PT não espera educação de suas próprias escolas

21 de março de 2012 § 2 Comentários

Aloísio Mercadante que, segundo suas próprias palavras, “está ministro da Educação”, deu entrevista ao Valor na semana passada publicada segunda-feira em uma página inteira do jornal, que resume bem o dilema brasileiro.

Por essa entrevista ficamos sabendo que o PT entende perfeitamente o potencial revolucionário das reformas iniciadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso na área da educação e é capaz de identificar com precisão o ponto nevrálgico dessa revolução que é a introdução da meritocracia no ensino público.

O ministro do PT saúda explicitamente “o grande programa do Bolsa Família com exigência de manter as crianças na escola“, obrigação que, recorde-se, Lula dispensou, e o caráter “estratégico do Enem” que, pela primeira vez, deu ao Estado uma ferramenta para lhe permitir “escolher os melhores para o Ciência Sem Fronteiras (bolsas para alunos brasileiros em universidades estrangeiras), para o ProUni e para as melhores universidades“.

Com o Enem (que o PT sabotou até onde pode quando era oposição) a chance passou a ser igual, do filho do reitor ao filho da faxineira“, admitia o ministro “estante” ao Valor. “O Enem é necessário a um sistema republicano e democrático de meritocracia do estudante“.

O problema que subsiste, porém, é que Mercadante e o resto do PT não admitem a sujeição das suas clientelas, da qual o professorado é um segmento fundamental e dos mais organizados, a esse mesmo critério de mérito sem o qual, ele reconhece, “um sistema republicano e democrático” não se pode estabelecer e nem a qualidade da educação pública ser melhorada.

Para o professorado a receita do PT continua sendo a mesma que levou a educação brasileira para o buraco em que se encontra: reajustes automáticos de salário inteiramente desligados da exigência de desempenho.

Para os governadores que respondem aos decretos do PT sobre os salários com a queixa de que “ou aumentam os professores, ou cumprem a Lei de Responsabilidade Fiscal, as duas coisas ao mesmo tempo é impossível“, Mercadante tem a resposta perfeita. “Em alguns estados mais da metade da folha de pagamentos é de aposentados e pensionistas. Então o problema não é o piso dos professores mas a equação geral da remuneração e a relação dos aposentados e pensionistas. Ou seja, de reformas que não foram feitas“.

E, de fato, quem já cobra mais de 1/3 de tudo que o país produz em impostos pode alegar qualquer coisa menos falta de dinheiro para se desculpar pela qualidade pífia da educação pública que oferece em troca. O que falta não é dinheiro, é a definição de prioridades e a do PT tem sido comprar eleições de preferência a comprar uma educação de primeira, como se pode deduzir do fato eloquente do ministro que discursa sobre os benefícios “republicanos” da meritocracia continuar tratando o professorado como uma categoria a ser subornada por aumentos automáticos de salário sem nenhuma exigência de contrapartida em desempenho.

Enquanto continuar tendo os seus esforços para tratar o dinheiro da educação pública como sua propriedade particular recompensados por decisões como essa, o que o professorado brasileiro continuará entregando é o que entrega hoje: doutrinação e descaso nas salas de aula; arrogância e greves para os trabalhadores e pais de alunos que lhes pagam os salários.

E tanto o PT sabe que essa é a consequência inescapável de seguir permitindo a instrumentalização corporativa da educação pública que, no que tange a qualidade de ensino, a única política que ele consegue esboçar é a de exportar alunos para bem longe das escolas que ele próprio gerencia e matricula-los nas de países cujos governos exigem desempenho de seus funcionários e põem os professores a serviço da educação.

Quanto mais funcionários, menos serviços

21 de setembro de 2011 § 2 Comentários

A musica muda todo dia.

Depois de suspender os concursos públicos este ano “para cortar R$ 50 bilhões”, o governo Dilma anunciou que pretende retomar as contratações em 2012.

O numero a que se chegou por enquanto é de 54.724 novos funcionários (adoro esses quebradinhos!). Seriam R$ 3,2 bi a mais por ano na folha de pagamentos.

Pelo menos ela promete que a maioria das contratações será para a área da educação, onde pretende criar 38 novos campi das universidades federais e aumentar o numero de escolas técnicas profissionalizantes de 354 para 555 (201 a mais).

Outras 18.905 contratações serão “para preencher cargos vagos” em diversas áreas, entre elas as Forças Armadas.

Tramitam no Congresso hoje 46 projetos de lei que criam novos cargos no funcionalismo. O Executivo é autor de 21; seis de Dilma e o resto ainda de Lula. Se fossem todos aprovados, implicariam em 111.784 novas contratações. O Judiciário pede 3.699, a Policia Federal 725, as áreas sociais 1.036, o setor de comércio exterior 330. Essa merreca é a parte que faz algum sentido.

Todo o resto – 107.437 – são mesmo “para o Executivo”, assim, vagamente. Ou seja, para premiar a companheirada.

Nos seus dois mandatos, Lula inchou o funcionalismo com mais 155 mil cargos. E se ha uma coisa que ficou provada com isso é que quanto mais gente põe para dentro, menos o Estado faz.

Agora Dilma promete quase dobrar a parada.

Num país de analfabetos como o nosso, todo mundo embarga a voz para reclamar de mais contratações na educação. Mas a verdade que clama aos céus, como diria Nelson Rodrigues, é que o problema da educação brasileira não está na falta de professores e outros servidores da área, como já se demonstrou inúmeras vezes pela comparação internacional de numero de professores e valores gastos por aluno em classe, mas sim na total ausência de exigência de desempenho sobre os que já estão contratados.

A instituição de um exame nacional (Enem) para medir o que esses professores entregam já foi um doloroso parto do governo FHC e do seu falecido ministro Paulo Renato de Souza, que o PT nunca se cansou de apedrejar.

Uma vez “lá”, é verdade, teve a decência de manter o Enem, apesar da violência com que o sindicato dos professores o repele nos seus cercos anuais ao Palácio dos Bandeirantes, a maior representação do PSDB que sobrou em pé.

Mas quanto ao descalabro que ele anualmente mede – e que é maior a cada nova edição da prova – não se faz nada.

Estamos, neste campo, como estamos para a corrupção, ou ainda pior. Pois, depois de Dilma, o ladrão flagrado ao menos volta para o Congresso Nacional enquanto nem as escolas privadas flagradas vendendo gato por lebre, nem muito menos os professores das escolas públicas que só tratam de “la revolución” enquanto produzem analfabetos em série são tocados nem cheirados pelas autoridades.

Continuam onde estão, empenhados na sua obra deletéria que rouba o futuro de uma nova multidão de brasileiros a cada ano.

Ha até, nas mais altas instâncias da educação publica brasileira, quem teorize sobre o valor social do culto ao erro e à “babelização” de um país onde a esmagadora maior parte dos “letrados” é incapaz de entender o que “lê”, dando-se ares de seriedade.

Mas Dilma está tão consciente do tamanho desse crime que, para apaziguar sua consciência está montando um programa maciço de bolsas de estudo para mandar brasileiros estudar no exílio, nos países onde aprender ainda é coisa que se mede e ensinar é trabalho que se verifica e cobra, porque sabe que cobrar desempenho de funcionário publico neste país é sonho para noites de verão.

Porque contratar mais gente, então?

Faria muito melhor a presidente se, em vez disso, iniciasse também na área da educação um trabalho de re-sensibilização da sociedade como o que está fazendo na área da moral e dos bons costumes no trato da coisa publica, fuzilando, ainda que apenas alegoricamente, aqueles que são flagrados entregando gato por lebre, apenas para lembrar aos brasileiros o que é que eles têm direito de aspirar.

Dando por dito o não dito

12 de setembro de 2011 § Deixe um comentário

Retomo, com as de hoje, minhas anotações da leitura dos jornais da semana passada. Estão todas relacionadas umas às outras.

De meados da semana, no Valor, matéria detalhada mostrando como os Estados do Sudeste (mas não só eles) aumentaram os seus superavits fiscais … cortando investimentos.

As arrecadações subiram. Umas 5% outras mais de 7%. As despesas correntes aumentaram em porcentagens variadas, mas sempre acima de 15%. E os investimentos foram cortados sempre em mais de 50% em relação ao ano anterior. Ha casos em que a redução chega a mais de 70%!

E qual a explicação?

Bem, este é o primeiro ano do mandato dos novos governadores. No ultimo do dos seus antecessores (e muitos foram reeleitos) os gastos explodiram. É assim que funciona: no ano em que eles precisam investir em si mesmos, na própria reeleição ou na eleição dos “seus” candidatos, o povo dá um passinho à frente; nos outros três, dá marcha à ré.

A média do que os governos estaduais do Brasil investem em relação ao que arrecadam fica entre 1% e 2% do total.

Na União as proporções não são muito diferentes.

É assim que se consegue deixar pobre um país rico como o Brasil: 40% do PIB em impostos e só 1% ou 2% disso investidos em educação, saúde, segurança , infraestrutura…

O resto é do ladrão.

Tem crise no horizonte? A saúde publica está um caos? Vamos criar mais um impostozinho porque pedir mais 1% do que entregamos a Brasília aos senhores juízes e deputados, nem pensar!

Você já está vendo a descida da ladeira mas eles ainda estão longe de onde querem chegar. Quebrando tetos salariais a força de golpes judiciais.

 

E uma reformazinha dos códigos de processo para tornar um pouco menos obscena a pletora de recursos que torna todo processo infindável? Esses “recursos” que garantem que menos de 1% dos criminosos que chegam aos tribunais de fato paguem alguma pena?

De jeito nenhum! Advogados, unidos, jamais serão vencidos! Se processo tiver prazo para acabar de que é que eles vão viver?

Não é atoa que, com o gás injetado em nossa economia pela China, este país se parece cada vez mais com um corpo “bombado” e cheio de músculos, mas com um sistema circulatório e portas de saída atrofiados.

Somos um Frankenstein mal costurado. A produção é do Brasil real; a infraestrutura, do país oficial.  Empresas de bilhões, com tecnologia de ponta, mas com insumos e produtos viajando de carroça.

Cadê as estradas? Os portos? Os aeroportos? A saúde? A educação? A segurança que nós pagamos tão caro?

Roubaram!

Mas fala baixo porque se atirar isso na cara dos ladrões eles travam o governo, arrebentam os orçamentos públicos, derrubam o presidente, param o país…

Estamos todos, como os cariocas dos morros, nos esgueirando entre bandidos travestidos de policiais e policiais travestidos de bandidos: pagamos e não chiamos que senão a conta ainda aumenta ou nos acontece coisa pior. Somos os que vivemos no fogo cruzado; os que viramos as costas às câmeras das TVs: “Não senhor; nada a declarar. Borrem a imagem do meu rosto, pelo amor de deus…

Hoje tem mais nos jornais.

O fosso entre a educação publica e a privada está maior do que nunca. Não ha um Estado em que as escolas do governo tenham classificado mais que 7% de sua rede na nota mínima admissível. Cada exame do Enem é  mais uma razão para você desistir de remar contra a maré, esquecer as ilusões do esforço e do mérito e pensar em entrar para o crime, como todo o mundo.

O apartheid social é a maior industria deste país. Semeia-se analfabetismo para colher votos baratos.

E, no entanto, quem lê os jornais precisa ter imaginação pra se indignar. Eles conseguem tornar tudo isso doentiamente confortável. Foi preciso um “programa cômico” que assume o deboche como linguagem – o CQC – para que o povo tivesse uma chance de saber que tipo de antro de fato é o Congresso Nacional e que grau de mixórdia pauta os pensamentos, palavras e obras dos atores disso que a imprensa corporate  recobre de verniz e insiste em descrever como a “normalidade política”.

Indignação não é de bom tom. Na grande imprensa e na TV todas essas histórias são vazadas em termos muito comportados e “profissionais”. A “normalidade” é dada pelos bandidos que, afinal, são a maioria.

Desde as escolas; desde a mais tenra infância treina-se o brasileiro para aceitar o inaceitável, a tomar o dito por não dito. O Jornal Nacional é “isento” e “profissional” na sua cotidiana exibição da sessão roubalheira seguida da sessão morte no chão do hospital, sem nunca estabelecer a relação de causa e efeito entre as duas.

A novela que entra em seguida, ou aqueles professores das escolas abaixo de 7% que vivem cercando o Palácio dos Bandeirantes é que, granmscianamente, traduzem o que ele mostra e dizem ao Brasil o que é certo e o que é errado; quem é o bandido e quem é o mocinho…

Onde estou?

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