Despartidarizar as eleições municipais
30 de março de 2012 § 1 Comment
De toda a pletora dos remédios que os americanos inventaram para reduzir a corrupção a níveis que fizeram deles a sociedade mais rica que a humanidade já produziu enumerados na matéria que precedeu esta, a despartidarização das eleições municipais é aquela em que os brasileiros deveriam focar os seus esforços.
E isto pelo simples fato de que ela sozinha seria a que produziria os maiores danos no “Sistema” montado pelos nossos políticos para que nada mude neste país.
Tornar as eleições municipais independentes dos partidos políticos é tirar das mãos dessa máfia o instrumento de controle absoluto que ela tem hoje sobre a porteira onde se filtra quem pode ou não entrar no mundo da política brasileira.
A continuação do sistema criminoso que enfrentamos hoje depende essencialmente desse filtro e está montado para controlá-lo absolutamente.
O loteamento dos canais de rádio e televisão brasileiros entre as velhas oligarquias regionais que desde sempre estiveram no poder neste país foi o instrumento através do qual a dupla Jose Sarney, então Presidente por acaso do Brasil, e Antônio Carlos Magalhães, que ele escolheu como seu Ministro das Comunicações, mataram antes que nascesse a “Nova Republica” que deveria ter inaugurado uma nova era na política brasileira depois do fim do regime militar.
Desde então são os mesmos “coronéis eletrônicos” e sua descendência que controlam dos bastidores a política nacional.
Com esse instrumento nas mãos eles foram conquistando praças e pondo a força da publicidade governamental para matar a imprensa independente local até ficarem falando sozinhos em seus terreiros particulares.
Desde então esse Sistema elege ou deselege quem eles querem nas regiões dominadas por suas rádios e televisões ou é “alugado” contra pedaços das praças que eles ajudarem a conquistar, até mesmo para os candidatos “bons de voto” em eleições majoritárias que entram na carreira política com a ilusão de que seu carisma pessoal poderá levá-los ao poder contornando os currais eleitorais regionais.
Ninguém pode, como já comprovamos à exaustão.
Mais além, esse sistema de servidão foi “socializado” pelo expediente do “horário eleitoral gratuito” que estendeu um pedaço desse poder a cada partido que conseguir comprar seu trânsito para dentro do Sistema.
Abrir as eleições municipais a todo e qualquer candidato que quiser se oferecer aos eleitores sem ter de pedir licença aos “coronéis eletrônicos” e/ou aos alugadores de tempo na TV nas campanhas eleitorais varre de uma só vez para a lata de lixo da história essas duas pragas.
Não se poderá eliminá-las “por dentro”. A única maneira de acabar com elas é pela “supressão do seu habitat”, que é, em ultima instância, o controle e o aluguel das instâncias políticas municipais e regionais contra o direito de saque da parcela do todo que ajudarem a conquistar.
“Também essa mudança só poderá ser feita com a aprovação dos próprios prejudicados por ela, o que torna esse projeto inviável“, dirão os mais pessimistas.
Não é verdade.
Essa mudança pode ser conseguida pelos instrumentos de legislação de iniciativa popular, mesmo fracos como eles ainda são no Brasil. E além disso, já está na hora do Brasil aprender que nada em política é impossível desde que haja uma firme decisão do povo de querer que a mudança aconteça.
Mais difícil seria resolver o problema da concentração da arrecadação de impostos nas mãos da União e dos Estados que deixaria os governantes municipais dependentes deles, de qualquer maneira.
Mas com seis mil e tantos representantes eleitos fora da ordem partidária, independentes dos chefões, seria muito difícil que estes, com suas hostes reduzidas às instâncias federal e estaduais, tivessem força para resistir-lhes.
A despartidarização das eleições municipais traria sangue novo para a política brasileira e deixaria os grandes predadores de hoje condenados a morrer à míngua.
Pense nisso. E faça seus amigos pensarem nisso.
Quem tem medo do Congresso Nacional?
15 de março de 2012 § 2 Comments
(A foto foi alterada para salvaguardar a honra da profissional)
Ver a trinca Sarney, Jucá e Renan levar uma rasteira nunca é razão pra chorar.
Mas a Dilma não bateu neles pelo que eles representam. Bateu só porque foi contrariada e desse jeito ela não brinca mais.
Eles todos se merecem.
Barraram a condução do meu amiguinho para a Agencia Nacional de Transportes? Não me deram a votação da lei que pune empresas que pagam menos às mulheres no Dia Internacional das Mulheres? Estragaram a minha festa?
Deixa estar, jacaré!
Bye bye, Jucá! E tome Eduardo Braga, seu Sarney!
E aproveita e prega o pé no dr. Vacarezza também que andou me contrariando na votação do Código Florestal. Aí ó!
Bem feito! Tá pensando!
Dona Dilma definitivamente não acordou de bom humor, seu Lula!.
A arraia miúda põe a boca no trombone. Passa recibo. Frisa a natureza comercial da transação. O PR “sai da coalizão”, oficialmente porque perdeu a teta.
“Vocês resolvem a vida de todo mundo e não resolvem a nossa? PT saudações“.
O Blairo tá à venda, sim. Mas é preciso pagar, qualé!
Já os profissionais só chacoalham os guizos.
O Sarney tá mesmo na porta da saída. Os outros dois têm sete anos de mandato no Senado, mais que o dobro dos três que restam à dona Dilma.
Não vai faltar oportunidade…
E, de repente, vai que tudo isso ainda não acaba virando oportunidade para mais lucros.
Pois já não estão todos de braços dados – PMDB, DEM, PSDB e PP – assinando a moção do PT ao TSE para melar o impedimento das candidaturas de quem tem dividas de campanha penduradas?
Amigos, amigos, negócios à parte. Afinal, o dinheiro compra ate o amor verdadeiro.
O corrupto essencial e o maria-vai-com-as-outras
12 de março de 2012 § 1 Comment
Tanto quanto no que diz respeito a outros atributos humanos, também no que se refere à corrupção existem os autênticos, os inovadores, os grandes criadores e os que são apenas seguidores, esforçados maria-vai-com-as-outras.
A distinção faz toda a diferença. Vai de estar submetida a uns ou aos outros uma sociedade ser vítima de predação sistêmica, podendo ser levada ao esgotamento, ou apenas de atos isolados de rapinagem que ela pode se organizar para coibir e controlar.
Primeiro porque os grandes criadores são muito menos numerosos que os “maria”. Segundo porque, se os primeiros não conseguem se estabelecer como padrão para o resto da sociedade, a corrupção dos outros permanece em estado de latência e eles podem até ser compelidos a comportar-se de modo virtuoso se for esse o caminho obrigatório para o sucesso.
O maria-vai-com-as-outras, em resumo, vai com quaisquer “outras”. Deixa-se pautar pela circunstância enquanto o corrupto “de raiz” em momento algum consegue deixar de ser o que é.
Daí a pertinência da síntese de autoria de Theodore Roosevelt tantas vezes citada aqui:
“O problema não é haver corrupção. Corrupção é inerente à espécie humana. O problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo“.
Veja-se, por exemplo, a reportagem que O Estado de S. Paulo traz hoje sobre o loteamento das tetazinhas de R$ 6 mil por mês nos conselhos das empresas do Município de São Paulo entre representantes de sete partidos que o prefeito Kassab acredita que possam vir a contribuir para o sucesso das suas ambições políticas.
Gilberto Kassab não tem nem a personalidade que se requer de um grande criador no campo da corrupção, nem a fibra que caracteriza o tipo que persiste em remar contra a maré para tentar reformar as regras do Sistema. É o exemplo perfeito e acabado da variação “maria”.
Como a esmagadora maioria dos que nos roubam e achacam a cada passo nos municípios e nos estados desde que o PT escancarou as portas do Inferno, ele faz parte daquela legião que não interessa especialmente, nem a deus, nem ao diabo.
Mas como o padrão instalado no Brasil é o que se traduz naqueles 36 ministérios/antros de Brasília, cada um de propriedade particular e intransferível de uma das máfias que, graças ao flagrante do Mensalão, tornaram-se parasitas crônicos da roubalheira lulo-petista, Gilberto Kassab apenas dança conforme a música. A mesma coisa acontece com os barões do BNDES, esses “grandes empreendedores” obcecados pelo “sucesso”, hoje reduzidos a dar testemunho público de vassalagem uma vez por mês sentando-se ritualmente à volta da mesa do “Conselho de Gestão” de um governo que tem como marca registrada a mais sólida e irredutível incapacidade de gestão.
Tudo isso é apenas natural.
Volto a bater em outra nota que sempre toco aqui no Vespeiro: a corrupção é muito menos uma questão moral que uma consequência de se viver sob instituições defeituosas.
A questão é puramente darwiniana. O vencedor será sempre o mais capacitado. E a crise ambiental que se vai tornando aguda está aí para comprovar que o homem é o mais oportunista dos organismos oportunistas que infestam o Planeta Terra.
Se o sistema baliza-se pela corrupção, os mais corruptos estarão no topo e, daí para baixo, haverá uma seleção dos maria-vai-com-as-outras segundo a sua disposição de se corromper. Quanto menos escrúpulos, mais para cima se colocará o “maria” nessa cadeia alimentar artificial que são os sistemas de poder, seja o poder que se compra com cargos, seja o que se compra com dinheiro.
Resistirão à pressão do meio apenas e tão somente os honestos “de raiz”, relegados a uma semi-clandestinidade.
Já se o sistema balizar-se pela capacitação técnica e profissional e pelo merecimento, a escola passará a ser um estágio obrigatório para o sucesso e os corruptos essenciais é que serão forçados a cair na clandestinidade, ficando polícia e bandidos em campos opostos, como convém.
É como com os cupins: se não matar a rainha-mãe, não adianta chorar. Eles continuarão roendo a árvore até depois que ela já estiver morta.
Horário eleitoral é o “x” do problema
6 de janeiro de 2012 § 4 Comments
Na coluna de hoje para o Estadão, O Silêncio dos Coniventes (aqui), Dora Kramer, registra que nenhum governador, da situação ou da oposição, reclamou do ministro Fernando Bezerra, da Integração Nacional, por ter destinado 90% da verba de prevenção de enchentes para Pernambuco, Estado cujo governo ele se prepara para disputar, “ainda que fosse apenas para denotar interesse na defesa dos direitos dos seus governados“.
“O tucanato em geral e o senador Aécio Neves em particular pegou leve, com críticas protocolares” ao ministro Fernando Pimentel e suas consultorias milionárias porque “ele foi e ainda é um potencial aliado do PSDB em Minas Gerais“, comportamento que se repete agora em relação ao ministro Bezerra porque ele “é a aposta eleitoral do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, sonho de consumo do PSDB“.
“Posto assim o cenário“, conclui, “o PSDB não tem moral para dizer que o PT atua com foco exclusivo na disputa eleitoral (…) Aposta na articulação de bastidor em detrimento da relação com a sociedade“.
Ela tem razão.
Mas isso é o de menos. O que há de realmente importante nessa situação é que, dada a atual regra do jogo, não podia ser diferente.
A questão que interessa é:
Por que o PSDB e todos os partidos que o precederam, inclusive o PT que com toda a sua militância e profissionalismo só conseguiu chegar ao poder depois que entendeu isso, “apostam na articulação de bastidor em detrimento da relação com a sociedade“?
Porque, sobretudo neste país de 85% de analfabetos funcionais (mas não somente nele), o que decide a eleição é a televisão.
Os primeiros a entender isso com toda a clareza que só os cínicos costumam ter foram – ora vejam! – o eterno senador e ex-presidente José Sarney e o seu Ministro das Comunicações da época, Antônio Carlos Magalhães.
Ao lotear nacionalmente as redes de televisão, no alvorecer da Nova Republica, entre os velhos coronéis que, de Getúlio Vargas até o general João Figueiredo, nunca tinham deixado de mandar no Brasil, os dois antigos esbirros do regime militar guindados ao poder pela má sorte que levou deste mundo às vésperas da posse o presidente que o país preferiria ter tido garantiram que assim continuasse sendo até hoje, realidade à qual, diga-se de passagem, amoldaram-se docilmente todos os democratas de fachada que hoje os abraçam e homiziam e que, na época, só tinham contra a ditadura o fato de não serem eles a encarná-la.
Isto selou o destino político do Brasil.
De que tratam essas “articulações de bastidor” senão de decidir qual grupo terá mais tempo no horário gratuito das televisões, essa operação de lavagem cerebral que, sai ministro entra ministro faxinado, martela incessantemente em cada um dos intervalos do Jornal Nacional – e antes e depois dele durante toda a parcela de cada dia e de cada noite em que a massa dos eleitores brasileiros está de olhos e ouvidos abertos – que o ladrão do dia, exposto em seus “malfeitos” em uma única matéria de dois ou três minutos a cada edição, é na verdade um santo?
Que a organização profissional para a qual ele rouba é, na verdade, uma agremiação de heróis altruístas que, “historicamente”, têm lutado pelos interesses dos desvalidos contra as forças ocultas que querem explorá-los e privá-los dos seus direitos especiais, adquiridos com a ajuda de tais santos?
Quanto tempo levará até que a massa que não lê e mal ouve comece a enxergar a relação de causa e efeito entre a matéria do hospital pocilga e a matéria do ladrão do dia se os manuais de jornalismo afirmam que “objetividade” é deixar exclusivamente para a fonte (oficial, ou seja, o próprio ladrão) o direito de afirmá-lo, enquanto os manuais de política ensinam os candidatos a pouco se importarem com a realidade que tem dois minutos de matéria por dia já que a versão do seu partido para ela terá mais de 30?
A doença política brasileira não acaba antes que seja extinto o foco da infecção que é a férrea censura que os políticos exercem sobre os meios eletrônicos de comunicação, eufemisticamente chamada de “horário eleitoral gratuito“.
Devia estar na Constituição (já que ela aceita tudo, que venha uma a favor da Nação!) a regra estipulando que nenhum político ou candidato tem direito de se dirigir ao público sem contraditório.
E no entanto, como já registrei tantas vezes aqui, nem mesmo as entidades de defesa da liberdade de imprensa brasileiras mencionam essa forma de censura.
Por trás dessa cortina de silêncio está outro fato simples. Poucos órgãos da imprensa escrita, a única que desfruta de liberdade completa no país, pertencem a grupos que não têm na televisão a sua principal base de sustentação econômica. Cada jornalista, por sua vez, sabe que, mais dia menos dia, terá de bater à porta de um deles para pedir emprego.
Acontece que os donos das televisões são os coronéis eletrônicos criados pela dupla Sarney/ACM que, não por acaso, estão hoje refestelados no Senado da Republica e no Congresso Nacional – com ficha já suja ou ainda limpa, pouco importa – ditando as regras para as eleições e para o uso e a propriedade dos rádios e televisões.
É assim que o círculo se fecha.
Enquanto a regra for essa, quem quiser até pode tentar estabelecer “uma relação com a sociedade” à margem do rolo compressor do horário eleitoral gratuito. Mas estará cantando a canção do infinito numa capoeira. Não chegará jamais a disputar seriamente o poder, jogo que ganha-se ou perde-se antes das eleições comprando e vendendo tempo na TV a troco de pedaços do país e nacos do futuro dos seus cidadãos.
O resto é água mole em pedra dura. Ou o cara sai da política, ou vende a alma ao diabo porque a regra estabelecida é que só se chega ao fim desse jogo transformando-se num agente dele.
É por isso que, para o jornalismo sério, que só faz sentido como instrumento de reformas, este deve ser o alvo. O resto é barulho inconsequente.



















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