País rico é…
14 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário
O “País rico é país sem pobreza” de dona Dilma, mãe do PAC, é um daqueles truísmos dignos do Livrinho Vermelho de Mao Tsetung. As novas gerações ao menos só desligam os miolos diante de coisas que não entendem bem, como por exemplo tudo o mais que se esconde por tras da conversa da “internet livre”. O poder daquele livrinho era muito mais impressionante. Mesmo depois de traduzido e decifrado, o simples ato de agitar aquele objeto no ar fazia com que a capacidade de discernimento dos mais badalados intelectuais do Ocidente desaparecesse, como num apagão, e eles passassem, babando, a exigir a continuação de genocídios em nome da defesa dos direitos humanos.
E no entanto, o tal livrinho era recheado de truísmos quase infantis, como esse do agrado de dona Dilma, quando não de frases sem nenhum sentido. Truísmo, recorde-se, é aquilo que o professor Houaiss define como “uma verdade evidente por sí mesma“, uma “coisa tão óbvia que não precisa ser mencionada“, uma “banalidade“, uma “obviedade“.
Marisa Moreira Salles (sim, a mulher do dono do Unibanco) sacou uma bem mais sutil e inteligente no EU &, o caderno-de-fim de semana do jornal Valor na sexta-feira passada: “País sem pobreza não é aquele em que o pobre anda de carro mas sim aquele em que o rico usa o transporte público” (se não foram essas as palavras exatas era esse o significado).
Síntese perfeita!
Agora, antes que este, educado e com uma infraestrutura decente que a Marisa quer, possa substituir o da Dilma que maquia a pobreza e a ignorância reinantes subsidiando o consumo de bugigangas, um outro Brasil teria de se impor, nem que seja por obra do Divino, cujo lema fosse assim: “País rico é país onde corrupção dá cadeia“.
Pro da Marisa e o da Dilma juntos o dinheiro não chega.
Nunca!
Os riquixás de Nova York
21 de junho de 2012 § Deixe um comentário
Tenho uma amiga que vive dizendo que, no Brasil, a rua da praia tem altíssima rotatividade.
“O pessoal dos apartamentos de frente para o mar vive sendo substituído. Bobeou, sai de lá e acaba caindo, rapidinho, lá na rua de trás, colada no morro“.
É uma regra universal. Mais cedo ou mais tarde acontece com pessoas, países, impérios, culturas e até deuses.
É a vontade de olhar longe e pegar aquele ventinho da praia, aliás, que faz a maioria das pessoas se disporem a sofrer tudo que é preciso sofrer para trabalhar e “ir pra frente”.
Em 1982, quando a China finalmente se abriu, fiz uma longa viagem por lá como repórter d’O Estado de S. Paulo. E nos primeiros dias, antes que eu me rebelasse e conseguisse mudar ordens vindas de Pequim, enfiaram-me doses maciças de “museus da revolução”, enaltecendo como obras quase divinas os delírios megalomaníacos através dos quais o ego superalimentado de Mao Tsetung afundou aquele terço da humanidade no terror, na miséria e na fome.
Um dos símbolos onipresentes da era de iniquidades que ele lavou naquele sangue todo eram os riquixás. As fotos daquelas charretezinhas puxadas a gente, com um chinezinho esquálido no lugar do cavalo e um “vosselência” refestelado atrás estavam penduradas em lugar de destaque em todos esses “museus da revolução”, como a anunciar o que viria e a justificar a violência com que veio.
Nos Estados Unidos não existe esse negócio latino de “trabalho mixo”. Trabalho é trabalho e qualquer um, por mais humilde que seja, costuma ser desempenhado com competência até pelos filhos dos bilhonários em férias. Mas carregar os outros nas costas é diferente. Não se admitia isso por aqui, nem para quem se dispusesse a carregar nem, muito menos, para quem podia pagar pra ser carregado…
Passado o terremoto de 2008, porém, uma charge tornou-se o símbolo dos novos tempos que o mundo estava enfrentando. Nela via-se um Tio Sam depauperado e magrelo puxando um riquixá onde se refestelava um gordo capitalista chinês.

Foi o primeiro sinal. Mas charge é charge. Vive de exagerar a realidade.
Ontem, no meio da maior onda de calor deste verão novaiorquino, saio de um teatro da Broadway em plena tarde – varando um ar quase irrespirável que se podia cortar com uma faca – e vejo-me cercado por…implorantes puxadores de riquixás que, com a competência marketeira do centro mundial do capitalismo, fechavam, com suas charretes puxadas a bicicleta, os espaços entre os carros estacionados, de tal forma que foi preciso andar um bom trecho rua abaixo até conseguir uma brecha para conseguir atravessa-la.
Tá cheio de americano puxando riquixá em Nova York, enquanto os bonus dos resgatados de Wall Street continuam bombando na casa dos bilhões!
Quanto tempo isso aguenta antes que apareça um Mao Tsetung ianque?
Como a China é governada
23 de março de 2012 § Deixe um comentário
A harmonia no Comitê Central durou até começar a corrida pela sucessão
Tradução do original The threat to the post-Mao consensus, de David Pilling, escrito para o Financial Times
O último imperador da China foi Mao Tsetung. Uma das maiores conquistas de Deng Xiaoping depois da morte de Mao foi conseguir livrar o sistema da figura de um chefe todo poderoso, da figura carismática em torno da qual tudo girava. O Mandato Divino morreu em 1976 e esta é uma das principais razões pelas quais os sistemas políticos pré e pós maoísta não tem quase nada em comum a não ser o fato de ambos se dizerem comunistas.
Deng, o arquiteto das reformas e da abertura chinesas, era poderoso, sem duvida, mas de um modo menos quixotesco que Mao. E ele era tão cioso dos perigos do culto à personalidade que nunca admitiu que fossem exibidos retratos ou bustos com a sua efígie.
Jiang Zemin, que emergiu como sucessor de Deng no início dos anos 90, tinha menos poder que ele. E o atual líder, o robótico Hu Jintao, é mais fraco que os dois. O expurgo do carisma como elemento constitutivo do poder na China estava consumado.
Até que Bo Xilai aparecesse em cena…
A China pós-Mao é governada por um coletivo para o qual ingressa-se pelo mérito, e que decide tudo por consenso. Esse consenso é negociado entre os titulares do Comitê de nove membros que é a mais alta instância de poder e paira acima do Politburo de 25 membros do qual Bo Xilai ainda faz parte. Por baixo dessa estrutura estão o Partido, o Exército de Libertação Popular e vários outros braços da burocracia comunista.
Até a opinião pública tem o seu lugar nessa estrutura de poder. A cúpula do Partido Comunista é muito sensível às críticas que, hoje em dia, são veiculadas principalmente no ciberespaço, sejam elas relativas à corrupção, à poluição, à incompetência ou à desigualdade. Às vezes o partido esmaga as dissidências, especialmente quando tendem a desafiar a sua própria legitimidade. Mas outras vezes – como na revolta contra a instalação de uma indústria petroquímica em Dalian ou no episódio do desastre de trem em Wenzhou – ele pode ser surpreendentemente reativo à indignação popular.
A estrutura do moderno Estado chinês é bem parecida com a burocracia do antigo sistema imperial que era regulada por um sistema meritocrático de exames periódicos. Na versão atual, os quadros do partido lutam anos, quando não décadas, para chegar às posições mais altas, tendo de passar pelas mais desafiadoras funções administrativas e políticas.
Wang Yang (rival de Bo Xilai na disputa por um lugar no Comitê Central), que começou sua carreira numa fábrica de processamento de alimentos, conseguiu entrar para a Juventude Comunista, passou depois para o bureau de esportes da província de Anhui e foi subindo na estrutura local do partido. Hoje, depois de várias posições e experiências diferentes, tornou-se secretário da seção de Guangdong do PCC e está apto a concorrer por uma cadeira do Comitê Central.
Um sistema desse rigor é capaz de produzir líderes de grande competência, do tipo destes que, apesar de todos os seus erros, conseguiram levar a economia chinesa a um crescimento espetacular ao longo de 30 anos. Mas esse sistema tecnocrático de consenso está agora sob pressão. E as ameaças partem tanto de fora quanto de dentro do partido.

Bo Xilai, que até a semana passada era secretário do partido em Chongqing, é o melhor exemplo das ameaças que vêm de dentro do partido. E foi por isso que ele teve de sair. Bo também veio das camadas mais baixas da hierarquia comunista, apesar do fato dele ser um dos “príncipes”, filho de um dos oito “imortais” da geração revolucionária de Mao. Ele foi conquistando posições sucessivas em Dalian, Liaoning e Chongqing, de onde planejava saltar para o Comitê Central.
Seu maior crime, postas de lado as acusações de brutalidade e corrupção, é que boa parte do seu poder deriva da sua própria popularidade e não da força do partido. Com seus hinos ao comunismo e slogans populistas ele começou a ficar parecido demais com o estilo carismático de Mao.
Esse estilo veio cheio dos ecos da “tragédia histórica da Revolução Cultural“, segundo as palavras do discurso do premier Wen Jiaobao que selou a sorte de Bo. Foi o caso de Bo que obrigou o partido a levantar aquilo que Joe Huntsman, ex-embaixador dos EUA em Pequim, chama de “Cortina de Veludo” por trás da qual se trava a luta que o partido quer esconder sob a fachada das suas “decisões por unanimidade”.
Existem outros desafios ao consenso dentro do aparato do partido que é grande e complexo demais para falar com uma só voz. Em 2010, por exemplo, alguns elementos poderosos dentro do sistema, incluindo ex-generais, resolveram jogar com mão pesada no Mar da China. E, com isso, anos de uma “diplomacia de sorrisos” desenhada para convencer os vizinhos asiáticos de que o crescimento da China não era uma ameaça foram perdidos. O partido trabalhou o ano passado inteiro tentando reparar os danos.
E ha ainda as pressões externas. Conforme a classe média urbana vai se estabelecendo e se acostumando com o conforto começam a se multiplicar as suas críticas e exigências que vão desde o fechamento de usinas nucleares até as campanhas contra funcionários específicos. Até mesmo nas cidades pequenas, especialmente nas províncias de Wukan e Guangdong, o povo tem desafiado a corrupção do partido.
São apenas alguns dos desafios que o partido tem pela frente no momento em que trata de negociar uma sucessão que só acontece de 10 em 10 anos e empreender uma mudança de rumo nunca antes tentada de uma economia baseada nos investimentos estatais para uma economia baseada no consumo interno. O crime de Bo Xilai foi expor o caráter ilusório da união perfeita que o partido sempre tenta mostrar, exatamente nesse momento tão delicado.
Um artigo recente de Xi Jinping, o candidato com mais chance de substituir Hu Jintao como presidente, reafirma a necessidade de que o partido reine absoluto sobre o sistema. Sem mencionar Bo Xilai, Xi exorta os membros da cúpula do partido a “não jogar para a plateia” nem “procurar fama e fortuna“. Em vez disso, frisava, “as políticas devem ser decididas em consonância com a sabedoria coletiva e seguindo todos os rituais apropriados“.
“Fora daí, é o caos“.
China: moderados vencem 1º round da sucessão
15 de março de 2012 § 1 comentário
A ala moderada do Partido Comunista Chinês (PCC) ganhou a primeira batalha da sucessão de sete dos nove membros do Politburo marcada para acontecer este ano.
Bo Xilai (foto), secretário do PCC da província de Chongqing, que despontava como o mais radical dos pretendentes ao mais alto cargo de poder na China foi defenestrado ontem assim que a seção anual de 10 dias do Parlamento chinês foi encerrada.
O expurgo decidido pelo Comitê Central do PCC foi anunciado em uma nota de uma única linha pela agência de notícias do governo, Xinhua, que não deixou claro se ele está preso ou não.
Poucas horas antes o primeiro ministro Wen Jiaobao que, junto com o presidente Hu Jintao e outros cinco membros do Politburo, deve deixar esta que é a mais alta instância de poder na China no final deste ano, tinha feito criticas diretas a Bo Xilai em uma inusitada conferência de imprensa televisionada com a presença de jornalistas chineses e estrangeiros.
O caso é emblemático da barra pesada que é a política nesta China que todo o Ocidente trata de igual ($$) para igual ($$) e o governo Lula considera “uma plena economia de mercado”.
Bo Xilai é filho de Bo Yibo, ex-vice-primeiro-ministro e veterano da Longa Marcha de Mao Tsetung, que iniciou a revolução comunista chinesa e, desde 2009, vinha acenando com o “Modelo de Chongking“, uma versão nostálgica e brutalmente violenta da Revolução Cultural maoísta temperada com novos molhos populistas de grande sucesso entre as massas mais pobres daquela província.
Acusando-os de “atividade mafiosa”, ele prendia os empreendedores privados de Chongqing, submetia-os a tortura e cobrava pesadas “multas” para libertar os mais ricos entre eles, usando o dinheiro para financiar políticas assistencialistas. Parentes e amigos que se dispusessem a testemunhar a favor dos prisioneiros também eram presos e torturados.
Chongqing reeditou, de 2009 até ontem, os tempos do terror maoísta com milhares de pessoas enfiadas em “prisões secretas”, seções de tortura, sentenças de morte, execração pública dos “chefes das máfias” e o mais do costume.
Mas o principal alvo dessa “cruzada contra os ricos” era Wang Yang, o antecessor de Bo no comando da seção de Chongqing do PCC e seu principal rival na disputa por um assento no Politburo. Todos os “empresários” atingidos tinham feito sua fortuna no governo do rival, cujo chefe de polícia Bo mandou executar em julho de 2010.
Seu grande erro foi voltar-se contra o seu próprio chefe de polícia, Wang Lijun, conhecido como “Robocop” ou “Crazy Wang”, um homem sanguinário que tinha mania com armas pesadas e carros esportivos e que, “nas horas vagas, dedicava-se a fazer autópsias” e gabava-se de “ter inventado um método super eficiente de retirar órgãos de prisioneiros executados para transplantes”.
Não se sabe exatamente por que – “tsu si gou peng” (“quando o cachorro não serve mais para caçar coelhos é ele que vai para a panela“), dizem os chineses – Bo e “Crazy Wang” se desentenderam e o chefe achou por bem queimar aquele arquivo vivo das barbaridades que tinha perpetrado em Chongqing.
Wang porem fugiu a tempo para o consulado americano da cidade vizinha e pediu asilo no mês passado. 24 horas depois saiu do consulado e foi preso por autoridades ligadas ao governo central “para investigação”.
“A China está numa encruzilhada“, dizia ha poucas semanas Jiang Weiping, veterano jornalista chinês exilado em Toronto. “Ou bem ela parte para uma reforma política e se moderniza, ou cai numa nova revolução cultural como quer Bo Xilai. Se ele vencer será um desastre para o país e para o mundo“.
















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