Até tu, China!?

3 de outubro de 2011 § Deixe um comentário

A gente vê o mundo se desmanchando aí fora e se agarra àquela esperança: o Brasil tem vivido mesmo é da fome de commodities da China, logo, enquanto a China estiver indo bem, nós não caímos.

Mas até quando a China irá bem?

Sexta-feira os jornais econômicos já estavam manchetando a maior queda no preço das commodities desde a crise de 2008. Mas não é, ainda, a marcha a ré. A China está só desacelerando um pouco a velocidade do seu crescimento.

E assim vamos nos agarrando, de esperança em esperança…

Um relatório detalhado de um fundo especializado em investimentos na China a que o Vespeiro teve acesso, entretanto, joga uma ducha de água fria nesse caldo que já ia ficando morno.

Eis, resumidamente, o que ele diz:

  • a situação na China vem se deteriorando muito rapidamente nos últimos meses;
  • o governo cometeu um grande erro no tratamento que deu à crise financeira mundial ao manter uma política monetária muito frouxa, o que está produzindo indicadores perigosos;
  • isso eleva o risco de um hard landing da economia chinesa para algo entre 20 e 30%.

São os seguintes os indicadores perigosos.

No setor de produção:

  • o custo do trabalho tem subido entre 20 e 30% ao ano;
  • os salários nas regiões urbanas subiram entre 6 e 16% do ano passado para este;
  • o preço da energia também está subindo;
  • o mesmo acontece em relação às despesas com juros;
  • o mercado de exportações caiu muito.

No setor financeiro:

  • com os empréstimos bancários tendo atingido a marca de 48 trilhões de remnibi, os empréstimos não bancários aumentaram 10 trilhões de remnibi de 2010 para 2011, o que representa quase 20% dos empréstimos do sistema oficial;
  • os empréstimos do setor extra oficial custam entre 2 e 3% ao mês o que dá uma taxa anualizada de entre 24 e 36%;
  • esse mercado está cheio de “esquemas Ponzi” (pirâmides de empréstimos sem lastro real) o que o torna super vulnerável;
  • existe ainda um terceiro “mercado negro” que está crescendo rapidamente onde as garantias são, em geral, propriedades imobiliárias, o que nos conduz ao próximo fator de risco;

No setor imobiliário:

  • o governo tem feito um grande esforço para deter o aumento do preço dos imóveis mas o mercado tem resistido às medidas e agora a situação parece ter atingido um limite;
  • um dos sinais disso são as vendas deste mês de setembro, tradicionalmente o mês mais quente para vendas de imóveis na China: somente em Shangai, as vendas caíram 50% em relação ao ano passado;
  • o mercado imobiliário tem sido pautado pela especulação mais que pela venda para proprietários únicos e os sinais são de que o excesso de oferta seja uma resposta à necessidade dos investidores de conseguir liquidez.

Gastos dos governos provinciais:

  • o governo cometeu um erro grave ao permitir que os governos regionais gastassem livremente;
  • como haverá uma troca de governo no ano que vem, os sinais são de que essa gastança não será contida e se transformará num problema grave a partir de 2013;
  • o resultado será um forte crescimento nos calotes do setor publico o que levará a um forte aperto do crédito;

Fuga de investidores estrangeiros:

  • o investimento estrangeiro inundou os mercados chineses com a expectativa de apreciação da moeda local;
  • em algum momento a China terá de acelerar a desvalorização da moeda, o que desencadeará o movimento inverso.

Do jeito que a coisa vai eu recomendaria a todos que rezassem a deus se não houvessem tantos sinais no ar de que ele anda puto com a gente e isso tudo é ele mesmo quem está nos mandando…

Entre o ladrão e os ladrões

23 de maio de 2011 § 2 Comentários

Dominique Strauss-Khan (DSK), aquele homem que era o chefe da junta médica financeira do mundo, quase um deus, e que hoje é suspeito de ser um “dirty old man” com dificuldade de segurar as calças, foi recusado pelos vizinhos como locatário de um apartamento onde ficaria preso esperando julgamento em Nova York.

Ele conseguiu esperar esse julgamento fora da jaula depois de pagar US$ 1 milhão de fiança e depositar mais US$ 5 milhões em garantias de que não vai tentar fugir e, com isso, produzir gastos para a policia americana correr atrás dele. Vai ficar com uma tornozeleira com GPS e tem de pedir licença até pra ir ao banheiro.

E os vizinhos do apartamento de US$ 6,6 milhões de reais, quase tanto quanto tudo que o DSK teve de pagar pra não ser enjaulado, o que acham de ter o Antônio Palocci subindo e descendo pelo mesmo elevador que eles?

Se tivesse algum pauteiro com alguma imaginação na imprensa brasileira nos já saberíamos.

Mas não tem.

Eu cá comigo arrisco um palpite.

Se as TVs fossem lá por o microfone na cara das pessoas elas diriam que não queriam ele como vizinho e tal. Mas isso se os interrogados fossem só os empregados ou mesmo os filhos dos donos desses apartamentaços.

Se fossem eles próprios, duvido que dissessem isso assim na cara limpa. Porque quem tem R$ 6,6 milhões pra por num apartamento no Brasil ou ganhou eles do mesmo jeito que o Palocci ou, se ganhou honestamente, tem tantos negócios que não pode se dar o luxo de dizer o que pensa num país onde o governo atua na economia de tal forma que um ministro entre mandatos “vale” 20 vezes o seu patrimônio só pelas dicas e segredinhos que pode vender ou pelas porteiras que pode ajudar a abrir.

Aqui é o país onde o xerife ainda não chegou e a gente tem de fazer mesuras pros bandidos porque senão ou eles matam você ou matam a sua empresa. Isso os pouquíssimos que não se corromperam. Porque o que a “Era Lula” prova definitivamente é o que as pesquisas já mostravam: o sonho de todo brasileiro não é mudar o que está aí; é só passar do barco dos explorados para a boa e velha nau dos exploradores.

O Lula, aliás, estava esses dias no Panamá, fazendo palestras para funcionários da Odebrecht, vejam vocês. E, como sempre, alinhou-se automaticamente ao acusado de corrupção da vez que, como de costume, está aninhado naquela mesma sala vizinha da sua, hoje ocupada pela Dilma, onde o Zé Dirceu vendia suas dicas quando foi a vez dele na Casa Civil.

A Odebrecht, como vocês se lembram, é uma daquelas empreiteiras que só fazem obras pro Estado. Com o que faturou assim, apossou-se de uma boa fatia da indústria de base da economia brasileira, especialmente a que envolve petroquímica. Na Era Lula o jogo dessas para-estatais tornou-se explícito e ela virou uma das sócias preferencias do BNDES que está ajudando, “socialmente” é claro, a “desenvolve-la” num dos monopólios gigantes formalmente associados ao governo que caracterizam o presente momento da economia nacional.

Palocci também é um cara de estilo. Sempre o mesmo. O único fuzilado até o momento em todo esse imbróglio foi o funcionário que transformou numa nota oficial o “eu sou, mas quem não é?” dele. Que nem o Francelino, coitado, que teve os seus caraminguás escarafunchados por toda a PT-Pol nos bancos oficiais depois que contou que o dr. Palocci também gostava de fazer festinhas de embalo com o nosso dinheiro na casa que ocupou em Brasília lá nos idos da primeira campanha vitoriosa do Lula.

Erro duplo, o desse demitido.

Primeiro porque o super ministro do PT pego com essa inexplicável bufunfa no bolso é um médico que nunca exerceu a profissão, sempre foi político profissional, e saiu do ministério para o Congresso, onde enriqueceu, e depois voltou pro ministério, e os servidores de FHC com quem ele se comparou saíram da iniciativa privada, onde ganhavam dinheiro, serviram o governo e voltaram para a iniciativa privada para continuar ganhando dinheiro.

O cara, portanto, acabou chamando a atenção para a diferença e não para a semelhança das situações comparadas.

Segundo porque quando disse que ex-ministro “fica valendo muito no mercado”, tornou-se réu confesso de venda de influência, já que não ha mais nada que ex-ministros possam vender a empresas privadas senão isso.

O que o Palocci devia estar fazendo, agora, é procurar quem, entre os seus dignos correligionários, passou essa informação para a imprensa já que, preguiçosa como ela anda, não ha um só dos últimos 50 escândalos nacionais que não tenha sido passado pra dentro das redações pelos arapongas do próprio governo.

Isso é tiroteio lá entre eles, desse PT de sindicalistas acostumado desde sempre a resolver tudo no tiro, que foi o que sobrou no governo depois que a esquerda com vergonha na cara, de escândalo em escândalo, foi saindo de fininho.

E por falar em tiro, o primeiro que o Palocci levou, lá atrás, envolvia dinheiro de campanha. E ele saiu-se melhor que seu antecessor no comando do Caixa 2 do PT, Celso Daniel, que não sobreviveu fisicamente aos tiros de fato que levou quando descobriu que tinha gente roubando pra si mesmo e não apenas pro partido, que era o limite do que ele tolerava.

Agora liberou geral. O pessoal não só rouba para si mesmo como não tem a compostura de esconder a grana e nem mesmo de esperar pra começar a torrá-la à escandalosamente grande…

E o pior é que o coitado do Brasil é tão desamparado, que eu tenho visto muita gente boa, que realmente torce por justiça, torcendo secretamente pra que ela falhe desta vez, como sempre, porque a Dilma anda perdida no espaço, o Mantega só fala abóbora e a verdade verdadeira é que nós estamos no mato sem cachorro, na alternativa entre ladrões com alguma competência para desempenhar os afazeres de governo enquanto metem a mão no dinheiro publico e ladrões sem competência para nada senão meter a mão em dinheiro publico.

E isto num momento em que o horizonte do mundo vai ficando bem pro escuro exatamente na hora em que já está claro que o Brasil não escapa mais de finalmente saber o que é, de fato, uma herança maldita.

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