O rabo de Gramsci
15 de agosto de 2015 § 25 Comentários
Artigo para O Estado de S. Paulo de 15/8/2015
O Brasil que sobrou é Gramsci mordendo o próprio rabo. O certo virou errado e o errado virou certo. O “senso comum está organicamente superado” e já ninguém diz coisa com coisa. Mas se tudo começou como uma conspiração racional para demolir a base cultural da “democracia burguesa” e substituí-la pela “hegemonia do discurso ideológico da classe trabalhadora”, o local de destino – o “paraíso socialista” – desapareceu de cena depois que a primeira parte da obra estava pronta. A meio do caminho “O Muro” caiu, o sonho acabou, o “intelectual coletivo” vendeu-se ao capitalismo pistoleiro e os “intelectuais orgânicos” que realmente serviam uma causa morreram de overdose ou de vergonha. Os que sobraram são as criaturas de Gramsci; a segunda geração que pensa, sim, pelo avesso, mas já involuntariamente, sem saber exatamente por quê ou para quê.
Foi-se o que haveria de ser; já não ha para onde voltar. E nesse grande “Nada”, a corrupção é que tornou-se “orgânica”; instrumento por excelência de “reprodução da hegemonia da nova classe dominante”.
E cá estamos, ao fim de mais uma “temporada” do dramalhão com que o Brasil imita a arte, onde a cada capítulo os heróis viram bandidos e vice-versa, com o flagrado “dono” da Transpetro alçado de volta à condição de “interessado no Brasil” – com possíveis repercussões nessa Lava-Jato já tão cheia de figurinhas das empreiteiras e estatais e vazia dos figurões da politica para quem e graças a quem eles operam e podem operar – ao fazer-se porta-voz da “agenda” com que Dilma trata de safar-se do impeachment a que poderá levá-la esta paralisia econômica verborrágico-induzida a que chegamos.
O nó a desatar é a desarticulada dispersão do “lado de cá” depois de décadas desse trabalho de desconstrução.
Brasilia, onde não ha crise nem pressa, trabalha coesa como sempre. Tudo segue sendo decidido nos bastidores do “quem indica quem para roubar onde”; só a narrativa aqui para fora é que varia. Agora querem vender como atos politicamente orientados de um único indivíduo a enxurrada anual de pornografia remuneratória da corte. Como há uma disputa de poder entre a nova e a velha guarda de comerciantes de governabilidade, foi cunhada a expressão “pautas-bombas” para designar a fila dos aumentos auto-atribuidos do funcionalismo puxados, como é tradição, pelo do Judiciário que, neste ano de penúria, abocanhou retumbantes 78% quase no mesmo dia em que o governo “dos trabalhadores” confiscava o abono de quem ganha dois salários mínimos. No vácuo dessa “conquista” veio o escárnio da multiplicação por três do Fundo Partidário. Agora é a vez da nobreza menor, auditores da Receita à frente. As tais “pautas-bombas” não passam, portanto, da obra coletiva de parasitose de sempre que resulta na progressiva pauperização do resto do Brasil.
A relação de causa e efeito entre esses fatos — assunto “tabu” na academia e na imprensa brasileiras — quase chegou a ser afirmada recentemente. De tanto demonstrar em suas reuniões quantas gerações de brasileiros entram para a lista dos sem futuro a cada semana de atraso no que terá um dia de ser feito, o dr. Levy conseguiu levar até profissionais calejados como Michael Temer a sentir pena do Brasil. O vice-presidente “pediu água”. Até Aloizio Mercadante “pediu água”. Dilma mesmo animou-se a fazer uma tímida menção à idéia de reduzir o numero de ministérios…
A obscena montanha de gordura, afinal de contas, está onde sempre esteve e quanto mais tudo ao redor vai sendo reduzido a pele e ossos, mais escandalosamente visível ela se torna. Mas como a metástese do Estado que sufoca o país, a ser amputada se não se quiser matá-lo, corresponde à exata soma de todos quantos decidem se haverá ou não impeachment e suas cortes, a represália dos bastidores veio implacável. Tanto Dilma quanto o PT passaram, então, a negar nas mesmas frases em que a pediam a necessidade de uma “união nacional” para fazer frente “a crise tão pouca” – o tipo de tapa na cara da realidade que configura a “indução verborrágica” da paralisia econômica e da disparada do dólar – enquanto Temer e Mercadante, embora sustentando ainda a sua necessidade, davam o dito por não dito ao declinar especificar para quê a queriam.
Agora “a lista de Renan” vem, de novo, tirar a solução de onde o problema está e apaziguar os ânimos no rico condomínio dos Tres Poderes.
Aqui fora, nesse meio tempo, o Quarto Poder, cuja função já foi a de captar pleitos difusos da cidadania, formatá-los referenciado-os às melhores práticas internacionais e empurrá-los para dentro do “Sistema” na forma de campanhas por reformas, passou a ter outro tipo de preocupação depois que o comando de empresas jornalísticas e redações passou das mãos de jornalistas às de empresários e gerentes administrativos que nunca leram Gramsci.
Assim chegamos a este Brasil reduzido a dois tipos de “discursos inarticulados“: o do dinheiro e o do coração.
Nem o consumo subsidiado de “espelhinhos e missangas” de véspera de eleição, nem os impeachments das ressacas de estelionato eleitoral, se houverem, vão alterar essencialmente, porém, a desordem institucional que nos mantem na montanha russa. Instituições são tecnologias que — bons ou ruins — produzem resultados inexoráveis. E nesse campo, ha um nítido divisor de águas no mundo. De um lado estão os que distribuem mandatos como se fossem capitanias hereditárias, dão a seus detentores poderes absolutos para definir a pauta política da Nação e, com eles, a prerrogativa de transformar impunemente as vidas de seus representados num inferno. Do outro os povos que, armando-se do poder de retomar a qualquer momento os mandatos que concedem usando, entre outros, o instrumento do recall, mantêm o estrito comando da pauta política dos seus representantes e assim põem o governo a serviço do pais e o país a serviço de seu povo.
Este é o caminho.
PS.: Este artigo foi escrito antes do irresponsavel convescote proto-terrorista promovido 5a feira no Palácio de Dilma
NESTE LINK, COMO O RECALL PODE CURAR AS DOENÇAS DO BRASIL
PT não espera educação de suas próprias escolas
21 de março de 2012 § 2 Comentários
Aloísio Mercadante que, segundo suas próprias palavras, “está ministro da Educação”, deu entrevista ao Valor na semana passada publicada segunda-feira em uma página inteira do jornal, que resume bem o dilema brasileiro.
Por essa entrevista ficamos sabendo que o PT entende perfeitamente o potencial revolucionário das reformas iniciadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso na área da educação e é capaz de identificar com precisão o ponto nevrálgico dessa revolução que é a introdução da meritocracia no ensino público.
O ministro do PT saúda explicitamente “o grande programa do Bolsa Família com exigência de manter as crianças na escola“, obrigação que, recorde-se, Lula dispensou, e o caráter “estratégico do Enem” que, pela primeira vez, deu ao Estado uma ferramenta para lhe permitir “escolher os melhores para o Ciência Sem Fronteiras (bolsas para alunos brasileiros em universidades estrangeiras), para o ProUni e para as melhores universidades“.
“Com o Enem (que o PT sabotou até onde pode quando era oposição) a chance passou a ser igual, do filho do reitor ao filho da faxineira“, admitia o ministro “estante” ao Valor. “O Enem é necessário a um sistema republicano e democrático de meritocracia do estudante“.
O problema que subsiste, porém, é que Mercadante e o resto do PT não admitem a sujeição das suas clientelas, da qual o professorado é um segmento fundamental e dos mais organizados, a esse mesmo critério de mérito sem o qual, ele reconhece, “um sistema republicano e democrático” não se pode estabelecer e nem a qualidade da educação pública ser melhorada.
Para o professorado a receita do PT continua sendo a mesma que levou a educação brasileira para o buraco em que se encontra: reajustes automáticos de salário inteiramente desligados da exigência de desempenho.
Para os governadores que respondem aos decretos do PT sobre os salários com a queixa de que “ou aumentam os professores, ou cumprem a Lei de Responsabilidade Fiscal, as duas coisas ao mesmo tempo é impossível“, Mercadante tem a resposta perfeita. “Em alguns estados mais da metade da folha de pagamentos é de aposentados e pensionistas. Então o problema não é o piso dos professores mas a equação geral da remuneração e a relação dos aposentados e pensionistas. Ou seja, de reformas que não foram feitas“.
E, de fato, quem já cobra mais de 1/3 de tudo que o país produz em impostos pode alegar qualquer coisa menos falta de dinheiro para se desculpar pela qualidade pífia da educação pública que oferece em troca. O que falta não é dinheiro, é a definição de prioridades e a do PT tem sido comprar eleições de preferência a comprar uma educação de primeira, como se pode deduzir do fato eloquente do ministro que discursa sobre os benefícios “republicanos” da meritocracia continuar tratando o professorado como uma categoria a ser subornada por aumentos automáticos de salário sem nenhuma exigência de contrapartida em desempenho.
Enquanto continuar tendo os seus esforços para tratar o dinheiro da educação pública como sua propriedade particular recompensados por decisões como essa, o que o professorado brasileiro continuará entregando é o que entrega hoje: doutrinação e descaso nas salas de aula; arrogância e greves para os trabalhadores e pais de alunos que lhes pagam os salários.
E tanto o PT sabe que essa é a consequência inescapável de seguir permitindo a instrumentalização corporativa da educação pública que, no que tange a qualidade de ensino, a única política que ele consegue esboçar é a de exportar alunos para bem longe das escolas que ele próprio gerencia e matricula-los nas de países cujos governos exigem desempenho de seus funcionários e põem os professores a serviço da educação.







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