Dêem-nos algo por que valha a pena lutar!
29 de maio de 2014 § 4 Comentários
O programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes, de domingo passado apresentou um dos personagens mais interessantes da História do Brasil de que tomei conhecimento ultimamente.
Luis Gama, hoje quase esquecido como quase todos os personagens mais interessantes da História do Brasil, era negro, foi escravo, autodidata, jornalista e poeta e teve um papel brilhante no Movimento Abolicionista, outra história que é muito mal contada como quase toda a história do Brasil que se conta nas escolas deste país.
Esse momento é, seguramente, um dos mais brilhantes da nacionalidade. Foi um movimento de raiz, vindo de baixo para cima e, por essa qualidade quase único em nossa trajetória como Nação, bem ao contrário do que diz a versão mais conhecida de que a libertação dos escravos foi uma benesse outorgada magnanimamente pela Princesa Isabel.
O Movimento Abolicionista foi um subproduto da Guerra do Paraguai que, pela primeira vez em nossa história, mobilizou brasileiros de todos os cantos de um país que, naquele tempo, mal conhecia a si mesmo e não se pensava como um país, e que envolveu todas as raças e camadas sociais espargidas pelo seu vasto território.
Foi a primeira vez na História do Brasil que brancos, negros e mestiços de diferentes classes sociais viram-se postos, ombro a ombro, na perseguição de um objetivo comum. E o efeito que isso produziu foi em tudo semelhante ao produzido nos Estados Unidos do norte pela Guerra da Secessão, não apenas em termos de consolidação de um sentido de nacionalidade mas, sobretudo, pela experiência da convivência concreta com a diversidade em situações extremas onde todos dependem de todos e peles de todas as cores e tonalidades rompem-se a toda hora para mostrar o quanto somos iguais por dentro.
A convivência com a diversidade, num mundo em que uns viviam na Casa Grande e outros na senzala e em que a todos, do palácio real à sarjeta, eram impostas as mesmas crenças e as mesmas “verdades” e vedado qualquer desvio dessa linha estreita “por pensamentos, palavras ou obras“, é a matéria prima da ideia de tolerância que se consubstancia institucionalmente na ideia de democracia.
Foi exatamente assim e foi exatamente por isso que ela começou a nascer na Inglaterra de Henrique VIII quando ele baniu a intolerância católica e abriu o país a todas as crenças perseguidas da Europa; foi exatamente assim e foi exatamente por isso que ela saltou das teorias dos fundadores para o real “governo do povo, pelo povo e para o povo” que só se estabeleceu de fato com as reformas da Progressive Era que começaram a se esboçar a partir do final da Guerra de Secessão.
Assim também foi praticamente aí que a ideia de Nação saiu dos textos dos teóricos e dos idealistas e se materializou nas ruas e nas selvas da vastidão brasileira.
Luis Gama, que mais de uma vez usou as páginas do jornal A Província de S. Paulo, precursor de O Estado de S. Paulo, como sua tribuna, ao lado de Julio Mesquita, um filho de pai analfabeto ha pouco chegado ao Brasil quase tão pobre quanto aquele ex-escravo, e milhares de outros que, como esses dois, se tinham “feito” sozinhos longe dos latifúndios escravocratas e das benesses do imperador, era um representante da esmagadora maioria dos brasileiros de seu tempo que tiravam do esforço próprio a sua subsistência, ao contrário do quadro falso pintado pela historiografia marxista para a qual só existia, aqui, o senhor e o escravo e nada no meio, que continua sendo a única vendida em nossas escolas.
Essa condição não é alheia à circunstância de ambos terem sido figuras de proa desse momento brilhante da consolidação da nacionalidade brasileira na Campanha Abolicionista que mobilizou o país inteiro. (Leia mais sobre esse Brasil dos empreendedores neste link)
A entrevistada do Canal Livre, Ligia Fonseca Pereira, autora de Com a Palavra, Luis Gama (à venda neste link), uma coletânea de seus textos sem interferências da curadora “pois que ninguém pode explicar melhor o que ele foi do que ele próprio“, como ela ressaltou sabiamente, mostrou-se mais uma da grei dos intelectuais sérios que este país, apesar de tudo, tem produzido, especialmente no campo da pesquisa histórica onde se vem colhendo uma safra cada vez melhor de produtos.
É essa revisão da verdadeira História do Brasil que, pouco a pouco, vai desintoxicar o inconsciente coletivo nacional fazendo o país passar pela necessária seção de psicanálise coletiva, que é no que consiste a tomada de consciência do que foi o seu próprio passado, experiência que fará com que a nacionalidade entenda, finalmente, como foi que se tornou aquilo que é, passo sem o qual nunca conseguirá tomar as rédeas do seu próprio destino.
É este o processo que, no final, vai nos redimir do estado patológico e da crise de identidade em que nos precipitou um século inteiro da empulhação interpretativa pseudo científica vendida em nossas escolas à guisa de História do Brasil, mas que não passa de manipulação ideológica barata, esta mesma que saltando das universidades para as ruas, chegou ao paroxismo com a vulgata lulista que já não se contenta com manipular apenas os fatos do passado, sente-se à vontade para fazer isso também com os do presente bem diante dos olhos de quem acabou de vive-los.
Luis Gama, como a nata dos abolicionistas de São Paulo e de outros estados brasileiros (as revoluções pernambucanas beberam nessa mesmíssima fonte) pertenceu à Loja Maçônica América, fundada por brasileiros que estiveram nos Estados Unidos, frequentaram a mesma loja maçônica de George Washington e outros dos grandes fundadores da democracia americana, e se encantaram com as promessas encerradas no movimento revolucionário que nascia ali com o propósito de fundar uma sociedade de iguais onde o esforço individual e o merecimento substituiriam a cumplicidade com o último criminoso a conquistar a coroa pela força que tinha prevalecido nos últimos dois milênios e na qual continuamos chafurdando até hoje, como a única fonte de legitimação da conquista de poder e de dinheiro.
A Loja Maçônica América expressava desde o nome com que foi batizada a esperança do melhor material humano que o Brasil tinha produzido até então, de chegar um dia ao mesmo sucesso a que já tinham chegado os revolucionários do norte.
Como Ligia Fonseca explicou de forma brilhante, Luis Gama e os outros abolicionistas que se congregavam nas lojas maçônicas brasileiras ligadas às suas congêneres espalhadas por todo o mundo de então eram “homens de rede” no sentido moderno da palavra, pois que trocavam ideias e conspiravam através do primeiro protótipo de “rede mundial” criada com o propósito explícito de facilitar a livre troca de ideias e informações que a humanidade constituiu: exatamente as lojas maçônicas.
Sua admiração pela revolução americana, pelo seu federalismo e pelo seu sistema de divisão de poderes era tanta que foi de Luis Gama que saiu a sugestão de batizar o país que surgiria da nossa revolução republicana de Republica dos Estados Unidos do Brasil, nome que o Brasil de fato adotou dos albores da República até o início do regime militar.
Foi a esta altura da entrevista, porém, que um dos jornalistas presentes fez a seguinte intervenção:
“É curioso que um negro como Luis Gama não tenha reagido ao (ou “percebido o”, não me lembro quais foram as palavras exatas) fundamento racista que marcava e seguiu marcando a sociedade norte-americana”.
Lígia Fonseca Pereira, negra ela também, ficou tão desconcertada e perplexa quanto eu ao ouvi-la.
Superadas a surpresa e a dúvida (a afirmação/pergunta teve de ser repetida para ela compreende-la) ela gentilmente tartamudeou algumas palavras hesitantes enquanto na minha cabeça bombava a pergunta: “E precisava um negro ex-escravo no último país ainda escravocrata das Américas, olhar para os Estados Unidos para conhecer o racismo?!!! Seria necessário esse turismo intelectual para experimentá-lo ainda hoje?”
Eis aí nu, pelado, com a mão no bolso o drama brasileiro!
O jornalista autor desse comentário — ninguém me disse, eu mesmo sou testemunha — é das pessoas intelectualmente mais íntegras e cultivadas que conheci na profissão.
O que teria sido aquilo, então?
Não é possível viver no ambiente contaminado do debate intelectual brasileiro, do primeiro ano de escola ao último ano de vida, impunemente, é a resposta. Esse antiamericanismo resiliente, quase orgânico, subliminar, involuntário até, como suspeito que tenha sido o caso desta vez, é uma das manifestações da força que tem a lavagem cerebral por que passa todo brasileiro a cada minuto de sua trajetória por este vale de lágrimas. A própria Lígia Fonseca Pereira, cabe registrar, viveu os últimos anos de sua atividade acadêmica no exterior e foi a partir de lá, respirando ares mais livres dos carregados miasmas do Segundo Milênio que ainda predominam por aqui, que ela encontrou a paz necessária para fazer a sua pesquisa.
Luis Gama – foi o que ela passou o programa inteiro explicando – viu nos Estados Unidos aquilo para o que a imprensa brasileira insiste em fechar os olhos até hoje: a superioridade moral da utopia e, mais especialmente, o conjunto genial de meios para realizá-la desenhados pela elite do que de melhor a humanidade produziu no seu melhor momento — o Iluminismo — que foram as instituições pelas quais a metade boa dos norte-americanos lutou até a morte contra a metade ruim, ombro a ombro com os escravos desta – e cinco milhões de pessoas perderam a vida nessa luta fratricida! – coisa que a metade boa da população brasileira não consegue encontrar motivos suficientes para fazer exatamente porque tem-lhe sido sonegada — pela escola, pela imprensa, pela televisão — uma referência pela qual valha a pena lutar.
É exatamente isto que continua pendurado no ar nesta eleição.
É disso que estão à procura os 70% de eleitores que “querem mudanças profundas” mas não encontram quem as formule e proponha. Era exatamente isto que perambulava pelas ruas de todo o país às cegas em junho de 2013: a ausência de uma referência decente pela qual valha a pena lutar que, entretanto, está onde sempre esteve e todos os povos do mundo que “deram o salto” a encontraram, mas que a “inteligentsia” e a imprensa deste país isolado pela língua ainda se recusam a por onde nós estamos.
“Shale gas” e pré-sal: o mundo é pequeno para os dois
21 de março de 2013 § 48 Comentários
Duas tecnologias novas desenvolvidas recentemente nos Estados Unidos estão revertendo todos os prognósticos de rápida alteração no equilíbrio de forças econômico do planeta e podem afetar seriamente o sonho brasileiro de achar um corte de caminho para o clube dos grandes do mundo.
A primeira envolve injetar uma mistura de água, areia e produtos químicos em estruturas rochosas que contêm microporos cheios de gás e petróleo de modo a liberar os hidrocarbonetos aprisionados nelas. A segunda torna muito mais fácil chegar às mais finas camadas dessas rochas enterradas a baixas profundidades, além de permitir a perfuração de diversos poços a partir de um único ponto de partida.

Essas duas novas técnicas de extração do que por lá se chama de “shale gas” estão provocando uma verdadeira explosão nos números de produção de gás e petróleo dos Estados Unidos e barateando de tal forma os custos de diversas industrias intensivas em energia que todos os prognósticos sobre a “crise sistêmica” da economia americana, que estaria irremediavelmente condenada a ser engolida por economias emergentes, estão sendo refeitos.
Os entornos de Pittsburgh que, nos últimos anos, pareciam um cemitério de velhas siderúrgicas desativadas, assistem hoje a uma corrida frenética de capitais americanos, russos, franceses e até chineses para voltar a fabricar aço com a energia mais barata do mundo.
O Maciço Marcellus, uma formação geológica de rochas arenosas impregnadas de gás e óleo se estende por quase 1.000 quilômetros ao longo das montanhas Apalaches do estado de Nova York até o de West Virgínia. Somente no ano passado o governo da Pennsylvania emitiu 2.484 permissões para a perfuração desse novo tipo de poço de petróleo. Os poços da porção do Maciço Marcellus nesse estado produziram 895 bilhões de pés cúbicos de gás em 2012, partindo de 435 bilhões no ano anterior. Em 2008 essa produção era igual a zero.
Isso representou uma injeção de US$ 14 bilhões na economia da Pennsylvania no ano passado (dados da Economist).
Arkansas, Louisiana, Oklahoma e Texas viveram explosões semelhantes. A produção de gás e petróleo extraído dessas rochas quadruplicou nos Estados Unidos entre 2007 e 2010 e acrescentou 20% à produção nacional de petróleo nos últimos cinco anos. Técnicos da British Petroleum afirmam que a produção deve continuar crescendo à base de 5,3% ao ano até 2030 e que, já no fim deste ano os Estados Unidos ultrapassarão a Rússia e a Arábia Saudita e se tornarão o maior produtor de petróleo e gás do mundo.
O preço do gás nessa região caiu de US$ 13 o BTU em 2008 para US$ 1 a 2 no ano passado, o segundo preço mais baixo do mundo depois do Canadá. As fabricas americanas consumidoras de gás estão pagando 1/3 do que pagam as alemãs e ¼ do que pagam as coreanas.
Gás barato também se traduz em eletricidade barata. Em 2011 as fábricas americanas nessas regiões já estavam pagando metade do que custa a energia para suas concorrentes no Chile ou no México e ¼ do que se paga na Itália.
Não é só a indústria de metalurgia que se beneficia com isso. Além de todas as demais, as de uso intensivo de energia, como as de plásticos, fertilizantes e outras também se tornam imbatíveis. E, além disso, os Estados Unidos têm a maior rede do mundo de oleodutos e gasodutos, o que permite espalhar facilmente essa riqueza a preço baixo por todo o país.
A Costa do Golfo, onde existe outro maciço dessas rochas, também vive um forte renascimento industrial. Fabricas instaladas no Chile estão sendo desmontadas e transportadas inteiras para a Louisiana. A Bridgestone, a Continental e a Michelin, revertendo um longo processo de declínio, estão reativando e aumentando suas fábricas de pneus na Carolina do Sul. Tudo gira em torno do início da exploração de novas jazidas de rochas porosas como as da Bacia Permian, na Louisiana, a de Eagle Ford Shale, no Texas, a da Formação Baken em Dakota do Norte e a Mississipi Lime, que atravessa o subsolo de Oklahoma até o Kansas.
O efeito da redução das importações de petróleo no déficit comercial americano foi de US$ 72 bilhões no ano passado, ou 10% do déficit total. Esse “petróleo não convencional” gerou US$ 238 bilhões em atividades econômicas diretas, 1,7 milhão empregos e US$ 62 bilhões em impostos só no ano passado, sem contar os efeitos indiretos decorrentes da redução nos preços da eletricidade, do gás e dos produtos químicos.

Analistas do Citigroup e do UBS calculam que só essa indústria vai gerar um crescimento de 0,5% do PIB norte-americano por ano nos próximos anos além de ensejar um renascimento das industrias de manufaturas nos Estados Unidos. As decisões recém anunciadas da GE de trazer de volta da China e do México para o Kentucky a produção de sua linha branca, e da Lenovo, o gigante chinês de hardware que comprou a linha de computadores pessoais da IBM, de produzi-los na Carolina do Norte são apontados como os primeiros passos desse processo de reversão.
O efeito dessa inovação nos preços internacionais do petróleo ainda são pequenos. Mas os Estados Unidos, que foram os maiores importadores do mundo e rapidamente se tornarão autosuficientes, não são o único lugar do planeta onde existe esse tipo de formação rochosa que, lá, praticamente aflora do chão.
De modo que o Brasil, que já está gastando por conta de reservas de petróleo enterradas a seis ou sete quilômetros debaixo do fundo do oceano, cuja extração começa a se tornar economicamente palatável com o barril acima de US$ 100 no mercado internacional, deveria por as barbas de molho e pensar melhor antes de jogar dinheiro fora.
Pois, por tudo que já se sabe por enquanto, o mundo ainda é pequeno demais para o “shale gas” e o pré-sal ao mesmo tempo.
A liberdade que se cuide!
4 de agosto de 2011 § Deixe um comentário

Pânico de novo nas bolsas de valores do mundo.
Os jornais e os “analistas” de costume dizem que ele se refere à “redução das expectativas com relação à recuperação americana diante do acordo que prevê o corte de despesas como contrapartida à elevação do teto de endividamento do governo”.
Antes fosse só isso!
Desde o início do lamentável espetáculo que Washington manteve no ar em rede planetária por quase dois meses – e mesmo antes dele – já se sabia que, qualquer que fosse o acordo final, haveria um corte de alguns trilhões de dólares nas despesas embutido nele.
O que se está assistindo nas bolsas do mundo é um “fuja que o piloto sumiu”.

Se as agências de classificação de risco não rebaixaram a nota dos Estados Unidos porque não houve, tecnicamente, um calote, o que o mundo está dizendo agora é que ele, mundo, rebaixou, sim, a nota da capacidade das democracias de lidar com crises.
O próprio Obama antecipou essa conclusão quando, no meio daquele tiroteio, disse que os Estados Unidos estavam correndo o risco de ter seu crédito rebaixado “porque o sistema financeiro não tinha um sistema político AAA em que se apoiar”.
E de fato o que o duelo de Washington mostrou, com a inestimável contribuição do ator coadjuvante Europa, é que o sistema de pesos e contrapesos das democracias de fato impede a tomada de decisões com a necessária rapidez; que a tendência antes da conquista do segundo mandato presidencial é que os partidos se submetam aos seus respectivos radicais e se façam de surdos para o centro e para os moderados; que a ausência de poder de voto da juventude acaba fazendo com que a conta seja atirada sobre as costas dela porque o que interessa é saber quem fica com o poder político amanhã e não a solução das crises com vistas à construção de um futuro melhor.

E também, que tudo isso se tornou muito mais visível e pernicioso depois que as ditaduras aderiram ao capitalismo e passaram a tocar países inteiros como se fossem empresas com a mesma liberdade para distribuir custos e benefícios pela sociedade afora e “demitir (até da vida, se necessário) insatisfeitos” que nos países capitalistas democráticos só os grandes executivos têm no universo restrito das suas empresas.
O jogo se inverteu. De condição essencial para ambos as democracias surgem agora como o principal obstáculo para o desenvolvimento e a afluência material. E as ditaduras, o contrário: de caminho certo para o atraso e a pobreza, agora aparecem como o atalho mais rápido para o enriquecimento.
E como o órgão mais sensível do ser humano sempre foi o bolso, a liberdade que se cuide!













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