectuais, cientistas e pessoas geralmente bem intencionadas sanciona e aplaude os “big brothers” que invadem nossas vidas por todos os lados hoje em dia é algo mais difícil de responder, embora também não seja novidade.

Não existe caso na História de ditadura ou de opressão totalitária que tenha conseguido se instalar no poder sem o concurso decisivo desse tipo especial de imbecil cujo cérebro entra em curto-circuito à menção de certas palavras mágicas, que é quem de fato arma a mão dos genocídas e só acorda para a realidade quando já é tarde demais.

Isso quando não é posto para dormir para sempre pelos próprios “heróis” pelos quais costumava babar…

goo19

Que tal filmar o governo?

14 de fevereiro de 2013 § 2 Comentários

vigi8Você não dá um passo sem que o governo saiba onde você está e, se quiser, veja o que você está fazendo.

Não vamos nem falar dos satélites e dos drones, capazes de ver as pintas do seu rosto lá de cima. O seu cartão de crédito, o seu telefone celular que embute um GPS, todas as ruas, estabelecimentos comerciais ou locais que concentram gente em cada cidade e cada vila de cada canto do mundo com suas câmeras filmando tudo, os softwares de identificação de rostos, hoje equipamento padrão de qualquer máquina da Apple, tudo isso está monitorando cada um dos seus passos.

E, pairando acima de todos, lá estão o Google e o Facebook, sempre dóceis aos pedidos dos governos e dos juízes, montando, com o seu beneplácito, dossiês sobre cada um de nós, do nascimento até a morte, capazes de lembrar, sobre cada indivíduo que passou por este vale de lágrimas, para todo o sempre, coisas que ate sua mãe ou você mesmo já esqueceram.

vigi11

Não deveria ser o contrário?

A democracia não se define exatamente pela negação do direito à privacidade aos governantes versus a afirmação do direito inviolável a ela pelos governados? Não somos nós que deveríamos fiscalizar-lhes cada passo e não eles aos nossos?

Recentemente o governo de São Paulo plantou um dos mais espantosos marcos dessa inversão de privilégios quando anunciou que seus policiais não poderão mais prestar ajuda a cidadãos feridos “para evitar a destruição de provas e os assassinatos de suspeitos perseguidos ou feridos em perseguições”.

E porque não instalar câmeras e microfones não só no interior das viaturas policiais mas também câmeras com visão de 360º fora delas, em estruturas levantadas acima das suas sirenes e luzes de advertência, registrando tudo que acontece ao seu redor? E nos próprios capacetes e quépis dos policiais, transmitindo suas imagens e sons para “caixas-pretas” invioláveis, como as dos aviões, a serem abertas sempre que houvesse mortes ou suspeitas de violações de direitos envolvidos?

vigi10

A polícia de Alagoas, com um aparato muito menos abrangente que esse, conseguiu reduzir as “mortes em conflito” à terça ou à quarta parte.

E porque não instalar vigilância eletrônica semelhante nas delegacias e nos presídios?

Nos hospitais públicos e seus consultórios e ambulatórios? Nos balcões de atendimento das repartições e nos plenários e gabinetes dos legisladores municipais, estaduais e federais, registrando todas as reuniões agendadas?

É a mesma história dos radares nas ruas e estradas e dos celulares em presídios. Salvador instalou um bloqueador nas suas prisões durante alguns meses e, desde a primeira semana da experiência, a criminalidade caiu para uma fração das médias costumeiras. Instala-se um radar acoplado a uma máquina fotográfica em qualquer rua ou rodovia e imediatamente as infrações e mortes no trânsito naquele local despencam.

vigi6

Mas nós nos submetemos a tudo isso como carneiros sem ao menos exigirmos a contrapartida óbvia sobre os nossos “representantes” e “servidores”.

Eles usam e abusam da tecnologia para nos vigiar e cercear mas nós deixamos que permaneçam no escuro para nos negar atendimento, nos escorchar, nos trair e nos violentar.

Os jornais choram e reproduzem quilômetros de colunas de “especialistas” com infindáveis discussões sobre o sexo dos anjos em torno da criminalidade e do descalabro no atendimento ao público pelo Estado, mas nenhum trata de abraçar uma campanha tão elementar como esta.

Por que?

vigi9

Lendo a sua mente

29 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

Video sugerido por Lourenço Meirelles Reis

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com privacidade em VESPEIRO.