Uma imensa Argentina?
10 de janeiro de 2013 § Leave a comment
A Folha de hoje atirou no bicho certo mas exibiu o troféu errado.
A longa entrevista por ela publicada (aqui) com o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, continha uma revelação importante e um alerta importantíssimo, mas não foi nenhuma dessas duas preciosidades que a equipe encarregada de editá-la destacou.
A revelação importante é a de que, ao se aproximar o prazo para a sua recondução ou não ao cargo de Procurador Geral da Republica, Roberto Gurgel mandou avisar à presidente Dilma que estava terminando a peça acusatória do Mensalão, a ser apresentada dois dias depois da decisão, e que manteria nela todas as acusações que hoje o Brasil inteiro conhece contra os maiorais do PT e, mesmo assim, a presidente o confirmou no cargo.
Já o alerta importantíssimo que a Folha deixou de amplificar, pode ser resumido nestes tres pontos:
1- A luta não está ganha (vejam que manchete atraente para sair sobre uma foto de Gurgel!);
2- Não ha nada no horizonte que indique que vamos ganhá-la, ao contrário.
3- Se não ganharmos agora não haverá segunda chance.
Ok. Foi “um esforço magnífico”, “um marco histórico”, e coisa e tal, “mas isso não basta”. “Nós não acabamos. É preciso dar efetividade a esse julgamento … É preciso que os juízos condenatórios proferidos pelo Supremo tenham as devidas consequências (tanto) na questão dos mandatos parlamentares (quanto) na questão dos mandados de prisão … Respeito a posição do ministro Joaquim (de recuar de pedir as prisões imediatas)… (mas) Meu temor é assistir cenas como as das fotos recentes do Cachoeira (condenado mas em liberdade) no resort. Isso demonstra a falta de efetividade da Justiça. Essa é a preocupação que o Ministério Público tem. Nosso sistema processual é muito generoso e muito propício a certas manobras da defesa…”
Nenhuma voz tem mais autoridade que a do acusador-chefe de um país sem prisões para nos alertar para a seriedade da ameaça que paira sobre nossas cabeças.
Roberto Gurgel, assim como Dilma, faz parte de uma elite do funcionalismo público que, já nem tão por baixo do pano assim, vem num conflito surdo com a canalha oriunda dessa grande universidade do crime que é o sindicalismo pelêgo que Getúlio Vargas nos legou e vem tomando literalmente de assalto o Estado brasileiro desde o momento em que Lula chegou “lá”.

Não digo que essa elite seja constituida só de santos nem que não existam diferenças ideológicas ou de comportamento ético a diferenciar os que fazem parte dela. Nem mesmo que ela não se aproveite e componha com a outra quando se trata de preservar seus privilégios.
Mas também é indiscutível que, tomada em seu conjunto, há um verdadeiro abismo moral e, principalmente, cultural entre essa nata do funcionalismo concursado, de carreira, e a escória cevada no sindicalismo que Getúlio plantou aqui precisamente para destruir o Estado e deixar o país inteiro nas suas mãos, segundo a receita de Juan Domingo Perón e suas periguetes de palanque.
E já lá vão 10 anos ao longo dos quais para cada concursado que sai pela porta da aposentadoria são dois ou tres predadores que entram pela das nomeações “políticas“.
A Argentina está aí, descambando desabaladamente ladeira abaixo há quase um século, trágica, irrecuperável, aos trambolhões, a nos gritar que não tem fundo o abismo em que ameaçamos despencar.
Dilma sabe disso. Mas, criatura de “deus” que é, hesita. Balança entre “o pai” e o que lhe diz a sua consciência. O dr. Gurgel mostrou que sabe o que vai pela alma dela…
Quanto às cenas como as das fotos do Cachoeira que tiram o sono do promotor-chefe, elas já estão aí, atiradas nas nossas caras.
A ocupação da tribuna do povo em Brasília pelo chefe da grei dos cuequeiros sob os aplausos da alcatéia dos vendidos num congresso nacional que parece antecipar o nosso destino bolivariano é a repetição, como farsa, do acinte do caudilho dos pampas ao amarrar seus cavalos no obelisco do Senado da Republica da antiga capital federal da Guanabara.
Por quanto tempo ainda os “condenados” do Mensalão poderão andar pelas nossas ruas e praias exibindo o seu sucesso?
No mínimo mais um ano, diz o dr. Gurgel mais em tom de torcida que de afirmação…
O país que acompanhou por quatro meses, ao vivo, as seções solenes do Supremo Tribunal Federal para vê-las desaguar numa hermética “dosimetria” onde tudo faz lembrar o Jogo de Truco, síntese da malandragem brasileira onde nenhuma carta vale o que diz o número estampado nela, fica sabendo, depois desse primeiro balde de água fria, que a “última palavra” da nossa “ultima” corte de justiça, de ultima não têm nada. Que vai recomeçar a ciranda dos recursos e dos recursos sobre os recursos, agora batizados de “embargo” disso, “agravo” daquilo, enquanto os “condenados” refestalam-se ao sol dos vencedores na Bahia.
Que país sairá dessa travessia? O que terá restado em pé?
É preciso um esforço de união nacional aberta e francamente apoiado na única dicotomia real que, pelo mundo afora, sobreviveu à entrada do Terceiro Milênio – mocinhos x bandidos; ladrões x roubados – como a derradeira tentativa de incentivar os brasileiros honestos de todas as antigas cores que nos separavam no século passado a se unirem para gritar que “Não, nós não somos todos a mesma merda que Lula quer que sejamos”, ou seremos nós a próxima e imensa Argentina.
Comparando masoquismos
5 de janeiro de 2012 § 1 Comment
Acho o masoquismo dos argentinos muito mais intrigante que o dos norte-coreanos.
Afinal, na Coreia do Norte ha três gerações já que a intensidade do choro que o cidadão exibe diante do desaparecimento de algum dos membros da dinastia Kim pode significar a diferença entre vir a ser um candidato a ministrar ou se tornar um candidato ser paciente de tiros na nuca enquanto na Argentina o mesmo tipo de demonstração é inteiramente espontâneo.
O puxa-saco brasileiro leva vantagem sobre ambos: não precisa prender-se a qualquer tipo de formalismo. O máximo a que pode almejar o peronista exemplar é o emprego sem trabalho, coisa que o brasileiro também consegue sem precisar, necessariamente, filiar-se a este ou àquele partido. Basta aderir a quem quer que esteja no poder. Tudo que ele conseguir agarrar a partir daí o Judiciário garante que será seu e dos seus, mesmo que haja revoluções que mudem não só os ocupantes temporários do poder mas até a natureza do regime.
É muito mais democrático e republicano.
Mas não é apenas isso que aproxima norte-coreanos de argentinos e nos distancia de ambos.
Eles valorizam muito a questão da hereditariedade. Os coreanos são literais quanto a esse ponto. Assim como os caribenhos, exigem laços de sangue no momento da sucessão enquanto os argentinos se permitam alguma flexibilidade.
Respeitados os limites da ideologia – todos têm de ser peronistas acima de tudo – nossos românticos vizinhos do Sul colocam o amor acima de todas as outras coisas.
Dessa dificuldade adicional resulta que os Kim apenas iniciam a terceira rodada e os Castro a segunda, enquanto os argentinos já vão na quinta, considerados os dois presidentes da dinastia peronista e suas três esposas e amásias.
No Brasil, ha uma única exigência: o mais testado e comprovado desprezo pela ética. Tudo o mais, arruma-se. Fica, desse modo, plenamente assegurada a mobilidade social: qualquer um, independentemente de raça, gênero ou posses, pode acanalhar-se o suficiente para ser aceito nos círculos do poder desde que se empenhe.
A mumificação de presidentes mortos é outro traço comum a coreanos e argentinos além de comunistas em geral e egípcios do passado remoto. A particularidade que distingue nossos vizinhos é que egípcios, comunistas e coreanos respeitam a integridade física das suas múmias enquanto os argentinos são dados a arroubos com as deles que chegam, por vezes, aos extremos da perversão sexual e da mutilação.
Já no Brasil, morreu, morreu. Fica só a herança maldita.
Agora, em matéria de títulos honoríficos, nós que nos consideramos tão criativos perdemos longe. É da nossa natureza preferir o drible à marcação homem a homem. Continuamos até hoje com os herdados de Portugal – “excelência“, “meritíssimo“, “ilustríssimo senhor“… – que têm a vantagem de ser intercambiáveis, enquanto os coreanos vão de exclusivíssimos “Estrela Brilhante“, “Ilustre Comandante Nascido no Céu“, “Eterno Presidente“, “Pai“, “Grande Sucessor” e outras variações igualmente hiperbólicas que a perspectiva do tiro na nuca justifica plenamente.
Os argentinos estão divididos quanto a esse particular o que, bem em consonância com a crise mundial da identidade de gênero, pode ser um prenúncio do fim do arquétipo do amante latino. Dos diminutivos de outrora, que traduziam tão fielmente o seu inimitável mix de política com alcova, ensaiam agora um tom mais épico e imperialista, com este “Sol de America del Sur” que começam a aplicar à Cristinita.
É bom a gente ficar de olho porque cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
Ainda sobre a múmia dos argentinos (XXX)
1 de março de 2011 § Leave a comment

(Diretamente do dark side of the moon)
Acordei essa madrugada ainda pensando nos argentinos.
Aquilo ficou martelando na minha cabeça…
Não lhes bastou entrar para o clubinho que, até então, tinha só dois sócios; os egípcios e os comunistas. Tinham de ser os primeiros e únicos a mumificar uma mulher. E para garantir para sempre a sua marca de inovadores, tinham de ser os únicos no mundo a praticar sexo com uma múmia.
Mas aí fiquei pensando: vai que eu estou sendo injusto!
E comecei a pesar os “pró” e os “contra”:
Dos egípcios eu não sei. Não são do meu tempo. Mas, necrofilia por necrofilia, os argentinos e os comunistas estão pau a pau. O que ha de diferente é que os argentinos foram os primeiros no mundo a projetar o seu fanatismo ideológico na figura de uma mulher.
Coisa de “gáucho”…
O dr. Pedro Ara e sua obra
Mas e o sexo com múmias? Você acredita realmente que o fanático comunista nunca chegaria a uma prova tão literal de amor à causa? Que a sua entrega é menos completa que a de um fanático peronista?
E aquela turma que vem em linha direta das “tricoteuse” que ficavam na fila do gargarejo da guilhotina, na Paris de “La Révolution”? Aquelas marafonas que davam gritos de gozo, percorridas por tremeliques, cada vez que uma cabeça rolava e o sangue esguichava? Considere as Ulrike Meinhoff’’s da vida, privadas das bombas e das metralhadoras e impedidas de desabafar seus humores atirando no joelho dos outros. Essa mulherada que, na ponta esquerda do ecoideologismo, trama a “solução final” para o problema da preservação da biodiversidade pela eliminação da espécie humana em nome dos “diretos dos animais”. Você acredita mesmo que desse caldo de cultura; que esse mundo da militância desgrenhada de inspiração tão nitidamente hormonal não poderia sair o tipo extremo capaz de cavalgar furiosamente as múmias dos heróis pelos quais elas se descabelam? Não é sexo, afinal, que elas metaforicamente praticam com seus gurus, tanto quanto qualquer “groupie” com o roqueiro dos seus sonhos mais úmidos?
Isso é mesmo um comportamento só compatível com o tango? Ou é a ocasião que faz o tarado?

Ponha na balança:
As múmias comunistas, para não fugir à regra, são tecnologicamente muito mais primitivas que as argentinas. “Gugue” a múmia do Lênin pra conferir. Pode parecer estranha essa preocupação no meio de um texto sobre tema tão “gráfico” (para usarmos a expressão americana), mas eu só não ponho essas fotos aqui por delicadeza. Ele é um saco vazio, coitado, com a barriga despudoradamente escancarada. Toma banho por dentro e por fora uma vez por ano e depois enchem ele de paina, vestem e deixam lá; uma mãozinha aberta e a outra fechada, aquele ar meio de japonês.
Já a da Evita é uma obra de arte. Está inteirinha, “com todos os órgãos internos”, como faz questão de frisar a narradora do documentário da “postagem” anterior. Parece que até a textura é de assustar…
Artes do dr. Pedro Ara que, todo mundo reconhece, foi uma espécie de Michelangelo da morte. Na verdade foi por pouco que o Lenin não passou pelas mãos dele. Ele chegou a ser chamado mas, sabe como é: o orgulho nacionalista estava acima de quase tudo para os protagonistas da revolução proletária internacional.
Enfim, o fato concreto é que fazer sexo com uma múmia feminina é sempre uma possibilidade enquanto fazer sexo com uma múmia masculina põe em tela uma questão anatômica incontornável: ela teria de ter sido adrede preparada para essa eventualidade. E esse tipo de imaginação fértil, ainda que doentia, não é de se esperar em pessoas que dedicam a sua vida a manipular defuntos.

Enfim, jamais saberemos.
Por via das duvidas, as autoridades argentinas, que sabem melhor que nós com quem estão lidando, determinaram, ao fim de 17 anos de perambulações e cochichos, que a múmia de Evita fosse finalmente enterrada a oito metros de profundidade numa espécie de casamata subterrânea, naquilo que ficou conhecido como o primeiro e único tumulo de segurança máxima do mundo.
Pois é…
É como eu sempre digo pros compatriotas que vêm se queixar do “povinho que Deus pôs no Brasil” nos momentos de auge de depressão com as nossas desventuras republicanas: nada como acompanhar de perto a saga argentina por algum tempo pra curar isso.
Graças a Deus, aqui o lance do fanatismo político rola numa base bem mais macunaímica e relaxada. Mas também não vamos dar sorte pro azar. Se, lá adiante, vierem com o papo de embalsamar o Lula, você já sabe:
Nem-pen-sar!

Sobre egípcios, comunistas e argentinos
28 de fevereiro de 2011 § Leave a comment
Fui jantar no final da semana passada com uns amigos e um deles estava voltando de uma viagem à Ásia.
Conversa vai, conversa vem, ele mencionou que foi ver a múmia de Ho Chi Min, exposta no seu devido mausoléu em Hanói.
Aí eu lembrei essa coisa curiosa…
Esse negócio de múmia é um privilégio de poucos. Ha os faraós do Egito e suas pirâmides, onde parece que a moda de condicionar a continuação da vida após a morte à conservação de um cadáver foi inventada. Depois deles ninguém mais perdeu tempo com essa bobagem por alguns milênios.
A Igreja Católica, que também tem lá os seus pendores necrófilos, é verdade, tem algumas dúzias dos santos da sua galeria entre pessoas que ganharam essa condição porque, por alguma razão natural, seus corpos ficaram preservados por muito tempo depois da morte. Mas pelo menos isso aconteceu por acidente e não em função da aplicação de técnicas deliberadamente desenvolvidas para essa finalidade.
Essa estranha forma de fixação macabra só voltou a entrar em cena pela porta da frente da política depois que os comunistas, que se acreditavam capazes de produzir uma engenharia das sociedades humanas cuidadosamente desenhada com base na ciência, vejam vocês, tomaram o poder na Rússia.



A partir daí as múmias voltaram com tudo à moda. Não falo das que continuam vivas e no poder. Falo de Lênin, Mao Tsetung e Ho Chi Min, embalsamados e mofando em seus caixões de vidro dentro de duvidosas pirâmides inspiradas no realismo socialista, feito pobres cinderelas ressecadas sem esperança de resgate pelo beijo.
Fora egípcios e comunistas, lembrei aos amigos, os únicos que se entregaram, oficialmente, à prática da adoração de cadáveres na era moderna foram os argentinos. Mas lá a coisa não deu certo. É que os nossos estranhos vizinhos compositores de tangos, que gostam de levar tudo ao ultimo extremo, se apaixonam fisicamente pelas suas múmias!
Piram! Enlouquecem! Confundem tudo. Alguns chegam a tentar fazer amor com elas!
Enquanto no resto do mundo sequestra-se pessoas vivas e paga-se resgates para mantê-las assim, na Argentina sequestram-se os cadáveres dos inimigos políticos para depois negociar a trocar de mortos por mortos.
Xô! Vade retro! Rabo de gato 44!
Gente muuuito estranha esses argentinos!
Você tá pensando que é brincadeira? Só modo de falar? Pois eu saí daquele jantar e fui fuçar essa história no Youtube, pra refrescar a memória.
Veja com os seus próprios olhos o documentário fantástico que encontrei:
La Momia de Eva Peron
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6








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