O lado bom da humanidade

4 de fevereiro de 2016 § 11 Comentários

Terrorismo em rede

9 de setembro de 2014 § 16 Comentários

a6 tumblr dutchman“Jihadista” holandês “posta-se” no Tumblr

Passei o fim-de-semana fuçando a internet para entender melhor esse fenômeno do Estado Islâmico, o grupo que nasceu dentro da Al Qaeda e acabou por devorá-la, e esse estranho fascínio que ele exerce sobre jovens do mundo inteiro que estão indo para a Síria para, ao lado dele, impor pelo terror um “Grande Califado Islâmico como o que havia no século 7”, com pretensões a substituir tudo que existe hoje em matéria de estados nacionais no Oriente Médio.

Não bastassem as degolas, cruxifixões e fuzilamentos em massa de que o Youtube está cheio, entendi que quando um grupo terrorista assusta o próprio mundo árabe é melhor a gente prestar atenção no que vem vindo por aí.

Neste artigo fico no exame da participação de ocidentais nessa orgia de violência.

Depois de ler uma boa dezena de reportagens e entrevistas em profundidade com jovens cooptados pelo EI – do meio brasileiro, meio belga Brian de Mulder, vulgo Abu Qassem Brazili, de mãe carioca, a casos envolvendo rapazes e moças portugueses, ingleses, franceses, belgas, suecos, norte-americanos, dinamarqueses (este o país que, proporcionalmente à sua população, mais mandou jovens para lutar na Síria) e até chineses – minha conclusão é de que a grande novidade nessa parte do fenômeno é apenas e tão somente o advento da rede mundial.

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Brian de Mulder e a mãe no Rio e feito Abu Qassam Brazili

O Estado islâmico é, também, como tudo o mais hoje em dia, um produto da internet. Psicopatas, nihilistas e desesperados sempre existiram em todas as sociedades, só que agora eles podem articular-se em redes do tamanho do mundo como todos os outros mortais, formar grupos de mutua realimentação de gostos e delírios, conversar uns com os outros e compartilhar “likes” e experiências, execuções sangrentas inclusive, literalmente ao vivo.

Graças à rede mundial e seus mecanismos de busca, também esse tipo de doente – e porque discriminá-los de todos os outros que podem satisfazer suas taras com o recurso a eles? – pode saber hoje, em detalhe e com instantaneidade, que o que de melhor o mercado global oferece para quem tem esse tipo de sede é a jihad islâmica com a liberdade ampla, geral e irrestrita para chafurdar no sangue que ela oferece a todos quantos queiram aderir à festa.

Como não ha, nas democracias ocidentais, leis que impeçam um cidadão de aderir ao que quer que seja e de dar os passos subsequentes para dar substância a essa relação, tudo que é necessário fazer é juntar dinheiro e comprar uma passagem para a Síria, via Turquia, para aproveitar essa oportunidade única.

a0000xA “noiva” portuguesa

Essa foi a primeira vertente de “enganche” de “jihadistas” ocidentais, a maioria dos quais nada têm a ver com a cultura ou com a fé islâmicas, são majoritariamente pós-adolescentes recém “convertidos” que não requerem muita argumentação para embarcar nessa parada. Já estão predispostos a ela.

A última onda tem sido de mulheres. Na fé islâmica, como se sabe, elas não estão autorizadas a ter ideias ou iniciativas próprias, nem que for para morrer pelo Islã. Mas o problema foi resolvido com sites especialmente desenhados para arrumar “esposas” para os jihadistas ocidentais já residentes na Síria. Faz-se o casamento via internet e, então sim, elas também podem ir para a Siria, desde que devidamente vestidas com o niqab, aquela roupa preta que só deixa os olhos de fora.

Para essa “tranche” de europeus explorados pela geração de seus próprios pais, sem emprego nem perspectiva, a jihad parece ser um substituto da heroína, uma forma de suicídio lento que assola o Velho Continente ha décadas como um virus ebola renitente, ou do suicídio rápido que, cada vez mais, eles buscam por formas “criativas” que vão dos esportes ultra-radicais às aventuras temerárias que hoje estão na moda.

a000xPara postar…

A adesão à jihad pela implantação de um “califado” modelo século 7 aproxima-se dessa categoria. É uma espécie de videogame real com a vantagem adicional de oferecer-lhes, pronto para consumo imediato, aquilo que mais lhes falta: um sentido para a vida, ou melhor, para a morte.

O ódio é, em geral, filho da injustiça ou da impotência para mudar a própria condição, nem que seja pelo merecimento. Na Europa do welfare state, essa mesma impotência pode, porém, assumir a forma de um tédio profundo já que, dentro do atual quadro de estagnação, que é função da exploração de uma geração pela geração anterior que não abre mão de seus “direitos adquiridos”, mesmo numa relativa abundância, se não se vai chegar jamais ao ápice, nunca, também, cai-se no buraco absoluto que cria e alimenta ódios porque o Estado está lá para amparar os tropeçados.

É esse previsível e insuperável “Nada” que mata. E é aí que a internet entra para oferecer aos solitários, aos sem esperança, nem fé, nem vontade; aos depressivos reduzidos à solidão gregária do computador, uma alternativa para a droga pesada ou para outras formas mais rápidas de suicídio.

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Esta é a geração que copia e cola a sua própria identidade via Google”, diz Muhammad Hee, um intermediador muçulmano contratado pela prefeitura de Copenhaguen para operar um programa anti-radicalizão em bairros de imigrantes. “E está ficando ‘cool’ ser visto como um ativista”.

Para os verdadeiros jihadistas árabes vem a calhar.

Segundo especialistas, o grupo Estado Islâmico pode ter entre 7 e 10 mil combatentes. E até o momento ha entre 1500 e 2000 europeus e ocidentais em geral que aderiram a eles.

Mustafa Haid, fundador e diretor da Dawlaty, uma ONG de ativismo contra a violência na Síria, afirma que não são os sírios que estão transformando esses jihadistas ocidentais em radicais. “Eles já eram assim. É o contrário, esses caras estão na Síria cometendo atrocidades contra sírios. Um sujeito que se dispõe a abandonar tudo e ir lutar em outro país já tinha atingido um ponto de ultra radicalismo. As missões suicidas são uma estratégia essencial para avanços rápidos do EI e esses ativistas estrangeiros são preciosos para eles porque são frequentemente mais ardentes que os combatentes locais em seu desejo de morrer pela causa. Os estrangeiros chegam aqui inspirados. São os que mais desejam morrer”.

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O diagnóstico combina com o que é feito por estudiosos dinamarqueses, um dos países mais ricos e organizados da Europa. Em novembro passado, o primeiro dinamarques, Victor Kristensen, loiro e de olhos azuis, detonou seu cinturão de explosivos numa missão suicida no Iraque. Desde então mais tres dinamarqueses, estes com raizes arabes e paquistanesas mas nascidos e criados na Dinamarca, morreram em missões suicidas.

Estou ansioso para me tornar um mártir também” confessava um quinto, com nome de guerra de Abu Tarek, baseado em Raqqa, na Síria, a uma jornalista de seu país. Tres dias antes dessa entrevista, a mesma jornalista tinha encontrado Mouin Abu Dahr, outro homem-bomba que tinha vivido na Suécia e na Dinamarca e que, aos 21 anos, se explodiu em frente à embaixada iraniana em Beirute matando 23 pessoas. “Era uma pessoa doce e gentil, muito querida em Aalborg, onde viveu. Ele tinha ficado noivo poucos meses antes de sua missão suicida”.

Ha pouca novidade em tudo isso, enfim, para além das facilidades que a rede mundial acrescenta para potencializar velhas doenças crônicas da nossa espécie.

O lado complicado dessa história está na convivência da democracia com essa nova realidade em que, de ilhas protegidas por fronteiras físicas elas se transformaram em pequenos segmentos de ordem numericamente quase insignificantes contíguos ao e permeáveis pelo grande caos global.

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A preocupação dos países que estão exportando “jihadistas” é que alguns deles podem voltar a seus países de origem – e estão mais ou menos livres para fazer isso dentro de estados de direito – e trazer para dentro deles, enormemente multiplicada, essa sua ânsia de mergulhar no “Nada” arrastando multidões atrás de si.

Ocupando porções crescentes de território sírio e iraquiano, os serviços de inteligência ocidentais têm informações de que o EI se apoderou de universidades e cientistas que desenvolveram esse tipo de artefato, além de, possivelmente, depósitos de armas químicas do ditador Bashar Al Assad.

Assim, embora o alvo desse grupo seja essencialmente os próprios muçulmanos de outras denominações que estão no caminho do seu projeto de poder – porque é sempre disso que se trata como se verá no próximo artigo – o crescente e inevitável envolvimento ocidental na guerra para prevenir a dissolução completa de qualquer resquício de ordem na sensibilíssima região do Oriente Médio pode acabar resultando em ataques terroristas com o potencial de fazer do 9/11 coisa pouca.

Se parar o bicho come; se correr o bicho pega.

Quem viver verá.

U.S. President Obama addresses during a press conference at Belveder Palace in Warsaw

Brasil e Oriente Médio: desgraças paralelas

10 de julho de 2014 § Deixe um comentário

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Nesta terça-feira, 8, dia do “Mineiratzen” pelo que pouca gente deve te-lo lido, O Estado de S. Paulo publicou um artigo de Mathieu Atkins, que cobriu para o New York Times a luta entre as inumeras “facções do islamismo” que compõem os grupos armados do “Estado Islâmico no Iraque e no Levante” (o tal “Isil) e os que lutaram contra ele na cidade de Alepo que foi tomada por esses partidários da ressurreição de um “califado islâmico” modelo Século 7 e, em seguida, retomada por outros grupos armados não necessariamente ligados ao governo desafiado pelos primeiros.

A matéria — “A promessa dos radicais de Alepo” neste link — é uma confusão não porque seja defeituosa do ponto de vista jornalístico mas porque descreve, com a fidelidade possível, uma realidade que é uma tremenda confusão na qual, da Al Qaeda para cima – ela também dividida em diferentes “facções” e “correntes” – o confronto inclui de tudo e mais alguma coisa daquilo que, do Século 7 em diante, quer ser chamado de “variação do islamismo“.

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Tentar entender as nuances que separam esses grupos e essas supostas “variações” usando o racional e os padrões de definição política, ideológica ou religiosa das democracias do Ocidente só pode conduzir – seja o jornalista, seja o funcionário do Departamento de Estado, seja o presidente dos Estados Unidos – de erro em erro, a catástrofes que acabam sempre do mesmo jeito: à derrubada de cada tirania estabilizada sucede uma tirania instável que passa a matar muito mais que a anterior para se estabilizar, pois que é, sempre, de medição de forças entre “chefões” e não de qualquer outra coisa mais substancial ou sutil que se trata.

A cada banho de sangue que se procura deter em nome de critérios humanitários, portanto, segue-se em geral um banho de sangue ainda pior. E a dificuldade está em que “to disengage” e deixar isso correr, como Obama anunciou que faria, joga tanta lenha nessa fogueira de vaidades e ambições que, dado o poder das armas de hoje, põe a continuação da humanidade em risco.

Se correr o bicho pega, se parar o bicho come…

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Para um brasileiro acostumado a viver no meio de uma guerra que mata mais que qualquer uma das declaradas do Oriente Médio sem sequer se dar conta de que assim é porque aqui a mortandade não está assumidamente relacionada à luta política (embora esteja de fato), não é difícil entender porque as sucessões são como são no Oriente Médio.

Desde que a “hegemonia cultural” socialista morena se instalou nas nossas escolas, igrejas e meios de comunicação no nível requerido para que passasse a se reproduzir sozinha “educando” as classes dominadas a tomar como natural e conveniente a sua submissão à classe no poder, a nossa disputa política passou a ser semelhante às das “variantes do islamismo” em que se fragmenta o Oriente Médio: só ha diferenças de grau de radicalismo em torno da mesma única “verdade” geral admitida, nas madraças lá, nas escolas aqui, “verdade” esta cujo principal objetivo é tornar impossível àquele país e àquela população dominada fugir para a modernidade.

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As verdades capazes de conduzir a ela são proibidas sob pena de apedrejamento físico, lá, e de apedrejamento moral, aqui, e de forma tão implacável e eficiente que, depois de algum tempo acabam sendo esquecidas e nem chegam mais a existir no horizonte das possibilidades.

A representação política de toda a rica diversidade humana e mais a da variedade das ambições em disputa — que continuam insistindo em ser ricamente diversa, uma, e variada, a outra, seja como for que se as cerque — fica, portanto, obrigada a se acomodar nesse estreitíssimo espaço que sobra.

Assim torna-se tão difícil diferenciar uma “corrente” do islamismo da outra entre as que estão, por exemplo, em luta pelos pedaços do Iraque neste momento, quanto é estabelecer as diferenças existentes entre os 30 e tantos partidos políticos que disputam os pedaços do Brasil agarrados a alguma “corrente” ou variação do “socialismo“.

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Quem, tentando compreender tudo isso de fora, for suficientemente realista para sair de dentro do seu próprio sapato e calçar o de quem está dentro dessas realidades falsificadas haverá, entretanto, de concordar com o que diz na matéria referida um chefe de um dos bandos em luta, um certo Abu Bilal da “Brigada Tawhid”.

Os comandantes dos supostos grupos seculares do Exército Sírio Livre vinculados ao governo sírio no exílio que os governos ocidentais vêm apoiando“, diz ele, “são como as ONGs: sabem como dizer o que o doador quer ouvir. Mas na realidade são só contrabandistas de diesel que controlam uma parte da fronteira. Não empreendem nenhum combate sério”.

Quem assiste os nossos “Programas Eleitorais Gratuitos” sabe exatamente o que ele está querendo dizer.

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La como cá, uma vez no poder, esses grupelhos que não representam mais que as ambições pessoais do seu chefe tanto quanto qualquer “cappo” dono de quarteirão disputando um pedaço de uma cidade dos velhos filmes da Máfia, mostram-se todos iguais: os sobreviventes compõem-se entre si e instalam uma mistura de roubalheira com violência institucional na dose que for necessária para não perder o pivilégio de ser ele a comandar o saque da população do território conquistado de que, no fim das contas, todos eles participarão em algum grau para permitir uns aos outros que o saque prossiga, de forma organizada, pelo maior tempo possível.

Não faz diferença nenhuma as alegadas nuanças da fase de disputa pelo poder, assim como não faz grande diferença que uns segurem o território conquistado com kalashnikovs e os outros com dinheiro. O certo é que tudo isso não tem nada a ver, nem com islamismo, nem com socialismo, que é coisa que nunca existiu no universo da realidade, nem, muito menos, com democracia, além de ser sempre muito difícil chegar a uma conclusão sobre qual dessas duas formas de se sustentar no poder mata mais.

Lá como cá, estancar a sangueira e fugir para a modernidade depende estritamente de se encontrar os meios de colocar as “religiões” e os dogmas nos seus devidos lugares e tratar de por as relações entre os homens e as deles com o Estado dentro dos limites estritos das leis e das instituições as mais impessoais, objetivas e invioláveis possíveis, de modo a permitir que, respeitados esses limites, cada um estabeleça a sua relação com deus e busque a própria felicidade da maneira que melhor lhe der na telha.

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Ingredientes para o fim do mundo

19 de setembro de 2013 § 3 Comentários

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O diabo neste mundo sincronizado pelas comunicações instantâneas são os desajustes do tempo histórico e cultural em que vivem os diversos pedaços de humanidade espalhados por aí.

As ferramentas desenvolvidas pelas culturas mais avançadas capazes de multiplicar ao infinito a força dos bons e dos maus impulsos da espécie são imediatamente transplantáveis para todos os grupos humanos; as culturas que as produziram não.

O Oriente Médio é o exemplo extremo. As forcas no poder em cada trecho do mapa daquela região não têm, por trás de si, nenhum tipo de contrato social. Não ha consensos sustentando aqueles governos nem nenhuma forma de disciplina que não tenha sido imposta e venha sendo mantida pela força.

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A maior parte dos elos de solidariedade estabelece-se pela relação de clã, estendendo-se, às vezes, para o horizonte tribal. A Síria é dos Assad, dos alauítas, a Arábia Saudita é dos Faissal, da casa de Saud inimiga dos Rachid, e assim vai…

Mesmo as uniões tribais, ainda que tenham o seu peso, são difíceis de se estabilizar num contexto de fronteiras artificiais que truncou a sua história e interrompeu os processos de decantação natural que poderiam, com o tempo, conduzir a arranjos mais sólidos.

O que atravessa a relação de clã e cria uniões mais amplas é a corrente religiosa – xiita, sunita e outras variações mais particulares – na qual cada um se encaixa. Mas estas são também pré-políticas porque, estando apoiadas em dogmas, são naturalmente avessas à tolerância e às composições contratuais.

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Não obstante, esses ditadores, todos eles muito ricos, têm acesso, graças aos interesses do grande jogo geo-estratégico internacional, a armas de destruição em massa que são fruto de tecnologias desenvolvidas por sociedades que só chegaram a dominá-las porque já tinham evoluído o bastante para se organizar em Estados nacionais, primeiro, e em Estados nacionais democráticos, depois, razoavelmente aparelhados, portanto, para controlar o uso desses artefatos.

Fora dessas excepcionais democracias, raramente houve o nível médio de educação e recursos para a pesquisa científica continuada necessários para levar a esse tipo de desenvolvimento.

Como em todo processo revolucionário, o tempo histórico dessas sociedades fica congelado por ditaduras no ponto em que foi interrompido. Todos os estados laicos do Oriente Médio são frutos de ditaduras que se instalaram a pretexto de arrancar seus povos do atraso dos califados e/ou das teocracias. Mas acontece que a “vacinação” contra as doenças das sociedades é individual e intransferível. Truncada a história de um povo no estágio do califado ou da teocracia, ou do califado teocrático, esse tipo de arranjo não será banido da memória coletiva. Ao contrário, ficará lá, congelado e livre do teste da realidade. No primeiro percalço do regime que o substituiu, voltarão a se instalar no poder.

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As revoluções e as ditaduras, portanto, suspendem a contagem de tempo mas não proporcionam saltos reais de etapas. A uma altura qualquer serão revogadas e o percurso será retomado do ponto em que foi interrompido. Na verdade, portanto, elas só atrasam o processo.

Para uma evolução real, cada uma dessas fórmulas terá de ser vivida por tempo suficiente para que as pessoas se decepcionem com elas, migrem para a oposição e, finalmente, elas morram à míngua e possam ser definitivamente enterradas. Seguir-se-á, de geração em geração, a alternância entre fórmulas diferentes e, depois, uma alternância cada vez mais rápida, sempre pelo hard way do ensaio e erro.

O processo de amadurecimento toma outra velocidade depois que uma sociedade educa-se o bastante para não perder contato com a sua própria história a cada nova geração. Mantida uma perspectiva histórica a população acabará por se dar conta de que a resposta para essa questão está justamente na ausência de resposta e, portanto, na alternância em si mesmo dos ocupantes do poder pelas boas razões que Eça de Queiróz sintetizou tão bem no seu epíteto escatológico: “Políticos e fraldas têm de ser trocados constantemente, e pela mesma razão”.

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Assumir essa instabilidade planejada como a única resposta possível para aquela estabilidade sonhada na infância das sociedades, é acordar, de repente, numa democracia.

O Brasil e o PT, nesta relação irracional de amor e ódio que ainda mantêm, são um exemplo. Estamos mais atrasados do que poderiamos estar em função das interrupções revolucionárias sofridas. A Europa Continental , por exemplo, viveu a experiência da esquerda no poder, decepcionou-se com ela e saiu “vacinada” logo na sequência do fim da Guerra Fria. Nos ficamos suspensos no hiato ditatorial e é isso que explica porque, com tanto atraso com relação ao resto do mundo, ainda existe quem pense por aqui que “esquerda” ou “direita” sejam expressões que designam mais do que a mesma boa e velha humanidade de sempre, aquela que, em contato com o poder, sujar-se-á inevitavelmente com o mesmo tipo de sujeira que borra as fraldas dos bebês.

Já podíamos ter pastado tudo isto que ainda estamos pastando ha tempos, e estar vacinados contra as utopias e as panaceias, como haveremos de estar depois de mergulhar até o fundo do buraco que está sendo cavado sob nossos pés porque ainda vivemos num ambiente ideologicamente “patrulhado” onde a verdade não é apenas e tão somente aquilo que os fatos nos dizem que ela seja.

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O Oriente Médio é um caso extremo em função do tamanho dos ódios à solta.

A coisa mais fácil do mundo é abrir as portas do Inferno. E a mais difícil, tanger os demônios todos lá pra baixo de novo e voltar a fechá-las. A violência em sociedades de clãs é sempre mais pesada porque o sangue derramado é sempre o sangue de um irmão, e frequentemente derramado por outro irmão. Com isso a escalada da barbárie vai a alturas impensáveis para sociedades presas a outras formas menos figadais de relacionamento.

Some-se a isso a presença de armas de destruição em massa e a conclusão é que estão postos, ali, todos os ingredientes para o fim do mundo como ilustra bem o impasse da Síria que faz qualquer um tremer diante de alternativas que conduzem, todas, ao holocausto numa guerra que, embora exposta aos olhos do mundo é, ao mesmo tempo invisível, como escreveu Giles Lapouge outro dia, pois não se consegue, sequer, determinar a identidade daqueles que se entrematam nela.

O antigo “primeiro mundo” não é exceção.

Esse mesmo gênero de descompasso de timming, para além dos episódios fortuitos desencadeados pelas distorções nos mercados financeiros mais sofisticados que precipitaram a última crise econômica mas que, em ultima instância, também são consequências indiretas dele, estão provocando danos irreversíveis no avançado ordenamento econômico e social que eles tinham alcançado enquanto o mundo era menos “poroso“.

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A repentina “conexão” a este milênio e a este século das multidões de miseráveis sem nenhum direito fabricados pelo socialismo real em todo o mundo está provocando, nas economias mais avançadas, uma diluição geral de salários e direitos de trabalhadores e um processo vertiginoso de concentração do poder econômico determinado pela necessidade de obter escala para concorrer com os monopólios dos capitalismos de Estado asiáticos.

E, por enquanto, parece muito mais provável que a minoria que foi arrancada por esse tsunami da pequena ilha do capitalismo democrático modulado pelo princípio antitruste que teve o seu apogeu no terceiro quartel do século 20 mergulhe de volta no capitalismo selvagem, agora piorado pela aliança aberta entre Estado e Capital e a transformação da economia em mera arma de projeção de força política internacional, do que que o lumpen dos antigos paraísos socialistas descubra a tempo o caminho que levou os Estados Unidos e poucos povos mais a viver esse período excepcional em que, mediante uma sofisticada construção (a legislação antitruste e o resto do ferramental democrático), o Estado enfrentou e moderou o poder do Capital reduzindo drásticamente o fosso das desigualdades e aumentando exponencialmente a mobilidade social.

Essa regressão forçada com o consequente desequilíbrio agudo de renda e a drástica redução da mobilidade social que, a médio prazo, levarão à corrosão da legitimidade e do apoio interno que o sistema democrático desfrutava nesses países de ponta, encerra, potencialmente, forças de destruição tão ou mais poderosas e incontroláveis quanto as que já estão à solta no Oriente Médio.

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Não, não é “tudo a mesma merda”

22 de fevereiro de 2012 § 3 Comentários

Deixo aí a última reportagem de Marie Colvin, americana, trabalhando para o Sunday Times, morta hoje em Homs, na Síria, junto com o fotógrafo francês Remi Ochlik (28), para a reflexão daqueles que, para anestesiar a própria consciência, costumam recorrer ao “é tudo a mesma merda” e não reconhecer no jornalismo a base fundamentalmente altruística que inspira a profissão.

Homs vem sendo alvo ha três semanas de uma barragem indiscriminada das bombas russas, chinesas, iranianas e norte-coreanas com que o ditador Bashar al Assad, o protegido do Itamaraty, vem sendo abastecido para seguir com a carnificina de seu próprio povo iniciada ha 11 meses, quando os reflexos da Primavera Árabe chegaram à Síria.

Antes de Homs calculava-se em 7 mil o número de mortos pelas balas da polícia e dos franco atiradores de Assad. Agora…

Em 1982, Hafez, pai de Bashar, bombardeou Hama até matar 40 mil pessoas por acreditar – como o filho pensa agora sobre Homs – que tal “providência” poderia desencorajar a rebelião contra o regime que, já então, tomava as ruas.

Como se poderá constatar na reportagem transmitida horas antes dela ser morta, não há alvos militares em Homs. A cidade está cercada e desarmada e quem tenta escapar da fome e das bombas cai na mira dos franco-atiradores do ditador que cercam as saídas.

Trata-se de uma operação de terrorismo de Estado feita com o propósito deliberado de matar indiscriminadamente o maior número possível de homens, mulheres e crianças que têm, como única esperança de resgate, a eventual mobilização da opinião pública internacional para forçar governos que, como o nosso, não se vexam de abraçar assassinos do quilate de Assad em função de maquinações de poder, a retirar-lhe o apoio e ameaça-lo com sanções.

A discussão entre Marie e seus editores sobre a decisão de mostrar ou não a cena da morte de um bebê atingido no bombardeio define bem o sentido que ela dava ao tipo de missão ao qual dedicou sua vida.

Marie Colvin e Remi Ochlik eram daquele tipo de ser humano que não se permite assistir passivamente um ato de covardia, considera seus os problemas de seus semelhantes e arrisca a própria vida para não permitir que outras sejam desperdiçadas em vão.

Não senhores. Não é “tudo a mesma merda“, apesar dos ingentes esforços da maioria acomodada para que venha a ser. E enquanto houver gente assim haverá esperança.

O Itamaraty, a Síria e os sonhos do Irã

30 de novembro de 2011 § 3 Comentários

O fato de ter sido um brasileiro insuspeito de viés ideológico avesso ao PT o autor do relatório da ONU sobre as atrocidades que vêm sendo cometidas pelo ditador Bashar al Assad apenas reforça a imoralidade da posição que o Itamaraty vem mantendo de bloquear toda ação internacionalmente coordenada para frear a carnificina na Síria.

Mas não se trata apenas de uma questão moral.

A cartada que se joga na Síria pode mudar totalmente o equilíbrio de poder naquele ponto do mapa mundi em que purga o mais perigoso e renitente dos abcessos que ameaçam a paz mundial. E se ha uma coisa sobre a qual não paira nenhuma dúvida é a perfeita coerência com que o Itamaraty tem jogado as suas mãos nessa parada.

Com a saída iminente dos Estados Unidos do Iraque abre-se um vácuo de poder que o Irã vem se preparando ostensivamente para ocupar, com a finalidade de estabelecer um corredor que irá do Afeganistão, na sua fronteira oriental, até o Mediterrâneo e inclui o controle do estratégico estreito de Hormuz por onde passa 40% do petróleo transportado por mar em todo o mundo.

Não é por acaso, portanto, que a Arábia Saudita e a Jordânia, na fronteira Sul desse potencial corredor, e a Turquia, na fronteira Norte, venham se articulando para substituir os Estados Unidos como força de dissuasão na região, e que a Liga Árabe, pela primeira vez desde a sua criação em 1945, baixou duras sanções contra a Síria, o primeiro país árabe a ser tratado por ela como inimigo.

O Irã, por seu lado, vem fomentando a rebelião das maiorias xiitas nas áreas de influência saudita (Bahrein e outros), enquanto trabalha para se armar de um artefato atômico.

A influência de Teerã sobre o governo iraquiano vem crescendo desde que o primeiro-ministro Nouri al-Maliki subiu ao poder e a virada final se dará com a retirada dos últimos soldados americanos no fim deste ano. E o Irã é o único país da região que segue apoiando o regime de Assad que, apesar da torcida contra, mantem sob firme controle as forças armadas nas quais todas as posições-chave estão nas mãos de membros da tribo alauíta à qual pertencem os Assad.

Eles tomaram o poder em 1970, com um golpe do pai do atual ditador, exatamente porque se infiltraram nas forças armadas até controlá-las completamente.

Os alauítas são uma minoria que não conta mais que 7% da população da Síria, de maioria sunita. Mas o fim de Kadafi deu a Assad e seus comandantes militares a senha de que é tudo ou nada, estão lutando por suas vidas, o que fez com que desaparecessem todos os limites para o uso da violência contra a rebelião interna.

A questão que une Síria e Irã, mais que religiosa é, portanto, de geopolítica (temperada pelo mais puro instinto de sobrevivência).

Os alauítas são muçulmanos heterodoxos que recusam as leis da sharia e estabeleceram um governo secular que se afirmava socialista (nasserista) e foi construído essencialmente em torno da estrutura militar.

Na guerra do Líbano, alinharam-se aos cristãos contra os radicais xiitas e, desde o início, tiveram forte apoio do Irã para calar a pau a sua própria maioria sunita.

Com a revolução dos aiatolás, no começo dos anos 80, porém, os iranianos mudaram de lado e passaram a ser o centro do islamismo radical xiita que, desde então, trabalha para sublevar as populações xiitas, frequentemente majoritárias mas submetidas a governos sunitas, pelo mundo árabe afora.

Ideológica e religiosamente falando, portanto, a Síria dos Assad e o Irã dos aiatolás não podiam, em tese, estar mais distantes um do outro.

A aliança entre a Síria e o Irã consolidou-se principalmente no alinhamento dos dois países para interferir no Líbano, que a Síria considera como território ilegitimamente destacado do seu. E o seu instrumento de ação no Líbano passou a ser as facções radicais xiitas apoiadas pelo Irã. O Hezbollah é, de certa forma, obra de ambos. Através do Irã, essa organização se transformou num instrumento do poder da Síria sobre o Líbano.

A chave para conseguir a queda de Assad está em dividir os militares. Mas esta parece cada vez mais uma missão impossível. Outra ação militar da Nato como a da Líbia provocaria reações em todo o mundo árabe, já suficientemente conturbado neste momento. E os Estados Unidos em crise não têm mais como pensar em sustentar guerras por muitos anos ainda.

Se Assad sobreviver, o que essa conjunção de fatores torna mais provável, o grande vencedor será o Irã, restando a possibilidade ao mundo árabe de atuar sobre o Iraque que, por enquanto, parece estar totalmente alinhado com o projeto do corredor para o Mediterrâneo.

Apoiam os interesses do Irã a Rússia (que vê com bons olhos esse corredor), a China e os párias da comunidade internacional de sempre, mais o Brasil, menos agressivo sob Dilma que, entretanto, também nisso se mostra impotente para decidir as coisas em consonância com o seu próprio discurso.

Na outra ponta, Estados Unidos, Israel, para quem, durante muito tempo, Assad foi “o demônio conhecido”, mais seguro que as maiorias muçulmanas ortodoxas, Turquia e os demais países árabes ainda sob situações políticas estabilizadas, além da Europa, é claro.

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