Pelos direitos dos animais!
3 de dezembro de 2013 § 6 Comentários
Vão asfaltar a estrada Cunha-Paraty.
Dizem que é pra ter uma saída pro povo de Angra dos Reis e cercanias em caso de acidente com as usinas nucleares construídas naquele lugar que os índios chamavam de “Pedra Podre”.
São aqueles 9,6 km de terra que atravessam o Parque Nacional da Bocaina que os ecologistas vêm impedindo de asfaltarem desde o milênio passado.
Não se vai perder nada que já não tenha sido perdido. Você atravessa esses quase 10 quilômetros e mais os muitos quilômetros que os antecedem e que os sucedem e não vê uma única mancha de mato que não seja uma capoeira mirrada e empobrecida, embora aquilo seja um paliteiro de morros agudos com encostas que já foram cobertas de luxuriante Mata Atlântica.
Desde que eu as conheço que elas já estão peladas e lavadas. Desmataram tudo tantas vezes que hoje, além dessas capoeiras de “pau-de-flor“, só ha aquelas extensões de samambaias duras como arame que são tudo que nasce em solos super-ácidos, esgotados para todo o sempre.
No mais, são as rachaduras na terra mostrando que aquilo ainda vai desabar um dia.
Esse tipo de proibição, aliás, é dos enganos mais trágicos deste país de tantos enganos. Lá pelos anos 70, quando a economia deu uma embalada e a depredação recrudesceu, os ecologistas, de tanto perder batalhas, adotaram como um axioma essa política de impedir o acesso das pessoas aos lugares onde ainda havia natureza que valesse a pena conservar.
Como este é o país onde não se consegue controlar nem o vão do MASP, não porque não haja polícia mas porque não se admite que a polícia aja, eles passaram a proibir a construção de estradas. Resultado: só entravam os bandidos, os clandestinos que iam lá pra depredar, agradecidos pela retirada de cena de todas as testemunhas “a favor” do mato em pé.
Desse momento em diante a luta passou a ser, não mais por educar ambientalmente a população, mas por segregá-la dos ambientes íntegros o que implica na total impossibilidade de se educar ambientalmente a população, já que educação ambiental não é outra coisa senão frequentar o meio ambiente íntegro, testemunhar o seu funcionamento e, assim, aprender a amá-lo e respeitá-lo.
Instalou-se, com isso, um círculo vicioso. Mais um!
Ambientalistas cada vez mais radicais de um lado e populações isoladas odiando-os cada vez mais, do outro, uma equação que justificava e continua justificando cada vez mais o incêndio criminoso e a corrupção madeireira à mão armada que continua, já lá vão quase 50 anos, devorando o que resta do Brasil.
No resto do mundo, a caça e a pesca esportivas e, subsidiariamente, o turismo ambiental “de paisagem” conseguiram a solução mais inteligente de fazer as pessoas ganharem mais dinheiro com a mata em pé do que com ela feita carvão. Então, além dos amantes da natureza, também os amantes do dinheiro, que são em muito maior número e muito mais poderosos, se aliaram aos que se dedicam a conservá-la.
Mas aqui os ecologistas, que junto com o resto das pessoas e graças a eles próprios, não frequentam as matas ha pelo menos três gerações, não sabem como se comportam os bichos e de que forma interagem a fauna e a flora, assuntos que literalmente apaixonam quem é do ramo que é de quem saem as verdadeiras soluções, e perderam, junto com todas as suas outras vítimas, qualquer relação com a natureza real.
Do discurso ecológico sobraram só as formas mais radicais e cretinas de abstração. Uma discussão exacerbada sobre “o bem” e “o mal” que confunde alhos com bugalhos (e quem sabe o que são essas coisas hoje?) , vaca com animal selvagem e gente com bicho.
Quebrou-se o fluxo das gerações. E o brasileiro, que já não tem mesmo contato com a sua própria história, tem menos noção ainda do quanto seus antepassados viveram uma relação íntima com a natureza.
Não sobrou nenhum elo vivo entre nós e ela, enfim.
E no entanto, teria sido tão simples quanto qualquer outro aprendizado. Quem já foi ao Netflix ou à Apple TV e alugou a maravilhosa série de documentários de Ken Burns chamada Os Parques Nacionais – A Melhor Ideia da América, poderá conferir ao vivo como os americanos, quando aquilo começou a funcionar ha pouco mais de 100 anos, fizeram um monte de burradas, sujaram e quase depredaram aquelas maravilhas todas mas, pela insistência, conseguiram, afinal, segurá-las e ensinar o povo a usá-las de forma civilizada, assegurando um patrimônio insubstituível para as gerações futuras.
Coisa de gringo!
Brasileiro – mesmo os do povo – tem horror a povo. Não acredita na capacidade dele de aprender coisa nenhuma. Acha que o povo tem de ser mandado; tratado na porrada; barrado no baile porque se entrar estraga tudo. E quanto mais “vanguardista” e “amigo do povo” se diz o ideólogo de plantão, pior ele é nesse culto cego ao autoritarismo “iluminado” do “eu é que sei o que é bom para você”.
De modo que taí. Os famigerados “direitos dos animais” passaram a valer tanto quanto os direitos dos demais brasileiros. Estão lá, em alguma estante, em alfarrábios os “mais avançados do mundo” que os cupins devoram gostosamente enquanto os titulares desses direitos morrem atropelados no asfalto porque não têm mais onde ser e estar. Não vai sobrar nada a menos que um milagre (que pode ser a internet onde tudo pode ser visto, medido e comparado) afinal os ilumine com a luz sem aspas do conhecimento.
A Mata Atlântica e os Ciclos da Vida
26 de março de 2013 § 21 Comentários
O Filme
O Texto
A pedido de telespectadores reproduzo o texto do roteiro do documentário A Mata Atlântica e os Ciclos da Vida que filmei em 2006 e acabei de escrever em 2007
Mata Atlântica. Peça fundamental do sistema de reciclagem da atmosfera terrestre. Avó das florestas do mundo, resistiu a duas eras glaciais. Cobria grande parte do litoral atlântico das Américas Central e do Sul. Hoje está reduzida a oito por cento do que já foi.
Sua beleza misteriosa remete à idéia de paraíso perdido. Parece a Terra antes que o homem começasse a modificá-la. Mas, é preciso resistir ao mito! Viver é muito perigoso! Viver sempre foi muito perigoso!
(…)
Neste cenário intrincado, onde se deixar ver quase sempre significa a morte, não se vêm coisas; só se vê movimentos. Mas, aí começa o problema: para crescer e se multiplicar, é preciso se mover…
(…)
Quando chega a primavera, o macuco sente a necessidade de atrair um parceiro para a procriação. Mas o chamado para perpetuar a espécie é o mesmo que atrai o predador que pode acabar com ela.
Do outro lado da floresta ele provoca uma resposta. É o anuncio do inicio de uma marcha que nenhum risco poderá deter. Aqui, segurança é sinônimo de imobilidade e silêncio. Mas o instinto de perpetuação da espécie é mais forte que o de preservação. Assim, o chamado vai ser retomado e respondido num longo diálogo que orientará a travessia da floresta pelos dois macucos e por seus predadores, até o encontro final entre dois deles.
(…)
Mas nossa história começa muito longe daqui. Os primeiros sinais de vida na Terra registram-se há cerca de 3 bilhões de anos. Onze bilhões já se tinham passado desde a grande explosão que criou o Universo.
Em algum momento desse passado distante, a vida se divide em duas correntes de desenvolvimento. Uma, segue o caminho das proteínas e gera o mundo móvel dos animais, de onde vem o Homo sapiens. Hoje, seis e meio bilhões deles tentam viver do planeta Terra…
Outra toma a forma dos carboidratos e dá origem ao reino menos móvel das plantas. A certa altura, elas ganham os frutos e as flores. E isso sela o casamento entre o mundo animal e o vegetal.
Entram em cena os “agricultores alados” ocupados em trocar néctares e frutas pelo transporte de sementes e pólen. E então, as florestas cobrem o mundo e aceleram a reformulação da atmosfera terrestre.
Nós mesmos só passamos a existir porque as florestas fabricaram um ar que podemos respirar e que nos protege dos efeitos mortíferos da luz não filtrada do Sol.
A Mata Atlântica não está onde está por acaso. Cresce por baixo deste grande regador de Deus que é permanentemente alimentado pelo ar úmido que vem do mar. Este ar bate na serra, sobe, condensa-se com a temperatura mais baixa e volta em forma de chuva.
(…)
Existem mais tipos diferentes de formas de vida aqui do que em todos os outros ambientes da Terra.
Por que?
A floresta é um organismo vivo. Nada, aqui, é igual ao que foi ontem. Tudo está em evolução…
É a luta pela luz que molda o mundo vegetal. Nesta região de vales e montanhas, com faces apontadas para todos os quadrantes, há um regime de incidência de luz diferente quase para cada metro quadrado de chão.
Isso cria diversos “nichos de mercado” que exigem das plantas diferentes estratégias de captação.
Foi através de ensaio e erro, adaptação ou morte, que cada tipo de vegetação aprendeu a encontrar a configuração adequada ao seu lugar na floresta. A longo prazo, esse esforço de adaptação foi conduzindo a novas espécies.
Os gigantes da Mata Atlântica precisam da luz direta do sol. Por isso, aprenderam a investir toda sua energia no crescimento. Vão retas para cima, sem se preocupar com o desenvolvimento de galhos e folhas inúteis. Só depois de alcançar o dossel é que vão tratar de engrossar.
Tomando carona nelas estão as epífitas. Milhares de variações. Algumas têm sementes dispersas pelo vento. Outras são levadas de árvore em árvore pelos pássaros. Tudo isso — sua forma, sua localização e sua tática de reprodução — foi “aprendido” num longo processo de evolução.
Na sombra do segundo andar, palmeiras e samambaias produzem folhas quase transparentes, umas por cima das outras. Assim, a luz que passa por uma é absorvida pela outra.
As trepadeiras buscam apoio em qualquer coisa que as leve para mais perto do Sol. Distribuem suas folhas de modo que uma não faça sombra sobre a outra e consigam captar luz a qualquer hora do dia.
Algumas plantas arbustivas produzem repelentes de insetos. Outras não. Investem na produção de folhas, sem se preocupar com estratégias de defesa. Deixam-se comer e produzem mais e mais folhas para substituir as estragadas.
Lá no chão, grandes painéis são necessários para a captação da pouca luz que chega. Dispensadas de carregar peso, as rasteiras priorizam o armazenamento de água em caule e folhas com grande densidade de líquido.
As oportunistas, como embaúbas e bambus, têm sementes leves que se espalham por toda a parte. Havendo sol, germinam. Antes, aproveitavam a insolação das margens dos rios ou funcionavam como “cicatrizantes” dos “canyons de luz” abertos pela queda de grandes árvores. Com as derrubadas, estão cada vez mais presentes…
(…)
A forma das árvores conta a história de cada trecho da floresta. O regime mais racionado dos espigões; o excesso de água das baixadas; os anos de seca ou de chuva abundante, ficam registrados nos meandros mais ou menos tortuosos dos seus galhos.
Plantas inclinam-se sobre o “vão livre” dos rios.
A queda de uma grande árvore, abrindo uma nova “janela de luz” no “teto” da mata, desvia o rumo anterior do crescimento de suas vizinhas.
Gigantes da floresta debruçam-se sobre as encostas para alcançar um buraco no dossel. São massas enormes que se deslocam; complicados jogos de peso e contra peso, o que requer amarrações especiais das raízes para que elas se mantenham equilibradas
Como as pessoas, as plantas também ficam marcadas pela história de suas vidas e pelo ambiente onde ela transcorreu.
(…)
Com os demais seres vivos, também é assim: a necessidade e a floresta vão desenhando os animais que, por sua vez, vão redesenhando a floresta.
Necessidades de defesa; diferentes estratégias de alimentação e acasalamento levaram ao desenvolvimento de capacidades especiais de visão; à adaptação de formas e cores ao ambiente; a formas diversas de vocalização; ao desenvolvimento de aptidões físicas especializadas; ao domínio dos diferentes níveis da floresta por diferentes espécies animais.
Nos beija-flores, o coração é quase um terço do peso total da ave. É o motor necessário para sustentar as altíssimas rotações em que essas pequenas máquinas funcionam.
Já Zabelês, guaçus, urus e macucos se adaptaram bem à vida no chão, onde encontram comida com mais facilidade. Neste ambiente cheio de obstáculos, o vôo passou a ser um recurso só para emergências. E o corpo dessas aves foi mudando…
O macuco é a ave que tem a menor relação entre tamanho do coração e volume do corpo. Mas, aqui embaixo, há ainda mais predadores que lá em cima. Assim, ele teve de se transformar num mestre da sutileza e do cuidado.
Estudos indicam que até o seu pio pode ter sido alterado, ao longo da evolução, para aumentar seu arsenal de medidas defensivas. Hoje, ele se propaga de tal forma que só outro macuco consegue localizar, com precisão, de onde ele partiu. É mais um poderoso recurso para despistar seus predadores.
(…)
Plantas ou animais, a lei é a mesma: adaptação ou morte. Assim, foi sendo estabelecido quem viveria em que parte da floresta. O chão é dos muito atentos ou dos muito fortes. O nível médio — a vida no labirinto dos troncos e dos galhos — requer agilidade e leveza. Lá em cima, no mundo das extremidades flexíveis das folhas e dos frutos, “braços extras” precisaram ser desenvolvidos. E os predadores de cada grupo, em processo paralelo de evolução, foram adaptando seu porte e suas aptidões para continuar atuando sobre eles.
(…)
Outro recurso que não se despreza, no permanente desafio da luta pela vida na Mata Atlântica, é a escuridão. É à noite que a floresta ferve na busca de sexo e comida pela maior parte dos seus habitantes. Todos desenvolveram visão noturna melhor que a do homem. Mas, como conseguem se orientar quando a escuridão é total?
O chão da floresta é todo cheio de caminhos. Alguns animais usam sempre os mesmos, de dia e de noite. Eles passam diariamente por eles e vão limpando o trajeto de pequenos obstáculos. Esses “carreiros” passam também a ser “trilhas de cheiro”, através das quais eles podem se orientar no escuro.
Mas o que será que acontece no pânico da fuga? Eles fogem pelos carreiros ou a descarga de adrenalina dispara corridas cegas pela noite, aos trancos e barrancos?
Mistérios da Mata Atlântica…
Mas, nem todos estão suficientemente aparelhados para enfrentar a escuridão. Quando a noite cai, o macuco trata de buscar proteção.
É o momento em que todos se manifestam, para marcar território.
Como todo mundo, na natureza, o macuco leva uma vida de fugitivo. No poleiro, evita até evacuar para não denunciar sua posição. E precisa mudar de endereço constantemente.
Lá no alto, sua segurança é relativa. Aqui todos os predadores sabem subir em árvores. Assim, pode-se até fazer barulho por baixo do poleiro sem que o macuco reaja. Mas, qualquer toque na árvore desencadeia a fuga…
(…)
Na sombra do chão da floresta a oportunidade de reprodução das plantas pode levar muito tempo… Por isso, muitas evoluíram para armazenar energia em torno de suas sementes, desenvolvendo frutos polpudos. Essa polpa não tem papel direto no processo de multiplicação da planta. Serve só para prolongar a vida das sementes até que encontrem as condições ideais de germinação e também para atrair os animais que vão carregá-las para pontos mais distantes.
Só as plantas de sementes leves, “aero-transportáveis”, reaparecem nas matas que não têm contato direto com matas mais antigas. As de sementes pesadas não conseguem mais migrar até elas. Por isso correm maior risco de extinção.
(…)
Por baixo do que está à vista, existe um outro mundo de enorme diversidade. Alem dos milhões de bactérias invisíveis, existe mais variedade de fungos aqui, do que todas as plantas da Mata Atlântica e dos outros biomas brasileiros somados. Eles são formas de vida super especializadas. Cada grupo ocorre apenas em um determinado segmento da planta.
Há também os especialistas em decomposição. Mas, a maioria dos fungos ajuda as plantas a viver e se proteger. Eles são atores coadjuvantes essenciais a todas as funções vitais da planta.
Pode estar neles o segredo da longevidade ou a solução para inúmeras doenças ainda incuráveis.
(…)
A fome impõe disciplina ao mundo animal. Como os que estão sendo caçados só continuam a existir porque sabem fugir dos que os estão caçando, não há almoço grátis… Também na natureza, é preciso trabalhar muito para comer. E quem fracassa por muitos dias nessa tarefa, vai enfraquecendo até se transformar num candidato preferencial a ser caçado. Caçar e ser caçado está no código genético de todos os seres vivos; o homem inclusive…
A evolução tratou de atrelar a capacidade de multiplicação de cada animal à sua posição na cadeia alimentar. Na base estão os mais caçados. São os que produzem as maiores proles e também os mais “descuidados” com a sua proteção. Já, os animais com baixa taxa de multiplicação tendem a ser os mais esquivos. Como as pacas, que só saem de suas tocas nos períodos de mais completa escuridão.
(…)
Morte e transformação: é esta a essência da receita da vida. Existe uma cadeia alimentar, da qual todos os seres vivos fazem parte. É ela, que mantém as populações em equilíbrio. Os organismos produtores, as plantas, fabricam seu próprio alimento. Os consumidores, herbívoros ou carnívoros se alimentam de plantas ou de outros animais.
Existem os carnívoros secundários, os terciários e adiante, que se alimentam, até, de outros carnívoros. E acima de todos, junto com os porcos e as aves de rapina, estamos nós, os onívoros, que comemos tanto organismos produtores quanto consumidores.
À espera de todos, estão os decompositores. Insetos, bactérias e fungos que desagregam as moléculas que, um dia, compuseram os corpos destas plantas e animais mortos. Eles as devolvem à terra para que possam ser reabsorvidas por plantas e animais vivos.
(…)
Nada se perde; tudo se transforma.
Em ação paralela, os componentes inertes do sistema estão passando por processos de reciclagem que vão transformá-los em elementos que poderão ser utilizados na continuação da vida. Cada pequeno córrego que corta a grande muralha da Serra de Paranapiacaba é um ramal do sistema de captação das águas produzidas pelos ciclos de evaporação e chuva que sustentam a exuberância vegetal da Mata Atlântica.
O trabalho persistente da água roçando a terra vai comendo barrancos, solapando raízes, derrubando árvores e, aos poucos, escavando o perfil geológico da floresta. É através deles que vai começar a corrida dessas águas em direção ao mar. Ela mói e carrega, ano a ano, pedras, terra, restos de vegetais e animais, que alimentam outros seres vivos ao longo do caminho. Depois de descer a serra, esses detritos, reduzidos a pó, vão abastecer os oceanos de nutrientes para o fitoplâncton, elo primário da cadeia alimentar. E todo o ciclo recomeça…
Tudo acaba sendo reduzido às mesmas partículas essenciais, que se articulam e rearticulam de infinitas maneiras. Isso quer dizer que alguns átomos de carbono que compõem a pele desta mão podem, algum dia, ter feito parte de uma folha, da carcaça de um dinossauro ou até mesmo de uma pedra…
Um dia, esta mesma pele vai voltar para a terra, para ser transformada em alguma outra coisa.
Sem estes ciclos de transformação e reciclagem o planeta se transformaria numa grande lata de lixo.
(…)
Não é só a Mata Atlântica. Tudo à nossa volta está em evolução. Os próprios continentes já andaram navegando pelo globo…
O sertão, de fato, já foi mar, e o mar já foi sertão. O que um dia foi trópico hoje está próximo dos pólos. O Norte já foi Sul e o Leste já foi Oeste…
Mata Atlântica, campos, cerrados, hiléia amazônica, tundra canadense, desertos da Mongólia; tudo é uma coisa só. E a própria Terra está inserida num grande “ecossistema” intergaláctico, onde cada peça é essencial ao equilíbrio do todo.
(…)
A criação dos macucos começa entre os meses de agosto e novembro. É o início da primavera, quando a oferta de comida aumenta muito. As primeiras chuvas rápidas começam a devolver a cor à mata. Com a seca, termina também o silêncio dos meses do outono e do inverno. A floresta vai se encher de cantos diversos, anunciando a temporada de acasalamento.
Depois daquela travessia tão cheia de perigos, aquele namoro, que começou lá naquela primeira troca de pios, termina num momento sublime.
…
O canto de trêmula satisfação da fêmea
recém coberta, que ficou para traz…
(…)
A floresta está toda dividida em territórios delimitados. Existe uma espécie de lei econômica que rege a sua ocupação pelos diferentes animais e plantas. Pássaros, répteis e mamíferos de todos os tamanhos convivem numa mesma área, em grupos contados de machos e fêmeas. As quantidades são estabelecidas pela disponibilidade de comida e pelas táticas de reprodução. Qualquer invasor da mesma espécie que entre em território alheio é rechaçado de imediato…
O direito de procriar é exclusivo dos mais fortes. Para garantir trocas genéticas, as crias de cada espécie se misturam às dos territórios vizinhos para formar novas famílias.
Menos de 30 hectares podem bastar para uma família de macucos. Outros mamíferos e predadores ocupam territórios maiores, sobrepostos aos dos pássaros e animais de menor porte…
Uma irara pode requerer um território de caça de mais de 20 km². Já uma onça pintada, o maior predador das Américas, pode andar mais de 40 km, numa única noite, atrás de presas e parceiros.
(…)
Em ambientes ecologicamente saudáveis, o aumento da população de uma espécie aumenta também o número de seus predadores.
Esse mecanismo, que condiciona o tamanho das populações à capacidade da área em que elas vivem de repor, num ciclo anual, o que é necessário para sustentá-las, é que define o conceito de sustentabilidade.
(…)
O ato do acasalamento do macuco é apenas o prenúncio dos mais de 40 dias de pesadelo que vão se seguir.
Para aumentar as chances de perpetuação da espécie, é o macho que choca os ovos. Depois de construírem o ninho juntos, a fêmea sai a procura de um novo parceiro para garantir mais uma postura. Ele vai permanecer 19 dias sobre os ovos, saindo apenas uma vez por dia para se alimentar. Nos últimos dias, nem isso vai fazer. E durante esse tempo todo, vai ficar exposto, dia e noite, aos predadores. E, as ameaças serão muitas…
Qualquer contato visual ou movimento suspeito muito próximo fará com que ele abandone definitivamente o ninho.
Se sobreviverem, entre o 19º e o 20º dia, os ovos serão picados e os filhotes nascerão.
Na ultima noite, o quarto filhote finalmente pica o ovo e sai da casca. Agora a família está completa. Mas o perigo será redobrado.
O esforço da procriação impõe um reforço na alimentação. Por isso, de insetos a carnívoros, a ação predatória chegará ao auge neste período em que pais e filhotes estão mais vulneráveis. Ninguém é poupado…
Agora vão ser mais 20 dias no chão, numa corrida contra o relógio, até que os filhotes cresçam o suficiente para conseguir voar, ainda que seja até um poleiro baixo. Se algum deles falhar nesse primeiro vôo, dificilmente sobreviverá.
(…)
Até há 60, 70 anos, ainda sobrava Mata Atlântica bastante para que a chegada de bandos de milhares de jacutingas que migravam todos os anos entre o Sul da Bahia e o Norte da Argentina fizesse parte do calendário de festas de diversas populações do litoral brasileiro.
Como vinham fazendo há 50 milhões de anos, elas acompanhavam as temporadas de produção das diversas fruteiras do mato que, com as variações de latitude e temperatura, cobriam o ano inteiro.
Hoje, com a Mata Atlântica confinada a pouco mais que trechos da Serra do Mar de São Paulo e Paraná, as jacutingas estão limitadas a migrações entre o nível do mar e o Planalto, onde as variações de altitude e temperatura distribuem o período de frutificação por alguns meses do ano. Podemos ser a ultima geração a conviver com elas…
(…)
O resto da criação vive das florestas e trabalha para a sua manutenção. O homem vai na direção contrária. Nunca houve o “bom selvagem”. O que a ciência indica é que há 4 mil gerações, o fogo tem sido o principal instrumento de interação entre o Homo sapiens, ele próprio um produto das savanas, e as florestas.
Há apenas 13 mil anos, nossos ancestrais estavam domesticando as 12 espécies vegetais e 5 animais com as quais, até hoje, atendemos mais de 80% das nossas necessidades. Desde então, vimos empurrando tudo o mais que vive no planeta para abrir espaço apenas para aquilo que elegemos para nos sustentar.
A penicilina foi o golpe de misericórdia. Libertou-nos de vez da lei de seleção natural. A partir daí, o homem passou a se multiplicar nas proporções de uma praga. E cada nova vitória da medicina piora a situação.
É este o grande paradoxo da condição humana: quanto maior o sucesso do nosso desempenho como espécie, maior será a ameaça que pesará contra a continuação desse sucesso.
Não há respostas fáceis para esse dilema. Com ou sem um discurso “verde”, o problema ambiental é cada um de nós. É o espaço que ocupamos no planeta, usurpado de todos os outros seres que, junto conosco, atravessaram os milênios e venceram as infinitas armadilhas da evolução, para conquistar o direito de continuar vivos, aqui e agora.
Na crescente solidão da paisagem uniforme de que nos vamos cercando, temos trabalhado como loucos para destruir o sistema que tornou a nossa própria existência possível.
Mas romantismo e ações policiais pouco poderão fazer para reverter esse quadro. Os abatedouros industriais e a comida sem sangue dos supermercados não anulam a nossa condição essencial, de presas e predadores que continuamos fazendo parte da mesma cadeia alimentar que sempre amarrou uns aos outros todos os seres vivos e vem sustentando a renovação dos ciclos da vida.
Mas nós somos, também, o único animal que pode mudar o seu próprio destino…
Para que possa frutificar, esse nosso propalado amor à natureza tem de ser integralmente consumado. Temos de nos reeducar para voltarmos a ter intimidade com aquilo que resta dessa natureza essencial. Temos de reviver o ritual da nossa relação orgânica com o resto da criação. Temos de reaprender com ela a aplicar mecanismos econômicos para induzir a distribuição de espaço e populações de forma sustentável.
Talvez isso nos de tempo para negociar com ela algum tipo de reconciliação, antes que ela nos imponha a sua própria solução, com a força e a indiferença daquilo que é eterno.
(…)
No pouco que resta do mundo como Deus o fez, as coisas seguem sendo como nunca deixaram de ser. Na disputa por um lugar num espaço que sempre foi limitado, cada vitória tem de ser arrancada dos braços da morte, e requer o uso de aptidões conquistadas durante milênios de evolução.
Mais uma vez testadas, essas aptidões filtraram a nossa família de macucos, até que sobrassem apenas os mais preparados.
Agora, tudo recomeçará, cada um por si, como foi desde sempre, e como continuará sendo, se sua majestade o homem assim o permitir.
Vender preservação é um alto negócio
4 de abril de 2011 § 2 Comentários

Na semana passada os jornais mencionaram uma discussão que estaria começando a correr nos meios ambientais do governo para ceder a exploração (turística) de nossos parques e áreas preservadas pela iniciativa privada.
Seria um passo decisivo para mudar o quadro dramático de absoluto analfabetismo ambiental que assola o Brasil.
Entre os muitos aleijões que a escravidão prolongada produziu neste país, o analfabetismo ambiental conta entre as piores.
O mato, para o colonizador português de beira de praia, sempre foi apenas e tão somente o limite do canavial além do qual só havia “bugres, feras e miasmas”. Eles nunca puseram os pés nele nem para caçar o de comer quando isso era absolutamente necessário. Sempre tiveram o escravo, índio ou negro, para fazer isso por eles, ou para, preferencialmente, empurrar a ferro e fogo o mato para mais longe.
Quando, finalmente, entramos pelo interior adentro, já o fizemos com motosserras, tratores de esteira e “correntões”. Destruímos nossas floresta sem nunca termos tido sequer de entrar nelas.
Isso criou uma distorção que é única no mundo, especialmente nestes tempos em que, com a exceção deste glorioso país com verde na bandeira, todo o mundo valoriza cada vez mais conviver de fato com a natureza selvagem.

A indústria do turismo outdoors é uma das grandes forças econômicas do planeta. E paga-se tanto mais caro quanto mais puro e básico ele puder ser. Finalmente juntou-se a conservação com a necessidade de conservar, uma valorizando a outra. Mas aqui, para a esmagadora maioria de uma população de urbanoides que dificilmente viram mais mamíferos vivos que um cachorro ou um rato de esgoto, isso ainda é “programa de índio”.
Os programas de TV que miram esse segmento, dito “da aventura”, expressão que remete diretamente para as noções de risco e inospitalidade, ainda chamam eucaliptais e campos plantados de braquiária de “áreas verdes” a serem “curtidas” e até “amadas” (porque hoje “gostamos”, do que quer que seja, à americana).
E a primeira providencia dos nossos “ambientalistas” ao criar um parque nacional ou uma área de preservação é proibir a entrada do publico nela, para que não haja o mais remoto perigo de virmos a ter, um dia, algo que se pareça com uma educação ambiental de fato, que nada mais é do que viver uma boa parte da vida nesses ambientes – em geral a melhor porque é lá que se vai para fugir do trabalho e ter prazer. As pessoas lutam por lugares de que se sentem donas. E se sentem donas dos lugares que fazem parte das suas melhores memórias de vida.
Mas entre nós, educação ambiental não é uma prática. É uma ideologia. Uma cagação de regras que raramente fazem sentido. E, no mato pra valer, só se entra clandestinamente, para destruí-lo. Até os cientistas têm sua condição de estudar o que é preciso estudar na natureza para poder conviver razoavelmente com ela restringida de forma absurda quando não ridícula pelos ambientalistas mais radicais.

Na África, com apoio da Cites que é o órgão da ONU para espécies ameaçadas, diversos países reservam as terras lindeiras com reservas e parques nacionais exclusivamente para fazendas de caça ou outras formas de exploração de esportes de natureza, porque isso aumenta a extensão da área preservada, cria uma guarda realmente interessada em coibir abusos (para proteger investimentos e interesses econômicos concretos) sem custo para os cofres públicos e bem menos subornável que as dos governos.
Isso interessa aos investidores pela razão simples de que o parque, lá atrás, repõe caça nas fazendas lá na frente, e caça é a única coisa que vale (muito) mais que soja. A coisa funciona sozinha, em função de mutuo interesse, portanto. É só deixar que aconteça.
Mas nossos “ambientalistas” decretaram que a atividade que define a nossa espécie e garantiu que o homo sapiens chegasse até os dias de hoje é “imoral”. Temos de ensinar nossas crianças que os dentes caninos estão na nossa boca por acaso e os frangos e bifes que comemos todos os dias são fabricados, já com a conveniente embalagem de plástico, nos fundos dos supermercados, sem sangue nem custo ambiental algum, e que a equação da sustentabilidade não se refere nem à superpopulação humana nem ao que temos de derrubar e suprimir para abrir espaço para fabricar o que comemos e o que vestimos, mas sim aos malvados dos americanos e seu “modo perverso de produção”.
Tudo bem! Concedo! Religião não se discute!

Mas vamos, pelo menos, adaptar as ideias civilizadas que deram certo. Que tal incentivar os gringos – e também os ricos brasileiros, porque não! – a comprar bem mais barato terras no entorno dos restos do nosso cerrado, da mata atlântica, nas beiradas da Amazônia, em volta dos nossos “invioláveis” parques nacionais, na beira dos nossos rios só para esses “esportes de aventura”, nem que seja esses do critério politicamente correto (dependendo do horário) das nossas redes de TV?
Ha meses que o Brasil discute apaixonadamente a proibição da venda de terras a estrangeiros, como se eles pudessem carregar o que comprarem debaixo do braço para fora daqui.
Para ser franco, nunca entendi porque estrangeiros investirem para produzir soja ou outra commodity agrícola aqui teria efeitos mais perversos que estrangeiros investirem para produzir automóveis ou televisores aqui.
Criados os empregos, pagos os impostos, passados todos os trâmites legais para exportar essa produção, o que, de fato estaríamos perdendo? Se queremos impedir que a China fabrique proteína animal lá com a proteína vegetal plantada aqui para exportar mais valor agregado, a questão a ser atacada não é o “custo Brasil” sobre a mão de obra (desqualificada), a infraestrutura (sucateada) e os impostos (excessivos para sustentar gastos obcenos de uma casta política privilegiada) que tiram a condição de competir da indústria nacional?

Pra exportar mais valor agregado é preciso domar o PT e o resto dos políticos e não os chineses.
Aos chineses nós devíamos é propor que comprem três alqueires de terras para conservação a cada alqueire de terra para agricultura, por exemplo.
Se ha uma fonte de dinheiro sem custo virtualmente inesgotável, hoje, é essa: todo bilionário do mundo, toda grande empresa do mundo quer enfiar seus bilhões, antes de mais nada, em preservação ambiental. Estão comprando áreas para preservar ou até para devolver à natureza em toda a parte e só não fazem isso aqui porque o governo não deixa.
Se apenas lhes oferecêssemos a oportunidade de comprar para preservar áreas do nosso quase extinto cerrado, nas bordas do que resta da mata atlântica ou em terras amazônicas nesta véspera daquela região ser eletrificada, o que vai multiplicar de forma devastadora a velocidade da devastação, nossos filhos poderiam dormir um pouco mais tranquilos.
Insisto: ha maneiras melhores de gastar neurônios com o binômio terras x estrangeiros do que escolher que tipo de dinheiro pode ou não explorar aquelas que já estão entregues à sanha da agricultura. Muito mais importante – para o Brasil e para o resto do mundo – é convocar os donos de todo dinheiro ocioso ou culpado do mundo (e se incluirmos este já não escapa quase nenhum) a vir comprar uma chance de subir para o purgatório evitando que o que ainda não foi engolido pela fronteira agrícola venha a sê-lo logo ali adiante.
















































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