A charada do ensino público
10 de abril de 2013 § 4 Comentários
Escola é prédio.
Mas educacão não é prédio.
No entanto, prédio é a única coisa que o eleito para um mandato de quatro anos pode mudar na equação da educação pública.
No mundo real o que decide tudo é a qualidade do professor. E qualidade, todo mundo sabe, é função da competição.
Meça por você mesmo. Você compete no seu trabalho, aprende e se renova todos os dias porque não tem alternativa; porque se não competir, perde o emprego.
Mas como todo funcionário público, o professor empregado do Estado é indemissível. Uma vez posto um pé dentro do sistema, ele se torna para sempre “estável”.
Bem feito ou mal feito o trabalho, o salário vem no fim do mês. O funcionário público avança nas promoções em função do simples transcorrer do tempo.
O responsável eleito pela educação pública está, portanto, proibido de lidar com a qualidade do ensino. Seja o que for que acontecer ele, seus antecessores e seus sucessores só poderão alterar a quantidade dos professores e, mesmo assim, só para mais.
Por isso nunca há salário que chegue.
Caímos, então, na contradição insanável de esperar que pessoas que jamais sentiram o que é viver sob pressão por desempenho formem profissionais capazes de disputar o campeonato mundial do desempenho que é cada minuto da vida de cada profissional no mundo real hoje em dia.
Agora, para ter e manter o luxo de manter-se “estável” num mundo cada vez mais insanavelmente instável, só mesmo às custas dos outros, coisa que só se consegue pelos artifícios da política, e da política no sentido mais pejorativo do termo.
Isto é, especializando-se na arte de manter-se a salvo, venha o que vier, sem ter necessariamente de fazer força, e cavando privilégios junto a quem tem o poder de outorgá-los em troca de concentrar todo o seu esforço em manter o poder de seus protetores de continuar a protegê-los.
É essa a lógica da ação corporativa.
Ha, como em toda a parte, as exceções. E dentro do ambiente viciado do funcionalismo, elas são especialmente heróicas. Mas a maior parte acaba por se corromper e por se transformar num profissional da ação corporativa. E estes, tudo que sabem ensinar é a fazer política corporativa e a falsificar os fatos para justificar o injustificável.
Por isso seus alunos entram na vida semi analfabetos mas com a cabeça cheia de slogans contra os que competem e sonhando em pular, um dia, para dentro do barco dos indemissíveis.
Enquanto houver dois Brasis – um, como o mundo real, regido pela permanente pressão por desempenho, outro regido pelas blandícias do tempo de serviço e das aposentadorias precoces – não haverá lugar para nós fora das sombras do mundo, por mais prédios que os encarregados eleitos pela educação pública construam, ainda que sejam prédios de fazer inveja a clube de lazer de rico.
Nina x Carminha no país de Macunaíma
9 de agosto de 2012 § Deixe um comentário
Com que então 50% das vagas nas universidades federais passam a ser reservadas para negros, pardos e índios, e a metade destas para negros, pardos e índios pobres.
Era preciso que também no que tange à “ação afirmativa” tivéssemos a legislação “mais avançada do mundo” como todas as outras que garantem o caráter “incarregável” do Custo Brasil (cujo “nome de família” não é outro senão Ignorância).
O discurso é de que trata-se de garantir “igualdade de oportunidades” e “combater o racismo” que o brasileiro ladinamente esconde na hora de escolher seu cônjuge e fazer e criar seus filhos mestiços.
A prática é oficializar o apartheid social por cima do racial.
Não ha mais “racismo disfarçado“. Esses hipócritas! A discriminação, agora, passa a ser um componente obrigatório e decisivo da sua condição de cidadania.
Também não ha mais “oportunidade”. Tudo depende, doravante, da cor com que você nasce ou declara ter nascido (de modo a instigar também a desonestidade e a rendição ao dictat para aqueles de maior “senso prático”, além, é claro, de “deixar em aberto” o número dos eleitores interessados na medida).
O recado é, portanto, “desista de se esforçar“. O esforço é elitista e antidemocrático. Não ha mais como superar a sua condição genética ou de nascimento.
O saber que se dane. Ele não leva à nada senão a porta de saída deste país onde todo mundo já nasce o que é e, de agora em diante, será para sempre.
Não percamos tempo, portanto, com coisas custosas e aborrecidas como melhorar o ensino básico, trazer a escola pública ao menos ao nível das (em sua maioria também pífias) escolas privadas brasileiras. Vamos é baixar as universidades federais ao nível do que lhe chegar pela via “do sangue”…
O ódio que isso criará dentro dos campi no primeiro momento é mais que óbvio. Mas isso é questão de tempo pois com o rebaixamento da qualidade, as federais serão abandonadas por quem busca na escola mais que um atestado de raça. Logo se transformarão em homogêneos guetos dos quais fugirão todos quantos não quiserem ter essa marca negativa em seu currículo.
E o mercado de trabalho, como receberá tudo isso? Aceitará o diploma carimbado da cronomatocracia petista?
Ou passará a desconfiar preventivamente de todo e qualquer diplomado negro, pardo ou índio porque sabe que o diploma que ele carrega não significa nada que diga respeito a aprendizado, treinamento ou esforço, mas apenas e tão somente um certificado de pertencimento a uma raça?
“Obrigaremos, então, as empresas a empregar os egressos dessas escolas“, dirá o Robespierre de plantão.
E as chinas, que se danem também?
Não. Não tem nenhum cálculo de justiça social ou esperança de eficácia nessa história. Tá mais pra Nina x Carminha no país do Macunaíma mesmo…
PT não espera educação de suas próprias escolas
21 de março de 2012 § 2 Comentários
Aloísio Mercadante que, segundo suas próprias palavras, “está ministro da Educação”, deu entrevista ao Valor na semana passada publicada segunda-feira em uma página inteira do jornal, que resume bem o dilema brasileiro.
Por essa entrevista ficamos sabendo que o PT entende perfeitamente o potencial revolucionário das reformas iniciadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso na área da educação e é capaz de identificar com precisão o ponto nevrálgico dessa revolução que é a introdução da meritocracia no ensino público.
O ministro do PT saúda explicitamente “o grande programa do Bolsa Família com exigência de manter as crianças na escola“, obrigação que, recorde-se, Lula dispensou, e o caráter “estratégico do Enem” que, pela primeira vez, deu ao Estado uma ferramenta para lhe permitir “escolher os melhores para o Ciência Sem Fronteiras (bolsas para alunos brasileiros em universidades estrangeiras), para o ProUni e para as melhores universidades“.
“Com o Enem (que o PT sabotou até onde pode quando era oposição) a chance passou a ser igual, do filho do reitor ao filho da faxineira“, admitia o ministro “estante” ao Valor. “O Enem é necessário a um sistema republicano e democrático de meritocracia do estudante“.
O problema que subsiste, porém, é que Mercadante e o resto do PT não admitem a sujeição das suas clientelas, da qual o professorado é um segmento fundamental e dos mais organizados, a esse mesmo critério de mérito sem o qual, ele reconhece, “um sistema republicano e democrático” não se pode estabelecer e nem a qualidade da educação pública ser melhorada.
Para o professorado a receita do PT continua sendo a mesma que levou a educação brasileira para o buraco em que se encontra: reajustes automáticos de salário inteiramente desligados da exigência de desempenho.
Para os governadores que respondem aos decretos do PT sobre os salários com a queixa de que “ou aumentam os professores, ou cumprem a Lei de Responsabilidade Fiscal, as duas coisas ao mesmo tempo é impossível“, Mercadante tem a resposta perfeita. “Em alguns estados mais da metade da folha de pagamentos é de aposentados e pensionistas. Então o problema não é o piso dos professores mas a equação geral da remuneração e a relação dos aposentados e pensionistas. Ou seja, de reformas que não foram feitas“.
E, de fato, quem já cobra mais de 1/3 de tudo que o país produz em impostos pode alegar qualquer coisa menos falta de dinheiro para se desculpar pela qualidade pífia da educação pública que oferece em troca. O que falta não é dinheiro, é a definição de prioridades e a do PT tem sido comprar eleições de preferência a comprar uma educação de primeira, como se pode deduzir do fato eloquente do ministro que discursa sobre os benefícios “republicanos” da meritocracia continuar tratando o professorado como uma categoria a ser subornada por aumentos automáticos de salário sem nenhuma exigência de contrapartida em desempenho.
Enquanto continuar tendo os seus esforços para tratar o dinheiro da educação pública como sua propriedade particular recompensados por decisões como essa, o que o professorado brasileiro continuará entregando é o que entrega hoje: doutrinação e descaso nas salas de aula; arrogância e greves para os trabalhadores e pais de alunos que lhes pagam os salários.
E tanto o PT sabe que essa é a consequência inescapável de seguir permitindo a instrumentalização corporativa da educação pública que, no que tange a qualidade de ensino, a única política que ele consegue esboçar é a de exportar alunos para bem longe das escolas que ele próprio gerencia e matricula-los nas de países cujos governos exigem desempenho de seus funcionários e põem os professores a serviço da educação.












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