Islã x Ocidente: generalizações e realidade
2 de julho de 2014 § 1 comentário
Brigitte Gabriel é de uma família Maronita-Cristã libanesa. Durante a Guerra Civil do Libano, quando tinha apenas dez anos, sua casa foi destruída durante um ataque de militantes muçulmanos. Ela foi gravemente ferida e passou dois meses e meio recuperando-se em um hospital israelense.
De volta ao Líbano, ela e sua família viveram refugiados num abrigo subterrâneo antibombas de 8 x 10 m. Para conseguir a água necessária para o dia-a-dia tinham que buscá-la às escondidas em uma fonte próxima sem nunca saber se voltariam vivos dessa tentativa. Em 1978, a família fugiu para Israel com soldados daquele país que invadiram o Sul do Líbano. Mais tarde Brigitte tornou-se âncora do “World News” um programa transmitido de Israel para Egito, Síria, Jordânia, Chipre e Líbano.
Em 1989 imigrou para os Estados Unidos onde fundou o American Congress For Truth no fim de 2001, organização que se dedica a discutir e trabalhar as relações entre os Estados Unidos e o Mundo Árabe.
Os cães de Pavlov
24 de fevereiro de 2014 § 2 Comentários
Se já não é mole para ninguém, mesmo com todo o equipamento de leitura da realidade exterior em ordem, entender o mundo globalizado e lidar com a necessidade de regorganizar política e socialmente uma humanidade que sequer fala a mesma língua para enfrentar um desafio que doravante só tem solução pelo todo, para os brasileiros, que vivem por traz de uma lente de distorção da realidade implantada em cada cabeça desde antes dela ter consciência da sua própria existência que determina quase que organicamente a formação dos circuitos de processamento do que os seus olhos haverão de enxergar lá fora é praticamente impossível.
Porque, para além da carga que se nos despeja do nascimento até à idade em que o cérebro humano ganha autonomia, vemos essa distorção ser reforçada a cada passo pelo vasto aparato de controle do que hoje se chama brandamente de “correção política” montado para reconfirmá-la e preservar o sistema de poder que nele se apoia.
Um sistema de poder que, se já não imola fisicamente os dissidentes em fogueiras acesas em praça pública, lincha-os moralmente, confisca-lhes o direito ao trabalho e à sobrevivência econômica (se for um político ou um operário intelectual) e se os degreda da mídia, o que equivale a uma espécie de condenação à não existência.
O “retrato” tirado do país nas manifestações de junho de 2013 – em que a multidão gritava 500 “nãos” mas não era capaz de esboçar um único “sim” neste país onde ha 32 partidos políticos, todos “de esquerda”, refletindo fielmente a “demanda” pautada pela tal lente distorsiva – é um exemplo eloquente da força desse mecanismo repressor do pensamento e da completa inadequação entre o repertório conceitual que nos é incutido e a realidade que tentamos inutilmente decifrar com ele.
Se para os filhos de outras culturas mais dóceis à evidência dos fatos, lidar com esse desafio é um longo aprendizado para o qual parte-se do zero, para nós, os filhos do dogma e do pressuposto, o aprendizado da realidade existente só pode começar para os que forem, antes, capazes de revogar a realidade suposta que lhes foi incutida a vida inteira como a única verdadeira.
São dois trabalhos. Logo, se a verdade sem adjetivos maiores que a consciência da precariedade de qualquer verdade está em 100, há quem possa partir para a busca dela do zero e ha quem tenha de partir de menos 100. Considerando-se que no primeiro terço dessa trajetória a inteligência humana não está pronta para um vôo autônomo, é fácil entender porque tão poucos logram conseguí-lo: a vida normalmente não dura o suficiente para percurso tão longo nos dois terços restantes.
Não estamos sozinhos nessa arapuca. É nesse mesmo labirinto que anda perdida toda a latinidade, aí incluída, pelas razões expostas acima, a maior parte da parcela alfabetizada dela. Sendo, aliás, a escola e a universidade os principais centros de reforço e elaboração dessa construção distorcida, é mais comum, entre nós, encontrar quem enxergue as coisas como elas são entre os que continuam virgens dessas duas experiências do que entre os letrados e, sobretudo, entre os semi-letrados que constituem a grande força de sustentação do “Sistema”.
Vem de muito longe essa bifurcação dos caminhos da humanidade. O momento decisivo se dá no século 12 quando a primeira universidade da Europa – a de Bolonha – passa do controle dos sábios para o controle dos príncipes (com os sábios incluídos no pacote) num momento de vácuo de poder com o esvaziamento do da Igreja que mantinha todo o Continente até certo ponto “amarradinho”.

Ali ressuscita-se e põe-se para caminhar sobre a Terra a versão frankenstein de um “direito romano” torcido para parir e sustentar o absolutismo monárquico pelo expediente da constante fabricação de leis de ocasião sob a égide do lema Princeps legibus solutus est (“o príncipe” – que as baixava – “está desobrigado de todas as leis“).
É o regime sob o qual você, brasileiro, vive até hoje, 9 séculos depois, e que o ministro Joaquim Barbosa tenta solitariamente abalar nesses últimos meses.
A Inglaterra mantem o sistema da Lei Comum (Common Law) baseada na tradição, patrimônio comum a toda a humanidade até uma certa altura, portugueses incluídos com o seu “direito foraleiro” e, no mesmo século 12, faz do costume instituição, aparelha-o de um método de processo com a sistematização dos precedentes e sacramenta o juri como garantia da prevalência da procura da verdade pela interrogação dos fatos sobre o arbítrio do juiz ou as verdades reveladas.
Daí por diante nunca mais houve remédio para quem enveredou pelo desvio de Bolonha. Uma olhada neste mapa é quanto basta para confirma-lo.
Os marcos seguintes do percurso são mistos de intenção e oportunidade.
No século 16 a libido de Henrique VIII leva ao rompimento final com a Igreja Católica e à abertura da Inglaterra a todos os perseguidos do mundo, o que proporciona a uma humanidade até então sempre obrigada, debaixo de bota, a afirmar a fé do soberano, a primeira experiência de livre convivência com a diferença de crenças, de um lado, o que suscita dos reis católicos do Continente a reação pelo Terror contra a novidade que ameaçava suas prerrogativas, do outro.
A França tenta embarcar na abertura (com a revolução da Fronda) mas perde. E é lá, na Universidade de Paris, que um rico estudante basco, exigindo de cada um dos seus seguidores o juramento solene de que “Eu sustentarei até à morte que é negro o branco que meus olhos vêm se assim determinar sua santidade o papa”, funda a Companhia de Jesus, os padres soldados da Contra Reforma que, até bem perto de nós, teriam o monopólio da educação, entre outros menos longevos, nos reinos de Portugal e Espanha.
O resto são decorrências.
Porque a utopia inglesa é a da liberdade enquanto a francesa é a da igualdade de que não existe um único exemplo na Natureza?
Viver a diversidade de crenças levou os pensadores ingleses, para segurar o terreno conquistado, a erigir a tolerância em fundamento inegociável de todas as relações humanas; a tirar o pressuposto da frente do fato e o dogma da frente da experimentação. Alguém se perguntou se não haveria algo mais a fazer as maçãs despencarem do galho que a vontade de deus, a Terra saiu do centro do Universo e o homem saiu do centro da Terra.
Nasceu a ciência moderna e nasceu a democracia, cujo fundamento último é, justamente, a ausência de certezas.
E os filhos da Contra Reforma, em que estavam pensando nessa hora?
Não existe igualdade na Natureza? Sem problemas. Tratamos de imaginar uma Natureza “anterior” a esta que se vê onde a igualdade “estava presente” e, ao lado dela, um demônio que, por pura maldade, desorganiza essa santa paz. O nome desse demônio varia segundo a conveniência do momento: a “propriedade privada”, a “sociedade” … “os americanos”; essas desconcertantes manifestações concretas da própria desigualdade, enfim.
Conclusão:
Quem já nasceu sabendo; quem teve o privilégio de conversar com deus ou trocar segredinhos sobre o futuro com “a História” e vive atormentado pela renitente rebeldia dos fatos contra a ordem em que deveriam se conformar em ter permanecido, trata de “disciplina-los” punindo quem os vê como são e assim contribui para impedir a igualdade “perdida” de retomar o seu devido lugar na ordem das coisas.
Já quem se pergunta humildemente porque diabos as coisas são como são, logo aprende que as respostas têm estado muito mais frequentemente erradas do que certas e que há grande chance de haver erro nas suas próprias convicções do momento e verdade nas alheias, e que portanto, a liberdade – de pensar, de dizer e de agir para lá e para cá ao sabor dos acontecimentos – tem de ser inegociável, ou não haverá segurança possível para ninguém.
Bye, bye democracia
29 de outubro de 2013 § 2 Comentários
Minha amiga Katia Zero, de quem pode-se dizer que é um exemplo típico do novaiorquino por adoção daqueles que se apaixonaram não apenas pelo que a cidade entrega aos olhos e ao coração mas principalmente por tudo quanto ela tem a dizer a quem vem de terras onde o poder tem outro tipo de fundamento e sonha com liberdade, envia-me a matéria Sombras sobre o Central Park (aqui) que saiu hoje no New York Times.
Jornalista experimentada, ela me brinda quase todos os dias com o que se publica de interessante por lá e tem um olho especial para “sinais dos tempos”.
E este é sem dúvida um deles…
Conta a peça de Warren St. John que, fazendo 26 anos este mês, um grupo de novaiorquinos mobilizados em torno de um chamado de Jacqueline Kennedy Onassis obteve uma vitória memorável sobre um desses tubarões do mercado imobiliário que vivem caçando oportunidades de enriquecer às custas da deterioração da qualidade de vida dos outros em todos os ajuntamentos humanos do planeta.
Mortimer B. Zukerman tinha conseguido uma licença para construir duas torres – de 58 e de 68 andares – no Columbus Circle, à beira do Central Park, que projetaria sua sombra durante grande parte do dia sobre hectares inteiros daquela área pública prejudicando o lazer das 38 milhões de pessoas que o frequentam anualmente (números de hoje).
Um processo foi aberto na Justiça e a mobilização dos novaiorqunios culminou com uma passeata em que 800 pessoas portando guarda-chuvas negros se postaram na área que seria afetada para ilustrar de forma bem visual a exata medida do efeito “sombrio” que teria a construção.
Ao fim e ao cabo mr. Zukerman não teve alternativa senão refazer seu projeto para as proporções mais democráticas do que hoje é conhecido como o Time Warner Center.
Passado um quarto de século, com leis de urbanismo bem mais lassas, o mundo inundado de capitais baratos e a emergência de uma elite globalizada com milhões de pessoas em condições de gastar muito dinheiro para estabelecer um pied-à-terre na Big Apple, um monstrengo bem mais ameaçador está prestes a começar a ser erguido na borda Sul do parque, exatamente entre ele e o sol que torna os dias de inverno menos insuportáveis naquela latitude.
O Billionaire’s Row – vejam só o nome! – compõe-se de sete torres que formarão um paredão de 470 metros de altura que, justamente durante os meses mais frios do ano, projetarão uma sombra que vai variar de duas até 4,2 vezes a altura dos edifícios sobre uma grande área do parque entre o meio do dia e o pôr do sol.
Coisa de mais de um quilômetro e meio!
Já há um precedente, aliás. A torre Extell’s One57, cujo apartamento de cobertura foi vendido no início deste ano por 90 milhões de dólares, projeta sua sombra durante todo o inverno, justamente quando um pouquinho a mais de sol faz a diferença entre as crianças poderem ou não brincar na rua, sobre o Playground Heckscher, o maior que existe no parque.
E no entanto, não ha qualquer reação do público que sequer faça lembrar a de 26 anos atrás. “Quase não tem havido discussões sobre o novo projeto, e menos ainda qualquer oposição visível a ele”, registra St. John. “Nova York não é mais a mesma; perdeu várias das organizações que se dedicavam a protegê-la. A Municipal Art Society, que liderou o movimento contra os prédios de mr. Zuckerman, hoje é uma entidade domesticada que conta até com especuladores imobiliários em seu board de diretores. A Landmarks Preservation Comission (protetora do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade) aprovou os planos das torres sem sequer levantar a questão da sombra sobre o parque; exigiu apenas alguns reparos no visual da fachada. A Associação de Protetores do Central Park também se omitiu, alegando que só lhe dizem respeito construções dentro dos limites do parque. Também não existem mais novaiorquinos com o poder de liderança de uma Jacqueline Onassis, de modo que a cidade terá de se mobilizar espontaneamente se quiser evitar o pior para o espaço que Frederick Law Olmsted, em tempos melhores, criou como ‘uma forma democrática de desenvolvimento urbano da mais alta significação’”…
Não sou otimista.
Torço para estar errado mas os sinais não são promissores. Nova York é também o palco no qual foi travada a histórica batalha entre o povo dos Estados Unidos, os “robber barons” e os primeiros super-capitalistas que, mesmo dentro da lei e por mérito próprio, cresceram a ponto de invadir o espaço e pisotear os direitos alheios em nome da busca da eficiência e do lucro, da qual resultou a legislação antitruste que marca o ponto mais alto da trajetória da democracia na Terra.
A pouco mais de um século de distância já parece um sonho distante aquele momento em que a primeira e única revolução feita por homens para estabelecer que, ao contrário da velha Europa, não se admitiria, ali, nenhum poder e nenhuma riqueza que não fosse decorrência do esforço individual e do mérito, constatou que até para ele tinha de haver um limite ou o tão sonhado remédio contra a praga multimilenar do privilégio acabaria por matar o paciente.
Foi uma longa luta do povo armado pela imprensa que acabou por impor aos políticos, mediante a adoção de ferramentas de democracia direta como as leis de iniciativa popular e o recall, a consolidação da fórmula que separou radicalmente e opôs um ao outro o poder político e o poder econômico em nome da liberdade que só a preservação da concorrência em benefício dos interesses dos consumidores podem garantir.
Foi essa fórmula, que não estava desenhada com as feições que tomou naquele momento na Constituição americana, ao contrário do que se costuma pensar, que transformou aquela sociedade na mais próspera e mais livre que já passeou por este planeta.
Hoje, encurralado pelos monopólios do capitalismo de Estado chinês, o mesmo povo que enquadrou os Rockefellers e os J. P. Morgans da vida determinando que enfiassem onde quisessem os seus bilhões, menos nos “deles”, venera como heróis os Jeff Bezos, os Googles’s e os Goldman Sachs da vida que tudo afogam em dinheiro, que esmagam, açambarcam e submetem pelo dumping, que atrelam a resgates compulsórios e a temporadas sem fim de quantitative easing o cada vez mais impotente governo do povo, pelo povo e para o povo.
E não é só medo que ha aí. Embora seja ele que paira sempre lá no fundo da cena em função da diluição que a competição sem fronteiras com a massa dos miseráveis sem nenhum direito que a globalização atirou no caldeirão do capitalismo democrático está provocando, já ha sinais de uma cultura – uma cultura doente mas uma cultura – nesse culto da vitória a qualquer preço e no apedrejamento sem sinais de culpa da multidão de “loosers” que ela fabrica, até e principalmente pelos próprios “loosers”.
A marcha para trás da democracia começou nos meados dos anos 70 pela destruição do capítulo da legislação antitruste que disciplinava o universo da imprensa e da mídia. Um tiro preciso na consciência da Nação que foi calando voz após voz, acabando com a dissonância, esmagando as minorias, unificando os discursos, consolidando a ditadura do “politicamente correto” na era da comunicação total e instantânea.
Agora…
A dentista queimada e o nosso baobá
29 de abril de 2013 § 3 Comentários
Outro “de menor” que já tinha sido preso e solto várias vezes antes foi quem tocou fogo na dentista na semana passada.
Ou melhor, foi quem assumiu o crime do qual participaram outros três “de maior”. Como ele faz 18 anos em junho, as televisões não podem dizer sequer que ele foi “preso“. Ele foi só “apreendido” e não por um crime hediondo, mas por um mero “ato infracional”.
No máximo em três anos estará solto para queimar mais um, e com a ficha tão limpa quanto a sua ou a minha.
Esse Estatuto da Criança e do Adolescente que enfiam goela abaixo de uma Nação que o rejeita de cabo a rabo não se contenta só com a subversão dos fatos. Insiste principalmente na subversão semântica e conceitual. Quer confundir as suas idéias sobre o que é certo ou errado; sobre quem é a vítima e quem é o criminoso; sobre o que é e o que não é um crime.
Tudo isso faz lembrar os carrascos de Stalin que não se contentavam em dar o tiro na nuca do inocente que incorria nas paranóias do chefe num porão e acabar logo com isso.
Não bastava, sequer, que a vítima confessasse o que nunca tinha feito. Eles trabalhavam incansavelmente na tortura até que, exausta e com o senso crítico despedaçado, ela acreditasse na confissão falsa que lhe tinham arrancado e na culpa que não tinha e pedisse para ser fuzilada em nome da salvação da revolução.
Foram essas profundezas abissais da alma humana que Arthur Koestler explorou magistralmente na sua obra prima “O Zero e o Infinito” que dramatiza os Processos de Moscou, o marco que separa a esquerda honesta da outra que continua vagando até hoje por aí, nos quais Stalin definiu o que é o socialismo real ao assassinar todos os seus antigos companheiros de revolução e potenciais substitutos no poder (aqui).
O ECA e todo esse movimento do “politicamente correto” que quer controlar não apenas o seu modo de falar mas principalmente o seu modo de pensar desde sobre o que você come até sobre quem você come, passando por tudo que ha no meio, deitam nesse precedente as suas raízes que, numa terra tão inculta e ha tantos anos afofada e “enriquecida” pelo adubo granmsciano quanto esta nossa, mergulham a profundidades inextirpáveis.
P.S.: Para quem não se lembra o leitor Luiz Barros transcreve, no espaço para comentários deste texto, o trecho do livro de Saint Exupéry que diz respeito aos baobás. Obrigado, Luiz.
















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