O exato momento do crime

27 de janeiro de 2015 § 14 Comentários

Não perca, a partir da marca dos 4’33”, a bronca nos “pessimistas ou mal intencionados” que “fizeram previsões sem nenhum fundamento quando o nível da água das represas baixou” em 2013, as apaixonadas declarações de amor a si mesma e as lições para o Brasil e para o mundo sobre “como governar na crise” que vão daí até o final do pronunciamento.

Quanto vale o “nosso” petróleo hoje?

11 de outubro de 2013 § 1 comentário

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Robert Bryce, autor especializado no tema com vários livros publicados, escreveu um artigo para a Bloomberg hoje lembrando que 40 nos atrás, neste mesmo mês, a OPEP decretou o embargo do fornecimento de petróleo aos EUA em represália por seu apoio a Israel na Guerra do Yon Kipur, provocando uma crise inflacionária que afetou o mundo inteiro.

O que ele mostra, como já se informou aqui no Vespeiro, não são boas notícias para o Brasil. Desde então os EUA se tornaram grandes exportadores de petróleo e estão passando por uma revolução energética desencadeada pelas novas tecnologias de extração de gás e petróleo de xisto (shale gas) que vai afetar a economia do mundo inteiro.

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O lobby do etanol, um produto do programa nacional norte-americano de subsídio à agricultura, especialmente a do milho, continua atuando e forçando a adição desse combustível à gasolina embora isso nunca tenha sido econômico e nem mais, até onde se possa enxergar no futuro, estrategicamente necessário.

Em 1973 o petróleo respondia por 48% da energia consumida no mundo. No ano passado essa porcentagem estava em 33%. Carvão, gás e energia nuclear são os principais substitutos responsáveis por essa redução proporcional.

Nestes 40 anos a produção mundial de petróleo aumentou em 34 milhões de barris/dia ou 61%. No mesmo período o uso de carvão aumentou 140% (energia equivalente a 44 milhões de barris de petróleo/dia), o gás natural 184% (= 39 milhões de barris/dia) e a energia nuclear cresceu 1.100% (= 11 milhões de barris/dia, menos de 5% do consumo mundial de energia).

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Ha 40 anos 17% da energia gerada nos EUA era de petróleo, proporção que hoje caiu para meros 1%. Nesse período os EUA aumentaram sua população em 50% (de 212 para 316 milhões de pessoas) e quase triplicaram seu PIB (de 5 para 14 trilhões de dólares) enquanto o consumo de petróleo aumentou somente 7%.

Por trás desses números, além dos ganhos de eficiência, está também a revolução do shale gas. Em 2012 o país produziu 66 bilhões de pés cúbicos de gás por dia, o maior volume em toda a sua história. O preço despencou para 3,64 dólares por milhão de BTUs, o mais barato do mundo com exceção do preço praticado no Qatar. Isso está provocando um renascimento de indústrias que tinham migrado para os paraísos socialistas (aqueles onde o trabalho não vale nada) que vai da do aço à de fertilizantes.

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A produção de petróleo também aumentou, só no ano passado, 800 mil barris/dia. Em julho de 2013 o país exportou 3,9 milhões de barris de produtos refinados de petróleo por dia. Em 1973 esse número correspondia a 211 mil barris/dia.

Os países da Opep somados contam 429 milhões de habitantes, 115 milhões a mais que os EUA e seu PIB somado é de 3,3 trilhões de dólares, ¼ do dos EUA (14 tri), com uma renda per capita de 7.800 dólares, o que corresponde a 62% da média mundial e a 1/6 da renda média americana, que está em 50.000 dólares por cabeça.

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Os EUA ainda importam petróleo e carvão mas apenas pelo bom negócio de beneficiá-los e reexportá-los. Eles se transformaram, para resumir, na grande potência energética do mundo de hoje, um freguês a menos, portanto – e muito grande – tanto para a indústria brasileira do álcool quanto para o petróleo do pré-sal se e quando ele sair lá das profundezas por um preço competitivo.

O que prova, mais uma vez, que o que faz a diferença é educação e capacidade de inovação tecnológica, duas coisas que são fruto, exclusivamente, da qualidade do sistema institucional e político que cada país adota.

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“Shale gas” e pré-sal: o mundo é pequeno para os dois

21 de março de 2013 § 48 Comentários

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Duas tecnologias novas desenvolvidas recentemente nos Estados Unidos estão revertendo todos os prognósticos de rápida alteração no equilíbrio de forças econômico do planeta e podem afetar seriamente o sonho brasileiro de achar um corte de caminho para o clube dos grandes do mundo.

A primeira envolve injetar uma mistura de água, areia e produtos químicos em estruturas rochosas que contêm microporos cheios de gás e petróleo de modo a liberar os hidrocarbonetos aprisionados nelas. A segunda torna muito mais fácil chegar às mais finas camadas dessas rochas enterradas a baixas profundidades, além de permitir a perfuração de diversos poços a partir de um único ponto de partida.

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Essas duas novas técnicas de extração do que por lá se chama de “shale gas” estão provocando uma verdadeira explosão nos números de produção de gás e petróleo dos Estados Unidos e barateando de tal forma os custos de diversas industrias intensivas em energia que todos os prognósticos sobre a “crise sistêmica” da economia americana, que estaria irremediavelmente condenada a ser engolida por economias emergentes, estão sendo refeitos.

Os entornos de Pittsburgh que, nos últimos anos, pareciam um cemitério de velhas siderúrgicas desativadas, assistem hoje a uma corrida frenética de capitais americanos, russos, franceses e até chineses para voltar a fabricar aço com a energia mais barata do mundo.

O Maciço Marcellus, uma formação geológica de rochas arenosas impregnadas de gás e óleo se estende por quase 1.000 quilômetros ao longo das montanhas Apalaches do estado de Nova York até o de West Virgínia. Somente no ano passado o governo da Pennsylvania emitiu 2.484 permissões para a perfuração desse novo tipo de poço de petróleo. Os poços da porção do Maciço Marcellus nesse estado produziram 895 bilhões de pés cúbicos de gás em 2012, partindo de 435 bilhões no ano anterior. Em 2008 essa produção era igual a zero.

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Isso representou uma injeção de US$ 14 bilhões na economia da Pennsylvania no ano passado (dados da Economist).

Arkansas, Louisiana, Oklahoma e Texas viveram explosões semelhantes. A produção de gás e petróleo extraído dessas rochas quadruplicou nos Estados Unidos entre 2007 e 2010 e acrescentou 20% à produção nacional de petróleo nos últimos cinco anos. Técnicos da British Petroleum afirmam que a produção deve continuar crescendo à base de 5,3% ao ano até 2030 e que, já no fim deste ano os Estados Unidos ultrapassarão a Rússia e a Arábia Saudita e se tornarão o maior produtor de petróleo e gás do mundo.

O preço do gás nessa região caiu de US$ 13 o BTU em 2008 para US$ 1 a 2 no ano passado, o segundo preço mais baixo do mundo depois do Canadá. As fabricas americanas consumidoras de gás estão pagando 1/3 do que pagam as alemãs e ¼ do que pagam as coreanas.

Gás barato também se traduz em eletricidade barata. Em 2011 as fábricas americanas nessas regiões já estavam pagando metade do que custa a energia para suas concorrentes no Chile ou no México e ¼ do que se paga na Itália.

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Não é só a indústria de metalurgia que se beneficia com isso. Além de todas as demais, as de uso intensivo de energia, como as de plásticos, fertilizantes e outras também se tornam imbatíveis. E, além disso, os Estados Unidos têm a maior rede do mundo de oleodutos e gasodutos, o que permite espalhar facilmente essa riqueza a preço baixo por todo o país.

A Costa do Golfo, onde existe outro maciço dessas rochas, também vive um forte renascimento industrial. Fabricas instaladas no Chile estão sendo desmontadas e transportadas inteiras para a Louisiana. A Bridgestone, a Continental e a Michelin, revertendo um longo processo de declínio, estão reativando e aumentando suas fábricas de pneus na Carolina do Sul. Tudo gira em torno do início da exploração de novas jazidas de rochas porosas como as da Bacia Permian, na Louisiana, a de Eagle Ford Shale, no Texas, a da Formação Baken em Dakota do Norte e a Mississipi Lime, que atravessa o subsolo de Oklahoma até o Kansas.

O efeito da redução das importações de petróleo no déficit comercial americano foi de US$ 72 bilhões no ano passado, ou 10% do déficit total. Esse “petróleo não convencional” gerou US$ 238 bilhões em atividades econômicas diretas, 1,7 milhão empregos e US$ 62 bilhões em impostos só no ano passado, sem contar os efeitos indiretos decorrentes da redução nos preços da eletricidade, do gás e dos produtos químicos.

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Analistas do Citigroup e do UBS calculam que só essa indústria vai gerar um crescimento de 0,5% do PIB norte-americano por ano nos próximos anos além de ensejar um renascimento das industrias de manufaturas nos Estados Unidos. As decisões recém anunciadas da GE de trazer de volta da China e do México para o Kentucky a produção de sua linha branca, e da Lenovo, o gigante chinês de hardware que comprou a linha de computadores pessoais da IBM, de produzi-los na Carolina do Norte são apontados como os primeiros passos desse processo de reversão.

O efeito dessa inovação nos preços internacionais do petróleo ainda são pequenos. Mas os Estados Unidos, que foram os maiores importadores do mundo e rapidamente se tornarão autosuficientes, não são o único lugar do planeta onde existe esse tipo de formação rochosa que, lá, praticamente aflora do chão.

De modo que o Brasil, que já está gastando por conta de reservas de petróleo enterradas a seis ou sete quilômetros debaixo do fundo do oceano, cuja extração começa a se tornar economicamente palatável com o barril acima de US$ 100 no mercado internacional, deveria por as barbas de molho e pensar melhor antes de jogar dinheiro fora.

Pois, por tudo que já se sabe por enquanto, o mundo ainda é pequeno demais para o “shale gas” e o pré-sal ao mesmo tempo.

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