Fechados para o mundo com sentido

7 de dezembro de 2021 § 14 Comentários

“Eu sou se você não for; deixo de ser se você passar a ser”…

O efeito mais deletério dessa fórmula do “raciocínio” binário orientado pelo ódio a que as facções mais barulhentas do Brasil estão reduzidas, para além da insuportável chatice em que ela tudo transforma, é que fecha ainda mais as portas às referências do mundo com sentido a um país cujo maior drama sempre foi a falta de referências civilizatórias.

Tinha só 17 anos a descoberta de Cabral quando Martinho Lutero afixou na porta da igreja, com risco da própria vida, 95 das provas de que a “narrativa” que Roma fazia da bíblia tinha por objetivo transformar a mensagem de Cristo num instrumento de terror a serviço de um sistema de poder e não salvar almas. E quando uma parcela da humanidade anunciou o seu compromisso com a verdade a ser conquistada dando a todo mundo o direito de aprender a ler para ir diretamente à fonte em vez de acreditar em versões, como queria o bom frade alemão, os “Soldados de Cristo” de Ignácio de Loyola renovaram o seu compromisso com a mentira, mas agora armada e jurada a verdade de morte (1534).

Pois foi a estes, e à sua “contra-reforma” pela censura e pela guerra aberta à ciência, que a coroa portuguesa entregou o monopólio da (des)educação de seus súditos d’aquém e d’além mar desde o nascimento da nação brasileira, o que fez do método jesuíta de dissecar e torturar o senso comum e a lógica para servir ao dogma uma segunda natureza de raizes tão profundas que tornou-se “orgânica”, ou seja, não consciente, no brasileiro padrão. 

Esse nosso modo deturpado de estruturar o pensamento não se alterou significativamente com a substituição do dogma “religioso” pelo “materialista dialético” ao longo da transição do Império para a República. Um é filho do outro, aliás, passando pela transição jacobina. É, desde o início, essa forma especialmente subversiva de “cientifização” da ignorância que a torna argumentada e convicta, capaz de por a verdade a serviço da mentira e a lei a serviço do crime (confira neste link como funciona essa arte jesuíta), o fundamento básico da hegemonia da privilegiatura que sempre foi dona do Estado brasileiro.

Ao escorregar do “Não sou conduzido, conduzo” dos seus fundadores para o “Não conduzo, sou conduzido” dos seus herdeiros, a imprensa democrática deixou-se docemente constranger a esse padrão binário dos inimigos que sempre combateu, fato que pôs na sua hora mais escura a resistência civilizatória republicana que se vinha entrincheirando em parte dela desde a penúltima derrota, depois de Tiradentes, que foi o golpe positivista de 15 de novembro de 1889.

E assim chegamos às profundezas em que nos encontramos.

Na farsa brasileira tem gente que vota em Lula porque ele não é Bolsonaro, tem gente que vota em Bolsonaro porque ele não é Lula, tem gente que vota em Sérgio Moro ou em João Dória porque eles não são nenhum dos dois. Mas ninguém vota nem em Lula, nem em Bolsonaro, nem em Moro, nem em Dória pelas reformas que propõem porque nenhum deles propõe reforma alguma. Para cada qual vai o Brasil muito bem, obrigado, no mais perfeito “estado democrático de direito”, e só não desatola se entregar-se a qualquer dos outros candidatos senão ele mesmo.

Para os nossos salvadores da pátria e seus jornais o auge do delírio libertário está em ousar propor as alternativas “com” ou “sem” reeleição, dependendo, é claro, do que pleiteia cada um desses “pensadores” do governo do povo, pelo povo e para o povo, o 1º ou o 2º mandato; “eleições primárias” ou não, desde que a “escolha” fique entre este ou aquele candidato dos caciques; orçamentos “secretos” ou “transparentes” desde que as torneiras permaneçam nas mãos da privilegiatura, vedada a ferro e fogo qualquer participação de quem paga a conta nas decisões do quanto pagar e a quem, primeiro no município, depois no estado e só por ultimo na União. “Democrático” ou “antidemocrático” é coisa que, para essa gente, define-se pelo ator e não pelo ato; “ditadura” ou “estado de direito” por quem é preso e não por quem manda prender, com base em que lei e mediante qual processo; a eficácia da vacinação para controlar pandemias por quem a afirmou primeiro e não pelo esvaziamento das UTIs ou mesmo pela cobertura recorde mundial de vacinados; a assistência à miséria leva ao Prêmio Nobel ou à condenação por “genocídio” dependendo de quem manda abrir o cofre…

Por esse labirinto da estupidez feito de espelhos invertidos e doses cavalares de hipocrisia, entre “Morras!”, “negacionismos” e “Isca, Alexandre!”s, empurram os nossos “candidatos” e os seus jornais o Brasil para apaixonadas discussões sobre o nada, capazes todos e cada um deles de afirmar qualquer absurdo e estabacar qualquer calibre de mentira de estralo bem no meio da tua cara só porque o outro afirmou o contrário.

Mas nem um único – da 1a, da 2a ou da 3a “vias” – tem qualquer “via” alternativa a propor ao Brasil, o que é nada menos que trágico porque, com a democracia inteira por construir, do primeiro ao último degrau do conceito de “representação” – que ainda não galgamos nenhum – este é dos poucos países que ainda têm o século 20 inteiro de problemas com soluções testadas e aprovadas por todo o mundo livre para avançar “no mole”, só revogando a privilegiatura e entregando poder ao povo, antes de ter de se haver com os problemas ainda sem solução do século 21.

Um desperdício da p…!

Desse jeito os “contra” reelegem Bolsonaro

8 de novembro de 2021 § 39 Comentários

Sejamos curtos e grossos. Só tem uma alternativa: democracia existe quando o povo manda no governo e não existe quando o governo manda no povo; estado democrático de direito existe quando a lei é igual pra todo mundo e o privilégio é crime e não existe quando é ela que cria e faz do privilégio “cláusula pétrea”. Todo o resto da vasta literatura e, mais ainda, da torrente de discursos construídos para “beiradear” essas verdades elementares é tapeação.

É esse o problema dos 3os NOMES que não emplacam para nos tirar da sinuca eleitoral de 2022 porque 3a VIA mesmo nunca houve. Só ha duas e nenhum dos 3os nomes quer mudar o poder de mãos, para as do povo como é da democracia sem aspas. Todos só querem ser eles a presidir o estupro legalizado do favelão nacional.

É a mesma gente para a qual reduzir privilégios da privilegiatura que consome 95% ou mais da quase metade do PIB que os governos arrancam do favelão nacional com a mais alta carga de impostos do mundo (36% nominais mais os quase 10% ao ano de déficits/dívidas para fechar a conta) é “altamente impopular”.

Corte de privilégios, nem pensar! Só de investimentos! Direito arranquirido não morre jamais!” E a cada geração, a reforma vale só pra próxima geração…

É a mesma turma pra quem a “antidemocracia” de uns pede prisão enquanto o “amor à liberdade” de outros se expressa censurando e prendendo. Aquela imprensa que clama contra “o lavajatismo” (usar todos os meios, inclusive os ilegais, para combater a corrupção) mas exige o uso de todos os meios, inclusive o mais subversivo, de “legalizar” os ilegais, para soltar corruptos ou calar quem ousa pensar diferente.

O problema sem solução dessa gente é que, tirante a estupidez granítica quanto a vacinas, que é mais semântica que concreta, fato que à “de esquerda” não interessa esclarecer porque é a que lhe garante a sobrevivência, e a diferente disposição de roubar e deixar roubar que é aritmeticamente demonstrável, Bolsonaro e a privilegiatura “de direita” só são pertinentemente criticáveis pelo que têm de igual e não pelo que mais têm de diferente dela.

A “revolução”, depois que a realidade matou o sonho, caiu nessa bizarrice de gênero, raça e “correção do discurso” — pro Brasil nada! — porque tudo que de fato condena o favelão nacional a permanecer favelão nacional, nem a “direita” nem a “esquerda” da privilegiatura podem denunciar sem denunciar-se a si mesmas.

São eles – do barnabé e do soldado raso ao professor das universidades públicas de rico e aos generais, uns um pouco menos os outros muito mais – com seus empregos eternos, suas mordomias obscenas, suas aposentadorias plenas e precoces, suas legiões de criados e assessores rachadores, sua impunidade, seus “auxílios”, suas lagostas e seus vinhos tetracampeões, que custam a metade do PIB que falta agudamente à mesa do resto do país.

E é também pra que tudo isso fique intacto que o tema ambiental vive atolado na desconfiança sobre as ações propostas pela vasta horda dos profissionais da caça às verbas disponíveis para o assunto e não na discussão sobre a necessidade de ação séria e efetiva, sobre a qual ninguém mais que viva sob estes céus cada vez mais inclementes tem dúvida. O ambientalismo profissional carnavalesco, que quer índio no zoológico, virou um rabo da privilegiatura que, como ela, vive de, e se promove com, dinheiro público, e se quer intocável, inauditável e inimputável como ela.

Os bolsonaros do mundo foram eleitos em função da repulsa das maiorias sóbrias contra a hegemonia arrogante e assumidamente desonesta desse discurso. E o pânico da perspectiva da perda do poder empurrando a falta de diferença na substância entre esses dois lados da mesma moeda, levou a essa polarização cretina que está aí. Grita-se A se Bolsonaro estiver gritando Z, mas passa-se imediatamente a gritar Z se ele concordar em mudar para A.

Não tem acerto. E o favelão nacional é o refém desse ódio.

Como de bobo Bolsonaro não tem nada, é ele quem escolhe o discurso. Empurrado de volta para o Centrão e para a “velha política” de tanto apanhar por tentar nega-la, fica com o de reduzir o preço do gás e da gasolina e como tornar perene o auxílio de R$ 400 para as vítimas da pandemia. Automatica e estupidamente como todos os raciocínios binários que cavaram esse buraco por baixo dos pés do Brasil, ao outro lado, que no ano passado empurrou dos R$ 200 propostos por Paulo Guedes para os R$ 500 impostos por Rodrigo Maia que, numa das manobras de cálculo mais sórdidas dos anais da sordidez, levou aos R$ 600 finalmente replicados por Bolsonaro que quebraram o Brasil, resta o discurso de como impedir o governo de fazer isso acrescentado às acusações de “crime contra a humanidade” que tanto comovem quem vive sob o fogo cruzado do crime organizado pra ver se conseguem levar a eleição com a fome do povo.

E como a este “A ou Z ou A” não ha argumento racional que sobreviva, a conversa sobre o interesse em zelar pelas contas públicas, proteger os acionistas da Petrobras, os donos de precatórios e os futuros investimentos estrangeiros no Brasil, junto com o de “salvar vidas” da CPI canalha de Renan Calheiros, Omar Aziz e Randolfe Rodrigues, não é que não enganam a velhinha de Taubaté. Não convencem nem mesmo o PT.

Assim, se não surgir nenhum lúcido por fora falando em aderir finalmente à revolução democrática e em entregar o poder ao povo, única maneira historicamente conhecida de faze-lo servi-lo, periga a “esquerda” da privilegiatura, que já fez isso uma vez, conseguir reeleger a “direita” da privilegiatura, e assim sucessivamente num nunca acabar, até o Brasil acabar.

Falta a boa e velha “terceira idéia”

26 de maio de 2021 § 28 Comentários

Toda hora alguém tira mais um nome da cartola. Mas não conseguem estabelecer-se os representantes tentativos da “terceira via” no baralho eleitoral de 2022 porque a esquerda, agarrada como é, inegociavelmente, ao osso dos privilégios da privilegiatura, bloqueia o caminho para a “terceira ideia” que poderia dar-lhes consistência: a da boa e velha democracia. Vagam todos por aquele mesmo deserto do gênero, da raça e do meio ambiente em que anda perdida a esquerda internacional depois que “o sonho acabou”, e mais, na versão macunaímica, deste patético “cloroquina ou não cloroquina” a que tudo se reduz no país onde já falta até a comida que só ele produz porque a adesão à democracia requer a guerra ao privilégio que é proibido declarar.

Existem mil razões sólidas como rochas para qualquer democrata ser antibolsonarista. Mas a esquerda só recorre às que não param em pé. Democracia, por definição e por registro histórico, é o repúdio do privilégio, a criminalização da desigualdade perante a lei em cuja defesa trabalham unidos os lulas e os bolsonaros e mais quase tudo que, no establishment político brasileiro, transita entre esses dois polos.

O Brasil é essa tragédia de ópera bufa porque o País Real permanece excluído da política que lhe é imposta pela progressiva estatização dos sistemas partidário e eleitoral que resulta em que menos de 30 dos 513 deputados federais “eleitos” receberam votos diretos em seus nomes. Todos os outros entram no Congresso pela janela do voto proporcional que, dado a indivíduos diversos, acaba sendo atribuído a partidos de que o eleitor não sabe sequer o nome que os redistribuem como querem aos diletos amigos do dono da agremiação, ela também criatura do Estado e não do povo.

Vindos obrigatoriamente da privilegiatura, posto que é “ilegal” um candidato engendrado pelos próprios eleitores passar ao largo dos “partidos”, chegam ao poder pelas trilhas viciadas do Sistema e, portanto, só com elas têm um compromisso de vida ou morte. Até os cargos executivos, os únicos que realmente expressavam a vontade declarada de cada eleitor à urna, estão hoje sob suspeição em função do insuspeitíssimo decreto dos 11 monocratas que declarou bolivarianamente “inconstitucional” o trecho da mini-reforma eleitoral de 2015 feita pelos representantes eleitos do povo brasileiro que aprovou a emissão de uma contraprova em papel do voto eletrônico depositado.

A “democracia brasileira” é, portanto, ela inteira, uma clamorosa fraude, e acoplar a ela a expressão “representativa” torna essa fraude um escárnio. É isso que nos faz miseráveis ao ponto de não termos condições de disputar vacinas na velocidade que faz por merecer quem trabalha triplicado para construir este país apesar desses parasitas.

O repúdio a esse estado de coisas, dos palácios da privilegiatura para fora, é tal, no Brasil inteiro, que ha risco de linchamento se qualquer dos produtos do Sistema ousar sair à rua sozinho. Por oposição depreende-se que quem se apresentar ao eleitorado defendendo a idéia de dar ao povo o direito de eleger quem ele quiser e deseleger quem o trair, junto com o de recusar as leis escritas com o único propósito de desviar dinheiro ganho com suor para comprar privilégios mediante recursos como o recall, o referendo e a iniciativa do povo de fazer leis com força impositiva aos “seus representantes”, em vez do contrário – vulgo democracia – será carregado em triunfo até o trono presidencial. E se mostrar ser sincero esse amor, protagonizará o milagre de fazer o Brasil percorrer voando os dois séculos e meio em que permaneceu excluido da modernidade e atolado no sistema feudal que ainda está aí.   

Mas nem essa evidência destrava esses “candidatos” de proveta. Em vez disso, o antibolsonarismo, que é irmão gêmeo do próprio, só com sinal trocado, continua procurando – na televisão, nas redes sociais, nos circos e até dentro das cadeias onde Fernando Henrique Cardoso finalmente encontrou “o seu” – um indivíduo, uma pessoa e não uma idéia nova. O bolsonaro deles, enfim, que lhes garanta, só pelos seus belos olhos, a volta ao Poder que é, única e exclusivamente, o que lhes interessa, e não curar o Brasil da doença do privilégio institucionalizado que é terminal. Como não acha, apela para todo tipo de truque sujo, como os fabricados em série por esse STF ostensivamente aliado ao crime que está nos condenando a todos ao risco iminente de sermos transformados em mais um estado-bandido como tantos que já emporcalham o mundo por aí.

É o terror dessa perspectiva que elegeu Bolsonaro pela primeira vez. É o terror redobrado dessa perspectiva, depois de espetáculos espantosos como o dessa CPI e, antes dela, o da “saída do armário” do STF, que vai por o país pela segunda vez diante dessa escolha de Sofia.

Apesar da superexposição que lhe dá a imprensa da privilegiatura, essa direita que sonha com “regime militar” é um punhado de velhinhos que delira com um animal que já estava em extinção 57 anos atras, em 1964: os militares que foram morrer pela democracia na Itália sem te-la em casa, e que não duraram o suficiente nem para devolver o poder aos civis em 1965 como prometiam. Desde aquela época o país convive com os militares reais. Na essência do que os diferencia de nós nesses tempos de paz que não são suspensos desde a Guerra do Paraguai, são iguais ao resto dos funcionários públicos: sobem na vida, do ingresso na corporação até o túmulo ao fim de longa e tranquila aposentadoria (e em alguns casos até depois da morte) por decurso de prazo. Ainda que tendo de mostrar um pouco mais de serviço que o funcionalismo civil para ganhar o próximo galão no ombro, estão à salvo dessas tempestades cada vez mais frequentes que dizimam vidas inteiras de dedicação ao trabalho às quais estamos tanto mais sujeitos, nós plebeus, quanto mais leis garantindo a própria “excelência” os presidentes-sindicalistas dessa e das outras corporações do funcionalismo aprovarem para si mesmos.

Por isso a primeira providência do PT, se voltar ao poder, será STFizar esse funcionalismo armado para não sair nunca mais dele pois, se há algo que os diferencia da direita é que não cometem o mesmo erro duas vezes.

O resumo, senhoras e senhores, é que não ha saída fora da democracia, aquele regime em que o povo manda no governo e nos funcionários públicos, que só se estabelece se e quando ele se mune de armamento institucional concreto para dar-lhe poder para tanto. Se não surgir ninguém disposto a empunhar essa bandeira, o melhor é emigrar.

Porque nenhuma candidatura empolga

18 de março de 2021 § 21 Comentários

De vez em quando um jornalista em posto de comando lembra-se do que é e manda fazer uma reportagem. E então uma pontinha do iceberg aparece… 

Ultimamente tais acessos andam restritos à Folha de São Paulo. No ano da pandemia, revelou esse jornal na 2a e 3a feiras passadas, com a norma proibindo aumentos de salários públicos em pleno vigor e o resto do país inteiro afundando na miséria, R$ 543 milhões foram distribuídos entre juízes e procuradores federais a título de “licença prêmio por tempo de serviço”, “parcela autônoma de equivalência”, “gratificação por acúmulo de ofício”, “pagamento retroativo” e outras empulhações semânticas especialmente criadas para que tais assaltos ao Tesouro Nacional não contem na soma para o teto de R$ 39.200 de salário que ninguém no Poder Judiciário respeita. 

É o mesmo tipo de conversa ofensiva à inteligência de que se utilizam esses “operadores de justiça” para anular, a pretexto de uma vírgula mal colocada, toda a vasta carreira de roubalheira e conspiração totalitária com que o lulismo jogou o Brasil no buraco de que nunca mais conseguiu sair. 

Acima de R$ 200 mil, todos. De R$ 300 mil, um monte. E pelo menos quatro desembargadores e procuradores receberam “acréscimos” de entre R$ 400 e 482,6 mil em dezembro (3.217 socorros de emergência à miséria de R$ 150), o que dá, dividido por 12, R$ 40.216, mais que o teto inteiro de salário do funcionalismo, adicionados ao salário que de fato consta do hollerith de cada mês e paga impostos, aquele que vem por cima dos “auxílios” alimentação, saude, paletó, abono de permanência e o mais da tapeação barata com que se maquia de forma caricata o assalto permanente ao erário perpetrado PELA LEI e COM A LEI por esses “servidores públicos”. 

É porque esta é a regra – e não a exceção – no trato do que este país arrecada com a mais insana e pesada carga de impostos do mundo que praticamente 100% do orçamento público e em torno de 50% do Produto Interno Bruto são hoje apropriados pela curriola dos donos do Estado ativos, inativos e sua descendência pensionada, não mais que 5% da população, ficando os 95% restantes espremidos entre o que sobra de seu do resultado do seu próprio trabalho e o desafio hercúleo de fazer render esses caraminguás num ambiente de negócios onde, sob a toada vertiginosa da competição das chinas e dos estados unidos da vida, despencam a toda hora “decisões monocráticas” medievais decorrentes da condição hormonal do dia das prima-donas desses rapinadores da riqueza da Nação que viram de ponta cabeça todas as regras do jogo. 

Este resumo basta para definir o tema dessa rapinagem como o das manchetes de todos os dias de qualquer imprensa digna desse nome em qualquer momento de abundância da história de um país. Inversamente, sua ausência ululante e a raridade com que frequenta as páginas dos jornais, as telas das televisões e as ondas do rádio neste fundo do poço da história da miséria nacional é a única explicação possível para a sobrevivência desse sistema jurássico de iniquidade institucionalizada num país das dimensões do Brasil em pleno 3º Milênio.

Um dos enganos mais comuns em que incorrem os não iniciados é pensar que o debate político é que pauta a imprensa. Ledo engano! É a imprensa que pauta o debate político (e essa é a grande explicação para “a cachaça” que é essa profissão). É bem fácil de entender. Ninguém ganha eleição falando sozinho. Num sistema que depende de voto é aquilo que a imprensa sinaliza que terá exposição e dará manchete que vira tema de campanha. Para o resto, silêncio. E que ninguém se iluda com a internet. Por enquanto e por muito tempo ainda ela é apenas a caixa de ressonância do que a imprensa põe no ar.

Diversos fatores concorrem para a crise do jornalismo, mas ela se expressa numa forma de distorção que se generalizou. Ricardo Kotscho tocou nela em rápido perfil publicado pela Folha de S. Paulo ontem. (Bem no meio da penúria decretada pela crise do seu modelo de negócio) “os jornais descobriram que podem fazer matéria sobre tudo no mundo inteiro sem sair de casa”. Fenômeno que, acrescento eu, está produzindo uma “realidade” de narrativas cada vez mais auto-referentes emendadas umas nas outras e não de fatos testemunhados em primeira mão. E, no entanto, volto ao Kotscho, “jornalismo é reportagem, e lugar de repórter é na rua”.

Jornalismo, acrescento mais, não é só escolher beiço para esticar microfone e depois “analisar”, isto é, mostrar que o que o ouvinte ouviu não é bem aquilo que foi dito, ainda que se dê o dito por não dito, ou vice-versa, aos pares, uma no cravo e outra na ferradura. Jornalismo é reportagem. E reportagem é exposição da realidade. Nem análise, nem opinião, nem muito menos narrativa…

O Brasil Real é este em que os 5% que detêm o monopólio da arma da lei exploram de maneira vil os 95% de cidadãos desarmados dos poderes de cassar-lhes os mandatos assim que traídos e fazer as suas próprias. O cidadão brasileiro está condenado por força de lei cada vez mais draconianamente imposta a uma vida de corno manso. E contra isso não ha moral que resista. Mas o chocante resultado desse sistema de exploração – a vida de paz e certezas dos exploradores que CUSTA a guerra quente e o inferno de incertezas em que vive quem paga a conta – não sai no jornal.

Com R$ 600 por mês para metade da população este país viveu uma explosão de consumo e andou para a frente. Para onde está indo o dinheiro do Brasil? Quem está tomando o dinheiro do consumo que paga o trabalho? Quanto nós pagamos de impostos comparados com o mundo? Qual a vida que vive a privilegiatura? Como é essa vida pau-a-pau com a do brasileiro médio? Quem são “os ricos” da estatística do Brasil? Como o mundo paga os seus funcionários e controla os seus políticos? 

Não é das bocas que os microfones servem hoje – nem das “contra”, nem das “a favor” de cada “lado” da privilegiatura – que vai sair esse retrato da realidade que, uma vez apresentado, põe fogo nesse circo…

Se Jair Bolsonaro não presenteasse a esquerda com a imensa estupidez do seu tratamento da pandemia (e da questão ambiental), o que mais iria diferencia-lo dos outros? Sexo, drogas e rock & roll. Gênero, raça, perfumarias. Nada que arme o cidadão contra o Estado. Nada que transfira um tostão ou um direito que seja da privilegiatura para o favelão nacional. A esquerda e a direita dos donos do Estado pensam exclusivamente no emprego eterno sem muito trabalho; em mais salário, menos esforço e mais aposentadoria para si e para os seus; em ir “rachando” e cavando “auxílios” por dentro e por fora da lei sem medo da polícia para os luxos; em sonhar com uma estatal para chamar de sua no fim do túnel do mesmo jeito que os cúmplices dos crimes dos reis sonhavam com condados e baronatos. E, nos extremos, com o jeito de “automatizar”, um dia, também a própria reeleição.

E nessa toada, ganhe quem ganhar, “o concurso público” continua sendo a única saída … para dentro.

O que esta eleição vai decidir

2 de outubro de 2018 § 26 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 2/10/2018

Na campanha do Bolsonaro todo mundo diz a besteira que quer na hora que quer: que eleição sem ele é golpe, que o bandido é que era o herói e por aí afora. Na do PT não. Todo mundo só fala o que o chefe manda na hora que o chefe manda. Ele, sim, pode dizer a besteira que quiser na hora que quiser: que eleição sem ele é golpe, que os bandidos é que eram os heróis, que roubar para reelege-lo não é crime e por aí afora.

Mas tem outra diferença que é fundamental. O Bolsonaro só dura quatro anos e o PT, como explicou quinta-feira ao El País o comandante José Dirceu, “vai tomar o poder, é só questão de tempo, o que é muito diferente de ganhar uma eleição”.

Quando ainda havia imposto sindical qualquer sujeito, mesmo sem seguidor nenhum, podia abrir um “sindicato”. Bastava ir à “junta” e registrar sua “marca” e passava a ter o direito de extorquir trabalhadores que nunca tinha visto ou consultado antes. Daí em diante o único trabalho que precisava se dar na vida era não perder mais a “eleição” de confirmação dele próprio como dono do sindicato em assembleias sem voto secreto. Tinha de ter muito peito pra não votar no “candidato” com ele olhando pra sua cara porque valia tudo, porrada, ameaça à família, tiro e, pior que tudo, ser condenado à miséria com todas as portas do trabalho fechadas pro rebelde.

Velhos hábitos demoram pra morrer. Para o PT é assim que se “faz política”. No início dos anos 90 o partido prometia “banir a corrupção” e conquistou suas primeiras prefeituras. E logo meteu-se no primeiro escândalo, denunciado por um de seus fundadores, Paulo de Tarso Venceslau. Com um esquema controlado por Roberto Teixeira, compadre de Lula que viria a ser sogro do advogado Cristiano Zanin Martins que o defende hoje mais de 30 anos depois, o PT estava roubando as prefeituras. Nunca mais parou. O esquema evoluiu para um método de “tomada do poder” pela destruição da instância eleita pelo povo para controlar o governo, o Congresso Nacional, que ficou conhecido como “mensalão”.

Foi por aí, também, que se deu a “afinidade eletiva” entre o PT e a tribo da nossa “intelectualidade” cuja cultura política parou na eurásia dos anos 30 do século 20, onde o poder também era “tomado” pra nunca mais ser devolvido. Foram eles que deram tinturas ideológicas “cultas” para essa fome animal do Lula pelo poder e lhe apontaram o caminho do Gramsci. Por baixo de toda a graxa retórica de que vem lambuzado, o esquema gramsciano não passa de um projeto monumental de censura. Trata-se de fechar de tal modo as coisas numa visão unica na base do terrorismo moral que uma geração inteira de alvos preferenciais da operação – professores, artistas e intelectuais a serem tornados “orgânicos” – atravesse toda a existência sem tomar conhecimento de nada que contradiga essa visão, e ir fuzilando midiática ou economicamente todo mundo que resistir.

O PT fez do Brasil uma Coréia do Norte intelectual. Ninguém em todos os tempos e em todos os lugares conseguiu fechar tão bem o cerco. Só quem diz o que o chefe aprova consegue manter-se nas tribunas midiáticas mais altas ou “brilha” mesmo sem ser brilhante. Com o país prisioneiro da língua e das redes que só falam português, só o que ele quer mostrar do mundo passa a existir. Nas vésperas de eleições o barulho e a produção de factóides tomam um ritmo que torna impossível o raciocínio. E o jogo de luz e sombra passa a ter uma precisão milimétrica. Nada do que parece é e nada do que é aparece.

No resto da economia ninguém mais consegue vencer só com esforço. Só vai pra frente quem o dono do poder escolher para “dar” alguma coisa ou poupar da aplicação da lei que passa a ser escrita para ter efeito necrosante instantâneo. Do bolsa família ao bolsa mega empresário, do prêmio artístico ao financiamento das obras que vão concorrer a ele, a ordem é “para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei”.

A classe média meritocrática, o cara que se faz sozinho suando a camisa, passa a ser “detestável”, o inimigo a ser destruído de preferência fisicamente, como diz Marilena Chauí, intelectual “orgânica” do partido. O “concursismo” passa a ser o único meio de “vencer na vida”. Nos 14 anos de PT no poder, o numero de funcionários dobrou e o gasto com eles triplicou. Mas quase todos os estados, assim como a União, têm mais deles aposentados com o maior salário das suas curtas carreiras que trabalhando. O salário deles aumenta todo ano acima da inflação, chova ou faça sol, não em função da entrega de resultado mas da capacidade de cada corporação de chantagear o país e o próprio governo. A partir de um limite, o estado passa a existir só para essa casta que hoje consome quase 100% dos 40% do PIB que o governo arrecada, e o resto do país se desmancha.

Discutir “golpe” a partir de Bolsonaro ou Lula é discutir potência ou ato, desejo ou realização. Começa que golpe ha muito tempo não se dá mais com militar e tanque. É com aparelhamento do Judiciário e decreto de juiz que se faz, como Lula não se cansa de ensinar no Foro de São Paulo. A cinco anos da sentença do mensalão, com o petrolão ainda bombando, os bandidos estão soltos, os processos da Lava Jato esterilizados e o chefe desacata sentenças de tribunais superiores e até do Supremo de dentro da cadeia e não acontece nada. Do jeito que vai morre tudo na praia e Sérgio Moro é quem acaba na cadeia, conforme a vingança prometida.

Jair Bolsonaro era a desculpa que faltava para a esquerda honesta, que desempata essa parada, ser tentada a sentar no colo da bandidagem ao lado de todos os coronéis ladrões de todos os tempos e de todos os governos. O Brasil vai precisar de todos os brasileiros decentes para se curar do lulismo. Eleger o presidente laranja é o fim final do império da lei e dos poderes dos outros poderes. Por isso, quando for votar amanhã, não pense nas bravatas da sua juventude. Pense na juventude dos seus filhos e dos seus netos porque o Brasil já está do lado de lá e o que esta eleição vai decidir é só se ainda tem volta.

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