No mato sem cachorro
19 de maio de 2015 § 24 Comentários
Artigo para O Estado de S. Paulo de 19/5/2015
Executado inteiro o “ajuste” já não nos levaria longe. Consiste, como sempre, em aumentar tarifas e impostos, reduzir a renda privada e cortar investimentos para sustentar os gastos do estado no novo patamar a que chegaram. É mais um arranjo para evitar que se manifestem inteiras as consequências da nossa incapacidade de repactuar a distribuição de haveres e deveres entre o Brasil que paga os impostos e o que os arrecada para habilitar-nos a passar a disputar vitórias em vez de seguir postergando derrotas certas, sempre no limiar da sobrevivência.
O próprio “tripé” que rendeu nosso melhor momento em um século era um arranjo precário; uma espécie de “cortizona” tomada em doses diárias para permitir ao paciente conviver em relativo equilíbrio com a doença crônica que não se dispõe a enfrentar, e não uma cura.
Nós nunca revogamos nada do que nos vem comendo pelos pés. O estado brasileiro só tem porta de entrada. A norma fundadora do sistema que aqui aportou com d. João VI é que cada ungido pelo toque de midas dos “de dentro” torne-se um deles para todo o sempre. É em torno da compra e venda dessa “salvação eterna” ainda em vida que se estrutura o anel de ferro que o sustenta.
Ao fim de 300 anos dessa ordenha, tudo que o Brasil dos miseráveis não tem é o que obscenamente sobra no Brasil oficial. Os direitos gerais só passarão a caber na conta quando os “direitos especiais” deixarem de pesar nela. O drama brasileiro — as crianças sem futuro, os doentes no chão dos “hospitais“, os 56 mil assassinados por ano, a corrupção epidêmica — tudo é mera consequência dessa premissa.
Não ha brasileiro vivo que não saiba disso, mas até as verdades mais evidentes precisam ser repetidas todos os dias em voz alta para se impor.
Neste momento, a ancestral mentira brasileira estrebucha pela enésima vez no seu próprio paroxismo. A conta é proporcional ao tamanho da trapaça e nunca antes ela foi tão grande na história deste país. O desastre lulopetista, que está apenas começando, é daqueles capazes de levar espécies inteiras à extinção. Vai-se abrir uma dessas raras janelas de oportunidade que só o sofrimento extremo proporcionam, com o potencial de alterar a própria ecologia do sistema.
O século 20, quae sera tamen, está chegando ao fim também no Brasil. Ninguém que o represente representa, já, a platéia que vaga pelas ruas. E no entanto ainda é ele e a linguagem dele que dominam reacionariamente o palco.
Não se reconhecem mais, esses dois brasis e é aí que moram a esperança … e o perigo!
A destruição do aparato nacional de educação é a obra mais bem acabada do partido que pavimentou o caminho do primeiro presidente-operário a chegar ao poder nas américas, apenas para provar mais uma vez que a humanidade é uma só, de cabo a rabo, só que com a força dos seus piores vícios multiplicada pela ausência dos matizes críticos com que a educação formal, bem ou mal, acaba por diluí-los. A “educação” que sobrou não é o antídoto, é o veneno. O que resultou dessa desconstrução é um discurso político reduzido a um maniqueísmo primário, da ante sala da conflagração, incessantemente derramado sobre um país sem repertório para definir um projeto nacional.
Sendo característico dos sistemas de servidão que quem provoca as crises não as sofre, os ventos que neste momento arejam o Brasil não sopram em Brasília. Lá, onde a maré é eternamente montante, ninguém nunca é demitido e os salários nunca param de subir é à conquista do poder como ele sempre foi que tudo se refere. Os contendores posicionam-se exclusivamente uns em relação aos outros. O Brasil real não conta. “Se ele é contra eu sou a favor“, e vice-versa. A “primeira divisão” disputa poder político e dinheiro. A segunda só dinheiro e o poder que com ele se compra. Mas preservar o úbere onde todos mamam é o valor maior que, nas emergências, se alevanta.
O terceiro elemento, intocável no seu pedestal, divide-se entre a minoria heróica que resiste reduzida a um papel de polícia, tolerada pelos demais por falta de remédio melhor, e a linha de frente corporativa pela qual a maioria dos acomodados omissos deixa-se docemente constranger cuja função é sangrar repetidamente a nacionalidade e o Tesouro mediante a articulação do “auxílio” ou do “reajuste retroativo” de cada temporada.
Fecha o quadro o “quarto poder” que — embora não dispute o mesmo queijo dos demais — vive hipnotizado pela mixórdia que eles protagonizam. Não olha para fora, não apresenta as alternativas do presente, não pesquisa as que redimiram outros povos no passado. Limita-se a reproduzir a cena doméstica segundo a linguagem e a pauta dos outros tres — quem “ganhou“?; quem “foi derrotado” no último crime de lesa pátria? — o que mantem o limite do possível no imaginário nacional exatamente onde o Brasil oficial quer que ele permaneça.
“O país não avança porque não sabe onde é necessário chegar. Para sabê-lo com certeza, era preciso ir ao fundo das coisas, e ao fundo das coisas só se chega com a crítica“, é a citação do mexicano Daniel Cosio Villegas que Carlos Guilherme Mota e Adriana Lopez usam como mote do último capítulo da sua História do Brasil que um qualificado leitor define como “um extraordinário estudo sobre a resiliência do continuísmo“, a marca renitente da nossa trajetória histórica ao longo da qual, “todas as raras oportunidades de rompimento com o passado que aparecem acabam por ser reprimidas“.
A repressão da próxima, cujos protagonistas já se apresentaram com seus “generais” e “exércitos“, passa pela anulação, ainda que “em vida“, dos dois poderes cuja credibilidade o terceiro vem trabalhando abertamente para corromper.
Falta quem, pelo outro lado, levante uma bandeira digna de ser seguida para limpar o sistema “por dentro“, porque se ha uma coisa que o Brasil aprendeu de 1964 a 85 e nossos vizinhos comprovam todos os dias é que, se vamos mal com eles, pior iremos sem eles.
As esperanças que vêm com o papa
18 de março de 2013 § 1 comentário
O papa Francisco mandou uma mensagem inequívoca para dentro e para fora da Igreja no encontro com jornalistas no Vaticano, sábado passado:
“O papel da imprensa cresceu muito nos últimos tempos, tornando-se indispensável. Vocês têm o compromisso de divulgar a verdade e isso nos torna muito próximos pois a Igreja quer comunicar exatamente isso, a verdade, a bondade e a beleza”.
A descrição aplica-se tanto ao papel desempenhado pela imprensa na denuncia dos casos de pedofilia envolvendo padres e bispos quanto, principalmente, na resistência aos autocratas sul-americanos que, num ambiente de crescente desinstitucionalização, vêm anulando os poderes moderadores do Judiciário e do Legislativo, seja pelo constrangimento direto, como na sua Argentina natal, seja pelo indireto com o recurso à corrupção sistemática, como no Brasil do PT.
A imprensa “tornou-se indispensável” como último refúgio da oposição à onda de violência antidemocrática que, com poucas exceções, assola o continente sul-americano.
É bom saber que não estamos sozinhos nessa luta…
“Vai, Francisco, e reconstrói a minha Igreja que está em ruinas”, foi o que teria ouvido em Assis, do Cristo na cruz, o santo de quem o novo papa tirou o seu nome.
Da Igreja para dentro é gigantesco o desafio que o novo papa enfrentará, assim como a reconciliação dela com um rebanho em dispersão. Para enfrentar esse duplo desafio dosar os limites da ação, para um lado e para o outro, será essencial.
Curiosamente, do muito que se escreveu sobre o novo papa nos jornais brasileiros deste fim-de-semana, o que mais chamou minha atenção saiu da pena de um judeu, Lee Siegel, em artigo para O Estado de S. Paulo (aqui).
Ele fazia duas advertências.
Invocando suas memórias de infância alertava, como filho de uma religião que se expressa em termos preferencialmente racionais, para o perigo de se tornar excessivo o esforço do novo pontífice para desmistificar o papado, lembrando os efeitos indesejados do primeiro grande salto da Igreja nessa direção quando determinou que as missas deixassem de ser rezadas em latim e passassem a ser ditas nas línguas nacionais de cada rebanho.
“Eu tinha inveja de meus amigos católicos. Os ritmos belos e encantatórios do idioma arcaico, o cheiro de incenso, os cantos. O vinho e as velas e hóstias – tudo tornava presente e real o mundo invisível, espiritual, que eu tão ardentemente esperava que existisse como uma alternativa melhor que aquele em que eu habitava mundanamente”.
A razão ordena e a tudo torna inteligível. E ao faze-lo reduz o espaço para a imaginação, a diferença e a individualidade. Apaga a dimensão do sonho que é o espaço onde a religião nada de braçada.
Quem não pensou ainda, ao se deparar com a aridez de um mundo cada vez mais sem mistérios, no sentido da advertência bíblica sobre o gatilho da expulsão dos homens do Paraíso: “Não comerás da árvore do conhecimento”?
A outra advertência de Siegel, de sentido mais prático, trata em termos precisos do primeiro problema concreto com que o papa Francisco terá de se deparar.
“Sem o celibato e as patologias que ele amiude origina, sem as barreiras institucionais erigidas para mulheres, sem a tolerância aos abusos de poder coexistindo com a misericórdia para os impotentes, a mensagem de amor e esperança do catolicismo – única na história humana – seria revigorada e disseminada livremente”.
Nada como um olhar estrangeiro!
Como explicar a enorme expectativa de toda a comunidade humana com relação à eleição do novo chefe de uma igreja (crescentemente) minoritária, traduzida pelo gigantesco aparato de midia que se instalou na Praça de São Pedro nas últimas semanas, senão pelo reconhecimento universal de que “a mensagem de amor e esperança do catolicismo” é a base do que Mario Vargas Llosa descreveu, em artigo recente, como “a ilustre e revolucionária cultura clássica e renascentista que (…) impregnou o mundo com ideias, formas e costumes que acabaram com a escravidão e tornaram possíveis as noções de igualdade, solidariedade, direitos humanos, liberdade e democracia” ou, em outras palavras, a mensagem que está na base do que de melhor a humanidade produziu em todos os tempos?
Ao trocar o acessório (o celibato) pelo principal, a Igreja vem ha séculos derrapando na besteirada em torno do sexo e deixando em segundo plano a sedutora beleza universal da sua mensagem essencial.
Para que o STF possa ir das palavras aos atos
3 de outubro de 2012 § 3 Comentários
Do ponto de vista da ética e da moral, os seres humanos poderiam ser divididos em três categorias: os puros de alma, capazes de resistir às pressões do meio, tão raros que quando ocorrem costumam ser saudados quase como santos, os podres de alma, para os quais não ha remédio, e a massa do meio que busca apenas o caminho mais curto e mais seguro para “o sucesso” e que pende para um ou para o outro desses extremos conforme a regra do jogo que se lhe apresente.
O Brasil comemora aliviado a afirmação da independência do Poder Judiciário que, com o julgamento do Mensalão, deteve o processo de liquefação acelerada das nossas instituições que vinha rolando avassaladoramente sob o tsunami da sem-vergonhice assumida do lulopetismo.
Hoje é que a onça começa a beber água (escrevo antes da seção decisiva desta tarde) mas o que rolou até aqui já vale muito.
Dos 10 juízes envolvidos no julgamento só Lewandowski se ajoelhou. Nem o ex-empregado do PT, Dias Toffoli, comprou a tese do Caixa 2 só porque Lula mandou.
Não é por acaso que ser juiz do STF é para toda a vida e ser presidente da Republica é só para quatro anos. As artes de mr. James Madison, referência permanente aqui do Vespeiro, realmente operam milagres.
E é exatamente por ter visto esse tipo de efeito funcionar por tantas vezes numa já longa vida de observador profissional desse tipo de acontecimento, que acredito piamente que os milagres dependem, essencialmente, desses práticos empurrões das instituições humanas.
Os discursos dos ministros feitos nos últimos dias no STF e comentados hoje na página de editoriais do Estado poderiam ser traduzidos livremente como um aviso a quem interessar possa de que “o jogo mudou; nós sabemos bem de onde ele emanava e só não vamos mexer com essas estratosferas agora para não criar uma crise institucional. Mas daqui pra frente – cuidado! – a música vai ser diferente“.
Mas para que isto de fato aconteça será preciso mais do que discursos.
Marco Aurélio Mello, por exemplo, falou em “rotina da desfaçatez e da indignidade” que leva à “apatia dos cidadãos cada vez mais surpreendente“, “como se tudo fosse muito natural (…) e o erro do passado justificasse os erros do presente“.
É uma descrição falseada do que realmente se passa. E falseada porque esse futuro do condicional de que o ministro se serve para descrevê-la não existe de fato na realidade descrita. Pois nela, a impunidade do erro do passado realmente justifica o erro do presente, explica e induz a apatia dos cidadãos e faz da desfaçatez e da indignidade rotinas.
Outro americano notável, Theodore Roosevelt, dizia sempre que “O problema não é haver corrupção, vício inerente à espécie humana; o problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo“.
Com nosso sistema penal permitindo que os corruptos permanentemente exibam o seu sucesso, o Brasil tem vivido sob a égide do triunfo dos podres de alma a arrastar as massas para (o ministro que me desculpe) uma apatia nada surpreendente e um comportamento geral cada vez mais imoral e antiético em todos os níveis das relações humanas e sociais porque este, os fatos lhes confirmam todos os dias, é o caminho mais curto e seguro para o sucesso.
Nesse Brasil, resta aos puros de alma (tenho Arnaldo Jabor, que ontem estava genial no Estado – aqui – , em mente) uivar desconsoladamente para a lua…
O que precisamos agora é de reformar as penas e sintonizá-las à importância dos crimes. E os crime de corrupção, todos nós sabemos, são os que mais lesam e matam, tanto física quanto moralmente, pois que têm efeitos disseminados por todo o organismo social atingindo especialmente os mais pobres.
Mesmo com este importante sinal emitido pelo STF, que vem para deter o “ladeira abaixo” em que iam as instituições brasileiras, é preciso ser realista. O Judiciário não faz, ele executa as leis existentes. Quem faz estas que peço são exatamente os alvos que ela visa. Esse tipo de reforma não virá, portanto, de dentro do sistema a ser reformado. Propô-la e empurra-la é papel da imprensa que, nas democracias, tem a função de parteira de reformas.
É este, portanto, o passo essencial. A corrupção tem de passar a ser uma escolha de vida de altíssimo risco. É preciso haver a certeza de que uma vez pego, o corrupto está perdido para sempre. Aí sobrarão em cena apenas os irremediavelmente podres de alma, que não são tão numerosos assim. Toda a massa do meio, que responde mais à oportunidade que à coragem, penderá para o caminho mais seguro, o sinalizado pelos puros de alma.
É isso, e apenas isso, que faz a diferença entre os graus suportáveis de corrupção, que permitem a uma sociedade prosperar e enriquecer, e aqueles que a afundam recorrentemente no duplo atoleiro da miséria moral e material como vem acontecendo com o Brasil ha 512 anos.
Internet, democracia e imprensa: um mundo de confusões
28 de setembro de 2012 § Deixe um comentário
A natureza da internet continua sendo um tema que provoca confusão por todos os lados.
Mesmo porque, sendo ela uma reprodução matemática da vida real, é tão infinitamente multifacetada quanto aquilo que imita.
Os grandes repositórios de expressões individuais que ela abriga, como o Youtube, por exemplo, equivalem a praças públicas. E assim, culpar o Google pelo que aparece no Youtube,como fez a Justiça Eleitoral de Mato Grosso do Sul esta semana ao determinar a prisão do diretor-geral da empresa no Brasil, Fabio Jose Silva Coelho,faz tanto sentido quanto mandar prender o prefeito de São Paulo pelas ofensas ditas por um transeunte a outro na Praça da Sé. (Podia ser pior, como acontece no Islã…)
É verdade que ao construir uma praça um prefeito está se comprometendo a policiá-la e a fazer com que as leis vigentes sejam cumpridas nela e enquanto a construção de grandes praças virtuais continuar concentrada nas mãos de uns poucos gigantes da internet, caso do Google, os ofendidos correrão a eles para fazer cessar a ofensa que os atinge.
Porque é fácil e prático mais do que porque faça qualquer sentido lógico.
Mas é um precedente complicado porque logo chegará o momento que alguém exigirá o mesmo rigor dos prefeitos em suas praças e aí teremos uma boa discussão sobre que fim levou o direito à livre expressão do pensamento.
Neste caso em particular, aliás, já não seria sem tempo pois a violenta censura que se exerce sobre todos os meios de comunicação de massa para proteger a canalha que nos pede votos é um desses escândalos anestesiados incompreensíveis que “passa batido” neste país que não tem noção daquilo que tem direito de exigir. Não tem precedentes senão nos regimes totalitários praticamente extintos no século 20.
Só neles – e em nenhuma parte mais – os “representantes do povo” ou mesmo os que são ungidos pelos partidos oficiais a se apresentar como candidatos a sê-lo – ganham, desde o momento dessa unção, o direito exclusivo de falar de si mesmos nos meios de comunicação, exceção feita àqueles que só atingem a parcela eleitoralmente insignificante dos que conseguem ler e compreender um texto de complexidade acima da elementar e que, de resto, esses candidatos não conseguiriam mesmo enganar tão fácil.
Toda mídia eletrônica (aquela de absorção passiva por alfabetizados ou não) fica sob censura enquanto o tema eleições estiver em pauta.
Acabar com essa excrecência, por si só, eliminaria uma boa parte da corrupção que nos corrói.
As praças virtuais, entretanto, são usadas, igualmente, para a prática de crimes piores. Mas como a característica do Estado de Direito é dar a essa instituição o monopólio do uso da força, cabe ao Estado e não aos que as criam e as servem das ferramentas e algorítmos que permitem falar, ouvir, ver, ser visto e trocar cumprimentos e bens dentro delas, policiá-las como a qualquer outro espaço público e prender os criminosos que as frequentam – e somente eles, como mandam todos os os códigos e Constituições civilizadas.
A mesma confusão que leva juízes e políticos a exigir dos google da vida o exercício de papéis que não lhes cabem afeta a maior parte dos usuários da internet. Na raiz dela está a memória da era pré-eletrônica quando publicar era caro, ocorria em espaços limitados e, por isso, pressupunha necessariamente seleção e edição centralizadas.
Quase todo mundo que lê na internet ainda lê com esses olhos. Sua memória ancestral conta como certa a existência de um intermediário que leu e aprovou o que foi publicado antes dele, o que o predispõe a uma reverência para com o que lê na maioria das vezes imerecida, assim como à suposição de que a plataforma que abraçou a peça deve ser responsabilizada por ela estar lá.
Mas hoje publica quem quer, o que quer, quando quer e, frequentemente – ou ao menos nessas grandes “praças públicas” da internet – onde quer.
O termo preciso quando se trata da internet, aliás, não é “publicar”. É dizer, ou fazer (na internet).
Só que toda essa avalanche de palavras, imagens e atos de quem diz e faz na internet tão livremente como sempre disse e fez na rua, por falta de expressão mais precisa, é chamada de “informação”, palavra que remete à matéria prima do jornalismo e a outras formas depuradas de transmissão de pedaços de conhecimento.
Essa indiferenciação semântica cria um outro tipo de confusão – difusa, esta – que provoca ferimentos menos localizados mais muito mais insidiosos porque afeta o próprio cerne da democracia.
Como na vida, 99,9% do que as pessoas trocam quando falam umas com as outras não é, propriamente, informação. São impressões, cumprimentos, sentimentos, fofocas, piadas, esgares, imagens, sugestões, cantadas, mentiras ou o que mais do muito que compõe o variado molho do universo das relações humanas que você se lembre de incluir nessa lista.
Os governos de representação, para os quais ainda não se inventou alternativa que inclua a liberdade e a dignidade humanas, entretanto, continuam requerendo, para funcionar, um fluxo permanente de informação (no sentido estrito) entre representantes e representados. Assim como o cidadão maduro para a democracia apendeu a diferenciar informação de calúnia, de mentira, de fofoca ou do que seja para lidar com o sistema representativo de governo no mundo físico, terá de aprender a faze-lo no mundo virtual. E as balizas para isso são as mesmas de sempre.
A veiculação de informação jornalística se diferencia de todos esses variados ruídos por ser uma atividade técnica, balizada por um compromisso formal com regras especiais e públicas de apuração da verdade, de consideração do contraditório e de ética de negócios.
É essa institucionalização da atividade que credencia a imprensa, o chamado 4º Poder, como elemento constitutivo do aparato operacional das democracias.
Para ser mais independente e poder cumprir bem o seu papel de fiscalizar os outros três, as empresas jornalísticas têm de ter regras absolutamente livres para se constituir e se propor ao público como parte do aparato institucional da democracia. Mas isso não significa que elas estejam menos sujeitas que os demais poderes à obrigação de legitimar-se e de submeter-se a uma fiscalização constante. Ao contrário. Não tendo mandato definido, a imprensa tem de ratificar sua legitimidade nesse papel submetendo-se a uma eleição por dia, que é aferida pela sua circulação paga.
Assim foi no mundo físico. Assim será no virtual se continuar existindo democracia e portanto imprensa. Ou se continuar existindo imprensa e portanto democracia.























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